quarta-feira, 2 de setembro de 2026

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas


Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares.
Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por acaso e pela minha vontade de abraçar novos projetos. Tornei-me professor bibliotecário no Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté que, na altura, era ainda apenas uma escola.
E, como os acasos andam todos ligados — ou porque Deus lá sabe coser as linhas do destino —, em outubro de 2001 (há 25 anos portanto) recebi um convite para participar num projeto europeu relacionado com bibliotecas: o Grandslam. Como isso tornaria este texto ainda maior, abstenho-me, por agora, de contar os contornos desse convite, que só mais tarde vim a conhecer e que tanto impacto teve na minha vida e na orientação que lhe dei.
De 2001 a 2006 vivi tempos de enorme aprendizagem. Tive o apoio da Biblioteca Municipal de Almada, na pessoa da Dr.ª Isabel Pireza, que me ensinou os meandros do PRISMA, a par da formação que fui realizando. Muito lhe agradeço, pois recebi uma biblioteca sem catálogo, com cerca de 3000 exemplares, e, ao fim de um ano, tinha catalogado apenas 10% desses mesmos documentos. Foi preciso algum tempo e um bom empurrão, mas, ao fim de três anos, tinha já toda a coleção catalogada. E, entretanto, essa coleção tinha duplicado, graças ao investimento realizado e aos projetos que fomos ganhando.
A bagagem que o projeto europeu me foi dando, ao nível da formação, do contacto com outras práticas e com gente capacitada e conhecedora que fui encontrando — pessoas que, afinal, liam “outros” livros — foi uma das motivações para abraçar, em 2005, o Mestrado em Gestão da Informação e Bibliotecas Escolares, da Universidade Aberta. Aprendi imenso com a Dr.ª Glória Bastos e tive acesso a informação organizada, sistematizada e a novos modos de pensar as bibliotecas escolares.
Em setembro de 2006, recebi um convite da Dr.ª Teresa Calçada para ir trabalhar para o Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares. Aceitei, mas confesso que ainda hesitei um pouco. O trabalho que estava a fazer entusiasmava-me e teria de o abandonar sem saber muito bem ao que ia.
De 2006 a 2011 estive, a par com a lecionação, no Gabinete da Rede de Bibliotecas Escolares. Recordo gente muito boa e recordo a Dr.ª Teresa, com quem muito aprendi, para o bem e para o mal, com a forma como geria a Rede e com a profunda reflexão que acompanhava as nossas reuniões periódicas. Ela estava (e está), muitas vezes, à frente do seu tempo e das questões que eram então colocadas às bibliotecas: a falta de novos fundos documentais, o desafio da Web 2.0 e de um certo otimismo ingénuo, a generalização da Internet, os catálogos, os novos equipamentos, os espaços, o crescimento da Rede e tantos projetos novos — alguns inconsequentes e outros que deixaram uma marca profunda.
Passei a coordenador interconcelhio para as bibliotecas escolares em setembro de 2011. Passei a acompanhar, sobretudo, as bibliotecas escolares dos concelhos de Almada e do Seixal, embora tenha também acompanhado, temporariamente, outros concelhos.
Foi — e continua a ser — um tempo de grande aprendizagem e de muito jogo de cintura. É necessário falar com os autarcas, com as bibliotecárias municipais e chefes de divisão, com diretores escolares, coordenadores de estabelecimento, professores, professores bibliotecários, assistentes operacionais, parceiros de projetos e centros de formação de professores.
Nem sempre fui, nem sou, bem acolhido, pois nem todos entendem ainda a importância e a necessidade das bibliotecas escolares. Outros pensam a curto prazo, concentrados apenas na gestão do quotidiano, outros ainda focados em coisas que dão nas vistas: metas, números,... No entanto, sinto que a mensagem e o trabalho em rede foram, e continuam a ser, bem acolhidos pela generalidade dos interlocutores. E muito se tem feito — e continua a fazer-se — quando se sonha e se aposta alto!
Tive muitos, muitos momentos bons. Muito bons. Fruto da colaboração e do empenho de gente muito boa e dedicada. No fim, são os miúdos que ganham!
Haja quem sonhe em conjunto.
O panorama das bibliotecas escolares e das escolas é hoje muito diferente do que era há 25 anos. Muitos espaços foram requalificados; os professores bibliotecários assumiram o seu papel e investiram na sua formação. São capazes de procurar parcerias, de se afirmarem e de liderarem projetos. Aderem a iniciativas inovadoras e pensadas para o futuro. Desinstalam-se. Do lado das parcerias institucionais e outras o pensamento também mudou! Por exemplo, já não se constroem novas escolas sem bibliotecas.
Foram tantos e tantos os projetos ganhos e mais de 20 bibliotecas escolares inauguradas. E continuamos a caminhar para que possa existir uma biblioteca ou um ponto de biblioteca em cada escola, o que, digo eu, deveria ser o normal.
Há hoje uma grande consciência da importância do fomento da leitura desde a mais tenra idade para a formação dos cidadãos. Ainda há muito caminho a percorrer, certamente, mas talvez seja uma das mudanças mais importantes a que assisti nestes 25 anos.
E não se pense — nem eu penso — que isto é autoelogio ou fruto apenas do meu trabalho. Procuro apenas motivar, criar condições, estabelecer pontes, desafiar, insistir, por vezes chatear… Todo o mérito foi, e é, sempre de muitos.
Neste olhar sobre os 25 anos que passaram, não posso deixar de referir os cursos europeus, na área das bibliotecas, que coorganizei — foram cerca de uma dezena. Professores, decisores políticos, diretores e outros profissionais vindos de toda a Europa a refletir em conjunto e a criar pensamento e práticas consistentes. Foram experiências extraordinárias.
Também o projeto READ ON, financiado pela Europa Criativa, teve — e continua a ter — tanto impacto em Portugal, através dos 10 Minutos a Ler, dos concursos, das antologias e do Festival READ ON Almada. Foi um tempo de grande aprendizagem, partilha e diálogo. Ainda hoje mantenho contacto com alguns desses participantes e vou tomando consciência do impacto que esses cursos e projetos tiveram nos seus percursos profissionais e pessoais.
Neste contexto não posso deixar de referir o nome de Ross Todd, que tanto me inspirou e que acedeu sempre, graciosamente, aos nossos desafios. Tanto e tanto aprendi com ele sobre bibliotecas e sobre as qualidades de um ser humano. É por causa dele e de mais duas ou três pessoas que muito marcaram o meu pensamento que aqui me mantenho, pronto para todos os desafios, recebendo muitas recompensas, mas trabalhando muito, muito.
Também dei milhares de horas de formação na área das bibliotecas. Tantos e tantos docentes estiveram envolvidos. Sei que a semente — e o bichinho das bibliotecas — ficou em muitos. Alguns tornaram-se professores bibliotecários e outros investiram na sua formação académica. Talvez essa seja uma das recompensas mais bonitas de quem trabalha na formação: perceber, anos mais tarde, que alguma coisa que dissemos, partilhámos ou fizemos ajudou alguém a encontrar um caminho.
Também eu próprio nunca deixei de me atualizar e de estudar, estudar muito de modo a apoiar na solução dos novos desafios que vão surgindo e também a nível da capacitação, dos outros, através da liderança e do marketing. Também participei em congressos, seminários, formações e fui fazendo investigação que foi considerada ter qualidade para ficar registada em atas de congressos e em revisytas científicas.
Uma palavra ainda para a importância da BAD — Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas, Profissionais da Informação e Documentação — ao longo destes 25 anos. Através dela tive contacto com uma série de grandes profissionais nas áreas da informação, das bibliotecas e dos arquivos, que me abriram horizontes e ajudaram a criar rede.
Será que o país é tão rico que nos possa permitir desperdiçar o talento e a inteligência de colegas que trabalham na mesma área de atividade? temos tanto a aprender e a ensinar uns com os outros que fecharmos-mos no nosso mundo pequenino é não crescer. Como dizia a Drª Maria José Moura é importante ter mundo, pensar em grande, não cristalizar. Triste é pensar que o mundo das bibliotecas começa e acaba na minha escola, no meu local de trabalho e que eu sou autosuficiente. Essa é mesmo a morte do artista. Temos tanto, mas tanto a aprender com outros que até nem fazem exatamente o mesmo que nós fazemos. como dizia o poeta: viva quem vive com a cabeça ao contrário e que sabe ver ou como diz a Maria José Vitorino, que tanto me inspira: "Pensar é grátis".
Ao fazer este percurso pela memória de 25 anos de trabalho, falta-me ainda dizer três coisas.
A primeira: 25 anos é mesmo muito tempo.
Dos que começaram comigo neste trabalho das bibliotecas, muitos já se reformaram. Outros escolheram outros caminhos, pois este é um trabalho cansativo. Muito cansativo. Quem pensa que ir para as bibliotecas é ganhar tempo para ler ou para pouco fazer, desengane-se.
Alguns voltaram para as turmas por acharem que isto dava muito trabalho, outros, dadas as competências criadas, aceitaram novos desafios, tornaram-se autarcas, diretores,... Outros já partiram, e sinto falta deles.
Fica tão estranho coordenar uma reunião e perceber que as caras que começaram comigo já são poucas.
Serei louco? Serei resiliente? Talvez um pouco das duas coisas.
A segunda: sinto-me mal por não referir dezenas de nomes que foram fundamentais neste processo e que muito me ajudaram e inspiraram. Sou tentado a começar a enumerá-los, mas não creio que faça muito sentido. Ficará sempre gente de fora e isso poderá criar constrangimentos que, de todo, não desejo.
Sou agora amigo de tantos, tantos, que temo dececioná-los por alguma omissão ou simplesmente por não aparecerem numa certa ordem imaginada.
Agradeço-lhes, por isso, de coração. A todos. Por me inspirarem a continuar, a não desistir e, quem sabe, a dar de mim mais 25 anos.
Há tanta e tanta recompensa nos sucessos, pequenos e grandes, que todos os dias acontecem. Há sempre gente a tentar fazer melhor. Há sempre algo de novo a acontecer. Há sempre os “loucos de Lisboa” que fazem os rios nascer no mar e desaguar nos nossos sonhos e nas nossas concretizações.
E talvez seja isso que, passados 25 anos, continua a fazer sentido: haver gente que sonha, gente que acredita e gente que não desiste de fazer das bibliotecas escolares lugares onde as coisas podem começar.
Porque, afinal, uma biblioteca escolar nunca é apenas uma biblioteca.
As últimas são um agradecimento à Rede de Bibliotecas Escolares por ter confiado e continuar a confiar no meu trabalho. Se aqui cheguei foi graças ao desafio e apoio que me foi dado ao longo de todo este tempo. Deu-me e dá-me rede, apoio e estrutura e à família pela grande paciência para comigo.


sábado, 29 de agosto de 2026

1907 (das redes sociais) - As redes sociais e o seu modus operandi

 

Este post esteve para ter o título: “Se não vos apetecia vir, tinham ficado em casa, mas dado o desenvolvimento do caso, creio que ficará melhor o título: “as redes sociais e o seu modus operandi”

A história conta-se em poucas palavras. Na Quarteira, durante o Verão há, diariamente, animação noturna.  Na noite da foto cantava um grupo com modas do Alentejo para animar a rapaziada. Nem eram maus e cumpriam o fim a que se destinavam: Animar as gentes em férias. Estava muita gente a ouvi-los.

Não pude deixar de reparar num casal que estava a ver reels no telemóvel, num scroll infinito. Era gatos, cães, outros disparates para entreter, os 10 mais disto, os vídeos dos disparates humanos, a obrigar o utilizador a não desligar.

Esse telemóvel mudou de mãos e, após a primeira pesquisa, só apareciam vídeos bombásticos sobre saúde. Aqueles com os títulos: 5 erros fatais na alimentação, uma fruta que lhe salvará a vida, como curar um terçolho, como se livras de um ataque cardíaco, etc. Agora eram só reels com esta temática.

Pretensos amigos do povo que querem salvar a humanidade contando o que as farmacêuticas escondem, etc. Não vi nenhuma pesquisa em sítios credíveis. Passou-se outros 20 minutos nisto.

Deu-me para pensar na forma como o algoritmo funciona e na importância de se verificarem factos ou receber informação noutro sítios que não as redes sociais.     

O que mais me impressionou é que os scrolls infinitos eram todos monometálicos e eram lidos/vistos.

Onde é que isto nos levará? Para a não vacinação já levou e os casso de sarampo e difetria aumentam. Para erros alimentares com dietas loucas e quanto mais absurdas melhor pois mais captam a atenção…

Não sei bem como se poderá contrariar este estado de coisas. A literacia mediática e digital é, certamente, uma parte importante da resposta. Ensinar — desde cedo — a questionar, a comparar fontes, a reconhecer interesses, a distinguir evidência de opinião e a perceber como funcionam os algoritmos.

 

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

1906 (das palavras) - Avós, precisas de mais livros



Um destes dias, o meu neto mais velho, que tem três anos, disse à avó que tínhamos de comprar mais livros porque já conhecia todas as histórias dos que temos em casa.
Claro que achei graça. E, como avô, confesso que fiquei todo babado 
Mas depois fiquei a pensar nisto.
O gosto pelos livros começa muito cedo. Muito antes de uma criança aprender a ler. Começa, sempre, ao colo dos pais e dos avós. Começa quando alguém pega num livro, abre as páginas e conta uma história e/ou o deixa folhear um livro ao ritmo dele e lhe chama a atenção para pormenores . Quando há tempo para ouvir, para perguntar, para rir, para repetir — outra vez e outra vez — a mesma história (e o que eles adoram esta repetição!).
Um leitor não nasce no dia em que aprende a juntar letras.
Um leitor começa a fazer-se ao colo de alguém.
É em casa que acontece, tantas vezes, esse primeiro encontro com os livros. E não é preciso uma grande biblioteca, nem comprar livros todas as semanas. Basta que os livros façam parte da vida das crianças. Que estejam por perto. Que sejam mexidos, folheados, escolhidos. Que as histórias tenham lugar no dia a dia.
Depois, claro, há outros espaços que têm de continuar esse caminho: as creches, os jardins de infância, as bibliotecas e as escolas. E é importante que tenham bons livros, muitos livros e livros novos. Porque nem todas as crianças têm as mesmas oportunidades de contacto com a leitura em casa e também se dá o caso que haver miúdos que acabam por dizer que já leram todos os livros da biblioteca escolar do 1º ciclo pois a coleção nunca é renovada.
É aí que podemos ajudar a diminuir algumas diferenças.
Mas aquele primeiro momento, talvez o mais importante, é muitas vezes muito simples: uma criança ao colo e alguém a abrir um livro.
Por isso, quando o meu neto diz que já conhece todas as histórias e que é preciso comprar mais livros, não posso deixar de sorrir.
Aparentemente, temos um pequeno leitor exigente cá em casa. . Era tão bom que houvesse todo um conjunto de pequenos leitores a “exigir” o mesmo!
Nota: Bom, claro que já fomos comprar outro novo

domingo, 26 de outubro de 2025

1905 - (da consciência de existir) O uso do telemóvel e a perda da experiência ao vivo

 

Há u



m gesto que se tornou quase inevitável em qualquer espetáculo ao vivo: o erguer do telemóvel. No caso de um concerto em sala de espetáculos a questão tornou-se muito complicada. A sala mergulha na penumbra, a música começa — e, de repente, um e depois outro e mais outro e, novamente, o primeiro ecrã luminoso acende-se no escuro. Quem os usa acredita estar a guardar uma lembrança, mas o que realmente faz é roubar-se a si próprio e aos outros a experiência que espera querer preservar (será que a quer?).

Não é apenas uma questão estética ou de etiqueta; é uma questão cultural. Usar o telemóvel para gravar vídeos num concerto — sobretudo em espaços fechados — é um ato de desatenção e de desrespeito, tanto para o público como para os artistas. A luz do ecrã distrai quem está ao lado, quebra a imersão coletiva e desvirtua o sentido do momento. Pior ainda: quem grava nunca mais vê o vídeo. Aquele ficheiro, tremido e com som distorcido, ficará esquecido, sepultado entre centenas de outros registos irrelevantes.

O paradoxo é evidente: temos ao alcance de um clique gravações em alta definição no YouTube ou no Spotify, mas insistimos em filmar trechos de má qualidade de concertos que poderíamos simplesmente escutar com plena atenção. O telemóvel transformou-se num apoio da memória e, ao mesmo tempo, no seu maior inimigo. Em vez de viver o momento, tentamos capturá-lo — e, ao fazê-lo, deixamos de o viver.

Penso nisto com particular desconforto ao recordar o concerto a que hoje assisti, com obras de Viktor Ullmann, Szymon Laks e Dmitri Shostakovich. Músicas densas, exigentes, …. A sua força reside na escuta concentrada, na capacidade de acompanhar. Como é possível fruir uma obra assim enquanto se segura um telemóvel, verificando se o enquadramento ficou bem? É impossível. A atenção dispersa destrói a música.

A dependência do telemóvel tornou-se um fenómeno transversal. Muitos dos que censuram os jovens pela sua “adição digital” revelam igual incapacidade de estar desconectados durante trinta minutos. Vivemos num tempo em que a ausência de ecrã gera ansiedade, e em que a prova de ter vivido um acontecimento parece depender de o ter publicado. Partilha-se, mas não se sente; grava-se, mas não se compreende.

O que está em causa é mais do que uma questão de comportamento: é uma forma de alienação. Substituímos a experiência direta pela mediação tecnológica, a atenção plena pela dispersão constante, o silêncio pela notificação. O concerto — espaço de encontro entre intérprete e ouvinte — torna-se cenário para autopromoção, pano de fundo para “stories” efémeras que nada comunicam.

Assistir a um concerto é um ato de presença. Implica disponibilidade e escuta. Exige tempo e concentração. E, sobretudo, implica aceitar que há momentos que não se registam — apenas se vivem. Talvez seja tempo de redescobrir esse prazer: o de estar verdadeiramente presente, de olhos e ouvidos abertos, sem o filtro luminoso de um ecrã.

Começo a duvidar!

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

1904 (dos lugares) - Da Janela do Anfiteatro 1 da Fundação Calouste Gulbenkian

Há mais de vinte anos que entro no anfiteatro 1, da Fundação Calouste Gulbenkian e procuro sentar-me, aproximadamente, no mesmo lugar, junto à janela. O olhar repousa sobre o jardim — esse território de harmonia onde a natureza e a cidade se encontram em diálogo. As árvores firmes, mesmo em dias de vento, as aves inquietas, os gatos sempre com a mesma rotina diária, os transeuntes apressados ou distraídos compõem um cenário que nunca se repete, mesmo quando parece igual.

Dentro da sala, a vida tem outro ritmo. Ao longo de mais de duas décadas, escutei vozes notáveis, ideias luminosas e debates que deixaram rasto e muitas outras mais comuns, como a vida. A cada conferência sim e sempre, o pensamento sempre a em diálogo com o que via lá fora: a serenidade das árvores, o rumor das folhas, a vida que se chega a nós e nem sabe que é observada.

Este auditório é um território de pertença, onde o exterior e o interior, o visível e o pensado, o espanto, se fundem.








quinta-feira, 14 de agosto de 2025

1903 - (da Resiliência) Crónica de um dia de praia

Decidi ir à praia à tarde.

Chego à Costa de Caparica e ao parque de estacionamento. Vejo muitos carros a sair; fico satisfeito por pensar que irá ser fácil encontrar lugar.

Informam-me que a Via Verde está fora de serviço; apalpo o bolso e vejo que tenho moedas. Entro e estaciono.

As praias estão cheias e está hasteada bandeira amarela.

Chego à segunda praia: há uma enorme escada de madeira, meio instável; decidimos não a usar para chegar à areia. Constato que já não existe a escada de cimento, a meio da praia, que vinha da minha infância. A alternativa seria ir até ao fim do paredão para descer pela rampa dos barcos de pesca artesanal.
Opto por descer por umas pedras; escorrego e caio. Sou prontamente ajudado por um casal que saía da praia. Agradeço e informo que foi só o susto: “Está tudo bem, está tudo bem” — repito, também para mim mesmo.

Arranjo um lugar à beira-mar; aqui ficamos. Está bandeira amarela, a maré está cheia… sinal de que começou a vazar e, como é normal na Costa, a água está a puxar…
O nadador-salvador, atento à praia e aos banhistas, apita para um ou outro virem mais para terra. Parece-me que é obedecido…

O primeiro e o segundo banhos foram reconfortantes! Estava calor, a água a boa temperatura. A praia da Costa estava, como de costume, com ondas; soube-me bem.

Quase que levo com um surfista e dois ou três miúdos que vêm com as ondas…

De regresso à toalha, saco de um livro. Veio uma onda e molhou a minha toalha.

Mudamos de poiso. Aqui também há muita gente. Sento-me na toalha molhada para poder ler. Por algum motivo, não me consigo concentrar na leitura. Percebo que há música perto de nós: no meio de um grupo de adolescentes, um deles traz uma coluna Bluetooth. Anda com a coluna na mão e mal consegue jogar futebol com os amigos tal o desiqulíbrio que a coluna lhe dá.

Penso, mais uma vez, que deveria trazer sempre comigo também uma coluna Bluetooth e pôr o meu Mozart em altos berros — a Sinfonia nº 40, por exemplo, ela que me acompanha em tantas noites de trabalho — ou uma bela ária de ópera, em que as potencialidades da voz feminina são exploradas até ao extremo.

Procuro pôr o som na minha frequência muda e retomar a leitura.

Voam dois chapéus de sol, mas nem dei pelo vento. Fui de novo à água.

Já ao final da tarde, constato que a praia está mais vazia. Aqui e ali joga-se à bola e vejo, ao meu lado, um embrulho de Calipo e um pedaço de película de embrulho de sandes. Olho melhor e encontro mais duas garrafas de água na areia. Reparo que há oito caixotes do lixo atrás de nós e vem-me à cabeça a polémica recente sobre o currículo de cidadania. Lembro-me das aulas de Ciências Sociais que tive em 1976 e de um livro de Dragomir Knapic, que continha imagens de petroleiros a derramar petróleo nos mares e que me deixavam a pensar. Penso em cinquenta anos de educação ambiental e no lixo que estava naquela praia. Muito lixo mesmo.

As pessoas estendem a toalha em cima de lixo, lixo. A praia estava mesmo imunda: uma fralda no paredão…

Penso outra vez nas aulas de cidadania, na reciclagem e na educação ambiental… (E eu que até creio no potencial transformador da escola.)
Três R: Reduzir, Reutilizar, Reciclar… Percebo que já não sei quantos são. Há uns tempos ouvi quatro R: Reduzir, Reutilizar, Reciclar e Recusar. Acho que já há cinco! Deve ser daí que vem esta confusão na praia, penso eu…

Vou a um café e peço uma Coca-Cola Zero, com gelo. Dizem-me que não há gelo. Peço, em alternativa, uma água com gás com sabores.

Perguntam-me que sabor quero. Digo limão. Trazem-me, com enfado, água de sabor a framboesa e outra de um sabor qualquer. Digo que prefiro então a Coca-Cola Zero, sem gelo.

Dizem-me que não há Coca-Cola e perguntam se pode ser uma Pepsi. Respondo que sim…

A menina que me trouxe as águas desinteressa-se de mim, pois lhe dá trabalho andar para lá e para cá. Diz à outra menina: “O que é que ele quer?”

Vem a Pepsi.

Não é Zero! Digo até que pode ser uma cerveja.

A outra menina do balcão traz-me uma Coca-Cola Zero, sem gelo, e eu peço desculpa pelo trabalho. Quem está comigo repreende-me: quem tem de pedir desculpas é uma das meninas…

Abro o meu telemóvel… Uma story mostrava três casamentos e três lutas entre noivos relacionadas com a abertura do bolo de noiva impedindo que todos os presentes vivessem um momento de verdadeira comunhão e partilha da alegria dos noives, partilhando um bolo significativo em comum. Noutro discutia-se um artigo do Expresso que só podia ser lido pelos assinantes ou subscritores do Jornal. Deste modo, discutia-se a partir do destaque sem conhecer o texto... Noutro ainda discutia-se acaloradamente qualquer coisa de que já nem me lembro — a espuma dos dias. Desligo o telemóvel. Olho ao lado e duas pessoas filmam comida e pergunto-me: para quê?

Vou para o carro e ainda está gente na praia. Está já lusco-fusco. A maré estava mesmo a descer e ainda se tomava banho. Ondas mais baixas e os inevitáveis telemóveis a filmar sei lá o quê, pois o pôr-do-sol já tinha sido. 

Chego ao carro e há fila para pagar na máquina. Aguardo respeitosamente… 1,20 euros. Pago.

A água nem estava má.

quarta-feira, 28 de setembro de 2022

1902 (da resiliência) - Do que um homem é capaz

Do que um homem é capaz?
As coisas que ele faz
Pra chegar aonde quer

É capaz de dar a vida
Pra levar de vencida
Uma razão de viver

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho

E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder

Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer

Vão poluindo o percurso
Com as sobras do discurso
Que lhes serviu pra abrir caminho

À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
Pra consumir sozinhos

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa adentro

Como a trilateral
Com a treta liberal
E as virtudes do centro

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo pelo caminho

Pra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho

Ficam cínicos brutais
Descendo cada vez mais
Pra subir cada vez menos

Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos

Quem escolher ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou o seu caminho

Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder

Mesmo havendo tanta gente
Pra quem é indiferente
Passar a vida a morrer

Há princípios e valores
Há sonhos e amores
Que sempre irão abrir caminho

E quem viver abraçado
Na vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho

E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho

José Mário Branco 

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...