Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares.
Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por acaso e pela minha vontade de abraçar novos projetos. Tornei-me professor bibliotecário no Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté que, na altura, era ainda apenas uma escola.
E, como os acasos andam todos ligados — ou porque Deus lá sabe coser as linhas do destino —, em outubro de 2001 (há 25 anos portanto) recebi um convite para participar num projeto europeu relacionado com bibliotecas: o Grandslam. Como isso tornaria este texto ainda maior, abstenho-me, por agora, de contar os contornos desse convite, que só mais tarde vim a conhecer e que tanto impacto teve na minha vida e na orientação que lhe dei.
De 2001 a 2006 vivi tempos de enorme aprendizagem. Tive o apoio da Biblioteca Municipal de Almada, na pessoa da Dr.ª Isabel Pireza, que me ensinou os meandros do PRISMA, a par da formação que fui realizando. Muito lhe agradeço, pois recebi uma biblioteca sem catálogo, com cerca de 3000 exemplares, e, ao fim de um ano, tinha catalogado apenas 10% desses mesmos documentos. Foi preciso algum tempo e um bom empurrão, mas, ao fim de três anos, tinha já toda a coleção catalogada. E, entretanto, essa coleção tinha duplicado, graças ao investimento realizado e aos projetos que fomos ganhando.
A bagagem que o projeto europeu me foi dando, ao nível da formação, do contacto com outras práticas e com gente capacitada e conhecedora que fui encontrando — pessoas que, afinal, liam “outros” livros — foi uma das motivações para abraçar, em 2005, o Mestrado em Gestão da Informação e Bibliotecas Escolares, da Universidade Aberta. Aprendi imenso com a Dr.ª Glória Bastos e tive acesso a informação organizada, sistematizada e a novos modos de pensar as bibliotecas escolares.
Em setembro de 2006, recebi um convite da Dr.ª Teresa Calçada para ir trabalhar para o Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares. Aceitei, mas confesso que ainda hesitei um pouco. O trabalho que estava a fazer entusiasmava-me e teria de o abandonar sem saber muito bem ao que ia.
De 2006 a 2011 estive, a par com a lecionação, no Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares. Recordo gente muito boa e recordo a Dr.ª Teresa, com quem muito aprendi, para o bem e para o mal, com a forma como geria a Rede e com a profunda reflexão que acompanhava as nossas reuniões periódicas. Ela estava (e está), muitas vezes, à frente do seu tempo e das questões que eram então colocadas às bibliotecas: a falta de novos fundos documentais, o desafio da Web 2.0 e de um certo otimismo ingénuo, a generalização da Internet, os catálogos, os novos equipamentos, os espaços, o crescimento da Rede e tantos projetos novos — alguns inconsequentes e outros que deixaram uma marca profunda.
Passei a coordenador interconcelhio para as bibliotecas escolares em setembro de 2011. Passei a acompanhar, sobretudo, as bibliotecas escolares dos concelhos de Almada e do Seixal, embora tenha também acompanhado, temporariamente, outros concelhos.
Foi — e continua a ser — um tempo de grande aprendizagem e de muito jogo de cintura. É necessário falar com os autarcas, com as bibliotecárias municipais e chefes de divisão, com diretores escolares, coordenadores de estabelecimento, professores, professores bibliotecários, assistentes operacionais, parceiros de projetos e centros de formação de professores.
Nem sempre fui, nem sou, bem acolhido, pois nem todos entendem ainda a importância e a necessidade das bibliotecas escolares. Outros pensam a curto prazo, concentrados apenas na gestão do quotidiano, outros ainda focados em coisas que dão nas vistas: metas, números,... No entanto, sinto que a mensagem e o trabalho em rede foram, e continuam a ser, bem acolhidos pela generalidade dos interlocutores. E muito se tem feito — e continua a fazer-se — quando se sonha e se aposta alto!
Tive muitos, muitos momentos bons. Muito bons. Fruto da colaboração e do empenho de gente muito boa e dedicada. No fim, são os miúdos que ganham!
Haja quem sonhe em conjunto.
O panorama das bibliotecas escolares e das escolas é hoje muito diferente do que era há 25 anos. Muitos espaços foram requalificados; os professores bibliotecários assumiram o seu papel e investiram na sua formação. São capazes de procurar parcerias, de se afirmarem e de liderarem projetos. Aderem a iniciativas inovadoras e pensadas para o futuro. Desinstalam-se. Do lado das parcerias institucionais e outras o pensamento também mudou! Por exemplo, já não se constroem novas escolas sem bibliotecas.
Foram tantos e tantos os projetos ganhos e mais de 20 bibliotecas escolares inauguradas. E continuamos a caminhar para que possa existir uma biblioteca ou um ponto de biblioteca em cada escola, o que, digo eu, deveria ser o normal.
Há hoje uma grande consciência da importância do fomento da leitura desde a mais tenra idade para a formação dos cidadãos. Ainda há muito caminho a percorrer, certamente, mas talvez seja uma das mudanças mais importantes a que assisti nestes 25 anos.
E não se pense — nem eu penso — que isto é autoelogio ou fruto apenas do meu trabalho. Procuro apenas motivar, criar condições, estabelecer pontes, desafiar, insistir, por vezes chatear… Todo o mérito foi, e é, sempre de muitos.
Neste olhar sobre os 25 anos que passaram, não posso deixar de referir os cursos europeus, na área das bibliotecas, que coorganizei — foram cerca de uma dezena. Professores, decisores políticos, diretores e outros profissionais vindos de toda a Europa a refletir em conjunto e a criar pensamento e práticas consistentes. Foram experiências extraordinárias.
Também o projeto READ ON, financiado pela Europa Criativa, teve — e continua a ter — tanto impacto em Portugal, através dos 10 Minutos a Ler, dos concursos, das antologias e do Festival READ ON Almada. Foi um tempo de grande aprendizagem, partilha e diálogo. Ainda hoje mantenho contacto com alguns desses participantes e vou tomando consciência do impacto que esses cursos e projetos tiveram nos seus percursos profissionais e pessoais.
Neste contexto não posso deixar de referir o nome de Ross Todd, que tanto me inspirou e que acedeu sempre, graciosamente, aos nossos desafios. Tanto e tanto aprendi com ele sobre bibliotecas e sobre as qualidades de um ser humano. É por causa dele e de mais duas ou três pessoas que muito marcaram o meu pensamento que aqui me mantenho, pronto para todos os desafios, recebendo muitas recompensas, mas trabalhando muito, muito.
Também dei milhares de horas de formação na área das bibliotecas. Tantos e tantos docentes estiveram envolvidos. Sei que a semente — e o bichinho das bibliotecas — ficou em muitos. Alguns tornaram-se professores bibliotecários e outros investiram na sua formação académica. Talvez essa seja uma das recompensas mais bonitas de quem trabalha na formação: perceber, anos mais tarde, que alguma coisa que dissemos, partilhámos ou fizemos ajudou alguém a encontrar um caminho.
Também eu próprio nunca deixei de me atualizar e de estudar, estudar muito de modo a apoiar na solução dos novos desafios que vão surgindo e também a nível da capacitação, dos outros, através da liderança e do marketing. Também participei em congressos, seminários, formações e fui fazendo investigação que foi considerada ter qualidade para ficar registada em atas de congressos e em revisytas científicas.
Uma palavra ainda para a importância da BAD — Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação — ao longo destes 25 anos. Através dela tive contacto com uma série de grandes profissionais nas áreas da informação, das bibliotecas e dos arquivos, que me abriram horizontes e ajudaram a criar rede.
Será que o país é tão rico que nos possa permitir desperdiçar o talento e a inteligência de colegas que trabalham na mesma área de atividade? temos tanto a aprender e a ensinar uns com os outros que fecharmos-mos no nosso mundo pequenino é não crescer. Como dizia a Drª Maria José Moura é importante ter mundo, pensar em grande, não cristalizar. Triste é pensar que o mundo das bibliotecas começa e acaba na minha escola, no meu local de trabalho e que eu sou autosuficiente. Essa é mesmo a morte do artista. Temos tanto, mas tanto a aprender com outros que até nem fazem exatamente o mesmo que nós fazemos. como dizia o poeta: viva quem vive com a cabeça ao contrário e que sabe ver ou como diz a Maria José Vitorino, que tanto me inspira: "Pensar é grátis".
Ao fazer este percurso pela memória de 25 anos de trabalho, falta-me ainda dizer três coisas.
A primeira: 25 anos é mesmo muito tempo.
Dos que começaram comigo neste trabalho das bibliotecas, muitos já se reformaram. Outros escolheram outros caminhos, pois este é um trabalho cansativo. Muito cansativo. Quem pensa que ir para as bibliotecas é ganhar tempo para ler ou para pouco fazer, desengane-se.
Alguns voltaram para as turmas por acharem que isto dava muito trabalho, outros, dadas as competências criadas, aceitaram novos desafios, tornaram-se autarcas, diretores,... Outros já partiram, e sinto falta deles.
Fica tão estranho coordenar uma reunião e perceber que as caras que começaram comigo já são poucas.
Serei louco? Serei resiliente? Talvez um pouco das duas coisas.
A segunda: sinto-me mal por não referir dezenas de nomes que foram fundamentais neste processo e que muito me ajudaram e inspiraram. Sou tentado a começar a enumerá-los, mas não creio que faça muito sentido. Ficará sempre gente de fora e isso poderá criar constrangimentos que, de todo, não desejo.
Sou agora amigo de tantos, tantos, que temo dececioná-los por alguma omissão ou simplesmente por não aparecerem numa certa ordem imaginada.
Agradeço-lhes, por isso, de coração. A todos. Por me inspirarem a continuar, a não desistir e, quem sabe, a dar de mim mais 25 anos.
Há tanta e tanta recompensa nos sucessos, pequenos e grandes, que todos os dias acontecem. Há sempre gente a tentar fazer melhor. Há sempre algo de novo a acontecer. Há sempre os “loucos de Lisboa” que fazem os rios nascer no mar e desaguar nos nossos sonhos e nas nossas concretizações.
E talvez seja isso que, passados 25 anos, continua a fazer sentido: haver gente que sonha, gente que acredita e gente que não desiste de fazer das bibliotecas escolares lugares onde as coisas podem começar.
Porque, afinal, uma biblioteca escolar nunca é apenas uma biblioteca.
As últimas são um agradecimento à Rede de Bibliotecas Escolares por ter confiado e continuar a confiar no meu trabalho. Se aqui cheguei foi graças ao desafio e apoio que me foi dado ao longo de todo este tempo. Deu-me e dá-me rede, apoio e estrutura e à família pela grande paciência para comigo.
Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por acaso e pela minha vontade de abraçar novos projetos. Tornei-me professor bibliotecário no Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté que, na altura, era ainda apenas uma escola.
E, como os acasos andam todos ligados — ou porque Deus lá sabe coser as linhas do destino —, em outubro de 2001 (há 25 anos portanto) recebi um convite para participar num projeto europeu relacionado com bibliotecas: o Grandslam. Como isso tornaria este texto ainda maior, abstenho-me, por agora, de contar os contornos desse convite, que só mais tarde vim a conhecer e que tanto impacto teve na minha vida e na orientação que lhe dei.
De 2001 a 2006 vivi tempos de enorme aprendizagem. Tive o apoio da Biblioteca Municipal de Almada, na pessoa da Dr.ª Isabel Pireza, que me ensinou os meandros do PRISMA, a par da formação que fui realizando. Muito lhe agradeço, pois recebi uma biblioteca sem catálogo, com cerca de 3000 exemplares, e, ao fim de um ano, tinha catalogado apenas 10% desses mesmos documentos. Foi preciso algum tempo e um bom empurrão, mas, ao fim de três anos, tinha já toda a coleção catalogada. E, entretanto, essa coleção tinha duplicado, graças ao investimento realizado e aos projetos que fomos ganhando.
A bagagem que o projeto europeu me foi dando, ao nível da formação, do contacto com outras práticas e com gente capacitada e conhecedora que fui encontrando — pessoas que, afinal, liam “outros” livros — foi uma das motivações para abraçar, em 2005, o Mestrado em Gestão da Informação e Bibliotecas Escolares, da Universidade Aberta. Aprendi imenso com a Dr.ª Glória Bastos e tive acesso a informação organizada, sistematizada e a novos modos de pensar as bibliotecas escolares.
Em setembro de 2006, recebi um convite da Dr.ª Teresa Calçada para ir trabalhar para o Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares. Aceitei, mas confesso que ainda hesitei um pouco. O trabalho que estava a fazer entusiasmava-me e teria de o abandonar sem saber muito bem ao que ia.
De 2006 a 2011 estive, a par com a lecionação, no Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares. Recordo gente muito boa e recordo a Dr.ª Teresa, com quem muito aprendi, para o bem e para o mal, com a forma como geria a Rede e com a profunda reflexão que acompanhava as nossas reuniões periódicas. Ela estava (e está), muitas vezes, à frente do seu tempo e das questões que eram então colocadas às bibliotecas: a falta de novos fundos documentais, o desafio da Web 2.0 e de um certo otimismo ingénuo, a generalização da Internet, os catálogos, os novos equipamentos, os espaços, o crescimento da Rede e tantos projetos novos — alguns inconsequentes e outros que deixaram uma marca profunda.
Passei a coordenador interconcelhio para as bibliotecas escolares em setembro de 2011. Passei a acompanhar, sobretudo, as bibliotecas escolares dos concelhos de Almada e do Seixal, embora tenha também acompanhado, temporariamente, outros concelhos.
Foi — e continua a ser — um tempo de grande aprendizagem e de muito jogo de cintura. É necessário falar com os autarcas, com as bibliotecárias municipais e chefes de divisão, com diretores escolares, coordenadores de estabelecimento, professores, professores bibliotecários, assistentes operacionais, parceiros de projetos e centros de formação de professores.
Nem sempre fui, nem sou, bem acolhido, pois nem todos entendem ainda a importância e a necessidade das bibliotecas escolares. Outros pensam a curto prazo, concentrados apenas na gestão do quotidiano, outros ainda focados em coisas que dão nas vistas: metas, números,... No entanto, sinto que a mensagem e o trabalho em rede foram, e continuam a ser, bem acolhidos pela generalidade dos interlocutores. E muito se tem feito — e continua a fazer-se — quando se sonha e se aposta alto!
Tive muitos, muitos momentos bons. Muito bons. Fruto da colaboração e do empenho de gente muito boa e dedicada. No fim, são os miúdos que ganham!
Haja quem sonhe em conjunto.
O panorama das bibliotecas escolares e das escolas é hoje muito diferente do que era há 25 anos. Muitos espaços foram requalificados; os professores bibliotecários assumiram o seu papel e investiram na sua formação. São capazes de procurar parcerias, de se afirmarem e de liderarem projetos. Aderem a iniciativas inovadoras e pensadas para o futuro. Desinstalam-se. Do lado das parcerias institucionais e outras o pensamento também mudou! Por exemplo, já não se constroem novas escolas sem bibliotecas.
Foram tantos e tantos os projetos ganhos e mais de 20 bibliotecas escolares inauguradas. E continuamos a caminhar para que possa existir uma biblioteca ou um ponto de biblioteca em cada escola, o que, digo eu, deveria ser o normal.
Há hoje uma grande consciência da importância do fomento da leitura desde a mais tenra idade para a formação dos cidadãos. Ainda há muito caminho a percorrer, certamente, mas talvez seja uma das mudanças mais importantes a que assisti nestes 25 anos.
E não se pense — nem eu penso — que isto é autoelogio ou fruto apenas do meu trabalho. Procuro apenas motivar, criar condições, estabelecer pontes, desafiar, insistir, por vezes chatear… Todo o mérito foi, e é, sempre de muitos.
Neste olhar sobre os 25 anos que passaram, não posso deixar de referir os cursos europeus, na área das bibliotecas, que coorganizei — foram cerca de uma dezena. Professores, decisores políticos, diretores e outros profissionais vindos de toda a Europa a refletir em conjunto e a criar pensamento e práticas consistentes. Foram experiências extraordinárias.
Também o projeto READ ON, financiado pela Europa Criativa, teve — e continua a ter — tanto impacto em Portugal, através dos 10 Minutos a Ler, dos concursos, das antologias e do Festival READ ON Almada. Foi um tempo de grande aprendizagem, partilha e diálogo. Ainda hoje mantenho contacto com alguns desses participantes e vou tomando consciência do impacto que esses cursos e projetos tiveram nos seus percursos profissionais e pessoais.
Neste contexto não posso deixar de referir o nome de Ross Todd, que tanto me inspirou e que acedeu sempre, graciosamente, aos nossos desafios. Tanto e tanto aprendi com ele sobre bibliotecas e sobre as qualidades de um ser humano. É por causa dele e de mais duas ou três pessoas que muito marcaram o meu pensamento que aqui me mantenho, pronto para todos os desafios, recebendo muitas recompensas, mas trabalhando muito, muito.
Também dei milhares de horas de formação na área das bibliotecas. Tantos e tantos docentes estiveram envolvidos. Sei que a semente — e o bichinho das bibliotecas — ficou em muitos. Alguns tornaram-se professores bibliotecários e outros investiram na sua formação académica. Talvez essa seja uma das recompensas mais bonitas de quem trabalha na formação: perceber, anos mais tarde, que alguma coisa que dissemos, partilhámos ou fizemos ajudou alguém a encontrar um caminho.
Também eu próprio nunca deixei de me atualizar e de estudar, estudar muito de modo a apoiar na solução dos novos desafios que vão surgindo e também a nível da capacitação, dos outros, através da liderança e do marketing. Também participei em congressos, seminários, formações e fui fazendo investigação que foi considerada ter qualidade para ficar registada em atas de congressos e em revisytas científicas.
Uma palavra ainda para a importância da BAD — Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação — ao longo destes 25 anos. Através dela tive contacto com uma série de grandes profissionais nas áreas da informação, das bibliotecas e dos arquivos, que me abriram horizontes e ajudaram a criar rede.
Será que o país é tão rico que nos possa permitir desperdiçar o talento e a inteligência de colegas que trabalham na mesma área de atividade? temos tanto a aprender e a ensinar uns com os outros que fecharmos-mos no nosso mundo pequenino é não crescer. Como dizia a Drª Maria José Moura é importante ter mundo, pensar em grande, não cristalizar. Triste é pensar que o mundo das bibliotecas começa e acaba na minha escola, no meu local de trabalho e que eu sou autosuficiente. Essa é mesmo a morte do artista. Temos tanto, mas tanto a aprender com outros que até nem fazem exatamente o mesmo que nós fazemos. como dizia o poeta: viva quem vive com a cabeça ao contrário e que sabe ver ou como diz a Maria José Vitorino, que tanto me inspira: "Pensar é grátis".
Ao fazer este percurso pela memória de 25 anos de trabalho, falta-me ainda dizer três coisas.
A primeira: 25 anos é mesmo muito tempo.
Dos que começaram comigo neste trabalho das bibliotecas, muitos já se reformaram. Outros escolheram outros caminhos, pois este é um trabalho cansativo. Muito cansativo. Quem pensa que ir para as bibliotecas é ganhar tempo para ler ou para pouco fazer, desengane-se.
Alguns voltaram para as turmas por acharem que isto dava muito trabalho, outros, dadas as competências criadas, aceitaram novos desafios, tornaram-se autarcas, diretores,... Outros já partiram, e sinto falta deles.
Fica tão estranho coordenar uma reunião e perceber que as caras que começaram comigo já são poucas.
Serei louco? Serei resiliente? Talvez um pouco das duas coisas.
A segunda: sinto-me mal por não referir dezenas de nomes que foram fundamentais neste processo e que muito me ajudaram e inspiraram. Sou tentado a começar a enumerá-los, mas não creio que faça muito sentido. Ficará sempre gente de fora e isso poderá criar constrangimentos que, de todo, não desejo.
Sou agora amigo de tantos, tantos, que temo dececioná-los por alguma omissão ou simplesmente por não aparecerem numa certa ordem imaginada.
Agradeço-lhes, por isso, de coração. A todos. Por me inspirarem a continuar, a não desistir e, quem sabe, a dar de mim mais 25 anos.
Há tanta e tanta recompensa nos sucessos, pequenos e grandes, que todos os dias acontecem. Há sempre gente a tentar fazer melhor. Há sempre algo de novo a acontecer. Há sempre os “loucos de Lisboa” que fazem os rios nascer no mar e desaguar nos nossos sonhos e nas nossas concretizações.
E talvez seja isso que, passados 25 anos, continua a fazer sentido: haver gente que sonha, gente que acredita e gente que não desiste de fazer das bibliotecas escolares lugares onde as coisas podem começar.
Porque, afinal, uma biblioteca escolar nunca é apenas uma biblioteca.
As últimas são um agradecimento à Rede de Bibliotecas Escolares por ter confiado e continuar a confiar no meu trabalho. Se aqui cheguei foi graças ao desafio e apoio que me foi dado ao longo de todo este tempo. Deu-me e dá-me rede, apoio e estrutura e à família pela grande paciência para comigo.
