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quarta-feira, 7 de novembro de 2018

1887 (das palavras) - As Palavras de Amor

As Palavras de Amor

Esqueçamos as palavras, as palavras: 
As ternas, caprichosas, violentas, 
As suaves de mel, as obscenas, 
As de febre, as famintas e sedentas. 

Deixemos que o silêncio dê sentido 
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: 
Que palavra ou discurso poderia 
Dizer amar na língua da semente? 

José Saramago, in "Finalmente Alegria" 

domingo, 28 de julho de 2013

As férias

Do mural do Facebook de Ana Maria Pedro

 


As férias
Hoje, venho falar das férias: é o tempo delas, como se diz que é o tempo das cerejas. Outra árvore dá estes frutos, e a mesma árvore os arranca: os dias as trazem até nós, os dias as levam. Neste escoar se vai o tempo, mas enquanto as férias se aproximam tudo é desejá-las, fazer projectos, embalar ilusões. Chegado o dia, temos diante de nós um espaço vazio à espera, como uma grande sala que é preciso habitar. Que vamos pôr lá dentro? (...) Seja como for, os dias de férias ganham de repente um valor que os outros não tiveram. São dias totalmente disponíveis, à mercê da imaginação e das posses de cada qual. O tempo desligou-se da mecânica do relógio, é uma dimensão não delimitada, um pedaço de barro diante das mãos que o vão modelar.
As férias são também uma obra de criação. (...)
José Saramago, "Deste Mundo e do Outro".
A imagem pertence à pintora norte-americana Peggi Kroll-Roberts e trouxe-a do Clube de Leitores.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Leituras de férias II

Saramago não deixa de me surpreender...

Este deve ser o sétimo ou oitavo livro que dele leio. Acho-o notável na crítica social e política como por exemplo em "Levantado do Chão", "o Ano da morte de Ricardo Reis"  ou n "o Memorial do convento". A crítica à religião oca e beata no "Evangelho segundo Jesus Cristo", "Caim" "As intermitências da morte" e muitos outros. No "O homem duplicado", José Saramago constrói uma ficção extraordinária, apoiada numa questão extremamente atual e inquietante: a perda de identidade no mundo globalizado, tema também abordado em "Ensaio sobre a cegueira".

É fantástico como Saramago consegue ser tão polivalente na abordagem de diversos temas. Esta é uma história com quatro personagens e que, mais uma vez não é contextualizado nenhum nome de cidade, país ou data , história esta que se lê de um fôlego e na qual Saramago se revela mestre do suspense. Este é um livro que nos faz lembrar um thriller e que tem um final absolutamente surpreendente. 


sábado, 7 de janeiro de 2012

José e Pilar: conversas inéditas


À semelhança do meu amigo João Paulo, também eu não desapareci... Nos últimos tempos andei a ouvir conversas, mas posso e quero divulgá-las. Não percam! Para quem amou o filme, o livro vem trazer-nos um pouco mais da sabedoria de dois seres humanos excepcionais: José e Pilar!




sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A viagem do elefante


Não sendo um dos livros de Saramago que mais gosto tive em ler pois "Levantado do Chão", ou o memorial" ou ainda "O Evangelho segundo Jesus Cristo" ou ainda "o ano da morte de Ricardo Reis" encheram-me as medidas, este livro lê-se com facilidade não sendo propriamente um romance... Pelos vistos, terá existido, no século XVI, um paquiderme indiano que caminhou de Lisboa a Viena, ao qual José Saramago chamou Salomão e cuja história conta no livro, "A Viagem do Elefante" e que acaba por constituir uma metáfora da vida humana.
"O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI, em 1550, 1551, 1552. E, portanto, o elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, e o que o livro conta é isso, é essa viagem",
Saramago começou a escrever o livro em Fevereiro de 2007, altura em que já estava bastante doente, com um problema respiratório, escreveu "umas 40 páginas" e parou, porque a doença se agravou, e acabou por ser hospitalizado durante três meses, tendo chegado a pensar que não terminaria o livro. Mas recuperou, regressou a casa em Fevereiro deste ano, embora "mal", pôs-se logo a escrever e acabou-o em Agosto, no dia 12.
Esta história é uma metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas.
Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante - que, depois de tudo aquilo, acaba de uma maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto - no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

1175 - Levantado do Chão




















Ainda não acabei de o ler pois entretanto recomeçou o trabalho e, nestes dias, o tempo tem sido escasso. Mas este é, sem dúvida, um dos melhores livros de Saramago.
Para o escrever, Saramago viveu uns tempos no Alentejo e foi recolhendo relatos e histórias da vida do povo alentejano e integrou-as na narrativa central. É um livro fabuloso sobre o quotidiano e luta do camponês alentejano por uma vida mais justa.
Que povo sofrido, mártir e herói, sendo que, como em tudo na vida, há os que caiem e os que resistem.
Bem ao estilo de Saramago o texto envolve-nos e tem, de facto, relatos sublimes, ouvidos da boca deste e daquele que foram magistralmente integrados no texto.






Levantado do chão


















Ainda não acabei de o ler pois entretanto recomeçou o trabalho e, nestes dias, o tempo tem sido escasso. Mas este é, sem dúvida, um dos melhores livros de Saramago.
Para o escrever, Saramago viveu uns tempos no Alentejo e foi recolhendo relatos e histórias da vida do povo alentejano e integrou-as na narrativa central. É um livro fabuloso sobre o quotidiano e luta do camponês alentejano por uma vida mais justa. 
Que povo sofrido, mártir e herói, sendo que, como em tudo na vida, há os que caiem e os que resistem.
Bem ao estilo de Saramago o texto envolve-nos e tem, de facto, relatos sublimes, ouvidos da boca deste e daquele!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

1171 - Estou a aprender a ser feliz II


Começo já com uma declaração de intenções: Sei bem que nunca se aprende e que estamos sempre a levar...

Que se lixe, deixem-me ser incoerente...

Comecemos então por onde devia ter sido. Tenho consciência que a vida me tem bafejado e que sou uma homem de sorte. No entanto, também acho que a sorte se conquista e que à semelhança da criatividade esta é 95% de transpiração e 5% de inspiração.

Tenho tido oportunidade de ter acesso a muita coisa, mas muito tem sido conquistado.
Durante anos procurei (procuro ainda?) a felicidade. Cada vez me convenço mais de que o tal nirvana (o estado de felicidade pura) não existe mas existem sim pequenos flashes/momentos/horas intensas de felicidade que devem ser agarradas com ambas asa mãos para os momentos menos bons...
Um almoço à beira rio (que raio de exemplo! parece que vivo para comer, coisa que faço cada vez menos), uma tarde de praia, uma conversa saborosa, um livro que nos enche as medidas, um dia de bom humor em família, ...

É uma aprendizagem difícil!

As coisas são tão fugazes e de repente percebeste que algo foi belo ou te encheu as medidas e não deste o devido valor porque estavas à espera do 7º Céu ou mais ainda...

Que diabo, que diabo...

Aprender a ser feliz... Sim, claro. Sei bem que muito já vivi e muito já recebi...






O problema será quando chegarem os dias mais curtos do Inverno. Tenho passado tão mal os últimos invernos...

(Irra que o gajo é intratável e está sempre a protestar... o tipo deve ser muito difícil de aturar)

---
P.S. - Ora cá está um momento de pura felicidade que me tem enchido as medidas: A leitura do "levantado do chão" do Saramago! Comecei a lê-lo no avião e agora aproveito todos os momentos para o ler...
Que coisa fabulosa!

domingo, 24 de janeiro de 2010

Ensaio sobre a cegueira



Nestes tempos, pós terramoto no Haiti, não deixo de me lembrar do livro do José Saramago: "ensaio sobre a cegueira"
É caso para dizer que a realidade supera a ficção...

O que a mim me impressiona mais foi que, ao ler o livro, sempre achei que a ficção era bastante plausível tendo em conta os múltiplices tipos de cegueira...

O enredo conta-se em poucas palavras:
A cegueira começa num único homem, durante a sua rotina habitual. Quando está sentado no semáforo, este homem tem um ataque de cegueira, e é aí, com as pessoas que correm em seu socorro que uma cadeia sucessiva de cegueira se forma… Uma cegueira, branca, como uma mar de leite e jamais conhecida, alastra-se rapidamente em forma de epidemia. O governo decide agir, e as pessoas infectadas são colocadas de quarentena com recursos limitados e que irá desvendar aos poucos as características primitivas do ser humano. A força da epidemia não diminui com as atitudes tomadas pelo governo, e depressa o mundo se torna cego.
Todos os sentimentos/atitudes desenrolam-se na obra: poder, obediência, ganância, carinho, desejo, vergonha; dominadores, dominados, subjugadores e subjulgados.

Vale a pena ler de novo.

Agradeço à Jacky a possibilidade que me deu em conhecer a obra de Saramago

sábado, 21 de novembro de 2009

O ano da morte de Ricardo Reis



















Devo a leitura de José Saramago à Jacky . Conversando, há uns anos atrás sobre leituras, ela falou-me do "ensaio sobre a cegueira". Comecei por esse e fiquei logo fã (embora o tema da obra seja duro...)

Já li muitas obras dele, mas o livro sobre o qual hoje quero falar é de "O ano da morte de Ricardo Reis" do qual me faltam poucas páginas para acabar a leitura.

Não é um dos livros de José Saramago cujo enredo seja o que mais nos faça sorrir ou com que empatizemos mais, no entanto, parece-me ser um dos livros em que José Saramago tenha mais investigado para o escrever ( para além do memorial do Convento, claro)

A História anda à volta do regresso de Ricardo Reis (um dos heterónimos de Fernando Pessoa) do Brasil para assistir ao funeral de Fernando Pessoa. Depois descreve-se uma possível vida do médico Ricardo Reis em Lisboa nos duros anos 30 em Portugal.
Uma vez ou outra são-nos apresentados diálogos imaginários entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa e somos introduzidos a um ou outro poema de Ricardo Reis.

Porque recomendo a leitura da obra (e porque ela me fascinou?)

1 - Pelo realismo e plausibilidade do retrato que Saramago faz da vida de Ricardo Reis em Lisboa. A sua vida pelo Chiado e pelo Miradouro de Santa Catarina faz-nos imaginar que Ricardo Reis ainda lá viva hoje e abra agorinha mesmo a janela da sua casa...

Cito

" Ricardo Reis aproximou-se duma janela, através da vidraça sem cortina viu as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante, os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar, demorando aqui um pouco logo veremos,[...] Ricardo Reis percorreu de novo toda a casa, não pensava, olhava apenas, depois foi à janela, a proa dos barcos estava virada para cima, para montante, sinal de que a maré descia. Os velhos continuavam sentados no mesmo banco."
(José Saramago: O ano da Morte de Ricardo Reis)

Até nos dá vontade de conversar com ele ...

Então meu caro Ricardo Reis... Com que então fugiste do Hotel Bragança? Arranjaste-a bonita! algo andaste a tramar... Sim, vejo-te à janela da tua nova casa e imagino-te... não tens fuga. Razão tinha o Pimenta... Chamado à PVDE, boa rez não podes ser...
Eu vejo-te daqui, aceno-te. Será que me estás a ver?

2 - Pela investigação séria que José Saramago fez da obra de Fernando Pessoa. As características do personagem construído condizem com os traços psicológicos que Pessoa construiu para Ricardo Reis

RICARDO REIS – O POETA DA RAZÃO

Heterónimo de Fernando Pessoa


A partir da carta a Adolfo Casais Monteiro

nasceu no Porto (1887);
foi educado num colégio de jesuítas ;
”É latinista por educação alheia e semi-helenista por educação própria”;
médico;
viveu no Brasil, expatriou-se voluntariamente por ser monárquico;
Interesse pela cultura Clássica, Romana (latina) e Grega (helénica);

Fisicamente:
”Um pouco mais baixo, mas forte, mais seco” do que Caeiro;
” de um vago moreno”; cara rapada;

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, é o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio”, “Prefiro rosas, meu amor, à pátria” ou “Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação.

A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento, o “carpe diem”, como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade – ataraxia.

Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica:

- “Carpe diem” (aproveitai o dia), ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como caminho da felicidade;
- Buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);
- Não ceder aos impulsos dos instintos (estoicismo);
- Procurar a calma, ou pelo menos, a sua ilusão;
- Seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade (sobre esta apenas pesa o Fado).

Ricardo Reis, que adquiriu a lição do paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante o poder dos teus e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, “sem desassossegos grandes”.

A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do classicismo erudito de Reis. Poeta clássico da serenidade, Ricardo Reis privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias lúcidas e disciplinadas.

A filosofia de Reis rege-se pelo ideal “Carpe Diem” – a sabedoria consiste em saber-se aproveitar o presente, porque se sabe que a vida é breve. Há que nos contentarmos com o que o destino nos trouxe. Há que viver com moderação, sem nos apegarmos às coisas, e por isso as paixões devem ser comedidas, para que a hora da morte não seja demasiado dolorosa.

- A concepção dos deuses como um ideal humano
- As referências aos deuses da Antiguidade (neo-paganismo) greco-latina são uma forma de referir a primazia do corpo, das formas, da natureza, dos aspectos exteriores, da realidade, sem cuidar da subjectividade ou da interioridade - ensinamentos de Caeiro, o mestre de todos os heterónimos
- A recusa de envolvimento nas coisas do mundo e dos homens

3 - Pela descrição da Lisboa e de Portugal dos anos 30. Mais uma vez o relato é sério, rigoroso e cuidado


4 - Quem escreve?
não sou eu, foi um impostor... alguém que dita...)


Tenho Mais Almas que Uma

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis, in "Odes"

---

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

948 - Mais uma ode de Ricardo Reis


Sim

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.

Ricardo Reis






RICARDO REIS – O POETA DA RAZÃO

Heterónimo de Fernando Pessoa


A partir da carta a Adolfo Casais Monteiro

nasceu no Porto (1887);
foi educado num colégio de jesuítas ;
”É latinista por educação alheia e semi-helenista por educação própria”;
médico;
viveu no Brasil, expatriou-se voluntariamente por ser monárquico;
Interesse pela cultura Clássica, Romana (latina) e Grega (helénica);

Fisicamente:
”Um pouco mais baixo, mas forte, mais seco” do que Caeiro;
” de um vago moreno”; cara rapada;

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, é o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio”, “Prefiro rosas, meu amor, à pátria” ou “Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação.

A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento, o “carpe diem”, como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade – ataraxia.

Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica:

- “Carpe diem” (aproveitai o dia), ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como caminho da felicidade;
- Buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);
- Não ceder aos impulsos dos instintos (estoicismo);
- Procurar a calma, ou pelo menos, a sua ilusão;
- Seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade (sobre esta apenas pesa o Fado).

Ricardo Reis, que adquiriu a lição do paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante o poder dos teus e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, “sem desassossegos grandes”.

A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do classicismo erudito de Reis. Poeta clássico da serenidade, Ricardo Reis privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias lúcidas e disciplinadas.

A filosofia de Reis rege-se pelo ideal “Carpe Diem” – a sabedoria consiste em saber-se aproveitar o presente, porque se sabe que a vida é breve. Há que nos contentarmos com o que o destino nos trouxe. Há que viver com moderação, sem nos apegarmos às coisas, e por isso as paixões devem ser comedidas, para que a hora da morte não seja demasiado dolorosa.

- A concepção dos deuses como um ideal humano
- As referências aos deuses da Antiguidade (neo-paganismo) greco-latina são uma forma de referir a primazia do corpo, das formas, da natureza, dos aspectos exteriores, da realidade, sem cuidar da subjectividade ou da interioridade - ensinamentos de Caeiro, o mestre de todos os heterónimos
- A recusa de envolvimento nas coisas do mundo e dos homens

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Confesso que a minha admiração pelo José Saramago aumentou ao ler esta síntese do perfil de Ricardo Reis. A sua obra: "O ano da morte de Ricardo Reis" revela um grande trabalho de investigação do autor bem como um sério trabalho de composição

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

944 - De volta a Lisboa

Após dois meses de trabalho intenssíssimo as coisas voltam lentamente às rotinas. Continua um ritmo louco mas, pelo menos, já há paciência e lucidez para conceber um pause, ainda que pequena.

Retomei os passeios de sexta à tarde.

A tarde começou com a saída na estação do metro do terreiro do paço e com uma bica no Martinho da Arcada


Depois foi começar a subir a Mouraria. A próxima paragem foi na Sé e com o espanto da descoberta dos claustros da Sé. Simplesmente fabuloso! aquelas escavações que pôem a descoberto a Lisboa medieval, A Lisboa árabe, a Lisboa romana é, simplemente, impressionante. A quantidade de civilizações e gentes de aqui veveram antes de mim. Quantos sonhos e vidas por aqui passaram.



Depois, pela primeira, vez uma visita ao teatro romano! Conceber como teria sido a Lisboa de outras era é uma tarefa intressantíssima. Que surpresas nos reservará ainda a Lisboa subterrânea?


A paragem seguinte foi à porta da casa onde viveu Ary dos Santos. Daqui se entende todo o seu amor por Lisboa e a poesia que escreveu sobre ela. Como poderia ser outra coisa com a poesia a entrar pela janela dentro?



Por fim a chegada ao castelo e a maravilha das vistas e dos telhados vermelhos.



Dei de caras com o Ricardo Reis a abrir a janela de sua casa no Miradouro de Santa Catarina: " Ricardo Reis aproximou-se duma janela, através da vidraça sem cortina viu as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante, os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar, demorando aqui um pouco logo veremos,[...] Ricardo Reis percorreu de novo toda a casa, não pensava, olhava apenas, depois foi à janela, a proa dos barcos estava virada para cima, para montante, sinal de que a maré descia. Os velhos continuavam sentados no mesmo banco."
(José Saramago: O ano da Morte de Ricardo Reis)

Então meu caro Ricardo Reis... Com que então fugiste do Hotel Bragança? Arranjaste-a bonita! algo andaste a tramar... Sim, vejo-te à janela da tua nova casa e imagino-te... não tens fuga. Razão tinha o Pimenta... Chamado à PVDE, boa rez não podes ser...
Eu vejo-te daqui, aceno-te. Será que me estás a ver?

Mais tarde, dei de caras com a Sophia num banco...

LISBOA

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

E não é que, mais tarde, na rádio se falava do nonagésimo aniversário de Sophia e se a ouvia em gravações antigas?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

936 - já há muito que me apetecia isto...



Pois, Já há muito que me apetecia retomar as 6ª feiras à tarde... (e se eu preciso delas!)

Retomei hoje...
Não saí tão cedo como desejava pois ainda havia muito que fazer...
Não me apetecia grande coisa...

Apenas parar um pouco...

Peguei no meu Saramago (O ano da morte de Ricardo Reis) e fui para uma esplanada em Belém. Isso bastou-me por hoje.

Depois, foi seguir o pensamento

(Engraçado que já ontem o António Lobo Antunes - post 935 também falava que ele tinha vários eus, não é ele que escreve os livros, há um ALA que é médico, há um que é veternano de guerra, há o homem e há o sobrevivente...
Quem escreve?
não sou eu, foi um impostor... alguém que dita...)


Tenho Mais Almas que Uma

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis, in "Odes"

---

(Também eu os tenho)

domingo, 25 de outubro de 2009

930- que caminho tão longo (três cantos) II



Memórias de uma 6ª feira:

1 - Alinhamento do concerto - Três cantos

Do José Mário Branco:
1 - Inquitação
2 - Eu vi este povo a lutar (confederação)
3 - Ser solidário
4 - Onofre
5 - Canção dos torna viagem
6 - Mariazinha
7 - Mudam-se os tempos mudam-se as vontades
8 - Travessia do deserto
9 - Emigrantes de 4ª dimensão

Do Fausto:
10 - Foi por ela
11 - Rosalinda
12 - Como um sonho acordado
13 - Lembra-me um sonho lindo
14 - Quando às vezes ponho diante dos olhos
15 - ???
16 - ???
17 - ???


Do Sérgio Godinho:
18 - Cuidado com as imitações
19 - A barca dos amantes
20 - O primeiro dia
21 - A liberdade está a passar por aqui
22 - Que forma é essa?
23 - Quatro quadras soltas
24 - Era uma vez um rapaz
25 - ???

Comum:
26 - Charlatão

Inédito:
27 - Tem que ser...

Faltam-me aqui umas músicas. Quem me ajuda?

Já quanto ao alinhamento, consegui reconstruir:

23, 8, 11?, 9, 4, 23,... ... 11, 5, 6, 19, 18, 25, 20, 26, ... 22, 3, 1, 2, 7, 25 - Quem me ajuda?

---
2 - Ainda na 6ª, no metro, tive oportunidade de continuar a leitura de: "O ano da morte de Ricardo Reis" de José Saramago... ainda vou muito no início mas confesso que me está a encher as medidas... Aquela descrição da arrumaçãodas bagagens no quarto de Hotel em que se alinham os poemas do Ricardo Reis está cinco estrelas:

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.


Continua Saramago: "e, não acabando aqui, é como se acabasse, uma vez que para além de pensar e sentir não há mais nada. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, estará pensando agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentindo o que sinto, ou sinto que estou sentindo no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual [...] Juntou os papéis, vinte anos dia sobre dia, folha após folha, guardou-os numa gaveta da pequena secretária, fechou as janelas..."

3 - Já fiz as pazes com ela...

Vem agora todas as tardes e, guardando as distâncias (como lhe convém a ela mas não a mim) por aqui se detém até ao entardecer, altura em que se some para dormir não sei onde...
É tão insegura e desconfiada... coisas da vida. Não é a única nem será a última decerto.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

309 - As palavras II















As palavras são boas. As palavras são más. As palavras ofendem. As palavras pedem desculpa. As palavras queimam. As palavras acariciam. As palavras são dadas, trocadas, oferecidas, vendidas e inventadas. As palavras estão ausentes. Algumas palavras sugam-nos, não nos largam: são como carraças: vêm nos livros, nos jornais,
nos “slogans” publicitários, nas legendas dos filmes, nas cartas e nos cartazes. As palavras aconselham, sugerem, insinuam, ordenam, impõem, segregam, eliminam. São melífluas ou azedas. O mundo gira sobre palavras lubrificadas com óleo de paciência. Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem.

In Deste mundo e o outro
José Saramago

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...