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domingo, 11 de novembro de 2018

1888 (Do espanto de viver) - Carpe Diem

Carpe Diem
Aproveita o dia,
Não deixes que termine sem teres crescido um pouco.
Sem teres sido feliz, sem teres alimentado teus sonhos.
Não te deixes vencer pelo desalento.
Não permitas que alguém te negue o direito de expressar-te, que é quase um dever.
Não abandones tua ânsia de fazer de tua vida algo extraordinário.
Não deixes de crer que as palavras e as poesias sim podem mudar o mundo.
Porque passe o que passar, nossa essência continuará intacta.
Somos seres humanos cheios de paixão.
A vida é deserto e oásis.
Nos derruba, nos lastima, nos ensina, nos converte em protagonistas de nossa própria história.
Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe.
Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.
Não caias no pior dos erros: o silêncio.
A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, e nem fujas.
Valorize a beleza das coisas simples, se pode fazer poesia bela, sobre as pequenas coisas.
Não atraiçoes tuas crenças.
Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos.
Isso transforma a vida em um inferno.
Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante.
Procures vivê-la intensamente sem mediocridades.
Pensa que em ti está o futuro, e encara a tarefa com orgulho e sem medo.
Aprendes com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.
Não permitas que a vida se passe sem teres vivido…

Walter Whitman (1819 – 1892)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

1887 (das palavras) - As Palavras de Amor

As Palavras de Amor

Esqueçamos as palavras, as palavras: 
As ternas, caprichosas, violentas, 
As suaves de mel, as obscenas, 
As de febre, as famintas e sedentas. 

Deixemos que o silêncio dê sentido 
Ao pulsar do meu sangue no teu ventre: 
Que palavra ou discurso poderia 
Dizer amar na língua da semente? 

José Saramago, in "Finalmente Alegria" 

terça-feira, 6 de novembro de 2018

1886 (das palavras) - Segunda nota explicativa

Segunda Nota Explicativa


Se uma palavra toca noutra ou mesmo sem tocar 
lhe queda próxima, põem-se as duas 
a dedilhar lembranças na ária 
da carne azada. 

Passa-se isto 
na poesia dos poetas e na linguagem 
da rua. Os ganhos 
são mútuos e ficam mal lembrados 

ou julgados inconvenientes se 
pouco prosados ultrapassam 
a discreta função de fundo 
musical na paisagem ambiente. 

Ganham em sentidos o que perdem 
em concisão. Para que servem os muros 
que nos cercam senão para dar ganas 
de os saldar? 

Júlio Pomar, in "TRATAdoDITOeFEITO" 

sábado, 3 de novembro de 2018

1885 (das palavras) - A palavra

A PALAVRA


A palavra renova-se no poema.
Ganha cor,
ganha corpo,
ganha mensagem.

A palavra no poema não é estática,
pois, inteira e nua se assume
no perfeito,
no perpétuo movimento
da incógnita que a adoça.

A palavra madura é espectáculo.
Canta.
Vive.
E respira. Para tudo isso
basta
uma mão inteligente que a trabalhe,
lhe dê a dimensão do necessário
e do sentido
e lhe amaine sobre o dorso
o animal que nela dorme destemido.

A palavra é ave
migratória,
é cabo de enxada,
é fuzil, é torno de operário,
a palavra é ferida que sangra,
é navalha que mata,
é sonho que se dissipa,
visão de vidente.

A palavra é assim tantas vezes
dia claro
sinal de paisagem
e por isso é que à palavra se dá,
inteiramente,
um bom poeta
com os seus sonhos,
com os seus fantasmas,
com os seus medos 
e as suas coragens,
porque é na palavra que muitas vezes está,
perdido ou escondido,
o outro homem que no poeta reside.

Eduardo White

[314]

domingo, 25 de fevereiro de 2018

1862 (Das palavras) - Criar histórias na cabeça das pessoas



















Criar histórias na cabeça das pessoas? Mas como o fazer? Que desafio me foi criado! Que história criar? E o microfone aqui em frente… falar de mim? Contar de ti? E o tempo passa e a tensão continua…
Ah, a história chega enfim à minha cabeça. “Um jovem encontra-se à frente de um microfone, a audiência escuta-o… Ei-lo que começa! Relata o estranho encontro que teve numa manhã que parecia igual a tantas, tantas outras…"


(e tu, que história contarias?)

João P.    

terça-feira, 11 de abril de 2017

1840 (das palavras) - Joguete de cartas sem clarinete

Joguete de cartas sem clarinete

-Tu ficas com estas,
-Não vale fazer batota!
-Eu fico com estas,  
- Quem é a primeira a jogar? és tu? sou eu?
- Eu posso começar
- Então vá! pronta?
- Sim
- Colete
- Colete? sete
- Capacete
- aah... Ralhete.
- Remete
- aah... Cadete
- aah, Valete
- Ramalhete
- Filete
- ahhh... Joanete,
- Calhambeque
- Pivete
- Filete
- aah... alfinete!
- Estou quase,
- Já tenho menos cartas que tu, parece-me!
- Canivete,
- Cheirete,
- Frete
- ai, ai, Olha, passo!
- Podes ir buscar uma ao baralho.
- És tu!
- Valete
- Ai, passo outra vez.
- Hum, Tablete
- Não tens?
- Não! Tenho de ir buscar outra vez!
- hum, ora bem, hum
- Biciclete
- Biciclete?
- Sim, biciclete!
- Ah? não é bicicleta?
-Oh não...

Ana Isabel Gonçalves e Paula Pina
Palavras de bolso
https://shar.es/1QK4NP 


quarta-feira, 22 de março de 2017

1834 (da palavra) - Como dizer poesia?

COMO DIZER POESIA
Tomemos a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é preciso fazer com que a voz pese menos de um grama nem dotá-la de asinhas poeirentas. Não é preciso inventar um dia de sol nem um campo de narcisos. Não é preciso estar-se apaixonado, nem estar-se apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Existe a palavra e existe a borboleta. Se confundires estas duas coisas darás razão a quem queira rir-se de ti. Não atribuas grande importância à palavra. Estarás a tentar insinuar que amas as borboletas de uma forma mais perfeita do que qualquer outra pessoa, ou que compreendes a sua natureza? A palavra borboleta não passa de informação. Não é uma oportunidade para pairares, levitares, aliares-te às flores, simbolizares a beleza e a fragilidade, nem de modo nenhum personificares uma borboleta. Não representes palavras. Nunca representes palavras. Nunca tentes tirar os pés do chão ao falares de voar. Nunca feches os olhos, tombando a cabeça para um dos lados, ao falares da morte. Não fixes em mim os teus olhos ardentes ao falares de amor. Se quiseres impressionar-me ao falares de amor mete a mão no bolso ou por baixo do vestido e toca-te. Se a ambição e a sede de aplausos te levaram a falar de amor deverás aprender a fazê-lo sem te envergonhares a ti mesmo nem às tuas fontes.
Qual é a expressão exigida pela nossa época? A época não exige expressão nenhuma. Já vimos fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia dos teus órgãos remexidos. Não há nada que possas estampar no teu rosto que se equipare ao horror desta época. Nem sequer tentes. Apenas te sujeitarás ao desdém daqueles que sentiram profundamente as coisas. Já assistimos a películas de seres humanos em pontos extremos de dor e desenraizamento. Toda a gente sabe que andas a comer bem e que estás até a ser pago para estares aí em cima. Estás a actuar diante de pessoas que passaram por uma catástrofe. Tal facto deverá tornar-te bastante discreto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Toda a gente sabe que estás a sofrer. Não poderás contar à plateia tudo o que sabes sobre o amor a cada verso de amor que disseres. Chega-te para o lado e as pessoas saberão o que tu sabes por já o saberes. Nada tens para lhes ensinar. Tu não és mais belo do que elas. Não és mais sábio. Não lhes grites. Não forces uma penetração a seco. É mau sexo. Se revelares o contorno dos teus genitais, então cumpre o que prometes. E lembra-te que as pessoas não desejam propriamente um acrobata na cama. De que é que nós precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não finjas que és um cantor adorado com um público vasto e leal que tem vindo a acompanhar os altos e baixos da tua vida até ao momento presente. As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias. Destruíram igualmente o palco. Achaste que a tua profissão escaparia à destruição geral? Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Fica a sós. Fica no teu canto. Não te insinues.
Trata-se de uma paisagem interior. É por dentro. É privado. Respeita a privacidade do texto. Estas obras foram escritas em silêncio. A coragem da actuação é dizê-las. A disciplina da actuação é não as violar. Deixa que o público sinta o teu amor pela privacidade ainda que não haja privacidade. Sejam boas putas. O poema não é um slogan. Não poderá publicitar-te. Não poderá promover a tua reputação de seres sensível. Tu não és um garanhão. Tu não és uma mulher fatal. Toda essa treta relacionada com os bandidos do amor. Vocês são estudantes da disciplina. Não representes as palavras. As palavras morrem se as representares, murcham, e a única coisa que sobrará será a tua ambição.
Diz as palavras com a exacta precisão com que verificas uma lista de roupa suja. Não te comovas com a blusa de renda. Não fiques de pau feito ao dizer cuecas. Não te arrepies todo só por causa da toalha. Os lençóis não deverão suscitar à volta dos olhos uma expressão sonhadora. Não é preciso chorar agarrado a um lenço. As meias não estão lá para te recordar viagens estranhas e longínquas. É só a tua roupa suja. São só as tuas peças de roupa. Não espreites através delas. Veste-as.
O poema não é senão informação. É a Constituição do país interior. Se o declamares e deres cabo dele com nobres intenções, então não serás melhor do que os políticos que desprezas. Não passarás de uma pessoa a agitar uma bandeira e a realizar o apelo mais reles a uma espécie de patriotismo emocional. Pensa nas palavras como sendo ciência e não arte. Elas são um relatório. Tu estás a falar num encontro do Clube de Exploradores da National Geographic. As pessoas que tens à tua frente conhecem todos os riscos do montanhismo. Honram-te partindo desse princípio. Se lhes esfregares isso na cara, será um insulto à sua hospitalidade. Fala-lhes da altura da montanha, do equipamento que usaste, sê rigoroso em relação às superfícies e ao tempo que demoraste a escalá-la. Não manipules o público à caça de bocas abertas e suspiros. Se mereceres as bocas abertas e os suspiros, isso não se deverá à avaliação que fizeres do acontecimento, mas à que o público fizer. Resultará da estatística e não do tremer da tua voz nem das tuas mãos a cortar o ar. Resultará dos dados e da discreta organização da tua presença.
Evita os floreados. Não tenhas medo da fraqueza. Não tenhas vergonha do cansaço. O cansaço dá-te bom ar. O ar de quem seria capaz de nunca mais parar. Agora, entrega-te aos meus braços. Tu és a imagem da minha beleza.
Leonard Cohen
(tradução de Vasco Gato)

sábado, 26 de novembro de 2016

1820 (das palavras) - Quando, um dia

Quando, um dia.

Quando eu souber escrever,
Dir-te-ei dos meus silêncios.
Quando um dia souber calar,
Falar-te-ei dos meus diálogos.
Quando um dia souber dizer,
Calarei a minha voz.

O escrito,
O silenciado,
O não dito,
As palavras.

Quando um dia souber dizer,
Então dir-te-ei,
Quando um dia souber escrever,
Então falar-te-ei.  

E me compreenderás?
E me compreenderei?  

Usaremos as palavras,
Sem receios,
Isso me e nos bastará.

João P.

Nov 2016 

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...