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sexta-feira, 25 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

 Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 24 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

Salgueiro Maia


Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.

Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.

Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.

Manuel Alegre

quarta-feira, 23 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

Poemarma 
 

Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua
.
Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas .

Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.

E que o poema diga: o longe é aqui. 
 
Manuel Alegre 

terça-feira, 22 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

Portugal em Paris

Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era uni furo país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris.

Vi minha pátria derramada
na Gare de Ausrerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.

E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quis
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.

Manuel Alegre

segunda-feira, 21 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

Palavras certeiras

Quero minhas palavras
necessárias como pão
ou como roupas.

Palavras duras
como pedras
como punhos
atirados
contra o esquecimento.

Palavras rápidas
e finas
que deixem
sulcos finos
tal como chicotes.

Palavras certeiras
como balas
que atinjam
cada um
exatamente
entre os olhos.

Só estas palavras
nos conhecem a todos
só estas palavras
nos chamam ao passar
o resto são vazios
histórias para dormir
maneiras de calar.

Que palavras verdadeiras
essas
são para acordar.

São palavras certeiras
como balas
que atinjam
cada um
exatamente
entre os olhos.

José Fanha

domingo, 20 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

As Mãos


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas, mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor, cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

Manuel Alegre

sábado, 19 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

 

Trova do vento que passa


Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre

sexta-feira, 18 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril


.Monangambé (O Contratado)


Naquela roça grande
não tem chuva
é o suor do meu rosto
que rega as plantações;

Naquela roça grande
tem café maduro
e aquele vermelho-cereja
são gotas do meu sangue
feitas seiva.

O café vai ser torrado
pisado,
torturado,
vai ficar negro,
negro da cor do contratado.

Negro da cor do contratado!

Perguntem às aves que cantam,
aos regatos de alegre serpentear
e ao vento forte do sertão:

Quem se levanta cedo?
quem vai à tonga?
Quem traz pela estrada longa
a tipóia ou o cacho de dendém?
Quem capina
e em paga recebe desdém
fuba podre,
peixe podre,
panos ruins,
cinquenta angolares
"porrada se refilares"?

Quem?

Quem faz o milho crescer
e os laranjais florescer?
- Quem?
Quem dá dinheiro para o patrão comprar
máquinas,
carros,
senhoras
e cabeças de pretos para os motores?

Quem faz o branco prosperar,
ter barriga grande
- ter dinheiro?
- Quem?

E as aves que cantam,
os regatos de alegre serpentear
e o vento forte do sertão
responderão:
- "Monangambééé..."

Ah! Deixem-me ao menos
subir às palmeiras
Deixem-me beber maruvo
e esquecer
diluído nas minhas bebedeiras

- "Monangambéé...'"
 António Jacinto.
.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

14 Poemas até ao dia 25 de Abril

AS ARMAS
 
No teu silêncio há um grito de protesto.
E ninguém sabe.
Há uma espingarda no teu gesto.
E ninguém sabe.
As armas estão por dentro do teu braço.
E ninguém sabe.
Ninguém sabe que tens punhais de vento
nos teus dedos.
Nem mesmo os que te seguem passo a passo
nem mesmo os que procuram os teus segredos.
Ninguém sabe que já não tens fantasmas
no pensamento.
Mas armas.
 
Manuel Alegre

quarta-feira, 16 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

Letra Para Um Hino


É possível falar sem um nó na garganta
É possível amar sem que venham proibir
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetecer dizer não grita comigo: Não.

É possível viver de outro modo.
É possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.


Manuel Alegre, O canto e as armas

terça-feira, 15 de abril de 2014

14 Poemas até ao dia 25 de Abril

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Regresso

E contudo perdendo-te encontraste.
E nem deuses nem monstros nem tiranos
te puderam deter. A mim os oceanos.
E foste. E aproximaste.

Antes de ti o mar era mistério.
Tu mostraste que o mar era só mar.
Maior do que qualquer império
foi a aventura de partir e de chegar.

Mas já no mar quem fomos é estrangeiro
e já em Portugal estrangeiros somos.
Se em cada um de nós há ainda um marinheiro
vamos achar em Portugal quem nunca fomos.

De Calicute até Lisboa sobre o sal
e o Tempo. Porque é tempo de voltar
e de voltando achar em Portugal
esse país que se perdeu de mar em mar.

Manuel Alegre

segunda-feira, 14 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

A Rapariga do País de Abril   



Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Quando vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.


Manuel Alegre

domingo, 13 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

Minha pena minha espada

Dois países num país
Canto o escravo ou o senhor
Canto a dor que se não diz
Canto a dor

Minha pena a quem prendeu
Guitarras com que cantavas
Solta as aves que cresceram
Nas palavras

Rasga os silêncios e canta
Vestida de terra e lua
Solta o vento na garganta
Desce à rua

Minha pena baioneta
Meu navio a minha enxada
Minha pena de poeta
Minha espada

Esta rua é teu país
E a quem se senta no trono
Vai e diz, vai e diz
Os homens não têm dono


Manuel Alegre

sábado, 12 de abril de 2014

14 Poemas até ao dia 25 de Abril

Canção tão simples

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?

Manuel Alegre

terça-feira, 30 de abril de 2013

1568 - Porque há alturas em que é preciso pensar um pouco no que se anda(ou) a fazer II



Para alguns daria jeito trabalhadores assim, daria...
[...Se eu mandasse neles, os teus trabalhadores,seriam uns amores. Greves era só das seis e meia às sete...Em frente ao cacetete! Primeiro de Maio só de quinze em quinze anos. Feriado em Abril só no dia dos enganos... Reivindicações quanto baste mas non tropo!]

sexta-feira, 26 de abril de 2013

1567 - Porque há alturas em que é preciso pensar um pouco no que se anda(ou) a fazer

 

 

 

 

 

Liberdade

Sérgio Godinho

 



Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão
habitação
saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir
quando pertencer ao povo o que o povo produzir

domingo, 17 de fevereiro de 2013

1559 - Afinal vai havendo uma réstia de esperança

Afinal vai havendo uma réstia de esperança quando em Portugal e Espanha se faz compreender aos que nos governam que a corda já rebentou e há limites que não podem ser passados.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

1492 - Apesar de tudo

Apesar do
que nos querem fazer crer
que nos querem fazer crer
que nos querem fazer crer
estamos vivos
e o espírito de abril não morreu.

Ficam desde já a saber
ficámos um pouco mais fortes

joão p
abril 2012

quarta-feira, 27 de abril de 2011

1330 - 26 de Abril de 2011

















Confesso que estas comemorações de Abril me deixaram, nestes dias, um certo amargo de boca, sendo paradigmático de um certo estado de coisas a voz off de um locutor de continuidade da SIC ao anunciar que a programação do dia 25 seria "revolucionária" (real) pois iriam passar um filme sobre Letícia e o príncipe das Astúrias e mais à frente um filme sobre Kate e Guilhereme!

Veja-se o despautério!

A RTP esteve bem melhor com o programa sobre o Zeca e os três cantos mais uma série de músicas de Abril na RTP Memória

Bem sei que as comemorações de Abril cada vez irão dizer menos às novas gerações (embora se trate de comemorar a liberdade e não apenas um acontecimento datado históricamente!) mas parece-me que, tal como o Zé Mário escreveu há uns anos: "saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho?"
  
Confesso que me souberam muito bem ouvir as canções que marcaram a minha vida, mas também acho que isto das canções só por si não faz muito sentido numa altura em que; à mesma hora, temos o FMI a negociar no Terreiro do Paço

Parece-me estar a haver um curto circuito lógico nisto tudo

sim, bem sei que tem havido contestação com grandes manifestações em todo o país mas...

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...