quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
42 (De amor) - Lá em baixo
apesar de ser tão noite
há quem tema a madrugada
e no escuro se afoite
há quem durma tão cansado
nem um beijo os estremece
de manhã acordarão
para o que não lhes apetece
e há quem imite os lobos
embora imitando gente
há quem lute e ao lutar
veja o mundo a andar para a frente
E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda anda gente
apesar de ser tão tarde
há quem cresça no escuro
e do dia se resguarde
há quem corra sem ter braços
para os braços que os aceitam
e seus braços juntos crescem
e entrelaçados se deitam
e a manhã traz outros braços
também juntos de outra forma
de quem luta e ao lutar
a si mesmo se transforma
E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda há quem passe
e um sonho que anda à solta
vem bater à minha porta
diz a senha da revolta
vou plantá-lo e pô-lo ao sol
até que se recomponha
é um sonho que acordado
vale bem quem ele sonha
lá em baixo, até já disse
que é que tem a ver comigo
e no entanto sobressalto
se me batem ao postigo
E tu Maria diz-me onde andas tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Lá em baixo ainda anda gente
e uma cara desconhecida
vai abrindo no escuro
uma luz como uma ferida
como a luz que corre atrás
da corrida de um cometa
e vejo vales e valados
no sopé duma valeta
lá em baixo ainda anda gente
e uma cara conhecida
vai ateando noite fora
um incêndio na avenida
És tu Maria, eu sei, já sei, és tu
qual de nós faltou hoje ao rendez-vous
qual de nós viu a noite
até ser já quase de dia
é tarde, Maria
toda a gente passou horas
em que andou desencontrado
como à espera do comboio
na paragem do autocarro
Sérgio Godinho
terça-feira, 28 de julho de 2015
10 - (De amor) - A noite passada
A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
Sérgio Godinho
1972
terça-feira, 30 de abril de 2013
1568 - Porque há alturas em que é preciso pensar um pouco no que se anda(ou) a fazer II
Para alguns daria jeito trabalhadores assim, daria...
[...Se eu mandasse neles, os teus trabalhadores,seriam uns amores. Greves era só das seis e meia às sete...Em frente ao cacetete! Primeiro de Maio só de quinze em quinze anos. Feriado em Abril só no dia dos enganos... Reivindicações quanto baste mas non tropo!]
sexta-feira, 26 de abril de 2013
1567 - Porque há alturas em que é preciso pensar um pouco no que se anda(ou) a fazer
Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
domingo, 31 de março de 2013
1564 - Flashes de uma vida
Fotos do Fogo
Sérgio Godinho
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
A guerra deu na tv
foi na retrospectiva
corpo dormente em carne viva
revi p´ra mim o cheio aceso
dos sítios tão remotos
e do corpo ileso
vou-te mostrar as fotos
olha o meu corpo ileso
Olha esta foto, eu aqui
era novo e inocente
"às suas ordens, meu tenente!"
E assim me vi no breu do mato
altivo e folgazão
ou para ser mais exacto
saudoso de outro chão
não se vê no retrato
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, é manhã
olha o nosso sorriso
noite acabou sem ser preciso
sair dos sonhos de outras camas
para empunhar o cospe-fogo e o lança-chamas
estás são e salvo e logo
"viver é bom", proclamas
Eu nesta, não fiquei bem
estou a olhar para o lado
tinham-me dito: eh soldado!
É dia de incendiar aldeias
baralha e volta a dar
o que tiveres de ideias
e tudo o que arder, queimar! no fogo assim te estreias
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Nesta outra foto, não vou
dar descanso aos teus olhos
não se distinguem os detalhes
mas nota o meu olhar, cintila
atrás da cor do sangue
vou seguindo em fila
e atrás da cor do sangue
soldado não vacila
O meu baptismo de fogo
não se vê nestas fotos
tudo tremeu e os terremotos
costumam desfocar as formas
matamos, chacinamos
violamos, oh, mas
será que não violamos
as ordens e as normas?
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
Álbum das fotos fechado
volto a ser quem não era
como a memória, a primavera
rebenta em flores impensadas
num livro as amassamos
logo após cortadas
já foi há muitos anos
e ainda as mãos geladas
Chega-te a mim
mais perto da lareira
vou-te contar
a história verdadeira
quando a recordo
sei que quase logo acordo
a morte dorme parada
nesta morada
sábado, 15 de setembro de 2012
1527 - Quem cala consente!
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
1449 - o tempo, sempre o tempo
Esta gestão e vivência do tempo acaba por ser uma "arte" e uma aprendizagem nunca completamente feita.
Se bem que, por agora, me ocupo da gestão do tempo futuro, tal a dimensão e a torrente das tarefas que me ocupam a mente por este dias, também me gosto de rever neste texto do Chico Buarque
Uma vez mais
Correr atrás
De todo o meu tempo perdido
Quem sabe, está guardado
Num relógio escondido por quem
Nem avalia o tempo que tem
Ou
Alguém o achou
Examinou
Julgou um tempo sem sentido
Quem sabe, foi usado
E está arrependido o ladrão
Que andou vivendo com o meu quinhão
Ou dorme num arquivo
Um pedaço de vida, vida
A vida que eu não gozei
Eu não respirei
Eu não existia
Mas eu estava vivo
Vivo, vivo
O tempo escorreu
O tempo era meu
E apenas queria
Haver de volta
Cada minuto que passou sem mim
Sim
Encontro enfim
Iguais a mim
Outras pessoas aturdidas
Descubro que são muitas
As horas dessas vidas que estão
Talvez postas em leilão
São
Mais de um milhão
Uma legião
Um carrilhão de horas vivas
Quem sabe, dobram juntas
As dores coletivas, quiçá
No canto mais pungente que há
Ou dançam numa torre
As nossas sobrevidas
Vidas, vidas
A se encantar
A se combinar
Em vidas futuras
E vão tomando porres
Porres, porres
Morrem de rir
Mas morrem de rir
Naquelas alturas
Pois sabem que não volta jamais
Um tempo que passou
quinta-feira, 19 de maio de 2011
1347 - Querido diário
Dia muito "bonito" hoje, sol, natureza e rodeado de gente muito boa.
Dia de viagem a uma escola a sul de Lisboa para reflectir sobre as implicações da web 2.0 para a escola.
Gostei mesmo muito da conserva, da partilha e dos momentos de conversa franca e aberta!
Do dia fica o refrão desta fabulosa música do Sérgio Godinho: "lá em baixo" a propósito de tanto se ter falado do desencontro entre educadores e alunos. Os primeiros usam ainda meios tradicionais para fazer passar a sua mensagem e os segundos aguardam-na mas noutro suporte onde eles se mexer muito melhor
"Como à espera do comboio na paragem do autocarro"
Fossem todos os dias assim ou fossem todos os dias momento belos e...
---
quarta-feira, 4 de maio de 2011
1335 - Um tempo de aprendizagem (sempre)
Um Tempo Que Passou
Chico Buarque
Vou
Uma vez mais
Correr atrás
De todo o meu tempo perdido
Quem sabe, está guardado
Num relógio escondido por quem
Nem avalia o tempo que tem
Ou
Alguém o achou
Examinou
Julgou um tempo sem sentido
Quem sabe, foi usado
E está arrependido o ladrão
Que andou vivendo com o meu quinhão
Ou dorme num arquivo
Um pedaço de vida, vida
A vida que eu não gozei
Eu não respirei
Eu não existia
Mas eu estava vivo
Vivo, vivo
O tempo escorreu
O tempo era meu
E apenas queria
Haver de volta
Cada minuto que passou sem mim
Sim
Encontro enfim
Iguais a mim
Outras pessoas aturdidas
Descubro que são muitas
As horas dessas vidas que estão
Talvez postas em leilão
São
Mais de um milhão
Uma legião
Um carrilhão de horas vivas
Quem sabe, dobram juntas
As dores coletivas, quiçá
No canto mais pungente que há
Ou dançam numa torre
As nossas sobrevidas
Vidas, vidas
A se encantar
A se combinar
Em vidas futuras
E vão tomando porres
Porres, porres
Morrem de rir
Mas morrem de rir
Naquelas alturas
Pois sabem que não volta jamais
Um tempo que passou
sábado, 12 de março de 2011
1300 - O que nos faz ser como somos...

Foi um momento absolutamente fantástico! reencontrei uma pessoa que já não via há mais de 25 anos e que era dos meus tempos de estudante em Coimbra!
Tivemos uma conversa absolutamente emotiva mas que me soube tão bem... foi como um reencontro de raízes...
A memória atraiçoa-nos quando olhamos sozinhos para trás ao fazer o balanço de perdas e ganhos, pensamos que mudámos muito e que há coisas que fazemos que podem ter razões espúrias. Fugas para a frente, sei lá. Levamos tantos anos a ser "julgados", "avaliados" a ser observados pelos outros que nos convencemos que as suas verdades sobre nós são mesmo verdades. E se fossem, perguntamos nós? e vamos interiorizando que mudámos, que já não somos fiéis ao que éramos, que isto e que isto aquilo...
Foi muito bom este momento arqueológico que nos fez consciencializar que somos o que já éramos e que o nosso percurso de vida é coerente com o que buscávamos
Já escrevi sobre isso e tenho memória duma conversa absolutamente banal que tive com a mãe de uma colega quando tinha os meus 13, 14 anos: "Voa alto! não deixes que a mediocridade seja a tua praia! voa!"
E bati as asas, procurei o belo, o amor, a perfeição e a pureza! em Coimbra ainda a procurava. Já era como sou agora. Bem me parecia mas já não me lembrava!
Tenho passado a vida a procurar esse ideal. Nunca o encontrei e já caí muitas vezes do "cavalo". Desilusões, dúvidas (muitas, muitíssimas)
J.Paul Sartre in Ensaios
E se fosse verdade o que dizem de nós? que já não somos o que pensamos que somos? que é tudo agitação e fuga?
Procurei a verdade, a beleza, ... não a encontrei?
Sim há momentos em que a encontro!
Mas deste encontro com o passado fica uma reconciliação comigo próprio. Eu sempre fui assim! (quer dizer, isto não é argumento para não polir as arestas e melhorar, porra! não vivo sozinho) mas "pode alguém ser quem não é?"
Que bom consciencializar que tenho sido fiel a um ideal! que procurei, que tentei manter-me firme e decidido!
"Podes ter uma luta que é só tua
Ou então ir e vir com as marés
Se perderes a direcção da lua
Olha a sombra que...
tens colada aos pés"
Que bom saber que nunca perdi a sombra que tenho colada aos pés! que bom!
"after changes upon changes we are more or less the same" Com tudo o que bom pode ter esta frase! fidelidade, coerência!
Não!!!! felizmente que nunca poderei fazer minhas as palavras do Álvaro de Campos:
"Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?"
Não, não falhei! tenho sido coerente a um ideal. chega? chega pois! posso olhar-me ao espelho!
---
(não consigo escrever mais... se calhar a catarse não está ainda toda feita!)
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- Senhora de preto
diga o que lhe dói
é dor ou saudade
que o peito lhe rói
o que tem, o que foi
o que dói no peito?
- É que o meu homem partiu
Disse-me na praia
frente ao paredão
“tira a tua saia
dá-me a tua mão
o teu corpo, o teu mar
teu andar, teu passo
que vai sobre as ondas, vem”
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Pode alguém ser quem não é?
Seja um bom agoiro
ou seja um mau presságio
sonhei com o choro
de alguém num naufrágio
não tenho confiança
já cansa este esperar
por uma carta em vão
“por cá me governo”
escreveu-me então
“aqui é quase Inverno
aí quase Verão
mês d'Abril, águas mil
no Brasil também tem
noites de S. João e mar”
Pode alguém ser quem não é?
É estranho no ventre
ser de outro lugar
e tão confusamente
ver desmoronar
um a um sonhos sãos
duas mãos
passando da alegria ao desamor
Pode alguém ser livre
se outro alguém não é
a algema dum outro
serve-me no pé
nas duas mãos,
sonhos vãos, pesadelos
diz-me:
Pode alguém ser quem não é?
sábado, 20 de novembro de 2010
1215 - A arte do encontro
A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
Sérgio Godinho
sábado, 5 de dezembro de 2009
974 - Três cantos
sábado, 24 de outubro de 2009
929 - que caminho tão longo (três cantos)

Estive lá! Porra, estive lá!
Claro que adorei
Claro que foram 2 horas intenssíssimas que me fizeram pensar que o tempo passa e já percorremos um caminho muito longo
Cada canção tem já uma história tão longa e tão cheia de recordações
Claro que me emocionei e até me vieram lágrimas ao olhos pois cada uma destas canções também já é minha e conta um bocado da minha história pessoal de tanto terem sido ouvidas
Claro que me soube a pouco, me soube a tanto
Gostei sobremaneira de ter ouvido no final os da minha casa dizerem que a "inquitação" era a minha canção. Ainda argumentei que o "só estou bem onde eu não estou" também dava só para não me dar por vencido mas, afinal, a minha gente já me conhece bem...
Foi lindo...
Foi inesquecível
Contai cim isto de mim para isto e para o resto...
A cantiga é, de facto, uma arma contra alguns charlatões, casimiros, xerifes que pensam que é tudo deles, e outros que tais e, sobretudo, contra a nossa acomodação.
Travessia do Deserto
Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande grande
Sem fronteira nem medida!
Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida
Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte
Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte
Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!
Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga
José Mário Branco
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
892 - toda a gente passou horas em que andou desencontrado!
Afinal faz sentido se olhado no seu conjunto?
Todos iguais, todos diferentes?
A união faz a força?
Ainda ainda, serei necessário?
Onde está o Wally?
Porra! deixem-me ir embora?
João P.
Set 09
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Emboscadas
Sérgio Godinho
Foste como quem me armasse uma emboscada
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei
Resgatei o teu sorriso
quatro vezes foi preciso
por não precisares de mim
e depois, quando dormias
fiz de conta que fugias
e que eu não ficava assim
nesta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim
Foste como quem lançasse as armadilhas
que se lançam aos amantes
quando amar foi coisa em vão
foste como quem vestisse as mascarilhas
dos embustes que se tramam
ao cair da escuridão
Resgatei o teu carinho
quatro vezes fiz o ninho
num beiral do teu jardim
e depois já em cuidado
vi no espelho do passado
a tua imagem de mim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim
Foste como quem cumprisse uma vingança
que guardava às escuras
esperando a sua vez
foste como quem me desse uma bonança
fraquejando à tempestade
de tão frágil que se fez
Resgatei o teu ciúme
quatro vezes deitei lume
ao teu corpo de marfim
e depois, como uma espada
pousei na terra queimada
o meu ramo de alecrim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
824 - E se fosse?
De volta de um compromisso profissional (e pessoal) quatro pessoas viajam num carro. Ao fim da tarde, à escuta de notícias da manisfestação dos professores ouvem na rádio, por um acaso do destino, a música abaixo.
Pára a conversa e todos a cantam à sua maneira!
Acabou por fazer todo o sentido, pois quadra a quadra, palavra a palavra, tudo era real!
(Se calhar até pode ser! e tudo poderá ser melhor - basta querer!)
A principio é simples, anda-se sozinho
passa-se nas ruas bem devagarinho
está-se bem no silêncio e no borborinho
bebe-se as certezas num copo de vinho
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Pouco a pouco o passo faz-se vagabundo
dá-se a volta ao medo, dá-se a volta ao mundo
diz-se do passado, que está moribundo
bebe-se o alento num copo sem fundo
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E é então que amigos nos oferecem leito
entra-se cansado e sai-se refeito
luta-se por tudo o que se leva a peito
bebe-se, come-se e alguém nos diz: bom proveito
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Depois vêm cansaços e o corpo fraqueja
olha-se para dentro e já pouco sobeja
pede-se o descanso, por curto que seja
apagam-se dúvidas num mar de cerveja
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
Enfim duma escolha faz-se um desafio
enfrenta-se a vida de fio a pavio
navega-se sem mar, sem vela ou navio
bebe-se a coragem até dum copo vazio
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida
E entretanto o tempo fez cinza da brasa
e outra maré cheia virá da maré vaza
nasce um novo dia e no braço outra asa
brinda-se aos amores com o vinho da casa
e vem-nos à memória uma frase batida
hoje é o primeiro dia do resto da tua vida.
Sérgio Godinho
segunda-feira, 4 de maio de 2009
796 - Um Maio que seja um outro Maio
Que força é essa?
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
Que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
Que te põe de bem com os outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
Não me digas que não me compreendes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compreendes
Que força é essa...
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa...
Sérgio Godinho
sábado, 2 de maio de 2009
791 - Primeiro de Maio
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
Que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
Que te põe de bem com os outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
Não me digas que não me compreendes
Quando os dias se tornam azedos
Não me digas que nunca sentiste
Uma força a crescer-te nos dedos
E uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compreendes
Que força é essa...
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Construir as cidades para os outros
Carregar pedras, desperdiçar
Muita força pra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa...
Sérgio Godinho
---
(Ah, quando alguém vai a uma casa onde, por motivos vários, sabe que pode ser mal recebido mas insiste em ir. Se for mal recebido a culpa é de quem?)


segunda-feira, 27 de abril de 2009
788 - Assim a modos de uma carta...
"João
Diga a um brasileiro qual o gosto, o sabor do 25 de Abril para os portugueses?
Valeu a pena?"
Aceitei-o, claro! o difícil será escrever...
Não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
Não hei-de morrer sem saber.
Mas embora escondam tudo
e me queiram cego e mudo
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
(Jorge de Sena, poesia II)
Meu Caro Rangel:
Tinha 10 anos quando se deu a revolução em Portugal. confesso que não tinha ainda sofrido na carne o que muitos sofreram: Fome, analfabetismo, a família destruída pela guerra, desempego, exílio. Por exemplo a clotilde teve uma experiência do Fascismo mais marcante. Eu não...
Sou filho de professores que tudo fizeram para que não nos faltasse nada a mim e aos meus irmãos. Sei que o meu pai por ser professor de contabilidade acumulava com um trabalho no sector privado que lhe permitia ganhar mais uns dinheiros para a casa. Sei que acabei por ser um privilegiado para a época. Não faltava comida, pudemos estudar ao contrário de uma larga percentagem que tinha de abandonar os estudos cedo
(nota: um destes dias tive acesso a umas estatísticas de 91. Repara 1991...Nessa altura a taxa de analfabetismo do país era de 15% para as mulheres e 10% para os homens!!! duas em cada três mulheres com mais de 70 anos não sabia ler nem escrever!!! podes confereir em
http://www.ine.pt/prodserv/destaque/d000516-3/hm90.pdf )
Ainda não tinha chegado a hora de irmos (eu e os meus irmãos) para a guerra nem de procurar emprego.
Lembro-me muito bem do 25 de Abril. Ía para a Escola e não cheguei a sair da rua. Uns populares mandaram-nos para casa por estar a haver uma revolução. Lembra-me como se fosse hoje de acompanhar na rádio todo o dia: Os comunicados, as marchas militares, as canções do Zeca Afonso e muitas outras que nunca tinha ouvido e me pareceram ter qualquer coisa de espacial e de diferente do que era hábito passar na rádio.... A rendição do Caetano e o primeiro notíciário às 20h.
Marcou-me sobremaneira o primeiro 1º de Maio em Liberdade. É dificílimo explicar. Todos, mas todos, saíram à rua nas cidades de cravo na mão e todos se cumprimentavam, abraçavam e se falavam. Foi absolutamente inesquecível
“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo."
Sophia de Mello Breyner Andresen
Depois fui crescendo e compreendendo cada vez melhor tudo o que tinha acontecido. Os anos de 74/75/76 foram únicos e irrepetíveis. Pairava uma sensação de Liberdade, de utopia, da possibilidade de concretização de tudo, de uma certa ingenuidade... As primeiras eleições livres
Para mim, foram tempos de descoberta: de faltar às aulas para conversar com os amigos, das sessões culturais em que ouvia Sérgio Godinho e Zeca Afonso, do grupo de teatro, de jogar Xadrez, de ir para a outra margem do rio só para me maravilhar com a cidade...
Tudo nos era permitido e tudo vivi com a responsabilidade que um míudo com estas idades podia ter (e se fui responsável: a quem muito se dá, muito lhe é exigido) Sei que muito aprendi com as conversas que mantive com adultos, colegas e professores e se sou o que sou hoje a eles lhes devo.
...
Depois
...
Fui crescendo e o país também. Percebi que fui (sou) um privilegiado e que dos míudos que comigo iniciaram a escola só poucos chegaram à faculdade.
Valeu a pena? valeu pois, alguns passos atrás não são retrocesso e como diz o poema, depois de saber o sabor da liberdade não se fica o mesmo não é? Podem dobrar-me mas já ninguém me tira o gosto de a ter saboreado e saber que a "razão mesmo vencida não deixa de ser razão"
E depois há algo que nos faz ver que valeu a pena e que não se voltou à "estaca zero". Todos os anos, a 24 de Abril à noite, vou ao largo principal da cidade onde vivo e nela se realiza um evento ao ar livre: Até à meia-noite canta-se para a gerações mais velhas, depois ouve-se o discurso da presidente da Câmara, canta-se a Grândola, recebe-se um cravo e vê-se o fogo de artifício. Depois é tempo de música para os mais novos.
Acredita que todos os anos me comovo e que sinto o sopro da Liberdade a passar! nada disto era possível antes do 25 de Abril: Tanta gente junta, novos e velhos, sem necessidade de polícia a organizar a multidão , ouvem música e confraternizam juntos... assim... estamos juntos e bebemos a sensação de que tudo é ainda possível e que o lobo e o cordeiro podem passear juntos...
Valeu a pena?
Valeu sim! mesmo que um dia nos queiram roubar! terão muito mais dificuldade. Ninguém gosta de passar de cavalo para burro
Amigo Rangel:
Tenho que terminar, pois a carta já vai longa. Imagino que haja gente que te possa dar outros olhares melhores. Este é o meu!
Um destes dias completo o "retrato"
Um abraço
João P.
"Aprende a nadar, companheiro
aprende a nadar, companheiro
Que a maré se vai levantar
que a maré se vai levantar
Que a liberdade está a passar por aqui
que a liberdade está a passar por aqui
que a liberdade está a passar por aqui
Maré alta
Maré alta
Maré alta"
sábado, 25 de abril de 2009
787 - De uma noite memorável ainda na memória
Em jeito de viagem interior, aqui fica a minha leitura da música
(agora que me lembrei de como se trabalhava com o movie maker, acho que lhe tomei o gosto!)
Assim como um postal para o Canadá
Foi a sede, foi a neve
e a falta de alguém
que me trouxe no consolo
de quem o tem
já vou, meu amor, já venho
se o despertador tocar
estarei contigo ao jantar
Rapariga mulher fácil
de compreender
teu palácio onde a chuva
não tem dizer
já estou com o cabelo enxuto
e a roupa a secar no forno
e os lábios num caldo morno
O correio hoje à tarde
trouxe um embrulho
agitei-o para ver
se fazia barulho
abri-o e era um par de luvas
e um metro de um bom riscado
estou pronto para o noivado
Passa um carro a guinchar
dentro da cidade
segue a multa por excesso
de velocidade
e eu aqui à janela
esmagando as moscas de Verão
com o corpo a dizer que não
Telefonaste a dizer
que estás atrasada
foi a sede que me fez
voltar para a estrada
mas tudo o que quis dizer
fica aqui no gravador
o medo, a alegria e a dor.
Sérgio Godinho
terça-feira, 27 de março de 2007
175 - Que é depois da vida que a gente encontra a paz prometida

Mudemos de Assunto
Andas aí a partir corações
como quem parte um baralho de cartas
cartas de amorescrevi-te eu tantas
às tantas, aos poucos
às tantas, aos poucos eu fui percebendo
às tantas eu lá fui tacteando
às cegas eu lá fui conseguindo
às cegas eu lá fui abrindo os olhos
E nos teus olhos como espelhos partidos
quis inventar uma outra narrativa
até que um dia ai me chegou aos ouvidos
e era só eu a vogar à deriva
e um animal sempre foge do fogo
e eu mal gritei: fogo!
mal eu gritei: água!
que morro de sede
achei-me encostado à parede
gritando: Livrai-me da sede!
e o mar inteiro entrou na minha casa
E nos teus olhos inundados do mar
eu naveguei contra minha vontade
mas deixa lá, que este barco a viajar
há-de chegar à gare da sua cidade
e ao desembarque a terra será mais firme
há quem afirme
há quem assegure
que é depois da vida
que a gente encontra a paz prometida
por mim marquei-lhe encontro na vida
marquei-lhe encontro ao fim da tempestade
Da tempestade,o que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois
e os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois
e a tempestade deixa o mar encrespado
por isso cuidado
mesmo muito cuidado
que é fragil o pano
que veste as velas do desengano
que nos empurra em novo oceano
frágil e resistente ao mesmo tempo
Mas isto é um canto
e não um lamento
já disse o que sinto
agora façamos o ponto
e mudemos de assunto
sim?
1905 - (da consciência de existir) O uso do telemóvel e a perda da experiência ao vivo
Há u m gesto que se tornou quase inevitável em qualquer espetáculo ao vivo: o erguer do telemóvel. No caso de um concerto em sala de espet...
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Mais outro livro que se lê num só fôlego tal a forma como nos embrenhamos nela (até ia ficando fechado no metro, na última estação, por não ...
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Bom... narcisismo também não será... Mas com eles duram não mais que três semanas e estão tão lindos aqui no jardim que resolvi fotografa-lo...
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Creio que já publiquei "isto" aqui. Não interessa! Hoje, dei de novo de caras com o vídeo e, novamente, me deliciei a vê-lo. Claro...




