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quarta-feira, 8 de julho de 2015
4 - (Da condição humana) - Elegia para uma gaivota
Morreu no mar a gaivota mais esbelta,
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos.
Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.
Água salgada, benta de tantas mortes angustiosas, aspergiu-a.
E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.
Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado.
É finalmente sonho puro,
sonho que sonha finalmente, asa que dorme voos.
Cantos de pescadores, embalai-a!
Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor das velas, embalai-a!
Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,
tão misteriosamente, tão insistentemente,
sua presença morta em tudo se anuncia.
Ela vai, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
é a ordem-do-dia na praia e no mar alto.
terça-feira, 7 de julho de 2015
3 - (De amor) Para ti, meu Amor
Para ti
Meu amor
Levanto a voz
No silêncio
Desta solidão em que me encontro
Sei que gostas de ouvir
A minha voz
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós
Sei que me ouves
Agora…
- Uma vez mais -
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor,
Querida,
Opera esse milagre,
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir;
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Advihar;
Bem ao nosso lado,
A presaença,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
Mário Soares
Aljube
22 Fevereiro 1962
Meu amor
Levanto a voz
No silêncio
Desta solidão em que me encontro
Sei que gostas de ouvir
A minha voz
Feita de palavras ternas e doces
Que invento para ti
Nos momentos calmos
Em que estamos sós
Sei que me ouves
Agora…
- Uma vez mais -
Apesar da distância
E do silêncio.
O amor,
Querida,
Opera esse milagre,
Simples,
Como tudo o que é natural:
Ouvir;
Bem no fundo do coração
As palavras não ditas
Mas sentidas;
Advihar;
Bem ao nosso lado,
A presaença,
Insubstituível e certa
Do ausente
- Presença inconvertível
Em ausência,
Por maiores que sejam a distância
E o silêncio!
Mário Soares
Aljube
22 Fevereiro 1962
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