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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Nuno Álvares Pereira de Jaime Nogueira Pinto



Estou prestes a terminar a leitura de "Nuno Álvares Pereira" (leitura começada logo no início da interrupção de Natal)

É um livro bastante interessante, de leitura fácil, que nos mostra com frescura renovada o contexto político, cultural e social em que D. Nuno se moveu. Dá para perceber que D. Nuno era uma personagem que soube ler os sinais dos tempos da sua época e que teve a coragem de fazer opções...

Como dele só conhecia as histórias dos meus livros da primária feita antes de 74 que o endeusavam tendo como fito passar uma determinada imagem da História, fiquei muito agradado com a leitura desta obra.

Penso que é um trabalho sério e cuidado de investigação

Deixo-vos com a sinopse da obra feita pela própria editora

Sinopse:


Foi graças à vontade política de Nuno Álvares Pereira, ao seu génio militar e à sua integridade que os portugueses, na grande crise do século XIV, conseguiram derrotar as forças de D. João de Castela. E foi ele quem guardou a nação independente, preparando-a para o novo tempo português de navegação e expansão além-mar. Mas o que sabemos desta grande figura da nossa História que nas últimas décadas caiu no esquecimento? Quase 600 anos após a sua morte, a canonização solene em Roma do Santo Condestável de Portugal não deixou de causar espanto e de levantar velhas questões. Pode um chefe de guerra chegar aos altares? Pode um santo ser guerreiro e um guerreiro ser santo? Nuno Álvares Pereira mostra-nos que sim. E não por um qualquer arrependimento tardio, por uma troca aparentemente súbita e em fim de vida da cota de malha pelo hábito de monge: entre as intrigas da corrupta corte fernandina e o poder e a glória da Casa de Avis, nas horas difíceis da revolução de Lisboa e nas batalhas de Aljubarrota, Atoleiros e Valverde que marcaram a Guerra da Independência, S. Nuno de Santa Maria sempre procurou ser, no espírito e na letra, o cavaleiro perfeito, indo contra muito daquilo que, na guerra e na paz, era regra no tempo.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Espelho (de Suzy Lee)



Já tinha falado da autora a propósito da "Onda"

Fiquei tão fascinado pelo traço da autora que procurei logo outras obras dela e, logo no dia da compra da "onda" comprei também o "espelho"

É outro livro sem palavras e só com ilustração. é um espanto!

Descobri agora que no sítio da autora há lá um slide show sobre o "espelho". Aqui fica a partilha e a sugestão

http://www.suzyleebooks.com/books/mirror/slide/mirror.htm

Boas leituras

Ah, e o sítio da autora é: http://www.suzyleebooks.com/home.htm

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Selma

Graças à Júlia M. conheci a Selma, escrita em Espanhol, em Maio deste ano


Selma, de Jutta Bauer

Como seguía sin encontrar la respuesta a mi pregunta, me fui en busca del Gran Carnero... ¿Qué es la felicidad?

Para que lo entiendas, te contaré la historia de Selma...

Érase una vez una oveja...

... que todas las mañanas, al amanecer, comía un poco de hierba...

...luego, enseñaba a hablar a sus hijos hasta el mediodía...

... por las tardes, hacía un poco de gimnasia...

... después, volvía a comer hierba...

... al anochcer, charlaba un rato con la señora Buitráguez...

... y por las noches, se quedaba plácida y profundamente dormida.



Un día le preguntaron, qué haría si tuviera más tiempo. Ella contestó:

Al amanecer, comería un poco de hierba...
... hablaría con los niños, por ejemplo... ¡al mediodía!
Después haría un poco de gimnasia...
... comería...
... al anochecer, me gustaría charlar un rato con la señora Buitráguez,...
... y lo
más importante de todo: por las noches dormiría plácida y profundamente.

Y si le tocara la lotería?

Pues...
Al amanecer, comería mucha hierba...
preferiblemente, al amanecer...
... hablaría largo y tendido con los niños...
...después haría un poco de gimnasia...
... por la tarde, volveria a comer hierba...
... y al anochecer, me gustaría poder charlar con la señora Buitráguez.
Por la noches, muerta de cansancio, caeria en um sueno
muy, muy profundo...
y placido también, por supuesto!

Entretanto a Selma já existe em Português e a partir de hoje também pode ser lida e ouvida aqui:

http://static.publico.clix.pt/fotogalerias/letrapequena/selma.aspx

Fabuloso

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ondjaki - Os da minha rua



Esta foi uma leitura minha deste verão. O livro é um conjunto de pequenas histórias que relatam a infância do autor numa rua de Luanda lá pelos idos anos 70/80 do século passado.
Ao longo destas histórias, vamos conhecendo personagens tipo que poderiam (foram decerto) ter sido também nossos companheiros de infância.

A beleza do livro está na simplicidade com que o autor nos conta as suas histórias e num retorno que cada um de nós pode fazer aos seus tempos de uma infância inocente e tempos de escola.

Subtilmente, o autor também nos relata a vida em Luando nessa altura, dando-nos a conhecer a sociedade, tudo aos olhos de uma criança (a presença dos soviéticos, as tradições, as famosas telenovelas brasileiras e a televisão, os hábitos e modo de vida de uma família de rendimento suficiente, etc.).

É um livro simples mas extraordinariamente belo.

---
Dedico a história abaixo (retirada do livro) ao meu avô João que, parecendo duro e tendo todo um passado de muito trabalho e sofrimento para ganhar a vida como operário, recebia do afecto, brincadeiras e inocência dos seus netos a energia e recompensa de tanto esforço feito ao longo de toda uma vida.

Lembro-me bem de como ele "amolecia" perto de nós...

O Kazukuta
Ondjaki


Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.
Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, e bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol pra lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota meio triste, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.
Acho que o Kazukuta era um cão triste porque é assim que me lembro dele. Nós mesmo não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo, não sei, devia perguntar no tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais. Sim, o Kazukuta era um cão triste.
Um dia era de tarde, e vi o tio Joaquim dar banho ao Kazukuta. Um banho longo. Fiquei espantado: o tio Joaquim que ficava até tarde a ler na sala, o tio Joaquim que nos puxava as orelhas, o tio Joaquim silencioso, como é que ele podia ficar meia hora a dar banho ao Kazukuta?
Lembro o Kazukuta a adorar aquele banho, deve ser porque era um banho sincero, deve ser porque o tio punha devagarinho frases em kimbundu ao Kazukuta, e ele depois ia adormecer. Kazukuta..., lembro bem os teus olhos doces brilharem tipo um mar de sonho só porque o tio Joaquim - o tio Joaquim silencioso - veio te dar banho de mangueira e te falou palavras tranquilas num kimbundu assim com cheiros da infância dele.
E demorou.
Nós já estávamos quase a parar a nossa brincadeira. Porque afinal a água caía nos pêlos do Kazukuta, e os pêlos ficavam assim coladinhos ao corpo, e virados para baixo como se já fossem muito pesados, e a água foi, não tinha mais, e mesmo sem fechar a torneira o tio Joaquim, com a mangueira ainda a pingar as últimas gotas dela, e no regresso do Kazukuta à casota, depois daquele abano tipo chuvisco de nós rirmos, o Tio Joaquim deu a notícia que tinha demorado aquele tempo todo para dar:
- Meninos, a tia Maria morreu.
Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:
- Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?
O tio largou a mangueira, veio nos fazer festinhas.
- Sim, podem.
Parece mesmo vi um sorriso pequenino na boca dele. O tio Joaquim era muito calado e sorria devagarinho como se nunca soubesse nada das horas e das pressas dos outros adultos. Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com inveja de vir brincar connosco também.
O tio Joaquim gostava muito de dar banho ao Kazukuta. Um dia kazukuta estava muito velho e morreu mesmo.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Espelho do MUndo - Uma nova história da arte























Acabei de receber ainda como prenda de um já longínquo aniversário esta maravilha...

Título: Espelho do mundo - Uma nova história da arte
Autor: Julian Bell
Editora: Orfeu Negro
Tradução: Luís Leitão e Cláudia Brito
Número de páginas: 496
Formato; 20 x 26,5 cm


"Espelho do Mundo é uma história da arte para os leitores do século XXI. Numa visão transversal, que interliga culturas e continentes, Julian Bell apresenta uma nova concepção da história da arte dirigida a um mundo globalizado, uma análise da diversidade das obras de arte e do modo como estas podem relacionar-se entre si ou mesmo enraizar-se umas nas outras e nos respectivos contextos sociais e políticos.

Ele próprio pintor, Julian Bell interpreta a arte do ponto de vista do criador, procurando estabelecer uma afinidade entre o espectador e o artista. O seu propósito é o de incentivar o espectador a, antes de mais, observar a obra de arte e, só depois, equacionar a sua essência e significado. Desafia-nos aqui a olhar a arte enquanto espelho da condição humana."

Só me apetece devorá-lo de um só folego. A pintura e a arte só me começaram a entusiasmar verdadeiramente há cinco anos atrás após a visita ao Museu Van Gogh em Amesterdão.
Desde aí tem sido uma aprendizagem fantástica e um procurar recuperar o tempo perdido.
Felizmente tenho encontrado bons apoios neste caminho...

Para concluir partilho um link de um blogue só sobre ilustração que me parece fantástico - O Silêncio dos livros


Um poema é uma pintura feita com palavras

João P.
Nov 09

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Onda

Ainda estou nas nuvens...

Pela minha escola decorre uma feira do livro. Fui lá espreitar e dei de caras com ele (e com alguns outros que me fizeram gastar mais do que esperava. Que posso eu fazer?, a Margarida meteu-me o bichinho...)

O livro em causa chama-se "Onda" e é apenas ilustrado. A Autora é Suzy Lee e narra esta ou outras histórias

Um dia cheio de sol
Uma menina curiosa
Uma onda brincalhona

(por acaso, quando o desfolhei, ouvi outra história. Porque será?)




terça-feira, 24 de novembro de 2009

Ilusão (ou o que quiserem)



Desta vez arrisco e venho falar de um livro que não li. Refiro-me ao último romance de Luísa Costa Gomes - Ilusão (ou o que quiserem).
Ouso fazer esta proposta após ler a entrevista da autora que saíu no último número do Jornal de Letras. A entrevista é belíssima e a autora acaba por nos abrir o apetite ao referir que, pela primeira vez, se tenta pôr na pele de um homem (jorge) um dos protagonistas da obra.
























Deixo-vos com a sinopse do livro e com o convite a ler a entrevista no Jornal de Letras


"Jorge é uma espécie de actor que vive de expedientes (anúncios, dobragens, figuração), à espera da sua oportunidade; o grupo de teatro a que pertence não se entende sobre o próximo projecto. Quando a mulher, uma professora de Português profundamente deprimida, entra em furor pedagógico, abre espaço e põe em marcha uma série de acontecimentos que terão para Jorge a importância de uma única, ténue revelação.

Esta é a história de uma separação, mas também de uma paixão obsessiva, de uma viagem patética, de um projecto que corre bem demais, e de outras peripécias.

Ilusão (ou o que quiserem) é um romance satírico sobre um homem à procura da realidade, no meio de tantos, tantos fantasmas, vozes sem corpo, corpos sem voz, e da multidão de desconhecidos que faz parte da nossa vida de todos os dias. "
-
Edição: Dom Quixote
Autor: Luísa Costa Gomes
ISBN: 978-972-20-3893-5
Páginas: 192
Dimensões: 15,5 x 23,5 cm

sábado, 21 de novembro de 2009

O ano da morte de Ricardo Reis



















Devo a leitura de José Saramago à Jacky . Conversando, há uns anos atrás sobre leituras, ela falou-me do "ensaio sobre a cegueira". Comecei por esse e fiquei logo fã (embora o tema da obra seja duro...)

Já li muitas obras dele, mas o livro sobre o qual hoje quero falar é de "O ano da morte de Ricardo Reis" do qual me faltam poucas páginas para acabar a leitura.

Não é um dos livros de José Saramago cujo enredo seja o que mais nos faça sorrir ou com que empatizemos mais, no entanto, parece-me ser um dos livros em que José Saramago tenha mais investigado para o escrever ( para além do memorial do Convento, claro)

A História anda à volta do regresso de Ricardo Reis (um dos heterónimos de Fernando Pessoa) do Brasil para assistir ao funeral de Fernando Pessoa. Depois descreve-se uma possível vida do médico Ricardo Reis em Lisboa nos duros anos 30 em Portugal.
Uma vez ou outra são-nos apresentados diálogos imaginários entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa e somos introduzidos a um ou outro poema de Ricardo Reis.

Porque recomendo a leitura da obra (e porque ela me fascinou?)

1 - Pelo realismo e plausibilidade do retrato que Saramago faz da vida de Ricardo Reis em Lisboa. A sua vida pelo Chiado e pelo Miradouro de Santa Catarina faz-nos imaginar que Ricardo Reis ainda lá viva hoje e abra agorinha mesmo a janela da sua casa...

Cito

" Ricardo Reis aproximou-se duma janela, através da vidraça sem cortina viu as palmeiras do largo, o Adamastor, os velhos sentados no banco, e o rio sujo de barro lá adiante, os barcos de guerra com a proa virada para terra, por eles não se sabe se a maré está a encher ou a vazar, demorando aqui um pouco logo veremos,[...] Ricardo Reis percorreu de novo toda a casa, não pensava, olhava apenas, depois foi à janela, a proa dos barcos estava virada para cima, para montante, sinal de que a maré descia. Os velhos continuavam sentados no mesmo banco."
(José Saramago: O ano da Morte de Ricardo Reis)

Até nos dá vontade de conversar com ele ...

Então meu caro Ricardo Reis... Com que então fugiste do Hotel Bragança? Arranjaste-a bonita! algo andaste a tramar... Sim, vejo-te à janela da tua nova casa e imagino-te... não tens fuga. Razão tinha o Pimenta... Chamado à PVDE, boa rez não podes ser...
Eu vejo-te daqui, aceno-te. Será que me estás a ver?

2 - Pela investigação séria que José Saramago fez da obra de Fernando Pessoa. As características do personagem construído condizem com os traços psicológicos que Pessoa construiu para Ricardo Reis

RICARDO REIS – O POETA DA RAZÃO

Heterónimo de Fernando Pessoa


A partir da carta a Adolfo Casais Monteiro

nasceu no Porto (1887);
foi educado num colégio de jesuítas ;
”É latinista por educação alheia e semi-helenista por educação própria”;
médico;
viveu no Brasil, expatriou-se voluntariamente por ser monárquico;
Interesse pela cultura Clássica, Romana (latina) e Grega (helénica);

Fisicamente:
”Um pouco mais baixo, mas forte, mais seco” do que Caeiro;
” de um vago moreno”; cara rapada;

Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, é o poeta clássico, da serenidade epicurista, que aceita, com calma lucidez, a relatividade e a fugacidade de todas as coisas. “Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio”, “Prefiro rosas, meu amor, à pátria” ou “Segue o teu destino” são poemas que nos mostram que este discípulo de Caeiro aceita a antiga crença nos deuses, enquanto disciplinadora das nossas emoções e sentimentos, mas defende, sobretudo, a busca de uma felicidade relativa alcançada pela indiferença à perturbação.

A filosofia de Ricardo Reis é a de um epicurismo triste, pois defende o prazer do momento, o “carpe diem”, como caminho da felicidade, mas sem ceder aos impulsos dos instintos. Apesar deste prazer que procura e da felicidade que deseja alcançar, considera que nunca se consegue a verdadeira calma e tranquilidade – ataraxia.

Ricardo Reis propõe, pois, uma filosofia moral de acordo com os princípios do epicurismo e uma filosofia estóica:

- “Carpe diem” (aproveitai o dia), ou seja, aproveitai a vida em cada dia, como caminho da felicidade;
- Buscar a felicidade com tranquilidade (ataraxia);
- Não ceder aos impulsos dos instintos (estoicismo);
- Procurar a calma, ou pelo menos, a sua ilusão;
- Seguir o ideal ético da apatia que permite a ausência da paixão e a liberdade (sobre esta apenas pesa o Fado).

Ricardo Reis, que adquiriu a lição do paganismo espontâneo de Caeiro, cultiva um neoclassicismo neopagão (crê nos deuses e nas presenças quase divinas que habitam todas as coisas), recorrendo à mitologia greco-latina, e considera a brevidade, a fugacidade e a transitoriedade da vida, pois sabe que o tempo passa e tudo é efémero. Daí fazer a apologia da indiferença solene diante o poder dos teus e do destino inelutável. Considera que a verdadeira sabedoria de vida é viver de forma equilibrada e serena, “sem desassossegos grandes”.

A precisão verbal e o recurso à mitologia, associados aos princípios da moral e da estética epicuristas e estóicas ou à tranquila resignação ao destino, são marcas do classicismo erudito de Reis. Poeta clássico da serenidade, Ricardo Reis privilegia a ode, o epigrama e a elegia. A frase concisa e a sintaxe clássica latina, frequentemente com a inversão da ordem lógica (hipérbatos), favorecem o ritmo das suas ideias lúcidas e disciplinadas.

A filosofia de Reis rege-se pelo ideal “Carpe Diem” – a sabedoria consiste em saber-se aproveitar o presente, porque se sabe que a vida é breve. Há que nos contentarmos com o que o destino nos trouxe. Há que viver com moderação, sem nos apegarmos às coisas, e por isso as paixões devem ser comedidas, para que a hora da morte não seja demasiado dolorosa.

- A concepção dos deuses como um ideal humano
- As referências aos deuses da Antiguidade (neo-paganismo) greco-latina são uma forma de referir a primazia do corpo, das formas, da natureza, dos aspectos exteriores, da realidade, sem cuidar da subjectividade ou da interioridade - ensinamentos de Caeiro, o mestre de todos os heterónimos
- A recusa de envolvimento nas coisas do mundo e dos homens

3 - Pela descrição da Lisboa e de Portugal dos anos 30. Mais uma vez o relato é sério, rigoroso e cuidado


4 - Quem escreve?
não sou eu, foi um impostor... alguém que dita...)


Tenho Mais Almas que Uma

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu 'screvo.

Ricardo Reis, in "Odes"

---

Uma das minhas descobertas do Verão passado


Estava mortinha por descobrir se Chico Buarque escritor teria tanto potencial quanto Chico Buarque compositor e cantor. E não é que tem?! Não é a sua primeira obra e, talvez por isso, nota-se a segurança na forma narrativa adoptada. A perspectiva é interessantíssima. Deixo-vos a sinopse da própria editora, a "D. Quixote":

"Um homem muito velho está num leito de hospital. Membro de uma tradicional família brasileira, ele desfia, num monólogo dirigido à filha, às enfermeiras e a quem quiser ouvir, a história da sua linhagem, desde os ancestrais portugueses, passando por um barão do Império, um senador da Primeira República, até ao tetraneto, um jovem do Rio de Janeiro actual. Uma saga familiar caracterizada pela decadência social e económica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos."

domingo, 15 de novembro de 2009

Se isto é um Homem




(o livro tem agora no mercado outra capa, em tons de branco, vermelho e preto)

Como a beleza do ser humano é a sua capacidade de pensar e fazer ligações, o post da Margarida (Eu espero que gostem) e a leitura virtual e real do livro, que é profundíssimo de facto, fez-me lembrar uma leitura que fiz este ano.

Era um livro que tinha em casa mas nunca me tinha despertado a atenção. Só que, a propósito da sua re-edição, falou-se dele na rádio e isso levou-me a incluí-lo na minha lista de compras.
Eis senão quando, ao procurar um livro, dou de caras com ele na estante...

Mais abaixo apresento a sinopse do livro e do autor, do qual já tinha lido uma obra, interessantíssima, sobre química, (O sistema periódico da Gradiva) pois ele era engenheiro Químico. O que não sabia na altura era que ele era um sobrevivente dos campos de concentração...

Vejo agora que este é um dos livros da minha vida pela profunda reflexão sobre a condição humana

"Então pela primeira vez nos apercebemos que a nossa língua carece de palavras para exprimir esta ofensa, a destruição de um homem. Num ápice, com uma intuição quase profética, a realidade revelou-se-nos: chegamos ao fundo. Mais para baixo do que isto não se pode ir: não há nem se pode imaginar condição humana mais miserável. Já nada nos pertence: tiraram-nos a roupa, os sapatos, até os cabelos; se falarmos, não nos escutarão, e se nos escutassem, não nos perceberiam. Tirar-nos-ão também o nome: se quisermos conservá-lo, teremos de encontrar dentro de nós a força para o fazer, fazer com que, por trás do nome, algo de nós, de nós tal como éramos, ainda sobreviva."

Se isto é um Homem é uma obra poderosíssima sobre a condição humana, cito apenas uma passagem: "Não temos regresso. Ninguém deve sair daqui, pois poderia levar para o mundo, juntamente com a marca gravada na carne, a terrível notícia do que, em Auschiwitz, o homem teve coragem de fazer ao homem"

Pelos vistos e isto é rigorosamente verdade houve quem duvidasse se estes testemunhos eram reais. Guantanamo é uma prova de que o sofrimento de Levi foi em vão e o nunca mais é um até à próxima.

"Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não
Considerai se isto é uma mulher
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no inverno.
Meditai que isto aconteceu
Recomendo‐vos estas palavras.
Esculpi‐as no vosso coração.
Estando em casa andando pela rua
Ao deitar‐vos e ao levantar‐vos;
Repeti‐as aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara ..."

Primo Levi

O que é um homem? Se isto é um homem (link para o texto abaixo)
Por Teresa de Sousa

A obra imortal de Primo Levi, um judeu italiano que sobreviveu a Auschwitz para escrever o mais humano e comovente testemunho do Holocusto.

Num sábado, dia 11 de Abril de 1987, por volta das 10 horas da manhã, a porteira de um sólido edifício cinzento do século XIX situado no Corso Rei Umberto de Turim tocou à porta do 3º andar para, como todos os dias, entregar o correio. Primo Levi abriu-lhe a porta, sorriu, recebeu o correio, agradeceu e reentrou. Poucos minutos depois o seu corpo estatelava-se no fundo da escada, ao lado do elevador. Morreu instantaneamente, como revelou a autópsia, que não detectou no seu corpo qualquer sinal de violência.

Suicídio foi a primeira explicação oficial que quase todos se apressaram a aceitar.

Levi desistia de ser "o bem educado cicerone do inferno." "Até ao dia da sua morte, eu estava convencido de que ele era a pessoa mais serena do mundo", disse o filósofo italiano e seu amigo, Norberto Bobbio.

O inesperado suicídio de Levi começava a parecer agora tão previsível. Concluído a tarefa de testemunhar, que o prendera à vida desde esse dia já longínquo de Janeiro de 1945 em que ganhara a batalha impossível da sobrevivência contra Auschwitz, a memória tornara-se-lhe insuportável.

Em Novembro de 1962, Levi tinha escrito: "Há um sonho pleno de horror que não deixa de me visitar (...). É um sonho dentro de um sonho. Varia nos detalhes mas não na substância. Posso estar sentado à volta de uma mesa com a minha família ou com amigos, ou no trabalho, ou num campo verde. Em suma, num ambiente pacífico e descontraído, sem qualquer tensão ou aflição aparente; e, no entanto, sinto uma profunda e subtil angústia, a sensação definitiva de uma ameaça pendente. E, de facto, à medida que o sonho continua, devagar ou brutalmente, de cada vez de uma forma diferente, tudo se desintegra à minha volta, o cenário, as paredes, as pessoas, enquanto a angústia se torna cada vez mais intensa e mais definida. Agora, tudo se transforma em caos. Estou sozinho no centro de um nada cinzento e perturbador e agora sei o que significam as coisas e também sei que sempre o soube. Estou no Laager e nada é verdadeiro fora do Laager. Tudo o resto era uma breve pausa, uma ilusão dos sentidos, um sonho (...). Este sonho dentro do sonho terminou e o outro sonho continua, gélido. Uma voz bem conhecida pronuncia uma única palavra, que não é imperiosa, apenas breve. É a voz de comando do amanhecer de Auschwitz, uma palavra estrangeira, temida, esperada: "Wstawách!. Levanta-te."

Poderá um homem sobreviver ao facto de ter sobrevivido a Auschwitz?

Rita Levi Montalcini, cientista italiana e sua velha amiga, foi a primeira a pôr em dúvida a versão do suicídio, argumentando que Levi era um químico e que conhecia mil outras maneiras, menos dramáticas e violentas, de pôr termo à vida.

Para os seus amigos, os seus admiradores, os seus leitores em todo o mundo, aceitar a ideia do suicídio era aceitar que a sua profunda humanidade fora finalmente vencida pelo mal absoluto, desmentido a mensagem de esperança que inscrevera na sua obra literária de sobrevivente.

"Escrever é a única salvação, mas escrever é também a única impossibilidade", disse Jorge Semprum, outro escritor-sobrevivente dos campos de extermínio nazis que só conseguiu testemunhar sobre os anos que passou em Buchenwaldt em 1994, num livro a que chamou "A Escrita ou a Vida".

Primo Levi, químico de formação, judeu italiano nascido em Turim em 1919, que apenas descobriu o total significado de ser judeu em 1944, terminou o seu testemunho de 11 meses de permanência em Auschwitz apenas um ano depois de ter sido libertado.

Não se trata de um livro de ficção. É apenas uma discrição objectiva, serena, contida, desprovida de amargura, do dia-a-dia de um prisioneiro de Auschwitz que se esforça por não esquecer que é um ser humano. "Se isto é um homem", publicado pela primeira vez em 1947, depois de ter sido rejeitado pelas grandes editoras italianas, já foi lido por milhões de pessoas em quase todas as línguas do mundo.

Não é mais um livro sobre o Holocausto. É um comovente ensaio sobre a própria natureza humana. "Lavar o rosto todas as manhãs, mesmo sem água e sem sabão, é a única maneira de se manter humano", disse-lhe um velho prisioneiro judeu que não sobreviveu. Quando tentava ensinar italiano a um companheiro de campo, a memória longínqua e dispersa de um passado que tinha deixado de existir, apenas lhe trazia aos lábios os versos do episódio de Ulisses do "Inferno" ("Divina Comédia") de Dante: "O que é um homem? O que é um homem?"

Depois de "Se isto é um Homem", Levi não mais deixou de escrever, amarrado à vida pela escrita, sem nunca deixar de exercer a sua profissão de químico industrial que, provavelmente, lhe salvou a vida em Auschwitz. "Imploro ao leitor que não ande à procura de mensagens. É um termo que detesto porque me impõe um fato que não é meu e que pertence a um tipo humano do qual desconfio; o profeta, o adivinho, o vidente. Não sou nada disto. Sou um homem normal com uma boa memória que caiu num turbilhão e saiu dele mais por sorte do que por virtude, e que, desde esse tempo, manteve uma certa curiosidade sobre os pequenos e grandes turbilhões, metafóricos e actuais", escreveu Levi num das suas últimas obras.

A sobriedade e a profunda humanidade dos seus escritos fizeram dele um símbolo do triunfo da razão sobre a barbárie. Por isso, a dúvida sobre o seu suicídio foi tão insuportável. Não vale a pena tentar reler a sua obra à luz do seu acto final. Basta lê-la e nunca mais esquecer.

EU ESPERO QUE GOSTEM...

Através de uma ideia luminosa da minha amiga Rita Pimenta - os vídeo-livros, mas que não consegue substituir o prazer de folhear o livro, sobretudo pelo óptimo arranjo gráfico que suporta a ilustração.

Não imagino melhor maneira de me dar a conhecer como leitora que começar por um dos livros que é definitivamente um livro da minha vida.

Porque é sobre a vida...

Porque foi a minha última leitura com a turma onde sou "madrinha da leitura", manhã em que os meninos mais uma vez me encheram o coração e mais uma vez me confirmaram que os livros nos tornam melhores pessoas...

Livro para a infância? Parece-me que é um daqueles livros mesmo para todos...

sábado, 14 de novembro de 2009

A cozinha açafrão


E se, da última vez. abri para vós, o livro ao acaso, hoje deixo-vos o início:

"No nordeste do Irão, nas planícies de Khorasan, há uma aldeia chamada Mazareth. É um favo de mel de paredes de terra castanha, onde o sopé da montanha se torna planície, afastada de Mashhad, a cidade mais próxima, com as suas cúpulas e minaretes dourados." p.11

Yasmin Crowdwer, A cozinha açafrão

"Um livro sobre as fronteiras, sobre as importantes, ainda que precárias, fronteiras da experiência humana" (Sunday Telegraph)

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

"As velas ardem até ao fim"


Outra boa leitura recente: "As velas ardem até ao fim" de Sándor Marai.

E como, de vez em quando, gosto de abrir um livro ao calhas para ver qual a surpresa que me reserva, fi-lo agora. Deixo-vos apenas uma frase:

"A vida torna-se quase interessante, quando já aprendeste as mentiras das pessoas, e começas a desfrutar e a notar que dizem sempre uma coisa daquilo que pensam e querem realmente..." (p.142)

últimas leituras...


Inauguro a minha participação neste espaço com um dos autores que mais me tem interessado ultimamente: Arturo Pérez-Reverte. A primeira - e para mim, a melhor - obra que li dele foi "O pintor de batalhas". Seguiram-se "A Tábua de Flandres" e o "O Mestre de esgrima". neste momento, folheio "Um dia de cólera".

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...