quarta-feira, 8 de junho de 2011
1360 - imagens
Na 5ª ao final da tarde andei por Sintra para que uns Holandeses a conhecessem.
Deu que pensar, pois perdi-me à entrada de Sintra visto que há já uma auto-estrada que desconhecia. Fiquei com a noção que há imenso tempo que lá não ia!
Que diabo! Só fechado em casa não dá
Após uma hora em Sintra (e cheguei lá pelas18h ao fim do dia de trabalho) parecia outro e pareceu que já era fim de semana.
Estas pequenas pausas são mesmos fundamentais!
Estas cores do fim da tarde são fabulosas
domingo, 15 de maio de 2011
1342 - momentos de prazer II
A noite terminou, numa esplanada a beber uma imperial pois a noite era de Verão (e muito melhor que muitas noites de Verão em que acaba por soprar algum vento...) Felizmente que a vida nos vai recarregando as baterias de vez em quando!)
segunda-feira, 25 de abril de 2011
1329 - Perto do mar (o resto pouco importa)
Não que os dias tenham estado bonitos e solarengos (até apanhei duas molhas daquelas que se tem que tirar a roupa toda)mas valeram alguns flashes, aqui e ali
Gostei sobrenamaneira de ouvir o barulho do mar num por do sol absolutamente fora do comum
Mar Sonoro
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim."
Sophia de Mello Breyner Andresen
domingo, 6 de fevereiro de 2011
1275 - pequenos prazeres ou viver o momento
Ontem
Hoje

Eu vi a buganvília a dançar na ventania
a trepar numa janela
eu vi a buganvília entre o acender da lua
e o encanto da manhã
Eu vi a buganvília de noite junto ao lago
a molhar o seu sorriso
Sonhara que morrera nos ramos da buganvília
nos tons do seu vestido
Eu vi a buganvília a fazer do teu vermelho
um bordado marinheiro
quando encontras o sol no branco da cal
te pões de amarelo
Eu vi a buganvília a dançar na ventania
a trepar numa janela
eu vi a buganvília entre o acender da lua
e o encanto da manhã
Eu vi a buganvília de noite junto ao lago
a molhar o seu sorriso
sonhara que morrera nos ramos da buganvília
nos tons do seu vestido
João Afonso
domingo, 2 de janeiro de 2011
1247 - 31 de Dezembro 2010
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
1214 - entardeceres...
Que belo! que bela comunhão!
Que génio este Mozart!
Todos haveriam de ter pelo menos 5 minutos diários tipo "zen"
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
1209 - qualquer coisa de fabuloso
É absolutamente fabuloso e acerta em cheio num dos meus pontos fracos: O livro pop-up
Obrigado Teresa
sábado, 16 de outubro de 2010
1196 - Para memória futura
Não pude deixar de ficar preso à televisão. O (re)nascimento daqueles 33 homens ligados à terra (vida) por um cordão umbilical que os alimentou desde Agosto e que agora reapareceram/nasceram/regressaram do túmulo de onde a mãe natureza nos costuma receber/abraçar no fim das nossas vidas!
Que celebração de vida, que magnífico é o ser humano quando decide empenhar-se a sério pelo outro!
Por estes dias sou chileno! (e mais humano também)
Obrigado Margarida Costa pelo link dos Sinais TSF. Tinha-me passado despercebido
2 - IV conferência do PNL e a homenagem a Matilde Rosa Araújo
Ontem passei pela Gulbenkian. Para além de alguns momentos muito agradáveis, comoveu-me a homenagem a Matilde Rosa Araújo. Simples, singela, como ela afinal o era. Foi passado um excerto do programa Clube de Leitura onde ela, quando entrevistada, disse mais ou menos isto
"vivi
Procurei fazê-lo de uma forma séria e honesta"
E não precisava de dizer mais nada!
Foi belo de mais para ter tempo de anotar/rabiscar no meu bloco toda a profundidade de pequenas frases
Tem sempre paciência para as pessoas?
Tenho. [Ri.] Elas é que podem não ter sempre paciência para mim. Às vezes chegam a ser menos amáveis...
Estão a perder a amabilidade?
Os adultos sim, não as crianças. Talvez por uma questão de defesa, de pouca disponibilidade, de impaciência. Esquecem com facilidade que problemas sempre houve, problemas de toda a ordem, de sentido de vida, de afectividade, de afirmação, de insegurança.
Hoje esses problemas são maiores?
Não sei. As pessoas estão é mais conscientes deles. Isso torna-as interiormente mais vulneráveis, mais crispadas. Sabem mais o que deviam ter e não têm. Não por ambição, mas por sentido de justiça. Hoje há mais consciência das injustiças do que havia no passado.
Apesar de elas serem, no passado, maiores?
Sim. Antes havia nas camadas populares mais conformismo.
Quando pensava no futuro, pensava que era este o futuro que ia ter?
Eu tinha uma ideia de futuro como o de uma época de entendimento, de equilíbrio, de alguma felicidade.
O que era alguma felicidade?
Era as pessoas poderem ser aquilo que são. Aquilo que podem ser, dentro dos seus sonhos, das suas generosidades.
Vê muitos sonhos, muitas generosidades à sua volta?
Vejo, tenho visto mesmo muito altruísmo. Chego a pensar: que sorte tive por ter vivido este tempo, já tão longo, que me coube. Que sorte tive por haver conhecido as pessoas que conheci. Pessoas que sentiram pela vida, e pelos outros, muito, muito amor.
Caso de...
Caso de uma Maria Lamas, de uma Irene Lisboa, de um Agostinho da Silva, de um Gomes Ferreira, de um Ferreira de Castro, de um Assis Esperança, de um Cochofel, de uma Vergínia Lopes de Mendonça, de um Manuel da Fonseca, de um Sidónio Muralha, de um Ruy Cinatti, de tantos, oh, tantos outros!
Solidão, tem?
Todos temos. Precisamos é de aprender a dar golpes de rins para lhe escapar, para a enfrentar. A solidão acompanha-nos pela vida fora, faz parte de nós, tão profundamente que não existe, não existe uma verdadeira solidão...
O contrário também é verdade!
Também. Mas eu nunca me senti muito isolada. Sempre tive o afecto das crianças e dos amigos, e quando se tem afecto o resto torna-se secundário.
As crianças sofrem muito de solidão?
Muito. Há imensas crianças abandonadas, desprezadas...
Por que será que as tratamos tão mal?
Não sei. Somos de costumes brandos para todos menos para elas. Será por serem um desperdício, por virem sem ser desejadas, por terem o tempo que nós já não temos?
Talvez. Elas não são vistas como seres autónomos. Desde pequeninas que procuramos deformá-las, desde pequeninas que elas ouvem dizer: “Cresce e aparece, já a formiga tem catarro...”
E isso afecta-as?
Pois afecta. É horrível!
Dá muita importância ao passado?
Dou. É o meu património interior. Graças a ele atingi uma certa serenidade. Há mesmo coisas dele que me custaria muito perder...
Por exemplo?
Por exemplo, a nossa língua, a nossa literatura.
Receia pelo seu futuro?
Um pouco. Algumas línguas, algumas literaturas estrangeiras estão a exercer uma influência muito negativa sobre elas. Vamos a ver se resistem. Felizmente que os brasileiros estão a fazer força na sua defesa e na sua expansão.
Nunca se achou vítima, mal amada...?
Não, pelo contrário. Não conservo memória de mágoa de coisa nenhuma. Como se houvesse dentro de mim um mecanismo que o impedisse. Ninguém recebe aquilo que não dá.
Está mais do lado de dar do que do receber, como dizia Agostinho da Silva?
Oh, o nosso Agostinho! Esse sim, esse esteve sempre do lado de dar. Escrever e ensinar são a minha maneira de o fazer. O que é curioso é que quando comecei a ensinar não queria ser professora. Apetecia-me era continuar na faculdade, era tudo tão bom lá, os professores, os colegas, o Mário Soares, a Maria Barroso, a Maria Judite de Carvalho, a Luísa Dacosta, o Sebastião da Gama, o Lindley Cintra, o Urbano, o David, a Lurdes Belchior, o Joel Serrão, a Natércia Rocha, o Eurico Lisboa foram meus colegas. Sou uma espécie de dinossauro de uma geração.
Uma geração de notáveis...
Sim. Foi um tempo muito feliz, esse. Eu estudava por prazer. Quem não se sentiria maravilhado com mestres como Delfim Santos, Hernâni Cidade, Jacinto Prado Coelho, Vitorino Nemésio? Hoje a meta é tirar cursos, ter canudos que garantam empregos.
Já não garantem...
Pois não. Quando acabei Românicas pôs-se-me o problema do que fazer. Colocaram-me então numa escola técnica a dar Geografia Económica. Envergonhada e aflita por não saber nada da matéria, pus-me a estudá-la. Lá reagi. Nunca desisto, nunca tive tendências suicidas.
Nunca?
Não. Tenho muita pena que existam condições que propiciem o suicídio, cargas que o provoquem. É um gesto que respeito, às vezes é uma libertação. Preferia, no entanto, que todos conseguissem amar a vida.
Esteve muito tempo em escolas técnicas?
Eu estive sempre em escolas técnicas, por todo o país. Fui para a província, logo após o estágio, e por lá andei muitos anos, como uma nau Catrineta, de terra em terra, Almada, Barreiro, Elvas, Portalegre, em Portalegre conheci o José Régio, dava aulas no liceu, foi maravilhoso tê-lo encontrado.
Diziam que era uma pessoa um bocado complicada...
Pois diziam. Mas para mim não, para mim foi sempre muito generoso, demo-nos sempre muito bem. Depois do Alentejo fui para o Norte, para o Porto. A seguir ao 25 de Abril colocaram-me na Escola do Magistério Primário de Lisboa a dar aulas de Literatura Infantil aos professores.
Foi uma promoção?
Creio que não. Creio que se tratou apenas de uma mudança surgida na sequência da criação dessa cadeira. Foi a Dulce Rebelo e eu que fizemos o programa da disciplina.
Ah, é devido a si que as pobres das criancinhas têm de gramar as estuchas literárias que lhes dão...
Engana-se redondamente! Redondamente! Elas aceitam muito bem, muitíssimo bem a literatura. Em França, na Espanha, na Inglaterra, passa-se o mesmo. Os livros para as crianças e jovens são, não o esqueçamos, cada vez mais interessantes, mais variados. Alguns professores têm desenvolvido um trabalho de sensibilização para a leitura deveras notável. Trabalho que já vem de trás, que tem raízes profundas. O António Sérgio, o Jaime Cortezão, o Aquilino, a Ana de Castro Osório dedicaram-lhe grande atenção. Sabiam que escrever para crianças não era escrever para leitores menores.E a Matilde, como começou?
A escrever? Comecei sem dar por isso. O contacto com as pessoas dos locais por onde andava fez-me apetecer ficcionar sobre elas.
Não era duro para uma jovem ser atirada, assim, sem condições, de terra para terra?
Era, era muito duro esse flutuar ora pelas planícies, ora pelas serras, de quarto alugado em quarto alugado...
Gostava de viver em quartos alugados?
Gostei. Eu vinha, porém, muitas vezes a Lisboa, para estar com os meus, conviver com os amigos. Um dos meus pequenos prazeres era andar de eléctrico. O eléctrico é um transporte muito simpático! É estável, é lento, é alegre. Conheci muita gente, ouvi muitas confidências nessas deambulações. Hoje quase não existem. Lisboa perdeu qualidade de vida, está uma cidade agressiva. Mas continuo a gostar dela. Continuo a gostar dos cafés que ainda existem, dos teatros, sempre amei o teatro. Fiz até bastante teatro na faculdade.
Escreveu?
Não, não, representei. Representei inclusive no Parque Mayer...
Andou a dar à perna no Parque Mayer?!
Ah, ah! Foi uma revista que fizemos lá. Era uma alegria. Representámos Molière, Torga, o David Mourão Ferreira também entrava. Essas experiências foram muito enriquecedoras. Se as não tivesse vivido, talvez não me tivesse encontrado. Nem escrito. Um dia dei comigo a redigir poemas. Fiquei surpresa. Quando vim a Lisboa, mostrei-os à Maria Lúcia Namorado, que dirigia então a revista “Os Nossos Filhos”. Ela publicou-os em livro, com a chancela da revista, ilustrados por crianças. O Calvet de Magalhães, o professor, ajudou no grafismo. Mais tarde, o Lopes Graça musicou os versos. Gostei muito dessa experiência, deu-me uma grande alegria. Deu-me também uma grande alegria a tese que fiz sobre jornalismo. Lamentavelmente perdi-a. Deve haver um exemplar na Biblioteca Nacional. Comecei pelo Fernão Mendes Pinto, pelo Fernão Lopes, por esses grandes cronistas repórteres. Fi-la com muito entusiasmo. Aliás, o jornalismo interessou-me primeiro que a literatura infantil. Colaborei muito em jornais e revistas.
E já não colabora?
Não. A imprensa tinha um papel muito importante a cumprir. Não devia limitar-se a ser, como sucede actualmente, um mero reflexo do que acontece. Devia ir mais longe, mais fundo, ser mais rica, sobretudo a televisão, para valorizar o público. Público infantil e não infantil. Ninguém vive separado do meio que o rodeia. Ninguém vive longe das palavras, dos gestos, das pressas, da poluição, da violência que existem à sua volta. Como não vive, acaba por confundir, às vezes de forma trágica, a realidade e a ficção. Com as crianças passa-se muito isso, não por menoridade, mas por excesso de imaginação. Por necessidade de sonho, de poesia. A poesia é muito necessária à criança, está-lhe muito presente. Ela tem uma linguagem muito poética, diz coisas maravilhosas sem ter consciência de que as diz.
O regime, a censura, a polícia, essas coisas todas não lhe saíram ao caminho?
Directamente, não. Eu fui sempre dizendo o que sentia de uma maneira honesta, suave, não agressiva. Por outro lado, a literatura infantil era pouco considerada, pouco importante para o poder. Houve sempre, continua a haver, preconceitos em relação a ela. O horrível surgiu quando a PIDE assaltou e fechou a Sociedade Portuguesa de Escritores, a cuja direcção eu pertencia, por termos dado o prémio ao Luandino Vieira. Estragaram a sede que tínhamos na Rua da Escola Politécnica.Fazia militância política?
Militância política? Prefiro chamar-lhe participação política. Não possuía resistência para ir além disso...
Para ir além disso é preciso ter ressentimento?
Não necessariamente. Sou, aliás, incapaz de guardar ressentimentos.
Quer dizer que se o Salazar a convidasse para tomar chá...
Tomar chá?! Não ia!
Não ia? Mas diz-se que ele era uma pessoa encantadora...
Ah, ah! Não ia. Achava que ele se tinha enganado. Dizia-lho e não ia.
Dizia?
Dizia. Tinha a lealdade de lho dizer.
Dá-se bem com políticos?
Se são amigos pessoais, dou.
Mas não é uma entusiástica do poder...
Não, não sou. Nunca quis o poder. Nem dentro dos meus pequenos círculos. Já dá tanto trabalho mandarmos em nós próprios, quanto mais nos outros.
Por que se fartou da província?
Não fartei nada, que ideia! Efectivei-me e fui mandada para Lisboa. Eu era mandada, era um soldado...
Ora, com o prestígio que tinha facilmente arranjava cunhas para a colocarem onde quisesse.
Não é verdade. Eu não podia interferir nessas decisões.
Nunca teve alunos que se rebelaram contra si?
Contra mim? Não dei por isso!
Continua a ir todos os dias à escola?
Não. Agora vou só duas vezes por semana. Dou aulas a professores e educadores no Jardim-Escola João de Deus. Aulas de Literatura para a Infância e Juventude. Vou também muito a outras escolas falar de literatura, faço conferências, colóquios, essas coisas.
Os alunos gostam?
Gostam. As pessoas de uma maneira geral, e ao contrário do que se diz, gostam de ler, gostam de livros, gostam de conversar sobre livros.
A ideia de que se lê menos não corresponde, então, à verdade?
Corresponde só até certo ponto. Desde que sejam motivadas, as pessoas lêem. A leitura é uma troca de afectos... eu comecei a ler desde muito nova. A ler tudo. E compreendia tudo. Sempre tive, aliás, sensação de ser mais velha do que era. Mesmo em pequena. Às vezes fico com a sensação de que nunca fui criança. De não ter memória de criança.
Não foi feliz em criança?
Fui, fui até muito feliz. Mas tive sempre a ideia de ter esta idade. Talvez por isso encarei, desde jovem, o envelhecimento com serenidade, como um percurso a fazer amenamente. Desejava era não perder faculdades, estar plenamente viva enquanto viva. O trágico é que nós não somos preparados, não nos preparamos para essa caminhada. Pelo contrário, fugimos dela, recusamo-la, enaltecemos pateticamente o efémero...
A moda, a publicidade são terríveis nisso...
Pois são. Criam muito medo, muita violência nas pessoas. Medo delas próprias e dos outros. De que os outros não as aceitem.
E aceitam?
Por vezes não. O julgamento dos outros é, sob esse aspecto, cruel, muitíssimo cruel. Preocupei-me sempre em abordar o fenómeno do envelhecimento nos meus livros. As crianças precisam de o encarar com naturalidade, precisam de não ter receio do tempo. E à partida não têm. Veja-se a relação privilegiada que existe entre as crianças e os avós. É preciso preservá-la, recuperá-la. O prof. João dos Santos dizia que o homem é a sua infância. Foi ele, aliás, que inspirou a criação do Instituto de Apoio à Criança, presidido pela Manuela Eanes, onde se desenvolve um trabalho muito sério. Eu própria colaborei no seu lançamento. É uma pena não se poder fazer mais neste campo.As crianças não votam...
Pois não. Só de dedinho no ar! Também se votassem já não eram crianças. Mas olhe que elas sabem bem o que querem.
São manhosas, não?
Ah, ah! Algumas são bem manhosas, de facto. São tão engraçadas com os seus subterfúgios. Com as suas argúcias, os seus mistérios. No outro dia, a neta da Maria Alberta Menéres disse-nos: “A vida está mal feita. Devia ser ao contrário. As pessoas deviam nascer velhinhas, muito velhinhas, depois ficavam novas, cada vez mais novas até que se metiam outra vez na barriga das mães.” Não é tão bonito?
Gostava que fosse assim?
Penso que não. Se fosse assim, já sabíamos tudo à partida, não fazia sentido viver. Era como ver um filme ao contrário, ler um livro do fim para o princípio. É tudo tão complicado, tão contraditório. Daí que seja cada vez mais necessário encontrar o outro lado, o lado bom das coisas, das pessoas.
Para não desanimar?
Sim. Desde cedo aprendi a não desanimar, a contar comigo, a ir andando, a não fugir, apesar das fraquezas todas.
Tem crenças religiosas?
É difícil responder. Há uma coisa de que estou certa: tenho uma religiosidade da vida. Tenho um desejo profundo de que haja algum sentido nela. Por isso admiro muito os que têm certezas e lutam por elas, com fidelidade, com honestidade.
Em qualquer campo?
Sim, em qualquer campo. Queria muito acreditar que a vida evolui, que não é em vão que as coisas sucedem, que não foi em vão que vi, que vivi tanta coisa. Que sofremos todos tanta coisa.
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
1191 - Aos amigos e aos pequenos prazeres!

Será que tudo depende dos óculos de colocamos?
a) Hoje encontrei um ex aluno do ano passado. Encontro quente a amistoso. Falou-me do desalento de eu não ser o seu professor este ano... Que emoção tive por dentro. Tantas e tantas vezes vejo é desalento e o ar de "oh... lá vem este dar-nos aulas..."
fui o mais caloroso que pude...
b) na sal de alunos vejo uma aluna e esta interroga-me sobre se é já para ir para a aula. Vê-se que a deseja... Digo-lhe que falta um niquito.
Uma colega observa a cena e comenta comigo. Diz-me que devo guardar estes momentos no coração. Comovo-me mas não mostro. Mal sabe ela como isto me fez bem
c) tenho recebido apoios inesperados e que não esperam retribuição no que se refere à minha tese. Que bom!
d) A natação está a fazer-me tão bem...
e) a visita ao museu de arte antiga, um destes dias, para ver as tapeçarias de Pastrana encheu-me as medidas
f) o passeio em família pela baixa na noite de 4 de Outubro para as comemorações foi quente. A noite estava óptima e foi bom sentir a baixa com gente e com cafés abertos. Aroma de liberdade e algo de conquista
g) hoje dei duas aulas fantásticas...
Não, não sou do rock nem do blues, nem estou nada certo de ter escolhido a estrada certa, mas tenho gente que comigo caminha (logo não posso estar tão errado assim!). Menos mal
Poderia ter sido
Outra coisa qualquer
De canudo erguido
Vocês sabem como é.
Havia planos para tal
Dentro e fora de casa
Ser um tipo formal
Nos braços da namorada.
Eu escolhi a estrada certa
Rumo ao norte, rumo ao sul.
O que vale, vale a pena
Sou do rock, sou do blues.
Tapar os olhos e os ouvidos
Ter sucesso e casar
Ser feliz no meu abrigo
E deixar a vida passar.
Mas por esse caminho
Estranho a felicidade
Que envelhece os meus amigos
E os cerca de ansiedade.
Eu escolhi a estrada certa
Rumo ao norte, rumo ao sul
O que vale, vale a pena
Sou do rock, sou do blues.
(Solo)
No começo da corrida
Nunca soube onde ia dar
Não fiz planos, nem sabia
Só canções para cantar.
Eu escolhi a estrada certa
Rumo ao norte, rumo ao sul
O que vale, vale a pena
Sou do rock, sou do blues.
Eu escolhi a estrada certa
Rumo ao norte, rumo ao sul
O que vale, vale a pena
Sou do rock, sou do blues.
António Manuel Ribeiro
sábado, 24 de outubro de 2009
929 - que caminho tão longo (três cantos)

Estive lá! Porra, estive lá!
Claro que adorei
Claro que foram 2 horas intenssíssimas que me fizeram pensar que o tempo passa e já percorremos um caminho muito longo
Cada canção tem já uma história tão longa e tão cheia de recordações
Claro que me emocionei e até me vieram lágrimas ao olhos pois cada uma destas canções também já é minha e conta um bocado da minha história pessoal de tanto terem sido ouvidas
Claro que me soube a pouco, me soube a tanto
Gostei sobremaneira de ter ouvido no final os da minha casa dizerem que a "inquitação" era a minha canção. Ainda argumentei que o "só estou bem onde eu não estou" também dava só para não me dar por vencido mas, afinal, a minha gente já me conhece bem...
Foi lindo...
Foi inesquecível
Contai cim isto de mim para isto e para o resto...
A cantiga é, de facto, uma arma contra alguns charlatões, casimiros, xerifes que pensam que é tudo deles, e outros que tais e, sobretudo, contra a nossa acomodação.
Travessia do Deserto
Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande grande
Sem fronteira nem medida!
Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida
Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte
Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte
Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!
Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga
José Mário Branco
terça-feira, 13 de outubro de 2009
920 - Nem sabia o tesouro que tinha em casa
919 - Já estava com saudades

Sim, já estava com saudades de deixar o carro em casa e ir de transportes. Foi hoje.
(paradoxalmente sai-me mais caro! )
Saí cedinho e fui de transportes. Já há um mês que andava com um livro para trás e para a frente e nada... Hoje acabei-o.
Devia fazer isto mais vezes.
Deste modo, despachei para aí as últimas 70 folhas do livro "eu agora quero ir-me embora" que é a passagem a papel de um programa de rádio dos anos 80, da Comercial, no qual João dos Santos e João Sousa Monteiro convesavam sobre... A vida, acho eu...
Já o tinha lido há uns bons 15 anos atrás. Reli-o com gosto
Retive, como muito relevante e merecedora de uma maior reflexão, a passagem abaixo
(ah, e até deu para começar o Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago)
---
"J.S.M. - E são justamente os sonhos, os sonhos acordados e os sonhos a dormir que é o que há de mais importante na vida interior de qualquer pessoa, é justamente isso que não tem o mínimo significado para a escola.
É pena que tudo quanto a professora desse menino encontrou para dizer acerca de ele andar sempre na lua foi que ele não tinha aproveitamento. Como se o aproveitamento pudesse interessar a alguém que está absorvido por coisas bem mais importantes, como era o caso desse menino. O único exame sério que esse menino tinha que fazer durante o seu ano escolar, durante o seu ano lectivo, era o tal sonho das «contas». E se a escola não serve para ajudar as crianças a passarem nesses «exames», que são os únicos exames importantes da vida, não serve para nada.
Esse menino passou nesse «exame», e pelos vistos bem, mas foi com a sua ajuda, não foi com a ajuda da escola. E felizmente que há uns meninos que conseguem, apesar de tudo, resistir às pressões da escola, e continuam a sonhar, continuam a procurar resolver os seus sonhos das «contas», mesmo que o aproveitamento seja uma miséria. Mas são poucos. A maioria, mais tarde ou mais cedo, acaba por ceder à febre do aproveitamento. E é por isso, entre outras razões, que há tantos doutores tão deprimidos. Passaram nos exames da escola, mas chumbaram nos «exames» da vida, o que é uma pena.
Lembro-me agora daquele físico... como é que ele se chama?... daquele físico que dirige um centro de investigação em Física das Partículas, associado àquele que é, creio eu, o maior acelerador de partículas do mundo... não me lembro... como é que ele se chama, um tipo com os cabelos todos brancos mas com uma cara engraçadíssima, de miúdo pequeno, um físico polaco, que dizia que as crianças é que põem as perguntas mais interessantes. É quando se pergunta: «Porque é que o ar é azul?», «como é que as aves voam?», «porque é que a lua não cai?»... «Mas os pais podem estar descansados», dizia ele, «porque logo que as crianças entram para a escola, ensinam-lhes a não fazerem perguntas, a deixarem-se disso, e quando elas aprendem a não perguntar, a sociedade faz delas bons polícias, bons advogados, bons comerciantes, bons cidadãos. Há no entanto alguns, poucos, muito poucos, que continuam a teimar em fazer perguntas.» «Esses, concluía o físico, são talvez os poetas.» E é verdade. É uma catástrofe, creio eu, que a escola seja quase sempre um enorme armazém de professores que há muito tempo deixaram de fazer perguntas. Ensinam os miúdos a dar respostas a perguntas que nunca fizeram, e essa é uma das melhores maneiras de fazer deles bons «polícias», em todo o sentido do termo, como dizia aquele físico. É pena, por exemplo, que essa professora nunca se tenha perguntado porque é que aquele miúdo andava sempre na lua. A escola não está lá para isso, já sei, mas é pena que não esteja."
Pag 129
domingo, 11 de outubro de 2009
916 - Blackbird
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise
Black bird singing in the dead of night
Take these sunken eyes and learn to see
all your life
you were only waiting for this moment to be free
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird singing in the dead of night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise,
You were only waiting for this moment to arise,
You were only waiting for this moment to arise
Beatles
http://pt.wikipedia.org/wiki/Blackbird_(Beatles)
sábado, 10 de outubro de 2009
915 - É uma ela!

Na sequência do post 914
Afinal o melro é uma ela. Tem andado por aqui e não tem medo de nada. Pousa, dedica, saltita. Parece conviver bem connosco desde que seja à distância conveniente...
De perfil
De todas essas pedras, de todas,
uma só, onde passa o vento,
escolho para meu uso e alegria.
Eugénio de Andrade
---
Eu Tenho um Melro
Deolinda
Composição: Pedro da Silva Martins
Eu tenho um melro
que é um achado.
De dia dorme,
à noite come
e canta o fado.
E, lá no prédio,
ouvem cantar...
E já desconfiam
que escondo alguém
para não mostrar.
Eu tenho um melro,
lá no meu quarto.
Não anda à solta,
porque, se ele voa,
cai sobre os gatos.
Cortei-lhe as asas
para não voar.
E ele faz das penas
lindos poemas
para me embalar.
Melro, melrinho,
e se acaso alguém te agarrar,
diz que não andas sozinho
que és esperado no teu lar.
Melro, melrinho
e se, por acaso, alguém te prender,
não cantes mais o fadinho,
não me queiras ver sofrer.
E não voltes mais,
que estas janelas não as abro nunca mais.
Eu tenho um melro
que é um prodígio.
Não faz a barba,
não faz a cama,
descuida o ninho...
Mas canta o fado
como ninguém.
Até me gabo
que tenho um melro
que ninguém tem.
Eu tenho um melro...
(-Que é um homem!)
Não é um homem...
(-E quem há-de ser?!)
É das canoras aves
aquela que mais me quer.
(-Deve ser homem!)
Ah, pois que não!
(Então mulher…)
Há de lá ser!?
É só um melro
com quem dá gosto adormecer.
Melro, melrinho...[refrão]
E não voltes mais,
que a tua gaiola serve a outros animais.
domingo, 6 de setembro de 2009
891 - Leituras de férias III
Tinha relatado no post 873 - Leituras de férias as leituras que pretendia fazer...
Sem ordem de espécie alguma
- Mia Couto; Terra Sonâmbula;
- Jean Samuel; Chamava-lhe Pikolo (o testemuno de um dos companheiros de primo Levi - O tal de "Se isto é um homem");
- Virgílio; Eneida;
- Cervantes; Don Quijote de la Mancha (versão em Castelhano comprada na saída a Salamanca de Junho)
- Fernão Lopes; Crónicas;
-Kafka; O processo;
- José Saramago; O ano da morte de Ricardo Reis;
- João dos Santos; Eu agora quero ir-me embora (releitura)
- Carlos Ruiz Zafón; El juego del Ángel;
- Ondjaki; os da minha Rua (sugestão da Jacky);
- Étienne Gilson; A Filosofia na idade média;
- Roberto Musil; O homem sem qualidades I e II (oferta de Aniversário)
- Juan José Millás; Los objectos nos llaman (Oferta de aniversário)
- Pierro Bayard; Como falar dos livros que não lemos? (sugestão da Jacky);
- José Rodrigues dos Santos; A vida num sopro;
- Henri Tincq; Os génios do Cristianismo;
- José Saramago; a viagem do elefante;
- Carlos Amaral Dias e João Sousa Monteiro; Eu agora já posso imaginar que faço (releitura);
- Núria Barba e Xavier Salomó; Marco Polo (Juvenil);
- José Rodrigues dos Santos; Sétimo selo;
- Paul Ricoeur; O si-mesmo como um outro;
- A idade média (juvenil)
Sim... Fui muito ambicioso...
Destes todos só li 4 ou 5 sobretudo porque escolhi os mais "grossos" deixando os de leitura mais fácil para o tempo de trabalho e ainda acabei por comprar e ler mais 2 por serem citados nas obras que li.
- Primo Levi - Os que sucumbem e os que se salvam da Teorema
- Hélène Berr- Diário- D. Quixote
Interessa-me deixar para memória futura uma ou duas reflexões:
a) Li "O Homem sem Qualidades" de Musil. Gostei sobretudo de entender melhor a lógica do pensamento do povo alemão e austríaco que acabou por levar à barbárie do genocídio do povo Judeu. Obviamente que entender, não me leva a concordar com, mas como vivemos aqui num cantinho da Europa com décadas e décadas de atraso e com grande percentagem de analfabetismo nem se chegava a perceber as correntes filosóficas que circulavam na Alemanha nos Séculos XVIII, XIX e XX e que deram origem aos Idealismos, Marxismos e à aberração do Hitler!
Fico sempre surpreendido ao ler relatos de sobreviventes dos campos de concentração da 2ª guerra mundial. Não é que tenha um prazer sádico ao ler esses relatos. O que me impressiona é pensar:
- como foi possível chegar a tal desatino?
- como foi possível tal barbárie?
- como foi possível que a maioria da população nem desse por nada?
- Como foi possível que gente pensasse que as deportações só aconteciam aos "maus"?(faz-me lembrar igual lógica feita passar pela PIDE e Antigo regime sobre quem se opunha)
- como foi possível que a vida humana não valesse nada? Olhar "olhos nos olhos" e...
- com é possível que haja quem negue estes horrores? de facto a "coisa" foi tão bem feita que há hoje em dia quem ainda não acredite! o que teria que ter acontecido mais?
- como foi possível que gente não tenha fugido pensando que´só acontecia aos "outros" e era mau demais para ser verdade?
Tudo isto a propósito da leitura de
- Jean Samuel; Chamava-lhe Pikolo (o testemunho de um dos companheiros de primo Levi - O tal de "Se isto é um homem");
Cujas citações me levaram à leitura de:
- Primo Levi - Os que sucumbem e os que se salvam da Teorema
- Hélène Berr- Diário- D. Quixote
O díario de Hélène Berr é o diário de uma Jovem Judia em paris sob a ocupação Nazi cuja família decidiu ir ficando...
Impressionante! como é que tudo isto se foi repetindo? Impressionante saber o que vale a vida humana em situação de guerra! Impressionante!
Quantos sonhos desfeitos? Quantos mais teriam de morrer para que o nosso vizinho do lado acreditasse na barbárie sem lógica nenhuma!
Voltando ao princípio do raciocínio. Estas coisas não surgem do nada. Há uma mentalidade que se vai criando... depois um calar e um deixa andar... Pensar que Hitler foi eleito...
b) As conversas em família sobre as minhas leituras (também motivo para não ter conseguido ler mais)
Qualquer título de livro era motivo de "chacota" e ocasião para grandes conversas.
Confesso que de início me chateava com o assunto. Depois fui percebendo, mais uma vez mais, que estas "chacotas" eram apenas a forma manifesta de interesse pelas minhas leituras e fica a esperança que os meus filhotes se vejam a tornar leitores...
Ele foi "O homem sem qualidades" - Que lhes fui dizendo que era a minha biografia
Ele foi "os da minha rua" em que uns dos capítulos foi lido por eles numa esplanada com sotaque Angolano e cuja leitura prendeu a atenção de todos na mesa
Ele foi o livro do João Garcia "mais além do Evareste" que foi lido num fôlego numa manhã de praia e também deu que falar...
Enfim... Não é isto a leitura? a ocasião para levar a novos mundos e de diálogo com outros leitores?
O Zé já compra livros maiorzinhos - Agora anda na trilogia do Eclipse e dos ET... Menos mal pois também já devorou os Harry Poters
...
terça-feira, 1 de setembro de 2009
885 - Memória de férias II
Amanhã (hoje) retomo o trabalho...
O tal post sobre as férias não podia ser adiado mais. No fim de contas será preciso guardar os bons momentos na memória de modo a puder suportar os aus momentos que possam acontecer.
Confesso que iniciei o Agosto de rastos... Não conseguia parar e o "bad mood" era cada vez maior. Precisava mesmo de mudar de ares e ritmos.
As férias foram tempo de:
- retomar as relações familiares num clima de despreocupação e sem "stresses" porque é preciso fazer isto ou aquilo. Os primeiros dias não foram fáceis, depois... foram tempos fantásticos em que tudo fluia expontâneamente e serenamente. Foi bom ouvir e falar. Redescobrir que tenho gente fantástica (e boa) que vive a meu lado! Tempo para ouvir e sobretudo rir (afinal não me esqueci como é que se faz!)
- Quebrar todos as rotinas, horários e qualquer trabalho intelectual excepto ler. Não peguei numa folha de papel ou esferográfica (até alguns poemas que fiz, os esqueci por não os ter registado). Para o ano nem chegarei a levar papéis para organizar. Decididamente é pura perca de tempo. Nem abro a mala!
- Praia (muita), leitura (muita), noites de cinema (em casa graças ao DVD) e refeições, se as houve, foram as estritamente necessárias e sem horas marcadas.
- Ver e Ouvir: Deolinda (que noite!) Daniela Mercury (que noite!)
- Disfrutar do sol até ao tutano (entardecer)
- esquecer que há uma tutela que continua muito activa... Que se Lixe! não quero saber! nem tenho pachorra para os ouvir! (até me põe de mau humor)
Dia 27 darei a minha opinião muito sincera!
A recordar: "os da minha rua de Ondjaki" fez-me recordar os tempos da minha infância e de escola. O meu Avô (que tanto me ensinou e que, na altura, tão distante me parecia quando queria silêncio para ouvir o fado ou as notícias na Emissora); as leituas em voz alta na escola, uma infância despreocupada e tanta coisa mais (o galinheiro da minha tia e as obras que lá ía fazer a casa com o meu avô)
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Para que conste que as férias são mesmo necessárias. Desde que regressei já me aconteceu:
a) uma reunião para preparar um projecto internacional/curso a acontecer em Setembro/Outubro
b) bateram-me no carro duas vezes (no mesmo local do carro!!! - Tenho que ir à bruxa!)
c) ter que arrumar a grande dessarumação que as pinturas do início de agosto trouxeram a esta casa e não houve paciência de as fazer
d) tratar do jardim que tinha uma relva tão alta que mais parecia uma savana
e) ter uma lista de tarefas a fazer antes de começar a trabalhar tão grande que hoje nem deu para almoçar!
Ah, as férias!
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
881 - Leituras de férias II
(é o que se chama pôr a casa em ordem)
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Nós Chorámos Pelo Cão Tinhoso
Para a Isaura. Para o Luís B. Honwana
Foi no tempo da oitava classe, na aula de português.
Eu já tinha lido esse texto dois anos antes mas daquela vez a estória me parecia mais bem contada com detalhes que atrapalhavam uma pessoa só de ler ainda em leitura silenciosa - como a camarada professora de português tinha mandado. Era um texto muito conhecido em Luanda: "Nós matámos o Cão Tinhoso".
Eu lembrava-me de tudo: do Ginho, da pressão de ar, da Isaura e das feridas penduradas do Cão Tinhoso. Nunca me esqueci disso: um cão com feridas penduradas. Os olhos do cão. Os olhos da Isaura. E agora de repente me aparecia tudo ali de novo. Fiquei atrapalhado.
A camarada professora seleccionou uns tantos para a leitura integral do texto. Assim queria dizer que íamos ler o texto todo de rajada. Para não demorar muito, ela escolheu os que liam melhor. Nós, os da minha turma da oitava, éramos cinquenta e dois. Eu era o número cinquenta e um. Embora noutras turmas tentassem arranjar alcunhas para os colegas, aquela era a minha primeira turma onde ninguém tinha escapado de ser alcunhado. E alguns eram nomes de estiga violenta.
Muitos eram nomes de animais: havia o Serpente, o Cabrito, o Pacaça, a Barata-da-Sibéria, a Joana Voa-Voa, a Gazela, e o Jacó, que era eu. Deve ser porque eu mesmo falava muito nessa altura. Havia o É-tê, o Agostinho-Neto, a Scubidú e mesmo alguns professores também não escapavam da nossa lista. Por acaso a camarada professora de português era bem porreira e nunca chegámos a lhe alcunhar.
Os outros começaram a ler a parte deles. No início, o texto ainda está naquela parte que na prova perguntam qual é e uma pessoa diz que é só introdução. Os nomes dos personagens, a situação assim no geral, e a maka do cão. Mas depois o texto ficava duro: tinham dado ordem num grupo de miúdos para bondar o Cão Tinhoso. Os miúdos tinham ficado contentes com essa ordem assim muito adulta, só uma menina chamada Isaura afinal queria dar protecção ao cão. O cão se chamava Cão Tinhoso e tinha feridas penduradas, eu sei que já falei isto, mas eu gosto muito do Cão Tinhoso.
Na sexta classe eu também tinha gostado bué dele e eu sabia que aquele texto era duro de ler. Mas nunca pensei que umas lágrimas pudessem ficar tão pesadas dentro duma pessoa. Se calhar é porque uma pessoa na oitava classe já cresceu um bocadinho mais, a voz já está mais grossa, já ficamos toda hora a olhar as cuecas das meninas "entaladas na gaveta", queremos beijos na boca mais demorados e na dança de slow ficamos todos agarrados até os pais e os primos das moças virem perguntar se estamos com frio mesmo assim em Luanda a fazer tanto calor. Se calhar é isso, eu estava mais crescido na maneira de ler o texto, porque comecei a pensar que aquele grupo que lhes mandaram matar o Cão Tinhoso com tiros de pressão de ar, era como o grupo que tinha sido escolhido para ler o texto.
Não quero dar essa responsabilidade na camarada professora de português, mas foi isso que eu pensei na minha cabeça cheia de pensamentos tristes: se essa professora nos manda ler este texto outra vez, a Isaura vai chorar bué, o Cão Tinhoso vai sofrer mais outra vez e vão rebolar no chão a rir do Ginho que tem medo de disparar por causa dos olhos do Cão Tinhoso.
O meu pensamento afinal não estava muito longe do que foi acontecendo na minha sala de aulas, no tempo da oitava classe, turma dois, na escola Mutu Ya Kevela, no ano de mil novecentos e noventa: quando a Scubidú leu a segunda parte do texto, os que tinham começado a rir só para estigar os outros, começaram a sentir o peso do texto. As palavras já não eram lidas com rapidez de dizer quem era o mais rápido da turma a despachar um parágrafo. Não. Uma pessoa afinal e de repente tinha medo do próximo parágrafo, escolhia bem a voz de falar a voz dos personagens, olhava para a porta da sala como se alguém fosse disparar uma pressão de ar a qualquer momento. Era assim na oitava classe: ninguém lia o texto do Cão Tinhoso sem ter medo de chegar ao fim. Ninguém admitia isso, eu sei, ninguém nunca disse, mas bastava estar atento à voz de quem lia e aos olhos de quem escutava.
O céu ficou carregado de nuvens escurecidas. Olhei lá para fora à espera de uma trovoada que trouxesse uma chuva de meia-hora. Mas nada.
Na terceira parte até a camarada professora começou a engolir cuspe seco na garganta bonita que ela tinha, os rapazes mexeram os pés com nervoso miudinho, algumas meninas começaram a ficar de olhos molhados. O Olavo avisou: "quem chorar é maricas então!" e os rapazes todos ficaram com essa responsabilidade de fazer uma cara como se nada daquilo estivesse a ser lido.
Um silêncio muito estranho invadiu a sala quando o Cabrito se sentou. A camarada professora não disse nada. Ficou a olhar para mim. Respirei fundo.
Levantei-me e toda a turma estava também com os olhos pendurados em mim. Uns tinham-se virado para trás para ver bem a minha cara, outros fungavam do nariz tipo constipação de cacimbo. A Aina e a Rafaela que eram muito branquinhas estavam com as bochechas todas vermelhas e os olhos também, o Olavo ameaçou-me devagar com o dedo dele a apontar para mim. Engoli também um cuspe seco porque eu já tinha aprendido há muito tempo a ler um parágrafo depressa antes de o ler em voz alta: era aquela parte do texto em que os miúdos já não têm pena do Cão Tinhoso e querem lhe matar a qualquer momento. Mas o Ginho não queria. A Isaura não queria.
A camarada professora levantou-se, veio devagar para perto de mim, ficou quietinha. Como se quisesse me dizer alguma coisa com o corpo dela ali tão perto. Aliás, ela já tinha dito, ao me escolher para ser o último a fechar o texto, e eu estava vaidoso dessa escolha, o último normalmente era o que lia já mesmo bem. Mas naquele dia, com aquele texto, ela não sabia que em vez de me estar a premiar, estava a me castigar nessa responsabilidade de falar do Cão Tinhoso sem chorar.
- Camarada professora - interrompi numa dificuldade de falar. - Não tocou para a saída?
Ela mandou-me continuar. Voltei ao texto. Um peso me atrapalhava a voz e eu nem podia só fazer uma pausa de olhar as nuvens porque tinha que estar atento ao texto e às lágrimas. Só depois o sino tocou.
Os olhos do Ginho. Os olhos da Isaura. A mira da pressão de ar nos olhos do Cão Tinhoso com as feridas dele penduradas. Os olhos do Olavo. Os olhos da camarada professora nos meus olhos. Os meus olhos nos olhos da Isaura nos olhos do Cão Tinhoso.
Houve um silêncio como se tivessem disparado bué de tiros dentro da sala de aulas. Fechei o livro.
Olhei as nuvens.
Na oitava classe, era proibido chorar à frente dos outros rapazes.
(do livro Os da minha Rua, Editorial Caminho, 2007) Ondjaki
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
880 - Leituras de férias I

Dedicado ao meu avô João
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O Kazukuta
Ondjaki
Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.
Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, e bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol pra lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota meio triste, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.
Acho que o Kazukuta era um cão triste porque é assim que me lembro dele. Nós mesmo não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo, não sei, devia perguntar no tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais. Sim, o Kazukuta era um cão triste.
Um dia era de tarde, e vi o tio Joaquim dar banho ao Kazukuta. Um banho longo. Fiquei espantado: o tio Joaquim que ficava até tarde a ler na sala, o tio Joaquim que nos puxava as orelhas, o tio Joaquim silencioso, como é que ele podia ficar meia hora a dar banho ao Kazukuta?
Lembro o Kazukuta a adorar aquele banho, deve ser porque era um banho sincero, deve ser porque o tio punha devagarinho frases em kimbundu ao Kazukuta, e ele depois ia adormecer. Kazukuta..., lembro bem os teus olhos doces brilharem tipo um mar de sonho só porque o tio Joaquim - o tio Joaquim silencioso - veio te dar banho de mangueira e te falou palavras tranquilas num kimbundu assim com cheiros da infância dele.
E demorou.
Nós já estávamos quase a parar a nossa brincadeira. Porque afinal a água caía nos pêlos do Kazukuta, e os pêlos ficavam assim coladinhos ao corpo, e virados para baixo como se já fossem muito pesados, e a água foi, não tinha mais, e mesmo sem fechar a torneira o tio Joaquim, com a mangueira ainda a pingar as últimas gotas dela, e no regresso do Kazukuta à casota, depois daquele abano tipo chuvisco de nós rirmos, o Tio Joaquim deu a notícia que tinha demorado aquele tempo todo para dar:
- Meninos, a tia Maria morreu.
Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:
- Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?
O tio largou a mangueira, veio nos fazer festinhas.
- Sim, podem.
Parece mesmo vi um sorriso pequenino na boca dele. O tio Joaquim era muito calado e sorria devagarinho como se nunca soubesse nada das horas e das pressas dos outros adultos. Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com inveja de vir brincar connosco também.
O tio Joaquim gostava muito de dar banho ao Kazukuta. Um dia kazukuta estava muito velho e morreu mesmo.
domingo, 26 de julho de 2009
873 - Leituras de férias
Hum... Já sei, mais uma vez estou a ser muito ambicioso...
Enfim! estas são as minhas propostas para as minhas férias (algumas já vêm do ano passado :-( )
Sem ordem de espécie alguma
- Mia Couto; Terra Sonâmbula;
- Jean Samuel; Chamava-lhe Pikolo (o testemuno de um dos companheiros de primo Levi - O tal de "Se isto é um homem");
- Virgílio; Eneida;
- Cervantes; Don Quijote de la Mancha (versão em Castelhano comprada na saída a Salamanca de Junho)
- Fernão Lopes; Crónicas;
-Kafka; O processo;
- José Saramago; O ano da morte de Ricardo Reis;
- João dos Santos; Eu agora quero ir-me embora (releitura)
- Carlos Ruiz Zafón; El juego del Ángel;
- Ondjaki; os da minha Rua (sugestão da Jacky);
- Étienne Gilson; A Filosofia na idade média;
- Roberto Musil; O homem sem qualidades I e II (oferta de Aniversário)
- Juan José Millás; Los objectos nos llaman (Oferta de aniversário)
- Pierro Bayard; Como falar dos livros que não lemos? (sugestão da Jacky);
- José Rodrigues dos Santos; A vida num sopro;
- Henri Tincq; Os génios do Cristianismo;
- José Saramago; a viagem do elefante;
- Carlos Amaral Dias e João Sousa Monteiro; Eu agora já posso imaginar que faço (releitura);
- Núria Barba e Xavier Salomó; Marco Polo (Juvenil);
- José Rodrigues dos Santos; Sétimo selo;
- Paul Ricoeur; O si-mesmo como um outro;
- A idade média (juvenil)
Agradeço à Graça B a sugestão do You-tube que aqui fica tão bem... Palavras para quê? a questão é que há muitos dirigentes sabem bem que isto é pura verdade. Daí certas políticas da "treta" (Pão e Circo portanto)...
quarta-feira, 22 de julho de 2009
869 - livros e leituras
Neste primeiro dia de férias, tal como no filme do you tube, não consigo largar o livro que comecei a ler ontem à noite: "O rapaz de pijama às riscas".
Como fazer passar o gosto pelos livros e leitura aos nossos pequenos?
Como tornar este filme you tube realidade em cada vez mais miúdos?
1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas
Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...
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Mais outro livro que se lê num só fôlego tal a forma como nos embrenhamos nela (até ia ficando fechado no metro, na última estação, por não ...
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Creio que já publiquei "isto" aqui. Não interessa! Hoje, dei de novo de caras com o vídeo e, novamente, me deliciei a vê-lo. Claro...
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Bom... narcisismo também não será... Mas com eles duram não mais que três semanas e estão tão lindos aqui no jardim que resolvi fotografa-lo...






