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domingo, 10 de julho de 2016

1326 (Da condição humana) - A Humanidade

A HUMANIDADE
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

[...]
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa do regresso

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

domingo, 3 de julho de 2016

1323 - (do belo) As fontes

As Fontes

"Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser."

Sophia de Mello Breyner Andresen 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

47 - (Da cidadania) Porque

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 13 de julho de 2015

6 - (de sentido protesto) - Porque

Porque

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

                      Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

378 - Porque hoje é dia de lembrar Sophia (e mesmo que não fosse)














Sea

I
Of all the corners of the world
I love with a stronger and deeper love
That beach enraptured and bare
Where I become one with the sea, the wind and the moon.

II
I smell the land the trees and the wind
That the Spring fills with perfume
But in them I only want and only look
For the wild exhalation of the waves
Rising to the stars as a pure cry.


Mar

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Poesia I

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, 25 de abril de 2014

14 poemas até ao dia 25 de Abril

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

 Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 12 de novembro de 2011

1424 - Pequenos momentos que se fazem enormes

1- Na 5ª feira andei todo o dia pelo Seixal. Capto os momentos... de manhãzinha, nevoeiro, maré baixa,, uma magnífica Garça está na baía. Tive pena de não ter tido tempo para parar o carro e tirar uma foto. A ave era linda!!! 














2 - Hora de almoço - Revejo a magnífica árvore que fotografei em Outubro. 


















3 - Entardecer. regresso a casa e o momento é profundamente belo na estrada que circula a baía. Tenho pena de nenhuma foto poder captar os breves minutos do entardecer. é a luz nas janelas antigas, é o violeta no céu, é a cor de prata no mar, é a lua que desponta... absolutamente maravilhoso

4 - Na 6ª feira só me lembro, durante todo o dia do belo texto da Sohia. As palavras são belas demais para serem usadas assim por alguns...

Com Fúria e Raiva 

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
 

5 - Hoje, no meu jardim... Finalmente após 4 anos as laranjeiras deram frutos! estive para as arrancar, adubei-as, estive para as arrancar, pus-lhes produto para mil e uma pragas, errei, adubei, este ano tive frutos. 4 numa e 12 noutra!
Outros frutos hão-de desabrochar. é preciso ter a paciência do jardineiro noutras dimensões da vida   


segunda-feira, 25 de abril de 2011

1329 - Perto do mar (o resto pouco importa)



Não que os dias tenham estado bonitos e solarengos (até apanhei duas molhas daquelas que se tem que tirar a roupa toda)mas valeram alguns flashes, aqui e ali

Gostei sobrenamaneira de ouvir o barulho do mar num por do sol absolutamente fora do comum

Mar Sonoro


"Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim."
 
Sophia de Mello Breyner Andresen







segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

1249 - Beira mar




Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.

A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen























Iemanjá Rainha do Mar

Maria Bethânia
Composição: Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro

Quanto nome tem a Rainha do Mar?
Quanto nome tem a Rainha do Mar?

Dandalunda, Janaína,
Marabô, Princesa de Aiocá,
Inaê, Sereia, Mucunã,
Maria, Dona Iemanjá.

Onde ela vive?
Onde ela mora?

Nas águas,
Na loca de pedra,
Num palácio encantado,
No fundo do mar.

O que ela gosta?
O que ela adora?

Perfume,
Flor, espelho e pente
Toda sorte de presente
Pra ela se enfeitar.

Como se saúda a Rainha do Mar?
Como se saúda a Rainha do Mar?

Alodê, Odofiaba,
Minha-mãe, Mãe-d'água,
Odoyá!

Qual é seu dia,
Nossa Senhora?

É dia dois de Fevereiro
Quando na beira da praia
Eu vou me abençoar.

O que ela canta?
Por que ela chora?

Só canta cantiga bonita
Chora quando fica aflita
Se você chorar.

Quem é que já viu a Rainha do Mar?
Quem é que já viu a Rainha do Mar?

Pescador e marinheiro
que escuta a sereia cantar
é com o povo que é praiero
que dona Iemanjá quer se casar.

Beira-Mar

Maria Bethânia

Composição: Roberto Mendes/Capinan

Dentro do mar tem rio...
Dentro de mim tem o quê?
Vento, raio, trovão
As águas do meu querer

Dentro do mar tem rio...
Lágrima, chuva, aguaceiro
Dentro do rio tem um terreiro
Dentro do terreiro tem o quê?

Dentro do raio trovão
E o raio logo se vê
Depois da dor se acende
Tua ausência na canção

Deságua em mim a paixão
No coração de um berreiro
Dentro de você o quê?
Chamas de amor em vão

Um mar de sim e de não
Dentro do mar tem rio
É calmaria e trovão
Dentro de mim tem o quê?

Dentro da dor a canção
Dentro do guerreiro flor
Dama de espada na mão
Dentro de mim tem você

Beira-mar
Beira-mar
Ê ê beira mar
Cheguei agora
Ê ê beira-mar
Beira-mar beira de rio
Ê ê beira-mar

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

1239 - A minha playlist



Esta também é uma das imprescindíveis na minha playlist. Conheço-a de há muitos anos e na minha juventude tinha-a como lema/ideal

Hoje em dia, já não estou certo de poder dizer o "tu não" que dizia com convicção há anos atrás...
Tive que aprender a ser "hábil" e a "calar-me", no entanto há outros "tu não" que me orgulho de poder continuar a afirmar.
Do que mais me orgulho é o de ainda falhar os cálculos e ir de mãos dadas com o perigo. Como dizia alguém esta semana, "quem nunca arriscou, nunca deu o beijo da sua vida". Felizmente que continuo vivo! Felizmente que não vou à sombra dos abrigos e procuro manter um rumo.
Voa alto... voltamos ao início do blogue!


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andersen

terça-feira, 15 de junho de 2010

1126 - Mas eu conheço algumas...



RETRATO DE MÓNICA

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da «Liga Internacional das Mulheres Inúteis», ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.

Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem-se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.

Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.

De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.

A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.

Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, «qualquer distracção pode causar a morte do artista». Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.

Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.

Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.

O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.

É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.

E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.

Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.

Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente, nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.

Não é o desejo do amor que os une. O que os une e justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio; mais firme fundamento do seu poder.


Sophia de Mello Breyner Andresen
Contos Exemplares
Porto, Figueirinhas, 1996 (29ª ed.).

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Das árvores




Movida pelo pedido de uma colega de escola, trouxe para leitura de fim de semana A árvore, de Sophia de Mello Breyner Andresen. O livro inclui também o conto "O espelho ou o retrato vivo", sendo ambos inspirados em contos japoneses, como nos explica a autora numa nota inicial.

Deliciei-me com a leitura (rápida, mas intensa!) à beira-mar, temperada por uns raios de sol quentinhos... Concluo que esta é mais uma "arca" quase inesgotável da nossa literatura. Sophia de Mello Breyner Andresen surpreende-nos sempre. A simplicidade (vulgo claridade) das suas palavras, remeteu-me de imediato para uma actividade de intertextualidade que proporei a propósito deste seu livro e da obra A árvore generosa, de Shel Silverstein. Partindo da utilidade da árvore, procurarei chegar à "importância das pessoas"... em qualquer idade!

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

944 - De volta a Lisboa

Após dois meses de trabalho intenssíssimo as coisas voltam lentamente às rotinas. Continua um ritmo louco mas, pelo menos, já há paciência e lucidez para conceber um pause, ainda que pequena.

Retomei os passeios de sexta à tarde.

A tarde começou com a saída na estação do metro do terreiro do paço e com uma bica no Martinho da Arcada


Depois foi começar a subir a Mouraria. A próxima paragem foi na Sé e com o espanto da descoberta dos claustros da Sé. Simplesmente fabuloso! aquelas escavações que pôem a descoberto a Lisboa medieval, A Lisboa árabe, a Lisboa romana é, simplemente, impressionante. A quantidade de civilizações e gentes de aqui veveram antes de mim. Quantos sonhos e vidas por aqui passaram.



Depois, pela primeira, vez uma visita ao teatro romano! Conceber como teria sido a Lisboa de outras era é uma tarefa intressantíssima. Que surpresas nos reservará ainda a Lisboa subterrânea?


A paragem seguinte foi à porta da casa onde viveu Ary dos Santos. Daqui se entende todo o seu amor por Lisboa e a poesia que escreveu sobre ela. Como poderia ser outra coisa com a poesia a entrar pela janela dentro?



Por fim a chegada ao castelo e a maravilha das vistas e dos telhados vermelhos.



Dei de caras com o Ricardo Reis a abrir a janela de sua casa no Miradouro de Santa Catarina: " Ricardo Reis aproximou-se duma janela, através da vidraça sem cortina viu as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante, os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar, demorando aqui um pouco logo veremos,[...] Ricardo Reis percorreu de novo toda a casa, não pensava, olhava apenas, depois foi à janela, a proa dos barcos estava virada para cima, para montante, sinal de que a maré descia. Os velhos continuavam sentados no mesmo banco."
(José Saramago: O ano da Morte de Ricardo Reis)

Então meu caro Ricardo Reis... Com que então fugiste do Hotel Bragança? Arranjaste-a bonita! algo andaste a tramar... Sim, vejo-te à janela da tua nova casa e imagino-te... não tens fuga. Razão tinha o Pimenta... Chamado à PVDE, boa rez não podes ser...
Eu vejo-te daqui, aceno-te. Será que me estás a ver?

Mais tarde, dei de caras com a Sophia num banco...

LISBOA

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver

E não é que, mais tarde, na rádio se falava do nonagésimo aniversário de Sophia e se a ouvia em gravações antigas?

domingo, 11 de novembro de 2007

277 - Mar sem fim















Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que suponho
Seres um milagre criado só para mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Mar Sonoro

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

149 - porque

Posted by Picasa
Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas "
Sophia de Mello Breyner , em Livro sexto

segunda-feira, 29 de janeiro de 2007

144 - Estados de Alma

Posted by Picasa

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos
Perdida por silêncio e por renúncia
Até a voz do mar se torna exílio
E a luz que nos rodeia é como grades

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

140 - E quando nada nos apetece?



















E quando não nos apetece nada e estamos de mal com o mundo, com o país, com os outros, connosco mesmo, sem que haja um motivo específico ou saibamos porquê...

E quando não há mesmo paciência para aturar isto, porque não.

E quando estamos cheios de ouvir auto-justificações e auto-elogios e tanta desfacatez...

E quando já transbordou a nossa taça e estamos cheios.

E quando

....

E se descobrissemos, sem que por isso nos estejamos a pôr no pedestal, que a Sophia estava cheia de razão ao escrever o poema

E se descobríssemos que o problema pode estar no facto de muitos calcularem e tu não o saberes fazer e, com isso, poderes dar como os "costados no chão"

....

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andresen


....
imagem retirada daqui

quarta-feira, 5 de julho de 2006

45 - Lisboa

Hoje ouvi um estrangeiro a dizer isto isto em Inglês (poema traduzido) e fez sentido... Até imaginei que ele tinha captado o "espírito português"...
Em sua homenagem e em homenagem à Sophia, aqui fica registado.


Lisboa


Digo "Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se o seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se na sua extensão nocturna
No seu longo luzir de azul e rio
No seu corpo amontoado de colinas...

Lisboa com o seu nome de ser e de não ser
Com os seus meandros de espanto insónia e lata
O seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
O seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida
Ao longo da sua própria ausência...
Digo o nome da cidade
Digo para ver

(Sophia de Mello Breyner Andersen)

(imagem retirada
daqui)

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...