O Teu Riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.
Pablo Neruda
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segunda-feira, 12 de novembro de 2018
quinta-feira, 6 de abril de 2017
1839 (Do espanto) - E ao fim de tantos anos aqui tens de novo um coração
E ao fim de tantos anos aqui tens
de novo um coração Lembras-te ainda
do que lias no Hurst. duas aurículas
e dois ventrículos. as válvulas
a mitral a tricúspide. os desenhos
tão nítidos do Netter
os sons milhões de vezes repetidos
a cadência ritmada que escutavas
no Litmtman do teu pai essa alternância
de sístole e diástole. o seu fogo
que dantes te fazia arder o peito
incendiar as noites
Ao fim de tantos séculos. milénios
acreditaste ser
inócuo para sempre. estar enfim
extinto esse vulcão
Agora no entanto
recomeça a bater todos os dias
e não sabes porquê
Fernando Pinto do Amaral
de novo um coração Lembras-te ainda
do que lias no Hurst. duas aurículas
e dois ventrículos. as válvulas
a mitral a tricúspide. os desenhos
tão nítidos do Netter
os sons milhões de vezes repetidos
a cadência ritmada que escutavas
no Litmtman do teu pai essa alternância
de sístole e diástole. o seu fogo
que dantes te fazia arder o peito
incendiar as noites
Ao fim de tantos séculos. milénios
acreditaste ser
inócuo para sempre. estar enfim
extinto esse vulcão
Agora no entanto
recomeça a bater todos os dias
e não sabes porquê
Fernando Pinto do Amaral
terça-feira, 14 de fevereiro de 2017
1832 - (do que somos feitos) - Aqui estou eu
"Aqui estou eu
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu."
Delmar Maia Gonçalves
Mestiço de negro e branco
Severo e brando
Obstinado e ocioso
Modesto e orgulhoso
Obsessivo e sereno
Manso e prudente
Agradável e egocêntrico
Talvez a lei dos contrários
Impere em mim
Ou talvez haja apenas
Uma simbiose de antíteses
O que faz de mim indivíduo
Pois é…
Eu sou eu."
Delmar Maia Gonçalves
domingo, 12 de fevereiro de 2017
1831 (da condição humana) Poema em linha reta
Poema em linha reta
Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)
[538]
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
1828 (Do amor) - Para ti meu amor
Para ti, Meu amor
Para ti,
Meu amor;
Levanto a voz,
Para ti,
Meu amor;
Levanto a voz,
No silêncio
Desta solidão em que me encontro.
Sei que gostas de ouvir,
A minha voz,
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós
Sei que me ouves
Agora
- Uma vez mais -
- Uma vez mais -
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor;
Opera esse milagre
O amor;
Opera esse milagre
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir;
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Adivinhar;
Bem ao nosso lado,
A perseverança,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
Mário Soares
Aljube
22 Fevereiro 1962
Ouvir;
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Adivinhar;
Bem ao nosso lado,
A perseverança,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
Mário Soares
Aljube
22 Fevereiro 1962
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
1826 (da condição humana) - Para haver Natal este Natal
Para haver Natal este Natal
Talvez seja preciso reaprendermos
Coisas
tão simples!
Que
as mãos preocupadas com embrulhos
Esquecem
outros gestos de amor,
Que
os votos rotineiros que trocamos
Calam
conversas que nos fariam melhor,
Que
os símbolos apenas se amontoam
E
soltam uma música triste
Quando
já não dizem aquela verdade profunda!
Para
haver Natal este Natal
Talvez
seja preciso recordar
Que
as vidas começam e recomeçam
E
tudo isso é nascimento (logo, Natal)
Que
as esperanças ganham sentido
Quando
se tornam caminhos e passos.
Que
para lá das janelas cerradas
Há
estrelas que luzem
E
há a imensidão do Céu.
Talvez nos bastem coisas
Afinal
tão simples:
(1)
O alento dos reencontros autênticos;
(2)
A oração como confiança soletrada;
(3)
A certeza de que Jesus nasce em cada ano
Para
que o nosso natal, alguma vez, esta vez, seja Natal!
Tolentino Mendonça
segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
1823 (Do íntimo e pessoal) - Portugal Sacro-profano Vila do Conde
Portugal Sacro-Profano Vila do Conde
O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é Vila do Conde
Ruy Belo
O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é Vila do Conde
Ruy Belo
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
1822 (do amor) - Tu está aqui
TU ESTÁS AQUI
Estás aqui comigo à sombra do sol
escrevo e oiço certos ruídos domésticos
e a luz chega-me humildemente pela janela
e dói-me um braço e sei que sou o pior aspeto do que sou
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano
e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama
que uso para ser também isto este bicho
de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos
quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o
que faço ou então sou eu que julgo que o sabem
e sou amável e seleciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras
e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa
esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior
a manifestação desta dor neste braço que afeta tudo o que faço
bem entendido o que faço com este braço
Estás aqui comigo e à volta são as paredes
e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa
e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho
e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer
Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado
passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes
esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa
essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol
Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso
diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome
este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro
nome embora no mesmo nome este nome
de terra de dor de paredes este nome doméstico
Afinal fui isto nada mais do que isto
as outras coisas que fiz fi-las para não ser isto ou dissimular isto
a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda
e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir umas coisas das outras coisas
Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto
pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa
uma coisa para além disto que não isto
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo
é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos
mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos
tu és em cada gesto todos os teus gestos
e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz
Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas
perdoa pagares tão alto preço por estar aqui
perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui
prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente
deixa docemente desvanecerem-se um por um os dias
e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer
sou isto é certo mas sei que tu estás aqui
Poema de Ruy Belo in "O tempo das suaves raparigas e outros poemas de amor", edição Assírio & Alvim (1402), Julho 2010
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Creio que já publiquei "isto" aqui. Não interessa! Hoje, dei de novo de caras com o vídeo e, novamente, me deliciei a vê-lo. Claro...
-
Bom... narcisismo também não será... Mas com eles duram não mais que três semanas e estão tão lindos aqui no jardim que resolvi fotografa-lo...