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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

RICHARD ZIMLER

A minha última leitura... Um tema sobre o qual leio frequentemente, talvez por me assustar a tamanha barbárie na História "recente" e acreditar que não o podemos deixar cair no esquecimento de gerações futuras...

Richard Zimler é um narrador brilhante, que gostei de ficar a conhecer melhor na entrevista na Revista Ler do mês passado.

A história é-nos narrada por um sobrevivente do gueto chamado Heniek Corben, a quem terá sido relatada pelo protagonista Erik Cohen, um médico psiquiatra. Centrando-se no mistério e investigações em torno de uma série de macabros assassinatos de crianças no gueto – mortes invariavelmente embebidas em contornos de puro horror, pois os corpos surgem sempre mutilados de um, ou parte, dos seus membros –, Os Anagramas de Varsóvia é um livro cujo enredo ficcional, à imagem de todos os que se escrevem sobre uma tal temática, se vê ultrapassado, digamos assim, pelo impacto maior que sempre colhe a rememoração da vergonha humana perpetrada pelo Terceiro Reich. Não que Zimler não condimente o lado de ficção com credibilidade suficiente, pelo contrário, revela-se soberbo na gestão do evoluir dos pormenores e na elaboração do puzzle em torno dos crimes, apenas e tão-só que aquilo que, no meu entender, mais se cola à memória e o que mais brutaliza as emoções do leitor, é o plasmar da ambiência vivida no gueto, é o trazer-nos para dentro de uma atmosfera de perfídia e asfixia a que os judeus foram votados. Creio, de resto, ter sido esse um dos objectivos de Zimler. Outro, provavelmente, aquele de, e por oposição, revelar a faceta de resistência, de luta, de querer, de capacidade de sobrevivência que assiste ao Ser Humano.

Erik Cohen, a brilhante personagem criada pelo escritor, assume esse cariz heróico, de resistente, vestindo, por conseguinte, a pele da esperança; mesmo se diante das mais adversas circunstâncias, mesmo se aviltando pelo seu semelhante, mesmo se confrontado com o Homem esquecido de si mesmo, o Homem travestido a monstro, a máquina de morte, a servo da Besta. E contudo, contudo esta personagem apresenta-se a início do livro como «morta», um «homem morto». Explicação: mesmo tratando-se de um sobrevivente, qualquer um que tenha resistido aos campos da morte nazis de alguma forma morreu. Realista, brutal, cruel, doloroso, Os Anagramas de Varsóvia é um livro impiedoso, por vezes a espaços se confundindo com a malvadez que vai rememorando e esquartejando, de resto à imagem de Erik, que amiúde se revela cruel para com aqueles com quem partilha o ar que respira e a desafortunada desdita. No caso se Erik, como no de Zimler, nas suas opções, trata-se apenas de uma forma de luta – como que um «junta-te ao Mal para o entenderes e depois o denunciares»; dito de outra forma, o Mal tem que ser lembrado com todas as suas vísceras para que não seja esquecido, para que não sejam esquecidos aqueles que o sofreram na pele. O que não é de somenos importância numa época de memórias facilmente solúveis e branqueamentos históricos. (Pedro Teixeira Neves)

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