Mostrar mensagens com a etiqueta Natália Correia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Natália Correia. Mostrar todas as mensagens

sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Sol nas noites e o luar nos dias

Porque hoje tive o privilégio de ouvir o poema e de o ver reinterpretado
---

O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.



Natália Correia

quarta-feira, 23 de maio de 2012

1498 - Mais uma etapa concluída

Uffff. Acabei a tese e vou amanhã entregá-la na sua versão impressa. Depois só faltará a marcação da sua defesa!

Confesso que me deu muito gozo todo este processo e consegui (contra as minhas expetativas) conduzi-lo sem stresses (exceto neste último fim de semana).

Este acabou por ser um ano muito bom em que fui sendo capaz de superar-me e responder a inúmeros desafios. Relembro agora com muito prazer a revisão de capítulos da tese feitas em locais bem diversos: No Alfa, em aeroportos, no café... fez sentido sim e aprendi!

Sobrevivi também a um mês de maio em que tive inúmeras tarefas de responsabilidade para fazer! menos mal (um congresso para organizar, ser júri de um concurso com a inevitável leitura de trabalhos que levam  o seu tempo).

Deve ser por gostar mesmo de desafios que hoje (sem que inicialmente fosse intencional a escolha) acabei por ouvir três vezes seguidas, no carro, o lindíssimo poema da Natália Correia!    

É isso mesmo: nem anjinho, nem morto! aqui estou eu, vivinho da silva e com a esperança de que o melhor da vida ainda estará para vir!

Sem pecado e sem inocência? nem pensar!
De uma história sem enredo não quero fazer parte! 


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

1440 - Ainda em tempo de festas

"Estes" tipos já me conseguiram tirar mais um pequeno "prazer". Não é que eu valorize muito festas com dias muito marcados e convencionais como o Carnaval (em que se vê a malta meio despida, a tremer de frio, a querer imitar uma mais genuína festa tropical) ou a passagem do ano pois torna-se esquisito acompanhar os noticiários de dia 31 de Dezembro e ver que de leste para oeste já muito celebraram o novo ano, fruto de uma convenção relativa à marcação das horas e dias.

Mesmo assim, o Ano Novo sempre era alguma coisa que marcava algo com os tais votos/decisões/balanços de perdas e ganhos e a tentativa de acertar alguns passos...

Pois, até a ideia de que o que estava para vir podia ser melhor do que o que já existia nos foi roubada! temos a promessa da emigração para nós e para os nossos filhos e a certeza de que o próximo vai ser pior do que este. Onde já se viu o iva da electricidade a 23%? como se ter luz em casa fosse um luxo!!! É o tal regresso ao passado e ao empobrecimento que querem que assumamos!

Regresso ao passado? só aquela das boas memórias de Natais longínquos em que nós, as crianças, comíamos na cozinha antes do "grandes" e era uma diversão o resto da noite enquanto os adultos jantavam sossegados e conversavam pachorrentamente.
Lembro-me bem da primeira vez que me sentei à mesa na ceia de Natal e tive direito a estar com os adultos a jantar! O avô, a avó, os tios e tias, os pais, os primos, os irmãos!
De tudo o resto, de alguns que abandonavam a escola precocemente, da guerra que nos chegava a casa pela TV, dos embarques do avô, da emigração, das cartas que chegavam lidas, não quero regresso!
Regresso que aceito é o da esperança, na noite da passagem do ano, em que desejávamos, em cima de uma cadeira, como num toque de magia o concretizar de todas as esperanças, mesmo as impossíveis!

Dão-nos um lírio e um canivete...


Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

terça-feira, 17 de novembro de 2009

952 - Poema destinado a haver domingo



Poema destinado a haver domingo

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.

Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.

Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.

Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre

Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.



Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

quinta-feira, 17 de maio de 2007

199 - Gosto de gente que arrisca




















Aborrecem-me os meios termos e aqueles que nos querem meter num "limbo"...

não penses,
não sejas,
não vivas,

não te arrisques,
deixa-te ficar quietinho,
não faças ondas
será prudente?
eu não faria isso?

não penses,
não sejas,
não vivas


Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro"

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...