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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Alexandre

Antes de ter de devolver o livro à Biblioteca, apetece-me partilhar outro dos belos poemas de O'Neill

Alexandre

Alexandre, meu projeto,
estás a bater errado ou certo?

Errado ou certo, ainda bates!
Será viver disparate?

Esse coração que pulsa
é apenas literatura?

Esse amuo e essa ânsia,
disparates de criança?

E o A que tens bordado
no coração? Só vaidade?

E  ofilho qinda de bolso?
Será pouco?

Alexandre meu projecto,
bate, bate, errado ou certo!

Alexandre O'Neill

sábado, 30 de junho de 2012

1510 - De facto, a vida tem coisas fantásticas

 A vida, de facto, tem coisas fantásticas! Para a semana irei defender a  minha dissertação de mestrado (tenho aproveitado todos os bocaditos disponíveis para reler a dissertação e conceber respostas a perguntas que me podem ser colocadas)

Bom, estando a defesa da dissertação já prestes a acontecer é uma etapa da vida que se completa e se fecha.

Eis senão quando, chegou hoje a casa e tenho na caixa do correio um postal de uma amiga com a qual já não falo presencialmente há uns dois anos e que acaba por saber de amigos de amigos da data da minha defesa da dissertação. Foi neste contexto que acontece o postal que hoje recebi!

Confesso que me soube muito, mas muito bem e que me valeu por todo o esforço que desenvolvi.

O postal é fabuloso: apenas me deseja toda a sorte do mundo e me diz que faz todo o sentido chegar onde cheguei e que mereço este passo! Se há justiça no mundo é dar a quem o merece!
 Que mais se pode querer em alturas singulares da vida? Que bom existirem amigos (todos os amigos) que vibram connosco e nos fazem sentir que estamos certos e que a nossa vida e opções não foram uma quimera sem nexo! e que a amizade fica e que fez sentido algum sofrimento para nos mantermos firmes nas nossas convições mesmo que fossem contra tudo e todos e que chegássemos a pensar que eram "eles" que estavam certos!!!!

A todos os meus amigos (que são muitos) dedico este poema!
A todos os meus amigos que mais de perto acompanharam o meu percurso profissional nos últimos anos dedico este poema

Queria nomeá-los mas se calhar alguns ficarão de fora por mero esquecimento e isso não quero que aconteça.

De qualquer forma, alguns deles acabam por estar nomeados na 1ª página da minha dissertação. A esses mais "especiais" e que mais me acompanharam no meu mestrado, o meu obrigado !    

 














Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!
Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!
Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!
Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.
Amigo é a solidão derrotada!
Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
Alexandre O'Neill

segunda-feira, 21 de março de 2011

1307 - Dia mundial da Poesia

Dia mundial da palavra
Dia mundial da Primavera
Dia mundial do belo
Dia mundial da poesia

Aqui fica a minha homenagem

domingo, 5 de dezembro de 2010

1228 - Afinal há excepções à austeridade II












Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
[morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
[trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

*

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...



Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981

sexta-feira, 13 de março de 2009

739 - modo funcionário de viver

Posted by Picasa

como a poesia se presta a múltiplas/multiplices leituras opto pela menos ligada ao sentido literal do poema. Quem és o tu e quem é o eu?


Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz dos ombros pura e a sombra
duma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti

ALEXANDRE O'NEILL (1924-1986)

domingo, 8 de março de 2009

731 - A magia das palavras
























HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

280 - retrato dos tempos que correm



















Poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
ratos

Alexandre O'Neil

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

268 - perfilados de medo




Nos últimos tempos tenho andado com a sensação de que a loucura invadiu o nosso sistema de ensino e, com a escolha da imagem, não me quero referir apenas ao episódio da covilhã, mas ao medo que invadiu os estabelecimentos de ensino e que hnos leva a pensar duas vezes antes de abrir a boca e, quando tal é absolutamente necessário ficarmos com a noção de que nos "metemos na boca do lobo"
Será que chegaremos a isto... (mais cedo do que pensamos?)

Perfilados de medo, agradecemos
o medo que nos salva da loucura.
Decisão e coragem valem menos
a vida sem viver é mais segura.

Aventureiros já sem aventura,
perfilados de medo combatemos
irónicos fantasmas à procura
do que não fomos, do que não seremos.

Perfilados de medo, sem mais voz,
o coração nos dentes oprimido,
os loucos, os fantasmas somos nós.

Rebanho pelo medo perseguido,
já vivemos tão juntos e tão sós
que da vida perdemos o sentido…

ALEXANDRE O’NEILL

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Ah! mais uma nota a acrescentar a este panorama.
De uma noite para outra, um destes últimos dias, chegou a informação à cerejeira que tenho no meu jardim que começou o Outono.
Caiem-lhes folhas às dezenas. SErá que ela também prefere desistir a ousar?

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...