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sábado, 20 de fevereiro de 2016

49 - (Do amor) - Presságio



Presságio

 O AMOR, quando se revela,
 Não se sabe revelar.
 Sabe bem olhar p'ra ela,
 Mas não lhe sabe falar.

 Quem quer dizer o que sente
 Não sabe o que há de dizer.
 Fala: parece que mente...
 Cala: parece esquecer...

 Ah, mas se ela adivinhasse,
 Se pudesse ouvir o olhar,
 E se um olhar lhe bastasse
 P'ra saber que a estão a amar!

 Mas quem sente muito, cala;
 Quem quer dizer quanto sente
 Fica sem alma nem fala,
 Fica só, inteiramente!

 Mas se isto puder contar-lhe
 O que não lhe ouso contar,
 Já não terei que falar-lhe
 Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa 
24/04/1928

quinta-feira, 10 de maio de 2012

1495 - ufff...

Estes primeiros dias de maio têm sido de loucos: é a tese que há mesmo que terminar, há o curso europeu que estou a organizar aqui em Portugal ... Juntou-se tudo...

Por vezes, nem sei como não fica nada para trás!

Tem dias que acho que o estado me devia pagar a peso de ouro! Os professores estrangeiros ficam muito bem impressionados com as nossas escolas e o nosso país! Ufff... ainda bem que assim é, porque é verdade! a gente até trabalha muito bem! Há é certas formas de fazer política às quais dá jeito arranjar bodes expiatórios e, nesses casos, são os professores e a função pública que levam com as culpas.

Gostei de os ter levado a uma casa de fados

Hoje, uma visita de fim de dia a Lisboa com eles... Gostei de me imaginar um deles e segui no eléctrico 28. Nunca me cansam as cores de Lisboa
Mais tarde, já sozinho, entro na Bertrand e deparo-me com isto: (fez todo o sentido hoje, ah, pois é, tanta coisa para fazer! a tese, tudo o resto! ah se a minha orientadora soubesse!!!)


    Adiamento
Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...
O porvir...
Sim, o porvir...

    Álvaro de Campos

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

1428 - Fado - sei de um rio

ainda não tinha tido tempo para escrever sobre o assunto: Fado herança imaterial da humanidade. Não sei o que pensam/sentem os outros povos sobre o assunto, até lhe deve "passar ao lado", mas o facto é que o fado me marca/marcou Primeiro estranha-se, depois entranha-se. Lembro-me, como se fosse hoje, de ver o eu avô, operário, de ouvido pregado ao velho rádio a ouvir a emissora nacional e a pedir-nos silêncio enquanto se ouvia o fado. Lembro-me de, em Coimbra, de este ter ganho umas nova dimensão em mim. Aquela nostalgia, aquele tom/afinação em que é tocado Depois a descoberta do Carlos Paredes Depois... Depois, no estrangeiro, ouvir uma música portuguesa é sentirmos-nos enraizados no meio de tanto desenraizamento Sei de um rio que vem de muito longe, sei de um rio que continuará e pedurará

Sei de um rio… Sei de um rio Em que as únicas estrelas Nele, sempre debruçadas São as luzes da cidade Sei de um rio… Sei de um rio Rio onde a própria mentira Tem o sabor da verdade Sei de um rio Meu amor, dá-me os teus lábios! Dá-me os lábios desse rio Que nasceu na minha sede! Mas o sonho continua… E a minha boca (até quando?) Ao separar-se da tua Vai repetindo e lembrando "- Sei de um rio… Sei de um rio…" Sei de um rio… Ai! Até quando?

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...