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quinta-feira, 7 de julho de 2016

1324 - (Do espanto de viver) - Lisboa

Lisboa

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes…»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-me os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?
© EUGéNIO DE ANDRADE
Coração do Dia, 1958

terça-feira, 8 de setembro de 2015

17 . (Da cidade) Um homem na cidade.


Um homem na cidade
Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.

Ary dos Santos

sábado, 8 de novembro de 2014

379 - E também uma cor e uma linha...

 










Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve, um vento súbito e claro
nos cabelos, algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta nos lábios e nos dedos,
descendo degraus e degraus
e degraus até ao rio.


( in "Coração do Dia", Eugénio de Andrade, 1958 )

quinta-feira, 10 de maio de 2012

1495 - ufff...

Estes primeiros dias de maio têm sido de loucos: é a tese que há mesmo que terminar, há o curso europeu que estou a organizar aqui em Portugal ... Juntou-se tudo...

Por vezes, nem sei como não fica nada para trás!

Tem dias que acho que o estado me devia pagar a peso de ouro! Os professores estrangeiros ficam muito bem impressionados com as nossas escolas e o nosso país! Ufff... ainda bem que assim é, porque é verdade! a gente até trabalha muito bem! Há é certas formas de fazer política às quais dá jeito arranjar bodes expiatórios e, nesses casos, são os professores e a função pública que levam com as culpas.

Gostei de os ter levado a uma casa de fados

Hoje, uma visita de fim de dia a Lisboa com eles... Gostei de me imaginar um deles e segui no eléctrico 28. Nunca me cansam as cores de Lisboa
Mais tarde, já sozinho, entro na Bertrand e deparo-me com isto: (fez todo o sentido hoje, ah, pois é, tanta coisa para fazer! a tese, tudo o resto! ah se a minha orientadora soubesse!!!)


    Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

    Álvaro de Campos

quinta-feira, 16 de junho de 2011

1365- pensamentos ao correr da pena
















1 - Da janela do comboio já não se vêem Jacarandás no Palácio das Necessidades. Foi uma explosão de cor que durou 2 ou 3 semanas. Agora voltou o verde mas as cores de Lisboa são agora o fogo do Verão que se aproxima (amarelos, vermelhos, dourados...)
Que pena não ter trazido a máquina. Era giro ir comparando as tonalidades...

2 - Um destes dias (acho que foi segunda) estava tão embrenhado na leitura que iá ficando fechado no metro. Não é que não ouvi: estação terminal. Pede-se aos Srs passageiros...?
Lá bati à porta e lá me a abriram.... quem me manda ler o Primo Levi...
3 - Ontem dei a última aula deste ano lectivo. Ficou um não sei quê... Os miúdos foram quase unânimes nos textos que fizeram que me acharam "fixe"... Eu é que os vejo partir com a noção do que poderia ter sido e de que não houve tempo para nada e tanto que tinha para conversar ainda com eles. Deitei a rede ao mar, semeei, Eles serão os novos pescadores e colherão os frutos. Que sejam felizes! bem o merecem tais as carências que alguns tinham... tudo servia para chamar a atenção, havia até um que parecia que tinha pregos nas cadeiras e estava sempre de pé. Precisava de ser "visto". Um afago e lá sossegava ele. Que vidas!
Muitos deles têm muitas potencialidades. A ver o que a vida faz deles e o que eles fazem da vida!
"havia de haver uma festa... o que eu espero da vida é viver"

4 - E sempre esta noção de insatisfação. Será a forma como eu vejo as coisas tão diferente da forma como eles a vêem ou me vêem?Serei louco? estarei louco? podem-me os sentidos trair tanto? será imaginação?
"Era uma vez um homem chamado Job, que vivia no país de Hus. Era um homem íntegro e recto, que temia a Deus e evitava o mal. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía também sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas mulas e grande número de empregados. Job era o mais rico dos homens do Oriente.
Os filhos de Job costumavam fazer banquetes, um dia na casa de cada um, e convidavam as três irmãs para comer e beber com eles. Quando terminavam esses dias de festa, Job mandava-os chamar, para os purificar. Ele madrugava e oferecia um holocausto por cada um deles, pensando: «Talvez os meus filhos tenham pecado, ofendendo a Deus no seu coração». E Job fazia assim todas as vezes.
Certo dia, os anjos apresentaram-se diante de Deus e, entre eles, foi também Satanás. Então Deus perguntou a Satanás: «De onde vens?» Satanás respondeu: «Fui dar uma volta pela Terra». Deus disse-lhe: «Reparaste no meu servo Job? Na Terra não existe nenhum outro como ele: é um homem íntegro e recto, que teme a Deus e evita o mal».Satanás respondeu a Deus: «E é a troco de nada que Job teme a Deus? Tu mesmo puseste um muro de protecção ao redor dele, da sua casa e de todos os seus bens. Abençoaste os seus trabalhos, e os seus rebanhos cobrem toda a região. Estende, porém, a mão e mexe no que ele possui. Garanto-Te que ele Te amaldiçoará na face!»
Então Deus disse a Satanás: «Pois bem! Faz o que quiseres ao que ele possui, mas não estendas a mão contra ele». E Satanás saiu da presença de Deus.
Certo dia, os filhos e filhas de Job comiam e bebiam na casa do irmão mais velho..."

(felizmente que a leitura que agora trago comigo apresenta um personagem que pensa da mesma forma...) 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

1351 - Jacarandás de Lisboa

Por estes dias Lisboa é linda e veste-se de azul/violeta bem como a "minha" vista a partir da "ponte"















AOS JACARANDÁS DE LISBOA

São eles que anunciam o verão.
Não sei doutra glória, doutro
paraíso: à sua entrada os jacarandás
estão em flor, um de cada lado.
E um sorriso, tranquila morada,
à minha espera.
O espaço a toda a roda
multiplica os seus espelhos, abre
varandas para o mar.
É como nos sonhos mais pueris:
posso voar quase rente
às nuvens altas – irmão dos pássaros –,
perder-me no ar.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

1290 - Dia(s) de sol II
































Cena 1 - Como em cerca de três semanas as cores da minha Lisboa mudaram tanto. Um dia concretizarei o sonho de ser pintor de palavras/momentos/cores. No fim de contas, escritor e pintor são duas formas de expressão similares. Cada um retrata o vivido da sua forma.

Cena 2 - (Ao acordar) - A laranjeira tem flores!!! finalmente!!! já tive quase para a arrancar pois, ao fim de três anos em que nada acontecia mantendo-se a árvore quase do mesmo tamanho minorca, já me estava a fartar...
Bendito borda d'agua que me mandou "botar" calda bordalesa para além do adubo que lhe fui dando ao longo de todo o ano passado a acrescer alguns tratamentos contra algumas pragas...

Cena 3 - À saída para o almoço deparei com alunos de uma escola, a desenhar fachadas à vista! só não os fotografei por vergonha! Cada um deles dava o seu melhor: Olhavam, interiorizavam, expressavam-se... a maior parte deles concentrados na tarefa.

Cena 4 - Passava na rádio e não pude deixar de cantarolar

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

1271 - Pátria minha


































Tal como escrevi há dias atrás, à hora em que passo na ponte o sol já bate nas fachadas pois anoitece cada vez mais tarde.
É fantástico como em poucos dias as cores mudam tanto...
Estas são fotos de hoje

Ver Lisboa desta perspectiva faz-me sempre lembrar regressos de qualquer lugar ou de alguma coisa, saudades e gosto do reencontro

(que fazer? sou assim)

De pensamento em pensamento chego a uma das músicas que constariam da minha playlist- "Uma flor de verde pino"

A noção de Pátria e de amor por ela
uma vaga sensação nostálgica (talvez dada pelo amor que se tornou impossível)
Um rio sem leito e uma taça sem vinho
Um país adiado mas muito amado
Um amor louco e insaciável por uma Lisboa que todos os dias muda e em que todos os dias se descobrem novas facetas tal como numa paixão avassaladora

Amor, saudade, pátria, desejo, impossíbilidade. Deve ser por isso que me apaixonei por esta música desde o primeiro dia (e logo eu que na altura em que foi cantada pela primeira vez era adolescente e o que se ouvia eram ainda os Beatles, os Queen e Rolling Stones...)




Eu podia chamar-te pátria minha
dar-te o mais lindo nome português
podia dar-te um nome de rainha
que este amor é de Pedro por Inês.

Mas não há forma não há verso não há leito
para este fogo amor para este rio.
Como dizer um coração fora do peito?
Meu amor transbordou. E eu sem navio.

Gostar de ti é um poema que não digo
que não há taça amor para este vinho
não há guitarra nem cantar de amigo
não há flor não há flor de verde pinho.

Não há barco nem trigo não há trevo
não há palavras para dizer esta canção.
Gostar de ti é um poema que não escrevo.
Que há um rio sem leito. E eu sem coração.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

1268 - Imagens\impressões

Já o escrevi várias vezes, mas tenho mesmo que repetir uma e outra vez! Adoro as cores de Lisboa e os reflexos da luz do sol nas fachadas.

Por estes dias, a duração dos momentos de sol é cada vez maior e numa semana, no mesmo local e à mesma hora, conseguem-se obter cores absolutamente fantásticas pois o sol está cada vez mais alto. o que é giro é que a luz de hoje já é completamente diferente da que era há uma semana atrás

Daqui a uns dias, do comboio, já se conseguem ver amarelos, vermelhos e cor de laranja nas janelas das casas e sobretudo no palácio das necessidades ao sol posto . ..

As cores de hoje estavam fantásticas. O céu parecia uma pintura e o rio tinha um prateado soberbo!



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

1264 - impressões/emoções



















Gosto das cores da minha Lisboa ao pôr do sol
Não gosto das tardes cinzentas que não me permitem ver o sol nestas fachadas e vidros

Gosto de viajar, de ler
Não gosto de viajar em stress ou com todos a darem "bitaites"

Gosto do silêncio, da solidão, sem me sentir só,
Não gosto de conviver com gente de quem não gosto ou de que "cortei"

Gosto da cor, da água, do mar, de ouvir música, de sair, de não parar, de parar, de descansar.
Não gosto de não parar, de parar, de descansar

Gosto de pintar com a mente e captar o momento
Não gosto de falta de imaginação e do igual

Gosto da complexidade da vida, das suas contradições e dos seus lados opostos.
Não gosto da complexidade da vida e das suas contradições

Gosto de ganhar e de perder
Não gosto de perder quando estou certo

Gosto de uma política justa, mesmo que me prejudique
Não gosto de demagogia nem de demagogos (que cada vez os há mais)

Gosto de partilhar com quem gosto
Não gosto de sorrir para quem não me merece

Gosto de gente honesta
Não gosto que me façam passar por parvo

Gosto de partir para outra e de desligar quando estou mesmo desiludido
Não gosto de acordar de manhã e ver que nada mudou

Gosto de conduzir sem objectivo e ouvindo música
Não gosto do previsto e acomodado

Gosto de me perder a olhar
Não gosto do feio e desleixado


Adoro a luz e cores de Lisboa

Adoro Lisboa




Madredeus

Composição: Pedro Ayres Magalhães E Fernando Júdice

Lisboa tem histórias de reis,
De mares e de selvas
Lisboa tem histórias de hotéis,
De espiões e de guerras
Lisboa tem lendas de heróis,
Princesas, donzelas
Lisboa tem lendas do cais,
Do fado e navalhas;

Lisboa tem a tradição,
Dos bairros antigos
Vinho e sardinhas no verão
à beira do rio
Lisboa tem os rés-do-chão
E as altas mansardas
E há que descer e subir
Por estreitas escadas

Adoro Lisboa,
Eu quero-lhe bem,
Gosto de ver as gaivotas nos céus de Belém.

Adoro Lisboa,
E as histórias que tem
E sei que há muita gente
Que adora também

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

944 - De volta a Lisboa

Após dois meses de trabalho intenssíssimo as coisas voltam lentamente às rotinas. Continua um ritmo louco mas, pelo menos, já há paciência e lucidez para conceber um pause, ainda que pequena.

Retomei os passeios de sexta à tarde.

A tarde começou com a saída na estação do metro do terreiro do paço e com uma bica no Martinho da Arcada


Depois foi começar a subir a Mouraria. A próxima paragem foi na Sé e com o espanto da descoberta dos claustros da Sé. Simplesmente fabuloso! aquelas escavações que pôem a descoberto a Lisboa medieval, A Lisboa árabe, a Lisboa romana é, simplemente, impressionante. A quantidade de civilizações e gentes de aqui veveram antes de mim. Quantos sonhos e vidas por aqui passaram.



Depois, pela primeira, vez uma visita ao teatro romano! Conceber como teria sido a Lisboa de outras era é uma tarefa intressantíssima. Que surpresas nos reservará ainda a Lisboa subterrânea?


A paragem seguinte foi à porta da casa onde viveu Ary dos Santos. Daqui se entende todo o seu amor por Lisboa e a poesia que escreveu sobre ela. Como poderia ser outra coisa com a poesia a entrar pela janela dentro?



Por fim a chegada ao castelo e a maravilha das vistas e dos telhados vermelhos.



Dei de caras com o Ricardo Reis a abrir a janela de sua casa no Miradouro de Santa Catarina: " Ricardo Reis aproximou-se duma janela, através da vidraça sem cortina viu as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante, os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar, demorando aqui um pouco logo veremos,[...] Ricardo Reis percorreu de novo toda a casa, não pensava, olhava apenas, depois foi à janela, a proa dos barcos estava virada para cima, para montante, sinal de que a maré descia. Os velhos continuavam sentados no mesmo banco."
(José Saramago: O ano da Morte de Ricardo Reis)

Então meu caro Ricardo Reis... Com que então fugiste do Hotel Bragança? Arranjaste-a bonita! algo andaste a tramar... Sim, vejo-te à janela da tua nova casa e imagino-te... não tens fuga. Razão tinha o Pimenta... Chamado à PVDE, boa rez não podes ser...
Eu vejo-te daqui, aceno-te. Será que me estás a ver?

Mais tarde, dei de caras com a Sophia num banco...

LISBOA

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

E não é que, mais tarde, na rádio se falava do nonagésimo aniversário de Sophia e se a ouvia em gravações antigas?

domingo, 30 de agosto de 2009

883 - Memória de férias I







Decididamente, assistir ao espectáculo dos Deolinda, foi um dos momentos altos das férias.

Que vento novo na nossa música sopra!

Novas ideias;

Boa música feita com fracos recursos;

5 Estrelas!



Mais uma quente noite de Verão para guardar na memória



---



Ainda bem

que o tempo passou

e o amor que acabou

não saiu...



Ainda bem

que há um fado qualquer

que diz tudo o que a vida

não diz...



Ainda bem

que Lisboa não é

a cidade perfeita

para nós...



Ainda bem

que há um beco qualquer

que dá eco

a quem nunca tem voz...



Ainda agora vi a louca

sozinha a cantar

do alto daquela janela...

Há noites em que a saudade

me deixa a pensar

um dia juntar-me a ela,

um dia cantar como ela...



Ainda bem

que eu nunca fui capaz

de encontrar a viela

a seguir...



Ainda bem

que o Tejo é lilás

e os peixes não param

de rir...



Ainda bem

que o teu corpo não quer

embarcar na tormenta

do meu...



Ainda bem...



Se o destino quiser,

esta trágica história

sou eu.



Ainda agora vi a louca(...)



Deolinda



segunda-feira, 1 de outubro de 2007

263 - Tempo de nostalgia



Como o tempo passa!
Esta manhã, na rádio, soube já lá vão 25 anos sobre a morte de Adriano Correia de Oliveira. Ele foi um companheiro certo e fiel nos meus dias de coimbra. Lembro-me bem do dia da sua morte e da notícia ouvida na Rádio Universidade na Cantina Geral.
Afinal continuaste durante muito tempo a acender no meu o teu cigarro.

Este dia tem sido bem recheado de memórias de uma época vivida intensamente...














Canção com lágrimas

Eu canto para ti o mês das giestas
O mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol, Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera.
Manuel Alegre
---
"Canção com lágrimas", para além de dar voz ao desassossego de uma nação, traduz uma experiência pessoal do poeta Manuel Alegre, que perdera um amigo na Guerra Colonial. Adriano Correia de Oliveira escolheu este poema em nome da mágoa causada pela morte, na Guerra de Angola, do seu amigo e companheiro José Manuel Pais, rás da república Rás-Te-Parta. Um irmão que nunca esqueceu. Em sua homenagem deu a seu filho o nome de José Manuel."

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

250 - uff! Recomeçou o trabalho

Como esperava esta semana tem sido intensa e quase nem tenho tempo de respirar...
Regresso à escola que continua com um ritmo de 110% e é necessário a adapatação...
Regresso ao gabinete e chega a vontade de arregaçar as mangas e lançar-me ao trabalho...
Reuniões e mais reuniões...

Tudo se há-de resolver na lógica de um passo de cada vez

Apesar disto tudo...
Continua a ser lindo (re)ver os telhados de Lisboa
Continua a ser lindo (re)ver as casas da velha Lisboa e sua luz quando lhe dá o sol...















"Quinta Canção em Lisboa”, Joaquim Pessoa


Chamar-te a ti, Lisboa, camarada
e depois, eu sei lá, enlouquecer.
Que a loucura é quase um grão de nada
e tu tens um nome de mulher.

Ou dizer que és a minha namorada.
Devagar. Não vá alguém saber
que fizemos amor de madrugada
e tu trazes um filho por nascer.

Se eu inventar de noite a liberdade
de poder beijar-te os olhos e morrer,
no teu ventre não há fado nem saudade
mas apenas os filhos que eu fizer.

E pode ser que eu guarde a tempestade
de ter que aqui ficar. E então dizer
que sobre a minha boca ninguém há-de
pôr rosas de silêncio, se eu quiser.

Chamar-te a ti, Lisboa, camarada
e depois, eu sei lá, enlouquecer…

segunda-feira, 5 de março de 2007

163 - Lisboa III

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Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.
Eu sei. E tu, sabias?

Eugénio de Andrade ( Coração do Dia)

sábado, 3 de março de 2007

162 - Lisboa II

Posted by Picasa
Um Homem na Cidade


Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.


Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.


E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

53 - Pois, pois... um cruzeiro...















O Cacilheiro
Letra: Ary dos Santos


Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.

Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.

Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.

Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.

Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.

52 - Ora aqui está algo que há muito desejava ter feito
















Este era um passeio que há muito queria ter feito.
Ocorreu na semana passada.
De Belém até à EXPO e volta.

sensações?

Antônio Gedeão
Adeus, Lisboa

Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.
Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.

Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.

A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
livagens de diamantes,

Numa hipnose coletiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?

Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!

quarta-feira, 5 de julho de 2006

45 - Lisboa

Hoje ouvi um estrangeiro a dizer isto isto em Inglês (poema traduzido) e fez sentido... Até imaginei que ele tinha captado o "espírito português"...
Em sua homenagem e em homenagem à Sophia, aqui fica registado.


Lisboa


Digo "Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se o seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se na sua extensão nocturna
No seu longo luzir de azul e rio
No seu corpo amontoado de colinas...

Lisboa com o seu nome de ser e de não ser
Com os seus meandros de espanto insónia e lata
O seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
O seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida
Ao longo da sua própria ausência...
Digo o nome da cidade
Digo para ver

(Sophia de Mello Breyner Andersen)

(imagem retirada
daqui)

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