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segunda-feira, 27 de junho de 2016

1322 (Leituras) - Amantes



Há dias de sorte! Em Pombal, a propósito do encontro de Literatura Infanto Juvenil,deparo-me, numa feira do livro, com uma preciosidade para a alma! refiro-me aos "Amantes" escrito e ilustrado por Ana Juan.
Trata-se de um livro de contos todos relacionados com a temática do amor. É simplesmente belo e extraordináriamente ilustrado!
(Obrigado pela dica Margarida C.) Não sairá da minha prateleira dos livros mágicos e belos.

El Amor Lejano

Yo no tengo más palabras,
solo lágrimas,
Y quiro que guardes
solo mi sonrisa
no mi llanto.
Pero no puedo separarme de ti...
... sin um beso.
Aunque sé que volverás.
tu ausencia
me duele ya.  

 

quarta-feira, 20 de abril de 2011

1326 - Por estas e por outras é que isto chegou onde chegou


Nestes dias mais calmos tenho aproveitado para ler um pouco mais. Por agora, delicio-me com a leitura de "Diz que é uma espécie de democracia" de João Paulo Guerra que passa a livro algumas das suas crónicas semanais no jornal "Diário Económico" que foi publicando ao longo de 10 anos (de Outubro de 1999 a Dezembro de 2008) 

Leiam-se, a título de exemplo, estas duas crónicas de 1999 e entender-se-á o motivo pelo qual "isto" chegou onde chegou...

NARCISO & NARCISO

Narciso Miranda, na qualidade de secretário de Estado da Administração Marítima e Portuária, visitou o concelho de Matosinhos, de cuja Câmara Municipal foi eleito presidente, estando actualmente na modalidade de «mandato suspenso». Mas o secretário de Estado fez questão de reafirmar: «Eu sou o presidente da Câmara de Matosinhos!», acrescentando: «Só tenho é o mandato suspenso». Isto, por ter sido chamado a Lisboa para fazer parte do Governo, como veio nos jornais.
E o que foi fazer Narciso Miranda Secretário ao concelho de Narciso Miranda Presidente? Nada mais, nada menos, que apresentar a construção, como secretário de Estado, de uma obra que tinha prometido, como presidente da Câmara!
Narciso Secretário foi recebido como se fosse Narciso Presidente, ou seja, ele próprio. Deu abraços aos pescadores e beijos às peixeiras que o trataram por «Presidente da Câmara», certamente por não terem lido os jornais. Mas o próprio vereador que substitui Narciso Miranda durante o seu impedimento o tratou por «Presidente», numa demonstração de grande humildade socialista.
A obra que Narciso Secretário foi apresentar ao concelho de onde é Narciso Presidente é para o próximo século. Ou seja:
Narciso Presidente ainda acaba por lançar a primeira pedra da obra agora apresentada por Narciso Secretário!!! E para inaugurar a obra, nada melhor que Narciso Finalmente Ministro!!!!!
13 Dezembro 1999


CARTA AO PAI NATAL

Querido Pai Natal: Para este Natal de fim de século, venho pedir-te que me garantas condições para a minha valorização como pessoa, apoio à família e prevenção de fracturas sociais.
Não entendes? Eu explico.
O que eu quero é um sistema de saúde mais eficiente e de qualidade reconhecida, com acesso à saúde em condições de equidade social, de eficiência e de qualidade reconhecida. Para os meus filhos, peço-te uma educação com novos meios e outras ambições, criando oportunidades de educação e valorização profissional, promovendo emprego de qualidade. Para o conjunto da família, quero garantido o acesso à habitação e conciliada a vida familiar com a profissional, com igualdade de oportunidades, melhores níveis de direitos sociais e uma nova protecção social.
Quero, enfim, desenvolvimento, emprego e bem-estar para mim e para os meus. E para o meu país, quero que ele seja um Portugal de bem-estar. Quero melhores relações das instituições com as pessoas em geral, uma sociedade mais segura, justiça eficaz, novas apostas na ciência e na cultura, tudo isto assente nos valores da cidadania. Numa palavra, Pai Natal, quero a qualidade da democracia.
Pai Natal: se tiveres alguma dificuldade em encontrar o que te peço para o sapatinho deste ano, aconselha-te com o engenheiro Guterres. Esse mesmo. Fiz as minhas escolhas por catálogo, no Programa do Governo.
20 Dezembro 1999


sábado, 12 de fevereiro de 2011

1281 - Espiões



Bom... Este é uma dos livros que não nos conquista vendo a capa, antes pelo contrário, mas é um romance que se lê num só fôlego.
Sinceramente, gostei e aconselho

Eis a sinopse:
"A Segunda Guerra ainda não havia chegado a uma rua tranquila no subúrbio de Londres, até que dois meninos resolvem bancar agentes secretos. Certa manhã, Keith e Stephen abandonam a brincadeira de estrada de ferro na horta de pepinos, e começam a vigiar a sra. Hayward, mãe de Keith, certos de que ela seria uma espiã alemã. Aos poucos, descobrem que algo estranho acontece na rua: beijos proibidos, vizinhos com atitude suspeita, passagens secretas, tráfico de meias de lã.
Cinquenta anos depois, os acontecimentos daquele verão ainda atormentam Stephen. Ele retorna à rua de sua infância e tenta entender como uma brincadeira de meninos levou a uma tragédia de adultos, dando-lhe "uma intuição profunda da solenidade e tristeza das coisas".
Ganhador do prémio Whitbread 2002 de melhor romance, Espiões é a história de coisas que parecem simples, sobretudo aos olhos de uma criança, mas que se tornam cada vez mais complexas e dolorosas. É um relato sobre a gravidade da infância, o peso da inocência e a dificuldade de evocar o próprio passado."
A história começa assim: 


"1.

Ainda falta uma semana para o fim de Junho e o cheiro já chegou, familiar e invasor. É uma doçura que nos invade todos os anos, por esta época. Sinto-a no ar quente da tarde, enquanto caminho ao longo dos jardins bem tratados da minha rua tranquila, e por um instante viro criança outra vez e tudo ainda está por acontecer - toda promessa de vida, assustadora e meio incompreensível.

Deve vir de um dos jardins. De qual? Nunca consigo descobrir. E o que é? Não tem nada da fragrância terna e pungente dos limoeiros em flor que aperta o coração, cheiro bom pelo qual a cidade é conhecida, ou da serena felicidade de verão das madressilvas. É algo completamente rude e vulgar. Cheira mal. Possui uma espécie de urgência sexual. E me balança por dentro, como sempre. Eu sinto... o quê? Uma inquietude. Uma vontade de fugir para além das árvores no final da rua, cada vez para mais longe. E ao mesmo tempo tenho uma espécie de saudade do lugar onde estou. É possível? Sei que alguma coisa, em algum lugar, foi deixada irresolvida, que alguma coisa secreta no ar que me rodeia ainda está por ser descoberta.
Uma outra sugestão do perfume me alcança com a brisa leve do verão, e desconfio que o lugar para o qual gostaria de fugir é minha infância. Talvez a casa da qual sinta saudade ainda esteja lá, depois de tudo que aconteceu. No fim de Junho, quando o fedor adocicado aparece, é impossível deixar de notar que há vôos baratos para aquela terra tão longe e tão perto de mim. Duas vezes pego o telefone para reservar passagem; duas vezes o coloco de volta no gancho. Não se pode voltar, todo mundo sabe... Quer dizer que não vou voltar nunca mais? Fica decidido? Estou ficando velho. Quem sabe a minha última oportunidade seja este ano...
Mas o que é isto, esta presença terrivelmente perturbadora no ar do verão? Se pelo menos eu soubesse o nome dessa flor mágica, se ao menos pudesse vê-la, talvez conseguisse descobrir a fonte do seu poder. De repente eu o capto no ar enquanto acompanho minha filha e meus dois netos pequenos de volta ao carro ao fim da visita semanal. Ponho a mão no seu braço. Ela entende de plantas e jardinagem. "Você está sentindo? Agora... Que cheiro é esse?"
Ela respira fundo. "São os pinheiros", responde. Há pinheiros altos crescendo em todos os jardins arenosos, protegendo as casas modestas do sol do verão e tornando nosso ar o famoso ar fresco e revigorante. Mas não há nada de limpo, ou com fragrância de resina, neste fedor que posso detectar insinuando-se tão furtivamente. Minha filha torce o nariz. "Você não está falando deste cheiro... bem... deste cheiro vulgar?"
Dou risada. Ela está certa. É mesmo um perfume vulgar.
"Ligustro", ela diz.
Ligustro... fiquei na mesma. Já ouvi a palavra, com certeza, mas nenhuma imagem me vem à mente, nem qualquer justificativa para o poder que o cheiro tem sobre mim. "É um arbusto", explica minha filha. "Muito comum. Você já deve ter visto em parques. Bem sem graça. Sempre me faz lembrar de tardes deprimentes em domingos chuvosos." Ligustro... Não. E ainda assim, quando uma nova onda daquela intimação descarada nos atinge, tudo dentro de mim se revolve e rodopia.
Ligustro... Soa como um segredo, alguma coisa negra e perturbadora lá no fundo do meu pensamento, alguma coisa sobre a qual absolutamente não gosto de pensar... Acordo à noite com a palavra me incomodando. Ligustro...
Espera um pouco. Será que minha filha estava falando inglês comigo quando me deu a informação? Vou ao dicionário... Não, não estava. E assim que vejo qual é a palavra em inglês, só posso rir de novo. Claro, que coisa mais óbvia! Desta vez, rio com um pouco de vergonha, porque um tradutor profissional não deveria se deixar enganar por uma palavra tão simples - e também porque, agora que sei o que é, parece-me uma deixa por demais ridícula e fora de propósito para sentimentos tão poderosos.
Agora muitas coisas me voltam à mente. Riso, para começar. Em uma noite de verão há quase sessenta anos. Nunca pensei nisso antes, mas lá está ela de novo, a mãe de meu amigo Keith, à sombra do arbusto verde do verão há tanto tempo perdido, os olhos castanhos brilhando, rindo de alguma coisa que Keith escrevera. Entendo o porquê, claro, agora que sei o que inundava de perfume o ar à nossa volta.
Paro de rir. Ela está sentada na terra à minha frente, chorando, e não sei o que fazer ou dizer. Junto de nós outra vez, aquele fedor adocicado e sedutor vai penetrando sorrateiramente nos recessos mais fundos da minha memória, para ficar comigo pelo resto da vida.
A mãe de Keith. Deve estar lá pelos noventa, a essas alturas. Ou morta. Quantos dos outros ainda estarão vivos? Quantos deles ainda se lembram?
E Keith, o próprio Keith? Será que ainda pensa sobre as coisas que aconteceram naquele verão? Talvez tenha morrido também.
Talvez eu seja o único que ainda se lembra. Ou que se lembra um pouco, pelo menos. Vislumbres de coisas diferentes surgem na minha mente, sem qualquer ordem, e se vão. Uma chuva de centelhas... Um sentimento de vergonha... Alguém tossindo, tentando não ser escutado... Uma jarra coberta de renda com quatro contas azuis penduradas nas pontas...
E, claro - em primeiro lugar as palavras ditas pelo meu amigo Keith que deram início a tudo. Às vezes é difícil lembrar as palavras exatas que alguém falou há meio século, mas estas são fáceis, porque foram tão poucas. Seis, para ser preciso. Ditas, assim, casualmente, como um comentário passageiro, tão leves e sem substância quanto bolhas de sabão. E, apesar disso, mudaram tudo.
Como as palavras costumam fazer.
Agora que comecei a pensar no assunto, sinto que gostaria de ir mais fundo e dar alguma ordem a tudo, dar algum sentido aos acontecimentos. Havia coisas que ninguém jamais explicou. Coisas que nem mesmo foram ditas. Segredos. Gostaria de trazê-los à luz do dia, afinal. E mesmo agora que já localizei a fonte da minha inquietação, continuo a sentir a presença de algo por trás de tudo isso que ainda permanece sem solução.
Digo a meus filhos que irei a Londres por alguns dias.
"Tem o endereço de onde vai ficar?", pergunta minha nora, sempre tão organizada.
"Rua da Memória, talvez", sugere secamente meu filho. É evidente que estamos todos falando inglês. Ele percebe minha inquietação.
"Exactamente", respondo. "A última rua antes de perder o juízo e virar a esquina que dá na avenida Amnésia."
Não conto para eles que estou seguindo o rastro de um arbusto que floresce por algumas semanas no verão e que destrói a minha paz.
É claro que não lhes digo o nome do arbusto. Não o digo nem para mim mesmo. É ridículo demais."

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

1273 - As avis



Eu sei, eu sei... Tenho interesses de leitura muito diversificadas.... Desta vez, deu-me para a História...

Foi um livro interessante de ler e que nos mostra bem o que era esperado de uma infanta na política Europeia desta altura. Alianças, tratados a paz eram negociados a partir de casamentos de estado. Era bem difícil ser rainha nesta altura...

Também dá para perceber que a política de alianças e casamentos entre Portugal e Castela em momentos sucessivos só podia dar o fim que teve que seria a perca da independência de um dos lados. Foram mesmo demasiados casamentos dentro da família....


Segue-se a sinopse "oficial"...

"Durante os cerca de 200 anos que durou a dinastia de Avis, que teve início com D. João I, Mestre de Avis, Portugal esteve na vanguarda da História Mundial. Neste período sentaram-se no trono português oito reis e o país conheceu nove rainhas consortes, mulheres que, muitas vezes na sombra, definiram também elas o rumo da História do reino. Filipa de Lencastre, a mãe da Ínclita Geração; Leonor de Aragão, a Triste Rainha, que foi obrigada a fugir para Castela após a morte do marido; Isabel de Lencastre, que assistiu impotente ao confronto entre o seu pai e o seu marido; Joana de Castela, conhecida como a Excelente Senhora, que, por questões políticas e dinásticas, foi enclausurada num convento; Leonor de Lencastre, que mandou construir o Convento de Madre Deus em Lisboa; Isabel de Castela, filha dos Reis Católicos de Espanha, que morreu ao dar à luz; Maria de Castela, consorte de D. Manuel I, com quem teve uma relação de cumplicidade; Leonor de Áustria, peça fundamental no jogo político do seu irmão, o imperador Carlos V; Catarina de Áustria, avó de D. Sebastião. A partir do olhar destas rainhas, a historiadora Joana Bouza Serrano dá-nos a conhecer os seus casamentos, que representavam verdadeiros trunfos nos jogos de poder político, os partos sucessivos para garantir a sucessão, a sua dedicação à cultura e às artes, as tradições e costumes da corte e os diferentes acontecimentos políticos que marcaram a dinastia de Avis."

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

1244 - Jó, Romance de um Homem simples



Este foi mesmo o que se chama de amor à primeira vista. Li a crítica no "Expresso" de 18 de Dezembro, anotei na minha lista de compras, nas trocas de Natal fui a correr comprá-lo e li-o em dois dias...

A história é a conhecida da Bíblia...

"Numa cidadezinha russa do início do século XX vivia um judeu muito simples e religioso. Seu nome era Mendel Singer. Homem comum, modesto e temente a Deus, Mendel exercia o ofício de professor, transmitindo os ensinamentos da Bíblia às crianças. Com a mulher, Débora, teve três filhos: Jonas, Schemariah e Miriam. Mas o nascimento do quarto filho dá início a uma série de tormentos: Menuhim é uma criança doente, vitimada pela fraqueza, pela deformidade física e pela epilepsia.

A eclosão da guerra traz novos infortúnios à família Singer. Entre alistamento e deserção, os dois filhos saudáveis de Mendel e Débora tomarão decisões opostas: uma conduzirá aos campos de batalha; a outra, à emigração para a América. Auxiliado pelo filho no estrangeiro e atormentado pelos namoros constantes da filha com os cossacos, também Mendel tomará a decisão de partir. Ao fazê-lo, porém, terá de deixar para trás o filho doente.
"

Se o leitor já está à espera de uma romance sobre o sofrimento do justo, bem depressa se enamora do relato e se centra na questão central que está muito bem contada: "por que sofre o homem justo?"
É um tema clássico, Saramago também pega muito bem nele em alguns dos seus romances: O evangelho de Jesus Cristo, Caim, O memorial do convento...

Neste romance o drama vai crescendo e chega a ser empolgante a cena da luta entre o bom Mendel e Deus.

«Então diz-nos o que queres queimar!» «Quero queimar Deus.» Os quatro ouvintes soltaram um grito simultâneo. [...] E quando Mendel blasfemou contra Deus, sentiram-se como se ele tivesse arranhado com os dedos cortantes os seus corações despidos.
«Não blasfemes, Mendel», disse Skowronnek após um longo silêncio. «Sabes melhor do que eu, pois estudaste muito mais, que os golpes de Deus têm um sentido oculto. Nós não sabemos porque somos castigados.» «Mas eu sei, Skowronnek», respondeu Mendel. «Deus é cruel e quanto mais lhe obedecemos, mais severo é connosco.
É mais poderoso do que os poderosos, a quem pode aniquilar com a unha do seu dedo mindinho, mas não o faz. Os fracos é que ele gosta de destruir. A fraqueza de um homem desafia a sua força e a obediência desperta a sua ira. É um grande e cruel ispravnik. Se cumpres a lei, ele diz-te que só a cumpriste em proveito próprio. Se infringes um mandamento que seja, ele persegue-te com cem castigos. Se o queres corromper, põe-te um processo. E se te comportas honestamente com ele, ele fica a aguardar o suborno. Em toda a Rússia não existe pior ispravnik! »

É um grande romance sobre o mistério da vida e da morte

domingo, 21 de novembro de 2010

1217 - perfeito

Porque a(s) múltipla(s) leitura(s) são sempre uma abertura a novos sentidos e horizontes...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

1209 - qualquer coisa de fabuloso

Esta semana foi recheada de acontecimentos positivos e "quentes". Valeu por isso. Entre muitos outros recebi da Teresa este vídeo.

É absolutamente fabuloso e acerta em cheio num dos meus pontos fracos: O livro pop-up



Obrigado Teresa

terça-feira, 13 de outubro de 2009

919 - Já estava com saudades



Sim, já estava com saudades de deixar o carro em casa e ir de transportes. Foi hoje.

(paradoxalmente sai-me mais caro! )

Saí cedinho e fui de transportes. Já há um mês que andava com um livro para trás e para a frente e nada... Hoje acabei-o.

Devia fazer isto mais vezes.

Deste modo, despachei para aí as últimas 70 folhas do livro "eu agora quero ir-me embora" que é a passagem a papel de um programa de rádio dos anos 80, da Comercial, no qual João dos Santos e João Sousa Monteiro convesavam sobre... A vida, acho eu...
Já o tinha lido há uns bons 15 anos atrás. Reli-o com gosto

Retive, como muito relevante e merecedora de uma maior reflexão, a passagem abaixo

(ah, e até deu para começar o Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago)

---
"J.S.M. - E são justamente os sonhos, os sonhos acordados e os sonhos a dormir que é o que há de mais importante na vida interior de qualquer pessoa, é justamente isso que não tem o mínimo significado para a escola.
É pena que tudo quanto a professora desse menino encontrou para dizer acerca de ele andar sempre na lua foi que ele não tinha aproveitamento. Como se o aproveitamento pudesse interessar a alguém que está absorvido por coisas bem mais importantes, como era o caso desse menino. O único exame sério que esse menino tinha que fazer durante o seu ano escolar, durante o seu ano lectivo, era o tal sonho das «contas». E se a escola não serve para ajudar as crianças a passarem nesses «exames», que são os únicos exames importantes da vida, não serve para nada.
Esse menino passou nesse «exame», e pelos vistos bem, mas foi com a sua ajuda, não foi com a ajuda da escola. E felizmente que há uns meninos que conseguem, apesar de tudo, resistir às pressões da escola, e continuam a sonhar, continuam a procurar resolver os seus sonhos das «contas», mesmo que o aproveitamento seja uma miséria. Mas são poucos. A maioria, mais tarde ou mais cedo, acaba por ceder à febre do aproveitamento. E é por isso, entre outras razões, que há tantos doutores tão deprimidos. Passaram nos exames da escola, mas chumbaram nos «exames» da vida, o que é uma pena.
Lembro-me agora daquele físico... como é que ele se chama?... daquele físico que dirige um centro de investigação em Física das Partículas, associado àquele que é, creio eu, o maior acelerador de partículas do mundo... não me lembro... como é que ele se chama, um tipo com os cabelos todos brancos mas com uma cara engraçadíssima, de miúdo pequeno, um físico polaco, que dizia que as crianças é que põem as perguntas mais interessantes. É quando se pergunta: «Porque é que o ar é azul?», «como é que as aves voam?», «porque é que a lua não cai?»... «Mas os pais podem estar descansados», dizia ele, «porque logo que as crianças entram para a escola, ensinam-lhes a não fazerem perguntas, a deixarem-se disso, e quando elas aprendem a não perguntar, a sociedade faz delas bons polícias, bons advogados, bons comerciantes, bons cidadãos. Há no entanto alguns, poucos, muito poucos, que continuam a teimar em fazer perguntas.» «Esses, concluía o físico, são talvez os poetas.» E é verdade. É uma catástrofe, creio eu, que a escola seja quase sempre um enorme armazém de professores que há muito tempo deixaram de fazer perguntas. Ensinam os miúdos a dar respostas a perguntas que nunca fizeram, e essa é uma das melhores maneiras de fazer deles bons «polícias», em todo o sentido do termo, como dizia aquele físico. É pena, por exemplo, que essa professora nunca se tenha perguntado porque é que aquele miúdo andava sempre na lua. A escola não está lá para isso, já sei, mas é pena que não esteja."

Pag 129

domingo, 6 de setembro de 2009

891 - Leituras de férias III

























Tinha relatado no post 873 - Leituras de férias as leituras que pretendia fazer...



Sem ordem de espécie alguma

- Mia Couto; Terra Sonâmbula;
- Jean Samuel; Chamava-lhe Pikolo (o testemuno de um dos companheiros de primo Levi - O tal de "Se isto é um homem");
- Virgílio; Eneida;
- Cervantes; Don Quijote de la Mancha (versão em Castelhano comprada na saída a Salamanca de Junho)
- Fernão Lopes; Crónicas;
-Kafka; O processo;
- José Saramago; O ano da morte de Ricardo Reis;
- João dos Santos; Eu agora quero ir-me embora (releitura)
- Carlos Ruiz Zafón; El juego del Ángel;
- Ondjaki; os da minha Rua (sugestão da Jacky);
- Étienne Gilson; A Filosofia na idade média;
- Roberto Musil; O homem sem qualidades I e II (oferta de Aniversário)
- Juan José Millás; Los objectos nos llaman (Oferta de aniversário)
- Pierro Bayard; Como falar dos livros que não lemos? (sugestão da Jacky);
- José Rodrigues dos Santos; A vida num sopro;
- Henri Tincq; Os génios do Cristianismo;
- José Saramago; a viagem do elefante;
- Carlos Amaral Dias e João Sousa Monteiro; Eu agora já posso imaginar que faço (releitura);
- Núria Barba e Xavier Salomó; Marco Polo (Juvenil);
- José Rodrigues dos Santos; Sétimo selo;
- Paul Ricoeur; O si-mesmo como um outro;
- A idade média (juvenil)

Sim... Fui muito ambicioso...

Destes todos só li 4 ou 5 sobretudo porque escolhi os mais "grossos" deixando os de leitura mais fácil para o tempo de trabalho e ainda acabei por comprar e ler mais 2 por serem citados nas obras que li.
- Primo Levi - Os que sucumbem e os que se salvam da Teorema
- Hélène Berr- Diário- D. Quixote

Interessa-me deixar para memória futura uma ou duas reflexões:

a) Li "O Homem sem Qualidades" de Musil. Gostei sobretudo de entender melhor a lógica do pensamento do povo alemão e austríaco que acabou por levar à barbárie do genocídio do povo Judeu. Obviamente que entender, não me leva a concordar com, mas como vivemos aqui num cantinho da Europa com décadas e décadas de atraso e com grande percentagem de analfabetismo nem se chegava a perceber as correntes filosóficas que circulavam na Alemanha nos Séculos XVIII, XIX e XX e que deram origem aos Idealismos, Marxismos e à aberração do Hitler!

Fico sempre surpreendido ao ler relatos de sobreviventes dos campos de concentração da 2ª guerra mundial. Não é que tenha um prazer sádico ao ler esses relatos. O que me impressiona é pensar:
- como foi possível chegar a tal desatino?
- como foi possível tal barbárie?
- como foi possível que a maioria da população nem desse por nada?
- Como foi possível que gente pensasse que as deportações só aconteciam aos "maus"?(faz-me lembrar igual lógica feita passar pela PIDE e Antigo regime sobre quem se opunha)
- como foi possível que a vida humana não valesse nada? Olhar "olhos nos olhos" e...
- com é possível que haja quem negue estes horrores? de facto a "coisa" foi tão bem feita que há hoje em dia quem ainda não acredite! o que teria que ter acontecido mais?
- como foi possível que gente não tenha fugido pensando que´só acontecia aos "outros" e era mau demais para ser verdade?

Tudo isto a propósito da leitura de
- Jean Samuel; Chamava-lhe Pikolo (o testemunho de um dos companheiros de primo Levi - O tal de "Se isto é um homem");

Cujas citações me levaram à leitura de:
- Primo Levi - Os que sucumbem e os que se salvam da Teorema
- Hélène Berr- Diário- D. Quixote

O díario de Hélène Berr é o diário de uma Jovem Judia em paris sob a ocupação Nazi cuja família decidiu ir ficando...

Impressionante! como é que tudo isto se foi repetindo? Impressionante saber o que vale a vida humana em situação de guerra! Impressionante!

Quantos sonhos desfeitos? Quantos mais teriam de morrer para que o nosso vizinho do lado acreditasse na barbárie sem lógica nenhuma!

Voltando ao princípio do raciocínio. Estas coisas não surgem do nada. Há uma mentalidade que se vai criando... depois um calar e um deixa andar... Pensar que Hitler foi eleito...

b) As conversas em família sobre as minhas leituras (também motivo para não ter conseguido ler mais)
Qualquer título de livro era motivo de "chacota" e ocasião para grandes conversas.
Confesso que de início me chateava com o assunto. Depois fui percebendo, mais uma vez mais, que estas "chacotas" eram apenas a forma manifesta de interesse pelas minhas leituras e fica a esperança que os meus filhotes se vejam a tornar leitores...
Ele foi "O homem sem qualidades" - Que lhes fui dizendo que era a minha biografia
Ele foi "os da minha rua" em que uns dos capítulos foi lido por eles numa esplanada com sotaque Angolano e cuja leitura prendeu a atenção de todos na mesa
Ele foi o livro do João Garcia "mais além do Evareste" que foi lido num fôlego numa manhã de praia e também deu que falar...

Enfim... Não é isto a leitura? a ocasião para levar a novos mundos e de diálogo com outros leitores?

O Zé já compra livros maiorzinhos - Agora anda na trilogia do Eclipse e dos ET... Menos mal pois também já devorou os Harry Poters

...

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

881 - Leituras de férias II

Ainda sem tempo para grandes comentários... ficará para um próximo post
(é o que se chama pôr a casa em ordem)

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Nós Chorámos Pelo Cão Tinhoso

Para a Isaura. Para o Luís B. Honwana



Foi no tempo da oitava classe, na aula de português.

Eu já tinha lido esse texto dois anos antes mas daquela vez a estória me parecia mais bem contada com detalhes que atrapalhavam uma pessoa só de ler ainda em leitura silenciosa - como a camarada professora de português tinha mandado. Era um texto muito conhecido em Luanda: "Nós matámos o Cão Tinhoso".

Eu lembrava-me de tudo: do Ginho, da pressão de ar, da Isaura e das feridas penduradas do Cão Tinhoso. Nunca me esqueci disso: um cão com feridas penduradas. Os olhos do cão. Os olhos da Isaura. E agora de repente me aparecia tudo ali de novo. Fiquei atrapalhado.

A camarada professora seleccionou uns tantos para a leitura integral do texto. Assim queria dizer que íamos ler o texto todo de rajada. Para não demorar muito, ela escolheu os que liam melhor. Nós, os da minha turma da oitava, éramos cinquenta e dois. Eu era o número cinquenta e um. Embora noutras turmas tentassem arranjar alcunhas para os colegas, aquela era a minha primeira turma onde ninguém tinha escapado de ser alcunhado. E alguns eram nomes de estiga violenta.

Muitos eram nomes de animais: havia o Serpente, o Cabrito, o Pacaça, a Barata-da-Sibéria, a Joana Voa-Voa, a Gazela, e o Jacó, que era eu. Deve ser porque eu mesmo falava muito nessa altura. Havia o É-tê, o Agostinho-Neto, a Scubidú e mesmo alguns professores também não escapavam da nossa lista. Por acaso a camarada professora de português era bem porreira e nunca chegámos a lhe alcunhar.

Os outros começaram a ler a parte deles. No início, o texto ainda está naquela parte que na prova perguntam qual é e uma pessoa diz que é só introdução. Os nomes dos personagens, a situação assim no geral, e a maka do cão. Mas depois o texto ficava duro: tinham dado ordem num grupo de miúdos para bondar o Cão Tinhoso. Os miúdos tinham ficado contentes com essa ordem assim muito adulta, só uma menina chamada Isaura afinal queria dar protecção ao cão. O cão se chamava Cão Tinhoso e tinha feridas penduradas, eu sei que já falei isto, mas eu gosto muito do Cão Tinhoso.

Na sexta classe eu também tinha gostado bué dele e eu sabia que aquele texto era duro de ler. Mas nunca pensei que umas lágrimas pudessem ficar tão pesadas dentro duma pessoa. Se calhar é porque uma pessoa na oitava classe já cresceu um bocadinho mais, a voz já está mais grossa, já ficamos toda hora a olhar as cuecas das meninas "entaladas na gaveta", queremos beijos na boca mais demorados e na dança de slow ficamos todos agarrados até os pais e os primos das moças virem perguntar se estamos com frio mesmo assim em Luanda a fazer tanto calor. Se calhar é isso, eu estava mais crescido na maneira de ler o texto, porque comecei a pensar que aquele grupo que lhes mandaram matar o Cão Tinhoso com tiros de pressão de ar, era como o grupo que tinha sido escolhido para ler o texto.

Não quero dar essa responsabilidade na camarada professora de português, mas foi isso que eu pensei na minha cabeça cheia de pensamentos tristes: se essa professora nos manda ler este texto outra vez, a Isaura vai chorar bué, o Cão Tinhoso vai sofrer mais outra vez e vão rebolar no chão a rir do Ginho que tem medo de disparar por causa dos olhos do Cão Tinhoso.

O meu pensamento afinal não estava muito longe do que foi acontecendo na minha sala de aulas, no tempo da oitava classe, turma dois, na escola Mutu Ya Kevela, no ano de mil novecentos e noventa: quando a Scubidú leu a segunda parte do texto, os que tinham começado a rir só para estigar os outros, começaram a sentir o peso do texto. As palavras já não eram lidas com rapidez de dizer quem era o mais rápido da turma a despachar um parágrafo. Não. Uma pessoa afinal e de repente tinha medo do próximo parágrafo, escolhia bem a voz de falar a voz dos personagens, olhava para a porta da sala como se alguém fosse disparar uma pressão de ar a qualquer momento. Era assim na oitava classe: ninguém lia o texto do Cão Tinhoso sem ter medo de chegar ao fim. Ninguém admitia isso, eu sei, ninguém nunca disse, mas bastava estar atento à voz de quem lia e aos olhos de quem escutava.

O céu ficou carregado de nuvens escurecidas. Olhei lá para fora à espera de uma trovoada que trouxesse uma chuva de meia-hora. Mas nada.

Na terceira parte até a camarada professora começou a engolir cuspe seco na garganta bonita que ela tinha, os rapazes mexeram os pés com nervoso miudinho, algumas meninas começaram a ficar de olhos molhados. O Olavo avisou: "quem chorar é maricas então!" e os rapazes todos ficaram com essa responsabilidade de fazer uma cara como se nada daquilo estivesse a ser lido.

Um silêncio muito estranho invadiu a sala quando o Cabrito se sentou. A camarada professora não disse nada. Ficou a olhar para mim. Respirei fundo.

Levantei-me e toda a turma estava também com os olhos pendurados em mim. Uns tinham-se virado para trás para ver bem a minha cara, outros fungavam do nariz tipo constipação de cacimbo. A Aina e a Rafaela que eram muito branquinhas estavam com as bochechas todas vermelhas e os olhos também, o Olavo ameaçou-me devagar com o dedo dele a apontar para mim. Engoli também um cuspe seco porque eu já tinha aprendido há muito tempo a ler um parágrafo depressa antes de o ler em voz alta: era aquela parte do texto em que os miúdos já não têm pena do Cão Tinhoso e querem lhe matar a qualquer momento. Mas o Ginho não queria. A Isaura não queria.

A camarada professora levantou-se, veio devagar para perto de mim, ficou quietinha. Como se quisesse me dizer alguma coisa com o corpo dela ali tão perto. Aliás, ela já tinha dito, ao me escolher para ser o último a fechar o texto, e eu estava vaidoso dessa escolha, o último normalmente era o que lia já mesmo bem. Mas naquele dia, com aquele texto, ela não sabia que em vez de me estar a premiar, estava a me castigar nessa responsabilidade de falar do Cão Tinhoso sem chorar.

- Camarada professora - interrompi numa dificuldade de falar. - Não tocou para a saída?

Ela mandou-me continuar. Voltei ao texto. Um peso me atrapalhava a voz e eu nem podia só fazer uma pausa de olhar as nuvens porque tinha que estar atento ao texto e às lágrimas. Só depois o sino tocou.

Os olhos do Ginho. Os olhos da Isaura. A mira da pressão de ar nos olhos do Cão Tinhoso com as feridas dele penduradas. Os olhos do Olavo. Os olhos da camarada professora nos meus olhos. Os meus olhos nos olhos da Isaura nos olhos do Cão Tinhoso.

Houve um silêncio como se tivessem disparado bué de tiros dentro da sala de aulas. Fechei o livro.

Olhei as nuvens.

Na oitava classe, era proibido chorar à frente dos outros rapazes.


(do livro Os da minha Rua, Editorial Caminho, 2007) Ondjaki

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

880 - Leituras de férias I
















Dedicado ao meu avô João

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O Kazukuta
Ondjaki


Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.
Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, e bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol pra lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota meio triste, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.
Acho que o Kazukuta era um cão triste porque é assim que me lembro dele. Nós mesmo não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo, não sei, devia perguntar no tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais. Sim, o Kazukuta era um cão triste.
Um dia era de tarde, e vi o tio Joaquim dar banho ao Kazukuta. Um banho longo. Fiquei espantado: o tio Joaquim que ficava até tarde a ler na sala, o tio Joaquim que nos puxava as orelhas, o tio Joaquim silencioso, como é que ele podia ficar meia hora a dar banho ao Kazukuta?
Lembro o Kazukuta a adorar aquele banho, deve ser porque era um banho sincero, deve ser porque o tio punha devagarinho frases em kimbundu ao Kazukuta, e ele depois ia adormecer. Kazukuta..., lembro bem os teus olhos doces brilharem tipo um mar de sonho só porque o tio Joaquim - o tio Joaquim silencioso - veio te dar banho de mangueira e te falou palavras tranquilas num kimbundu assim com cheiros da infância dele.
E demorou.
Nós já estávamos quase a parar a nossa brincadeira. Porque afinal a água caía nos pêlos do Kazukuta, e os pêlos ficavam assim coladinhos ao corpo, e virados para baixo como se já fossem muito pesados, e a água foi, não tinha mais, e mesmo sem fechar a torneira o tio Joaquim, com a mangueira ainda a pingar as últimas gotas dela, e no regresso do Kazukuta à casota, depois daquele abano tipo chuvisco de nós rirmos, o Tio Joaquim deu a notícia que tinha demorado aquele tempo todo para dar:
- Meninos, a tia Maria morreu.
Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:
- Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?
O tio largou a mangueira, veio nos fazer festinhas.
- Sim, podem.
Parece mesmo vi um sorriso pequenino na boca dele. O tio Joaquim era muito calado e sorria devagarinho como se nunca soubesse nada das horas e das pressas dos outros adultos. Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com inveja de vir brincar connosco também.
O tio Joaquim gostava muito de dar banho ao Kazukuta. Um dia kazukuta estava muito velho e morreu mesmo.

domingo, 26 de julho de 2009

873 - Leituras de férias

























Hum... Já sei, mais uma vez estou a ser muito ambicioso...

Enfim! estas são as minhas propostas para as minhas férias (algumas já vêm do ano passado :-( )

Sem ordem de espécie alguma

- Mia Couto; Terra Sonâmbula;
- Jean Samuel; Chamava-lhe Pikolo (o testemuno de um dos companheiros de primo Levi - O tal de "Se isto é um homem");
- Virgílio; Eneida;
- Cervantes; Don Quijote de la Mancha (versão em Castelhano comprada na saída a Salamanca de Junho)
- Fernão Lopes; Crónicas;
-Kafka; O processo;
- José Saramago; O ano da morte de Ricardo Reis;
- João dos Santos; Eu agora quero ir-me embora (releitura)
- Carlos Ruiz Zafón; El juego del Ángel;
- Ondjaki; os da minha Rua (sugestão da Jacky);
- Étienne Gilson; A Filosofia na idade média;
- Roberto Musil; O homem sem qualidades I e II (oferta de Aniversário)
- Juan José Millás; Los objectos nos llaman (Oferta de aniversário)
- Pierro Bayard; Como falar dos livros que não lemos? (sugestão da Jacky);
- José Rodrigues dos Santos; A vida num sopro;
- Henri Tincq; Os génios do Cristianismo;
- José Saramago; a viagem do elefante;
- Carlos Amaral Dias e João Sousa Monteiro; Eu agora já posso imaginar que faço (releitura);
- Núria Barba e Xavier Salomó; Marco Polo (Juvenil);
- José Rodrigues dos Santos; Sétimo selo;
- Paul Ricoeur; O si-mesmo como um outro;
- A idade média (juvenil)

Agradeço à Graça B a sugestão do You-tube que aqui fica tão bem... Palavras para quê? a questão é que há muitos dirigentes sabem bem que isto é pura verdade. Daí certas políticas da "treta" (Pão e Circo portanto)...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

869 - livros e leituras



Neste primeiro dia de férias, tal como no filme do you tube, não consigo largar o livro que comecei a ler ontem à noite: "O rapaz de pijama às riscas".

Como fazer passar o gosto pelos livros e leitura aos nossos pequenos?
Como tornar este filme you tube realidade em cada vez mais miúdos?

segunda-feira, 6 de julho de 2009

854 - ler ajuda a crescer - receita






















Ler ajuda a crescer de várias maneiras

Ingredientes:

cérebro q.b. (mesmo em mau estado e fora de prazo)

Livros grandes, médios ou pequenos, revistas, legendas, sms, email, rótulos, imagens, palavras.

1 pitada de tempo

1 sofá (opcional)

Modo de proceder:
Junte tudo lentamente, a quente ou a frio, na temperatura mais desejada. O resultado é sempre, em cada dose, agradável e singular.

Repita até aguentar

Ideia original: Centro de Recursos Poeta José Fanha

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

121 - Leituras de Outubro e Novembro



  • Os Intelectuais na Idade Média - Jacques Le Goff publicado por Ideias e formas

Leitura muito antiga, dos tempos da Universidade que nunca tinho sido acabada. Interessante, mas que exigia uma cultura geral que à altura não tinha... Impressionante ter sido recomendada como leitura a gente das ciências...



  • Mau tempo no Canal - Vitorino Nemésio da Bertrand

Outra leitura em atraso e que não tinha acabado há muitos anos atrás. História lindíssima e com belíssimos relatos que, felizmente, ficaram para a posteridade. Uma caça à baleia, um relato das festas do Santo Espírito, um cena na taberna e tantas outras sobre amores proibidos e/ou não realizados.



  • O Diário de Anne Frank - Versão definitiva editada pelos livros do Brasil

Após a visita ao anexo em Amesterdão era imprescindível a releitura. Sem palavras, que emoção, que grande emoção ter tido o privilégio de ter lá estado...



DOMINGO, 13 DE DEZEMBRO DE 1942

Querida Kitty,
Estou aqui sentada, muito confortável, no escritório da frente, a espreitar por uma fenda nas cortinas pesadas. Está a anoitecer, li mas há luz suficiente para escrever.
É realmente estranho observar as pessoas a passarem. Parecem estar todas com tanta pressa que quase tropeçam nos seus próprios pés. Os que vão de bicicleta passam tão depressa que nem consigo distinguir-lhes os rostos. As pessoas desta zona não são particularmente atraentes. As crianças, principalmente; são tão sujas que não lhes tocaria nem com um par de tenazes... Verdadeiros miúdos dos bairros de lata, todos ranhosos. Mal consigo perceber uma palavra daquilo que dizem.
Ontem à tarde, quando Margot e eu estávamos a tomar banho, eu disse:
- E se pegássemos numa cana de pesca e puxássemos cada um destes miúdos para dentro quando fossem a passar, os enfiássemos na banheira, lhes lavássemos e remendássemos as roupas, e depois...
- E depois amanhã estariam tão sujos e esfarrapados como antes - respondeu Margot.
- Mas estou a divagar. Há também outras coisas para onde olhar: carros, barcos e a chuva. Consigo ouvir o eléctrico e as crianças e entretenho-me.
Os nossos pensamentos estão sujeitos a tão poucas alterações como nós. São como um carrossel, girando entre os judeus e a comida, a comida e a política. Por falar em judeus, ontem vi dois, quando estava a espreitar pelas cortinas. Senti-me como se estivesse a olhar para uma das Sete Maravilhas do Mundo. Tive uma sensa­ção tão estranha, como se os tivesse denunciado às autoridades e estivesse agora a espiar o seu infortúnio.
Do outro lado da estrada há uma casa-barco. O capitão vive lá, com a mulher e os filhos. Tem um pequeno cão que se farta de ladrar. Conhecemos o cãozinho apenas pelo ladrar e pela cauda, que se consegue ver quando ele anda a correr no convés. Oh, que pena, começou a chover e a maior parte das pessoas está escondida debaixo dos chapéus-de-chuva. Só consigo ver gabardinas e, de vez em quando, a parte de trás de uma cabeça coberta. Na verdade, nem preciso de olhar muito. Já consigo reconhecer as mulheres apenas com um olhar: gordas por causa de comerem muitas batatas, vestidas com um casaco vermelho ou verde e calçando sapatos gastos, com um saco de compras pendurado no braço, e expressões que são severas ou bem-humoradas, dependendo do estado de espírito dos maridos.

Tua, Anne


terça-feira, 29 de agosto de 2006

80 - Leituras de Verão

Como é habitual no Verão pude dedicar-me a pôr em ordem as minhas leituras. Aqui ficam elas:
  • Diogo Freitas do Amaral - D. Afonso Henriques, Biografia. Bertrand Editora

Foi um livro de fácil leitura pois está escrito de modo a que "leigos" o possam entender. Foi uma descoberta em relação ao Freitas do Amaral.

  • Rosa Montero - Historia del Rey Transparente. Alfaguara

Está escrito em Espanhol e dele não conheço tradução em Português. Livro lindíssimo que retrata a condição humana situando a narrativa em plena idade média. Foi uma aprendizagem de muitos factos da Idade média e o colocar-se na pele da personagem central da história vivendo os seus dramas interiores e a sua aprendizagem de vida.

  • Umberto Eco - A Ilha do dia antes. Difel

Não consegui acabar de ler apesar de ter um enredo original, apresentando um naufrago isolado num barco abandonado. As referências à história da Itália e França na Idade Média, tornaram a leitura apenas acessível a "experts".

  • Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada - História de Portugal. Caminho

Livros extraordinários que contam a história de portugal de uma maneira fácil e acessível, relatando os acontecimentos e adicionando-lhe dados pitorescos desconhecidos do grande público.

Ah! e ainda houve tempo para preparar a minha tese lendo

  • Judith Bell - Como realizar um projecto de investigação. Gradiva

e

  • Robert K. Yin - Estudo de caso Planejamento e Métodos. Bookman

E não deu para mais. Quando chegarão as próximas férias?

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...