Confesso que adoro as noites de trovoada (sobretudo estas que têm um ar tropical)
Guardador De Margens Rui Veloso
Enquanto a cidade inteira vai digerindo o seu jantar E todas as ruas e praças se lavam com essência de luar Enquanto as estátuas famosas bebem brandies e aveledas E as tílias se entreolham meigamente nas alamedas
Vou guardando as margens Velando os lírios do jardim
Enquanto a meia-noite encerra mais uma sessão E o senso-comum ressona tranquilo e pesado no colchão Enquanto a cidade inteira lava os dentes e faz toilete E os taxistas recolhem as sombras que restam da noite
Vou guardando as margens Velando os lírios do jardim
Enquanto a luz do promontório ensina a costa ao barqueiro E arde o rum forte no zimbório e traz lucidez ao faroleiro Vou pondo malha sobre malha com o labor dum tapeceiro Palavra, acorde, som, a talha e a devoção dum mestre-oleiro
Vou guardando as margens Velando os lírios do jardim
Enquanto a cidade inteira vai feliz na sua faina E o sol boceja na ladeira ao som do martelo e da plaina Saúdo a bruma e o orvalho e a luz do dia madrugado Guardo as cartas no baralho meu sono é enfim chegado
Vou guardando as margens Velando os lírios do jardim
Contexto: Cena familiar entre um pai, uma mãe e um filho de 14 anos
Acto 1: A mãe: O rapaz já falou contigo? O pai: ... A mãe: É que o rapaz que usar a garagem para fazer uma banda! O pai: Ah?! A mãe: sim, uma banda... Vai pôr lá uma bateria e as violas. Esteve a falar comigo... Disse-lhe para falar contigo.
Acto 2: O pai: então queres fazer uma banda? O rapaz: Sim! O pai: hum... e já tens o grupo? O rapaz: quer dizer... somos só dois... Eu toco viola e o ... também. Falta arranjar alguém que toque bateria. Não conhecemos ninguém O pai: Ah!
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E eis que o pai não morreu de susto e sobreviveu. Afinal o grupo são só dois que mal sabem tocar viola (o rapaz começou a aprender em Abril...)
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E pronto! cumpre-se a canção do Rui Veloso. Embora pessoalmente não guarde gratas recordações dos meus 14 anos. Ou melhor, de algumas vivências sim, das dúvidas e indecisões e da incerteza do futuro nadinha mesmo. não havia mesmo esterelas no céu e não me revejo na canção do "ai quem me dera ter outra vez vinte anos!"
Nao há estrelas no céu a dourar o meu caminho, Por mais amigos que tenha sinto-me sempre sozinho. De que vale ter a chave de casa para entrar, Ter uma nota no bolso pr'a cigarros e bilhar?
A primavera da vida bonita de viver, Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover. Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar, Parece que o mundo inteiro se uniu pr'a me tramar!
Passo horas no café, sem saber para onde ir, Tudo à volta é tão feio, só me apetece fugir. Vejo-me à noite ao espelho, o corpo sempre a mudar, De manhã ouço o conselho que o velho tem pr'a me dar.
Vou por ai às escondidas, a espreitar às janelas, Perdido nas avenidas e achado nas vielas. Mãe, o meu primeiro amor foi um trapézio sem rede, Sai da frente por favor, estou entre a espada e a parede.
Não vês como isto duro, ser jovem não é um posto, Ter de encarar o futuro com borbulhas no rosto. Porque é que tudo é incerto, não pode ser sempre assim, Se nao fosse o Rock and Roll, o que seria de mim?
Reconheço que me "passo" com determinado tipo de gente que nunca se engana e raramente tem dúvidas, que afirma nunca terem precisado de ajuda, que são auto-suficientes e pouco humildes... É tudo "doutores" e "engenheiros" que pouca paciência têm para ver o outro lado...
Por isso me acalma a música do Rui Veloso do Cavaleiro Andante... Tantas e tantas vezes também preciso do meu...
Mas também sei que quando a ouço é um novo dia de sol que nasce...
Poema em Linha Reta
Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó principes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.