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terça-feira, 4 de agosto de 2015

12 - (Da memória) - Houve um tempo

HOUVE UM TEMPO

Houve uma vez
um momento
um dia em que fui feliz
e não estava lá.

Havia cores
borboletas
arco-íris.

Havia metáforas concretas
mãos despidas
de outra literatura que não fosse pão
cebola
sorriso de menino
ou barco a subir no ar.

Houve uma vez
um momento
um dia em que fui feliz
e não estava lá.

Caminhei exaustivamente
por dentro do coração.
Na margem que acolheu a minha idade em fogo
fui beber as doces águas
de todo o peregrino.

Mas nunca estive ali
no epicentro
da perfeita perfeição
de algumas flores.

Caminhei em busca
do misterioso sentido das noites de Natal
do cheiro a cera dos soalhos de infância
do amor tal qual se diz.

Quando lá cheguei
foi a outro lugar que cheguei.

Não sei se bom ou mau
mas outro.

Foi sempre a outro lugar que cheguei
de cada vez que fui feliz.

José Fanha, Tempo Azul

quinta-feira, 30 de julho de 2015

11 - (Da memória) - Os rios subterrâneos

OS RIOS SUBTERRÂNEOS

Havia uma cidade do outro lado da
memória.
E os rios que corriam.                
Do outro
lado
das palavras. Havia
as tardes luminosas. Os pontos.
Os instantes por dentro dos sinais.
A árvore junto à casa. O quadro.
Os sacos de alfazema sobre a mesa.
A porta entreaberta. O sol e a sombra
na sala cheia de sua
plenitude. Havia
por detrás dos erres dobrados
o mistério dos rios
subterrâneos. Os rios que corriam
do outro lado
das imagens. Rios ocultos
rios do ser.

Rios.
Que nunca vão para outra página.
Rios das sílabas.
Do outro lado do
sentido.
Havia  o acento circunflexo. E o til
que subtilmente caía
sobre o pão.

As uvas no lagar. Os pés pisando
ao ritmo das mãos
nos ombros e das sílabad
pingando
o mosto de Setembro. E a casa
no cimo do
crepúsculo. A casa do outro
lado
das tardes. A casa em estado puro
com o seu vinho correndo para dentro
dos almudes. Do outro lado
do erre
de Setembro.

E as cadeiras. As ausências sentadas
as mãos pousadas nos braços
das cedeiras. As costas recostadas
nas costas
das cadeiras. As ausências
carregadas
de presença.

E os sinais. Os pontos obscuros. O sol
e a sombra. A plenitude. Do
outro lado das imagens. Onde tocavam
sinos. Por dentro dos erres dobrados
e talvez por baixo dos rios subterrâneos
ocultos profundos rios
que nunca vão
nunca vão para nenhum mar. 

Manuel Alegre

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...