Ofício
De nervo e fé
farei o meu ofício
e pagarei o que for
de dor ou fel ou mágoa
e sem mais custo
entregarei o peito
em chaga aberto
pela promessa
de uma flor
que persista no deserto
e que o mewu gesto
se mantenha
intenso e justo.
Buscarei a perfeição
emaranhada
da figueira
o mel excessivo
e mais
se a tanto for forçado
me farei
palhaço involuntário
e calculado
ou pássaro discreto
e não cativo.
Venderei
estrelas insolentes
altaneiras
pelas esquinas das cidades
de aluguer barato.
Acenderei de raiva
rastilhos e fogueiras.
Cruzarei
a selva o mato
a escuridão
armado apenas das palavras
trigo abraço ou sol
escolhendo por claríssimo lençol
a proteção
dos olhos magoados
dessa gente
que suspende
um sorriso refulgente
do cante matinal
do rouxinol.
Cantarei a cebola
e a cadeira
o lenho e a semente.
Colherei cada palavra
para talhar o som da flauta
e escrever no chão a pauta
de uma música contente.
Rasgarei
a noite escura
pelo sabor da felicidade
vertical
e o meu corpo entregarei
pelo ofício da ternura
rigor gramatical
das papoilas na seara
brandura
dos meus versos
de água clara
rigor
de um abraço radical
José Fanha 1995
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domingo, 29 de novembro de 2015
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