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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

PARA ONDE VAMOS QUANDO DESAPARECEMOS?

Para provar que não desapareci, partilho aqui uma das minhas últimas aquisições... Se calhar nem desapareci porque como explica o livro, e muito bem, 

Se desaparecemos sem ninguém dar conta, 
não chegamos a desaparecer.
Porque, para alguma coisa desaparecer,
 é preciso que alguém a tenha visto primeiro
e dado pela sua falta depois.
Para que alguma coisa desapareça
são precisos sempre dois. 
(Um que fica e um que desaparece.)

 Mais um texto brilhante de Isabel Minhós Martins, sempre muito bem ilustrado pela Madalena Matoso e que nos ajuda a refletir, desdramatizando, sobre este tema da ausência, do desaparecimento e da morte. Não trazendo respostas definitivas, abre as portas à imaginação, tornando o tema (mesmo que por breves instantes) um pouco mais leve.

À parte algumas exceções, ninguém consegue responder com certeza absoluta à pergunta que dá título a este livro.
"Para onde vamos quando desaparecemos?" aproveita a ausência de respostas “preto no branco” para lançar novas hipóteses – mais coloridas e poéticas, mais sérias ou disparatadas, conforme o caso... – e assim iluminar um tema inevitavelmente sombrio.

Felizmente (ou infelizmente sei lá) não somos os únicos a desaparecer.
Com todas as outras coisas do mundo, acontece o mesmo.
O sol, as nuvens, as folhas e até as férias
Estão sempre
A começar e a acabar,
A aparecer e a desaparecer.

O que propõe este livro?
Observar as coisas do mundo e nelas procurar novas pistas e possibilidades (que nos sirvam a nós e àqueles de quem mais gostamos).
Atenção: nesta procura, nada deve ser ignorado – das meias que se evaporam misteriosamente ao sol que todos os dias se vai embora – em tudo pode haver ideias interessantes que ajudem a preencher o espaço deixado em aberto por esta grande interrogação.

48 páginas · 195 x 220 mm · ISBN: 9789898145352

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

RICHARD ZIMLER

A minha última leitura... Um tema sobre o qual leio frequentemente, talvez por me assustar a tamanha barbárie na História "recente" e acreditar que não o podemos deixar cair no esquecimento de gerações futuras...

Richard Zimler é um narrador brilhante, que gostei de ficar a conhecer melhor na entrevista na Revista Ler do mês passado.

A história é-nos narrada por um sobrevivente do gueto chamado Heniek Corben, a quem terá sido relatada pelo protagonista Erik Cohen, um médico psiquiatra. Centrando-se no mistério e investigações em torno de uma série de macabros assassinatos de crianças no gueto – mortes invariavelmente embebidas em contornos de puro horror, pois os corpos surgem sempre mutilados de um, ou parte, dos seus membros –, Os Anagramas de Varsóvia é um livro cujo enredo ficcional, à imagem de todos os que se escrevem sobre uma tal temática, se vê ultrapassado, digamos assim, pelo impacto maior que sempre colhe a rememoração da vergonha humana perpetrada pelo Terceiro Reich. Não que Zimler não condimente o lado de ficção com credibilidade suficiente, pelo contrário, revela-se soberbo na gestão do evoluir dos pormenores e na elaboração do puzzle em torno dos crimes, apenas e tão-só que aquilo que, no meu entender, mais se cola à memória e o que mais brutaliza as emoções do leitor, é o plasmar da ambiência vivida no gueto, é o trazer-nos para dentro de uma atmosfera de perfídia e asfixia a que os judeus foram votados. Creio, de resto, ter sido esse um dos objectivos de Zimler. Outro, provavelmente, aquele de, e por oposição, revelar a faceta de resistência, de luta, de querer, de capacidade de sobrevivência que assiste ao Ser Humano.

Erik Cohen, a brilhante personagem criada pelo escritor, assume esse cariz heróico, de resistente, vestindo, por conseguinte, a pele da esperança; mesmo se diante das mais adversas circunstâncias, mesmo se aviltando pelo seu semelhante, mesmo se confrontado com o Homem esquecido de si mesmo, o Homem travestido a monstro, a máquina de morte, a servo da Besta. E contudo, contudo esta personagem apresenta-se a início do livro como «morta», um «homem morto». Explicação: mesmo tratando-se de um sobrevivente, qualquer um que tenha resistido aos campos da morte nazis de alguma forma morreu. Realista, brutal, cruel, doloroso, Os Anagramas de Varsóvia é um livro impiedoso, por vezes a espaços se confundindo com a malvadez que vai rememorando e esquartejando, de resto à imagem de Erik, que amiúde se revela cruel para com aqueles com quem partilha o ar que respira e a desafortunada desdita. No caso se Erik, como no de Zimler, nas suas opções, trata-se apenas de uma forma de luta – como que um «junta-te ao Mal para o entenderes e depois o denunciares»; dito de outra forma, o Mal tem que ser lembrado com todas as suas vísceras para que não seja esquecido, para que não sejam esquecidos aqueles que o sofreram na pele. O que não é de somenos importância numa época de memórias facilmente solúveis e branqueamentos históricos. (Pedro Teixeira Neves)

sábado, 21 de novembro de 2009

O ano da morte de Ricardo Reis



















Devo a leitura de José Saramago à Jacky . Conversando, há uns anos atrás sobre leituras, ela falou-me do "ensaio sobre a cegueira". Comecei por esse e fiquei logo fã (embora o tema da obra seja duro...)

Já li muitas obras dele, mas o livro sobre o qual hoje quero falar é de "O ano da morte de Ricardo Reis" do qual me faltam poucas páginas para acabar a leitura.

Não é um dos livros de José Saramago cujo enredo seja o que mais nos faça sorrir ou com que empatizemos mais, no entanto, parece-me ser um dos livros em que José Saramago tenha mais investigado para o escrever ( para além do memorial do Convento, claro)

A História anda à volta do regresso de Ricardo Reis (um dos heterónimos de Fernando Pessoa) do Brasil para assistir ao funeral de Fernando Pessoa. Depois descreve-se uma possível vida do médico Ricardo Reis em Lisboa nos duros anos 30 em Portugal.
Uma vez ou outra são-nos apresentados diálogos imaginários entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa e somos introduzidos a um ou outro poema de Ricardo Reis.

Porque recomendo a leitura da obra (e porque ela me fascinou?)

1 - Pelo realismo e plausibilidade do retrato que Saramago faz da vida de Ricardo Reis em Lisboa. A sua vida pelo Chiado e pelo Miradouro de Santa Catarina faz-nos imaginar que Ricardo Reis ainda lá viva hoje e abra agorinha mesmo a janela da sua casa...

Cito

" Ricardo Reis aproximou-se duma janela, através da vidraça sem cortina viu as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante, os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar, demorando aqui um pouco logo veremos,[...] Ricardo Reis percorreu de novo toda a casa, não pensava, olhava apenas, depois foi à janela, a proa dos barcos estava virada para cima, para montante, sinal de que a maré descia. Os velhos continuavam sentados no mesmo banco."
(José Saramago: O ano da Morte de Ricardo Reis)

Até nos dá vontade de conversar com ele ...

Então meu caro Ricardo Reis... Com que então fugiste do Hotel Bragança? Arranjaste-a bonita! algo andaste a tramar... Sim, vejo-te à janela da tua nova casa e imagino-te... não tens fuga. Razão tinha o Pimenta... Chamado à PVDE, boa rez não podes ser...
Eu vejo-te daqui, aceno-te. Será que me estás a ver?

2 - Pela investigação séria que José Saramago fez da obra de Fernando Pessoa. As características do personagem construído condizem com os traços psicológicos que Pessoa construiu para Ricardo Reis

RICARDO REIS – O POETA DA RAZÃO

Heterónimo de Fernando Pessoa


A partir da carta a Adolfo Casais Monteiro

nasceu no Porto (1887);
foi educado num colégio de jesuítas ;
”É latinista por educação alheia e semi-helenista por educação própria”;
médico;
viveu no Brasil, expatriou-se voluntariamente por ser monárquico;
Interesse pela cultura Clássica, Romana (latina) e Grega (helénica);

Fisicamente:
”Um pouco mais baixo, mas forte, mais seco” do que Caeiro;
” de um vago moreno”; cara rapada;

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, é o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio”, “Prefiro rosas, meu amor, à pátria” ou “Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação.

A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento, o “carpe diem”, como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade – ataraxia.

Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica:

- “Carpe diem” (aproveitai o dia), ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como caminho da felicidade;
- Buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);
- Não ceder aos impulsos dos instintos (estoicismo);
- Procurar a calma, ou pelo menos, a sua ilusão;
- Seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade (sobre esta apenas pesa o Fado).

Ricardo Reis, que adquiriu a lição do paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante o poder dos teus e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, “sem desassossegos grandes”.

A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do classicismo erudito de Reis. Poeta clássico da serenidade, Ricardo Reis privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias lúcidas e disciplinadas.

A filosofia de Reis rege-se pelo ideal “Carpe Diem” – a sabedoria consiste em saber-se aproveitar o presente, porque se sabe que a vida é breve. Há que nos contentarmos com o que o destino nos trouxe. Há que viver com moderação, sem nos apegarmos às coisas, e por isso as paixões devem ser comedidas, para que a hora da morte não seja demasiado dolorosa.

- A concepção dos deuses como um ideal humano
- As referências aos deuses da Antiguidade (neo-paganismo) greco-latina são uma forma de referir a primazia do corpo, das formas, da natureza, dos aspectos exteriores, da realidade, sem cuidar da subjectividade ou da interioridade - ensinamentos de Caeiro, o mestre de todos os heterónimos
- A recusa de envolvimento nas coisas do mundo e dos homens

3 - Pela descrição da Lisboa e de Portugal dos anos 30. Mais uma vez o relato é sério, rigoroso e cuidado


4 - Quem escreve?
não sou eu, foi um impostor... alguém que dita...)


Tenho Mais Almas que Uma

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis, in "Odes"

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domingo, 15 de novembro de 2009

Se isto é um Homem




(o livro tem agora no mercado outra capa, em tons de branco, vermelho e preto)

Como a beleza do ser humano é a sua capacidade de pensar e fazer ligações, o post da Margarida (Eu espero que gostem) e a leitura virtual e real do livro, que é profundíssimo de facto, fez-me lembrar uma leitura que fiz este ano.

Era um livro que tinha em casa mas nunca me tinha despertado a atenção. Só que, a propósito da sua re-edição, falou-se dele na rádio e isso levou-me a incluí-lo na minha lista de compras.
Eis senão quando, ao procurar um livro, dou de caras com ele na estante...

Mais abaixo apresento a sinopse do livro e do autor, do qual já tinha lido uma obra, interessantíssima, sobre química, (O sistema periódico da Gradiva) pois ele era engenheiro Químico. O que não sabia na altura era que ele era um sobrevivente dos campos de concentração...

Vejo agora que este é um dos livros da minha vida pela profunda reflexão sobre a condição humana

"Então pela primeira vez nos apercebemos que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegamos ao fundo. Mais para baixo do que isto não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva."

Se isto é um Homem é uma obra poderosíssima sobre a condição humana, cito apenas uma passagem: "Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschiwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem"

Pelos vistos e isto é rigorosamente verdade houve quem duvidasse se estes testemunhos eram reais. Guantanamo é uma prova de que o sofrimento de Levi foi em vão e o nunca mais é um até à próxima.

"Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu
Recomendo‐vos estas palavras.
Esculpi‐as no vosso coração.
Estando em casa andando pela rua
Ao deitar‐vos e ao levantar‐vos;
Repeti‐as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara ..."

Primo Levi

O que é um homem? Se isto é um homem (link para o texto abaixo)
Por Teresa de Sousa

A obra imortal de Primo Levi, um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocusto.

Num sábado, dia 11 de Abril de 1987, por volta das 10 horas da manhã, a porteira de um sólido edifício cinzento do século XIX situado no Corso Rei Umberto de Turim tocou à porta do 3º andar para, como todos os dias, entregar o correio. Primo Levi abriu-lhe a porta, sorriu, recebeu o correio, agradeceu e reentrou. Poucos minutos depois o seu corpo estatelava-se no fundo da escada, ao lado do elevador. Morreu instantaneamente, como revelou a autópsia, que não detectou no seu corpo qualquer sinal de violência.

Suicídio foi a primeira explicação oficial que quase todos se apressaram a aceitar.

Levi desistia de ser "o bem educado cicerone do inferno." "Até ao dia da sua morte, eu estava convencido de que ele era a pessoa mais serena do mundo", disse o filósofo italiano e seu amigo, Norberto Bobbio.

O inesperado suicídio de Levi começava a parecer agora tão previsível. Concluído a tarefa de testemunhar, que o prendera à vida desde esse dia já longínquo de Janeiro de 1945 em que ganhara a batalha impossível da sobrevivência contra Auschwitz, a memória tornara-se-lhe insuportável.

Em Novembro de 1962, Levi tinha escrito: "Há um sonho pleno de horror que não deixa de me visitar (...). É um sonho dentro de um sonho. Varia nos detalhes mas não na substância. Posso estar sentado à volta de uma mesa com a minha família ou com amigos, ou no trabalho, ou num campo verde. Em suma, num ambiente pacífico e descontraído, sem qualquer tensão ou aflição aparente; e, no entanto, sinto uma profunda e subtil angústia, a sensação definitiva de uma ameaça pendente. E, de facto, à medida que o sonho continua, devagar ou brutalmente, de cada vez de uma forma diferente, tudo se desintegra à minha volta, o cenário, as paredes, as pessoas, enquanto a angústia se torna cada vez mais intensa e mais definida. Agora, tudo se transforma em caos. Estou sozinho no centro de um nada cinzento e perturbador e agora sei o que significam as coisas e também sei que sempre o soube. Estou no Laager e nada é verdadeiro fora do Laager. Tudo o resto era uma breve pausa, uma ilusão dos sentidos, um sonho (...). Este sonho dentro do sonho terminou e o outro sonho continua, gélido. Uma voz bem conhecida pronuncia uma única palavra, que não é imperiosa, apenas breve. É a voz de comando do amanhecer de Auschwitz, uma palavra estrangeira, temida, esperada: "Wstawách!. Levanta-te."

Poderá um homem sobreviver ao facto de ter sobrevivido a Auschwitz?

Rita Levi Montalcini, cientista italiana e sua velha amiga, foi a primeira a pôr em dúvida a versão do suicídio, argumentando que Levi era um químico e que conhecia mil outras maneiras, menos dramáticas e violentas, de pôr termo à vida.

Para os seus amigos, os seus admiradores, os seus leitores em todo o mundo, aceitar a ideia do suicídio era aceitar que a sua profunda humanidade fora finalmente vencida pelo mal absoluto, desmentido a mensagem de esperança que inscrevera na sua obra literária de sobrevivente.

"Escrever é a única salvação, mas escrever é também a única impossibilidade", disse Jorge Semprum, outro escritor-sobrevivente dos campos de extermínio nazis que só conseguiu testemunhar sobre os anos que passou em Buchenwaldt em 1994, num livro a que chamou "A Escrita ou a Vida".

Primo Levi, químico de formação, judeu italiano nascido em Turim em 1919, que apenas descobriu o total significado de ser judeu em 1944, terminou o seu testemunho de 11 meses de permanência em Auschwitz apenas um ano depois de ter sido libertado.

Não se trata de um livro de ficção. É apenas uma discrição objectiva, serena, contida, desprovida de amargura, do dia-a-dia de um prisioneiro de Auschwitz que se esforça por não esquecer que é um ser humano. "Se isto é um homem", publicado pela primeira vez em 1947, depois de ter sido rejeitado pelas grandes editoras italianas, já foi lido por milhões de pessoas em quase todas as línguas do mundo.

Não é mais um livro sobre o Holocausto. É um comovente ensaio sobre a própria natureza humana. "Lavar o rosto todas as manhãs, mesmo sem água e sem sabão, é a única maneira de se manter humano", disse-lhe um velho prisioneiro judeu que não sobreviveu. Quando tentava ensinar italiano a um companheiro de campo, a memória longínqua e dispersa de um passado que tinha deixado de existir, apenas lhe trazia aos lábios os versos do episódio de Ulisses do "Inferno" ("Divina Comédia") de Dante: "O que é um homem? O que é um homem?"

Depois de "Se isto é um Homem", Levi não mais deixou de escrever, amarrado à vida pela escrita, sem nunca deixar de exercer a sua profissão de químico industrial que, provavelmente, lhe salvou a vida em Auschwitz. "Imploro ao leitor que não ande à procura de mensagens. É um termo que detesto porque me impõe um fato que não é meu e que pertence a um tipo humano do qual desconfio; o profeta, o adivinho, o vidente. Não sou nada disto. Sou um homem normal com uma boa memória que caiu num turbilhão e saiu dele mais por sorte do que por virtude, e que, desde esse tempo, manteve uma certa curiosidade sobre os pequenos e grandes turbilhões, metafóricos e actuais", escreveu Levi num das suas últimas obras.

A sobriedade e a profunda humanidade dos seus escritos fizeram dele um símbolo do triunfo da razão sobre a barbárie. Por isso, a dúvida sobre o seu suicídio foi tão insuportável. Não vale a pena tentar reler a sua obra à luz do seu acto final. Basta lê-la e nunca mais esquecer.

EU ESPERO QUE GOSTEM...

Através de uma ideia luminosa da minha amiga Rita Pimenta - os vídeo-livros, mas que não consegue substituir o prazer de folhear o livro, sobretudo pelo óptimo arranjo gráfico que suporta a ilustração.

Não imagino melhor maneira de me dar a conhecer como leitora que começar por um dos livros que é definitivamente um livro da minha vida.

Porque é sobre a vida...

Porque foi a minha última leitura com a turma onde sou "madrinha da leitura", manhã em que os meninos mais uma vez me encheram o coração e mais uma vez me confirmaram que os livros nos tornam melhores pessoas...

Livro para a infância? Parece-me que é um daqueles livros mesmo para todos...

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

livros lidos I

(datado de 2007)
Como é habitual no Verão pude dedicar-me a pôr em ordem as minhas leituras. Aqui ficam elas:
  • Diogo Freitas do Amaral - D. Afonso Henriques, Biografia. Bertrand Editora

Foi um livro de fácil leitura pois está escrito de modo a que "leigos" o possam entender. Foi uma descoberta em relação ao Freitas do Amaral.

  • Rosa Montero - Historia del Rey Transparente. Alfaguara

Está escrito em Espanhol e dele não conheço tradução em Português. Livro lindíssimo que retrata a condição humana situando a narrativa em plena idade média. Foi uma aprendizagem de muitos factos da Idade média e o colocar-se na pele da personagem central da história vivendo os seus dramas interiores e a sua aprendizagem de vida.

  • Umberto Eco - A Ilha do dia antes. Difel

Não consegui acabar de ler apesar de ter um enredo original, apresentando um naufrago isolado num barco abandonado. As referências à história da Itália e França na Idade Média, tornaram a leitura apenas acessível a "experts".

  • Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada - História de Portugal. Caminho

Livros extraordinários que contam a história de portugal de uma maneira fácil e acessível, relatando os acontecimentos e adicionando-lhe dados pitorescos desconhecidos do grande público.

Ah! e ainda houve tempo para preparar a minha tese lendo

  • Judith Bell - Como realizar um projecto de investigação. Gradiva

e

  • Robert K. Yin - Estudo de caso Planejamento e Métodos. Bookman

E não deu para mais. Quando chegarão as próximas férias?

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...