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segunda-feira, 1 de julho de 2013
Epígrafe
(Que prazer dá a leitura de um bom poema!)
De palavras não sei. Apenas tento
desvendar o seu lento movimento
quando passam ao longo do que invento
como pre-feitos de cimento.
.De palavras não sei. Apenas quero
retomar-lhes o peso a consistência
e com elas erguer a fogo e ferro
um palácio de força e resistência.
.
De palavras não sei. Por isso canto
em cada uma apenas outro tanto
do que sinto por dentro quando as digo.
.Palavra que me lavra. Alfaia escrava.
De mim próprio matéria bruta e brava
- expressão da multidão que está comigo.
José Carlos Ary dos Santos
domingo, 14 de outubro de 2012
1539 - Presente e futuro
Soneto presente
Não me digam mais nada senão morroaqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso dizer eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.
Aqui ninguém me põe a pata em cima
porque é de baixo que me vem acima
a força do lugar que for o meu.
José Carlos Ary dos Santos
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
976 - Sonata de Outono
É verdade que as coisas ganham outro sentido quando são partilhadas.
É verdade que valorizo muito o olhos nos olhos e a partilha
É verdade que fiquei a conhecer um pouco melhor o Ary
Obrigado Ary, Obrigado Maria
SONATA DE OUTONO (escrito dois dias antes da sua morte)
Inverno não é 'inda mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Poeta distraído, cão sem dono
Até na própria cama em que me deito
Inverno não é 'inda mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito
Mesmo eu de mim próprio me abandono
Se o rigor que me devo não respeito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito
Morro de pé
Mas morro devagar
A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser
Não me deixo ficar
Não pode ser
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
Pois viver é também acontecer
A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser
José Carlos Ary Dos Santos
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
951 - Volta Manuel Maria que estás perdoado
Outro soneto ao França
Rapada, amarelenta, cabeleira,
Vesgos olhos, que o chá, e o doce engoda,
Boca, que à parte esquerda se acomoda,
(Uns afirmam que fede, outros que cheira):
Japona, que da ladra andou na feira;
Ferrugento faim, que já foi moda
No tempo em que Albuquerque fez a poda
Ao soberbo Hidalcão com mão guerreira:
Ruço calção, que esporra no joelho
Meia e sapato, com que ao lodo avança,
Vindo a encontrar-se c'o esburgalhado artelho:
Jarra, com apetites de criança;
Cara com semelhança de besbelho;
Eis o bedel do Pindo, o doutor França.
domingo, 13 de setembro de 2009
895 - Arranque do ano lectivo
Ontem fui a uma escola do centro do país falar a um grupo de professores. Gostei! não é uma questão de correr bem ou mal mas apenas de achar extremamente importante e interessante que a escola se organize e arranje tempo e espaço para reflectir sobre as suas práticas...
Esta sessão foi num momento bem importante pois as aulas estão prestes a começar e as pessoas ainda estão com cabeça para reflectir sobre as suas práticas.
Deixei-lhes os parabéns por isso.
Foi uma manhã bem interessante de reflexão sobre os objectivos da escola e sobre o que deverá ser a escola do Século XXI... As pessoas costumam estar tão fechadas sobre si próprias e disciplinas que leccionam que levá-los a reflectir sobre a floresta (ao inves da árvore) acaba por ser muito importante!
Pena foi que quatro anos de diabolização dos professores lhes faça criar anti corpos quando se reflecte sobre alguns domínios da profissão docente... Criaram-se anti-corpos e reflexos pavlovianos. Isto vai durar anos a superar!
Penso que correu muito bem e que ficaram despertos para pensar nas aulas que dão de uma outra forma!
Terminámos a sessão com a leitura de um poema brilhante do Ary que transcreverei no fim do post
Entretanto almocei na praia de Mira. Soube a fim de férias.
Esta ida à escola fez-me lembrar os conselhos de turma que tive na minha escola. É impressionante a quantidade de casos problemáticos com miúdos que irão/frequentam a minha escola e que exigem reflexão e respostas adequadas.
Há imensos casos de filhos de separados( e digo já que não tenho absolutamente nada contra as separações quando acaba o amor - nada mesmo). A questão é a forma como os adultos que se separam tratam dos miúdos... Ou deixam de lhes falar, ou estes são usados como armas de arremesso, ou deixam de pagar as despesas aos filhos, ou os deseducam com mimos exageradíssimos ou são deixados para segundo plano perante o(s) novo(s) filho (s) do novo casal. Depois há os casos de miúdos em que ambos os progenitores ficaram desempregados, os filhos de emigrantes ilegais, os abandonados à nascença, os com dificuldades sérias de aprendizagem...
Não me estou a queixar ou a desejar ficar só com os bonitinhos e educadinhos...
Constato é que ensinar estes meninos exige que a escola se organize de forma diferente do tradicional.
Constato é que é urgente, antes de mais, cuidar da pessoa antes de pensar em ensinar qualquer coisa.
Constato é que o trabalho coerente e em equipa urge.
Constato é que são necessárias novas políticas
Nunca me queixei dos desafios! gosto de encontrar respostas novas a problemas novos. Tal como disse aos professores daquela escola, a sociedade mudou muitíssimo desde que a geração dos 40/50 começou a ensinar. Manter velhas rotinas e hábitos significa não entender que não se está a preparar os meninos para a sociedade em que eles irão viver. Também importa ter muito presente que a escola para inclusiva e para todos tem que se organizar de uma forma diferente da escola elitista de há 40 anos!
É só. Vamos ver como conseguiremos chegar a estes alunos provenientes destas novas famílias...
Estudar é muito importante, mas pode-se estudar de várias maneiras...
Muitas vezes estudar não é só aprender o que vem nos livros.
Estudar não é só ler nos livros que há nas escolas.
É também aprender a ser livres, sem ideias tolas.
Ler um livro é muito importante, às vezes, urgente.
Mas os livros não são o bastante para a gente ser gente.
É preciso aprender a escrever,
mas também a viver,
mas também a sonhar.
É preciso aprender a crescer,
aprender a estudar.
Aprender a crescer quer dizer:
aprender a estudar, a conhecer os outros,
a ajudar os outros, a viver com os outros.
E quem aprende a viver com os outros
aprende sempre a viver bem consigo próprio.
Não merecer um castigo é estudar.
Estar contente consigo é estudar.
Aprender a terra, aprender o trigo
e ter um amigo também é estudar.
Estudar também é repartir,
também é saber dar
o que a gente souber dividir
para multiplicar.
Estudar é escrever um ditado sem ninguém nos ditar;
e se um erro nos for apontado
é sabê-lo emendar.
É preciso, em vez de um tinteiro,
ter uma cabeça que saiba pensar,
pois, na escola da vida,
primeiro está saber estudar.
Contar todas as papoilas de um trigal
é a mais linda conta de somar
que se pode fazer.
Dizer apenas música,
quando se ouve um pássaro,
pode ser a mais bela redacção do mundo…
estudar é muito...
mas pensar é tudo!
J. C. Ary dos Santos
sábado, 3 de março de 2007
162 - Lisboa II
Um Homem na Cidade
Agarro a madrugada
como se fosse uma criança,
uma roseira entrelaçada,
uma videira de esperança.
Tal qual o corpo da cidade
que manhã cedo ensaia a dança
de quem, por força da vontade,
de trabalhar nunca se cansa.
Vou pela rua desta lua
que no meu Tejo acendo cedo,
vou por Lisboa, maré nua
que desagua no Rossio.
Eu sou o homem da cidade
que manhã cedo acorda e canta,
e, por amar a liberdade,
com a cidade se levanta.
Vou pela estrada deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresce na vela da canoa.
Sou a gaivota que derrota
tudo o mau tempo no mar alto.
Eu sou o homem que transporta
a maré povo em sobressalto.
E quando agarro a madrugada,
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada,
um malmequer azul na cor,
o malmequer da liberdade
que bem me quer como ninguém,
o malmequer desta cidade
que me quer bem, que me quer bem.
Nas minhas mãos a madrugada
abriu a flor de Abril também,
a flor sem medo perfumada
com o aroma que o mar tem,
flor de Lisboa bem amada
que mal me quis, que me quer bem.
segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
127 - Era tarde demais...

Estrela da Tarde
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amorMinha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amorEu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.
José Carlos Ary dos Santos
sábado, 11 de novembro de 2006
111 - a propósito do sentido do que se diz
O Objecto
Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.
Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.
E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.
E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.
Ary dos Santos
Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.
Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.
E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.
E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.
Ary dos Santos
segunda-feira, 10 de julho de 2006
53 - Pois, pois... um cruzeiro...

O Cacilheiro
Letra: Ary dos Santos
Lá vai no Mar da Palha o Cacilheiro,
comboio de Lisboa sobre a água:
Cacilhas e Seixal, Montijo mais Barreiro.
Pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.
Na Ponte passam carros e turistas
iguais a todos que há no mundo inteiro,
mas, embora mais caras, a Ponte não tem vistas
como as dos peitoris do Cacilheiro.
Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.
Num carreirinho aberto pela espuma,
la vai o Cacilheiro, Tejo à solta,
e as ruas de Lisboa, sem ter pressa nenhuma,
tiraram um bilhete de ida e volta.
Alfama, Madragoa, Bairro Alto,
tu cá-tu lá num barco de brincar.
Metade de Lisboa à espera do asfalto,
e já meia saudade a navegar.
Leva namorados, marujos,
soldados e trabalhadores,
e parte dum cais
que cheira a jornais,
morangos e flores.
Regressa contente,
levou muita gente
e nunca se cansa.
Parece um barquinho
lançado no Tejo
por uma criança.
Se um dia o Cacilheiro for embora,
fica mais triste o coração da água,
e o povo de Lisboa dirá, como quem chora,
pouco Tejo, pouco Tejo e muita mágoa.
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