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quarta-feira, 28 de setembro de 2022

1902 (da resiliência) - Do que um homem é capaz

Do que um homem é capaz?
As coisas que ele faz
Pra chegar aonde quer

É capaz de dar a vida
Pra levar de vencida
Uma razão de viver

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho

E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder

Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer

Vão poluindo o percurso
Com as sobras do discurso
Que lhes serviu pra abrir caminho

À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
Pra consumir sozinhos

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa adentro

Como a trilateral
Com a treta liberal
E as virtudes do centro

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo pelo caminho

Pra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho

Ficam cínicos brutais
Descendo cada vez mais
Pra subir cada vez menos

Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos

Quem escolher ser assim
Quando chegar ao fim
Vai ver que errou o seu caminho

Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder

Mesmo havendo tanta gente
Pra quem é indiferente
Passar a vida a morrer

Há princípios e valores
Há sonhos e amores
Que sempre irão abrir caminho

E quem viver abraçado
Na vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho

E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho

José Mário Branco 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

1487 (da condição humana) - Travessia do Deserto

Travessia do deserto 

Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida.

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte.

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte.

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga.

José Mário Branco 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

16 - (da condição humana) Inquietação

A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

José Mário Branco

domingo, 22 de julho de 2012

1515 - tempo de balanço II

1- Tal foi o envolvimento nos desafios deste ano que o jardim ficou um pouco descurado... Se bem que no inverno ainda houve tempo para tratar das árvores de fruto, aplicando a calda bordalesa e tratando as ramagens, a primavera veio, o verão também e já a cerejeira deu os frutos, o pessegueiro também (e foram muitos os pêssegos) e a macieira está carregada (melhor do que o ano passado) mas confesso que nem dei pelo tempo passar.
O pessegueiro está agora com moléstia, a relva está seca (e não há dinheiro para comprar semente atrás de semente...). Será agora com as férias que haverá tempo para  falar com as plantas? desligar?...

2- a gata está quase a ter a ninhada. Ela dooooorme, ela alimenta-se, não se dá por ela, tal a calmaria. A natureza é mesmo prodigiosa e quem quer aprender um pouco mais sobre a natureza (e os humanos) deve ter tempo para observar. é tudo tão simples e natural. os ritmos biológicos, as agitações, ... tudo tem um sentido intrínseco (não, não concordo com o Álvaro de Campos - o sentido último das coisas é não ter sentido nenhum... Não! o sentido das coisas é diferente do que os humanos lhe dão. Isso é verdade! mas há um sentido próprio no que à natureza  diz respeito)

3- O absurdo!
Uma destas noites cai na asneira de tomar sentido ao que dizia na televisão Pedro Ferraz da Costa! Fiquei abismado e profundamente chocado. A sua tese é que os portugueses deviam, pura e simplesmente, regredir. Voltar aos campos e à pobreza... Qual rendimento mínimo! é dar trabalho de sol a sol para esses bandidos que vivem à sombra do rendimento!
Assim, sem mais... E o que disse foi consciente mesmo! mudei de canal mas lembrei-me de uma música do Zé Mário: "canção dos despedidos"

Há quem viva bem do nosso mal-viver
Nós somos lixo
Somos só lixo
Já não há gente, há só lixo
Dispensável, descartável, reciclável
E agora parem um minuto p’ra pensar
Há que humanizar a humanidade, e não só

O mundo é de quem manda
E o resto é propaganda
Tudo é publicidade
Mas a liberdade
É escolher entre ser ou estar

Tens a boca cheia de palavras lindas
P’ra ti sou lixo
Somos só lixo
Nós não somos gente, somos lixo
Dispensável, descartável, reciclável
Mas vou parar mais um minuto p’ra pensar

Vamos a casa
Ao fim do dia
Só p’ra regenerar a mais-valia
Ganhar forças, fazer filhos
Cada um no seu caixote
E amanhã tomar o bote
Para o paraíso dos cadilhos
Quem é o lixo


Também a este nível está a decisão do governo em permitir a dedução fiscal de 250 Euros por família na apresentação, em sede de IRS, de faturas de restaurantes, reparações automóveis, cabeleireiros, hotéis...

Só é pena é que para se ter estes "benditos" 250 Euros se tenha de gastar cerca de 20.000 euros ao longo do ano nestes serviços...
Dá uma média de 1800 Euros por mês!
Que vergonha! quem é que a administração fiscal pensa que somos? uns tolos que nada percebem e que nos fazem passar por parvos? ou será isto uma fiscalidade para os ricos melhor viverem? cortam nas deduções na saúde, educação e oferecem-nos isto?

Haja decoro!!!

quarta-feira, 23 de maio de 2012

1498 - Mais uma etapa concluída

Uffff. Acabei a tese e vou amanhã entregá-la na sua versão impressa. Depois só faltará a marcação da sua defesa!

Confesso que me deu muito gozo todo este processo e consegui (contra as minhas expetativas) conduzi-lo sem stresses (exceto neste último fim de semana).

Este acabou por ser um ano muito bom em que fui sendo capaz de superar-me e responder a inúmeros desafios. Relembro agora com muito prazer a revisão de capítulos da tese feitas em locais bem diversos: No Alfa, em aeroportos, no café... fez sentido sim e aprendi!

Sobrevivi também a um mês de maio em que tive inúmeras tarefas de responsabilidade para fazer! menos mal (um congresso para organizar, ser júri de um concurso com a inevitável leitura de trabalhos que levam  o seu tempo).

Deve ser por gostar mesmo de desafios que hoje (sem que inicialmente fosse intencional a escolha) acabei por ouvir três vezes seguidas, no carro, o lindíssimo poema da Natália Correia!    

É isso mesmo: nem anjinho, nem morto! aqui estou eu, vivinho da silva e com a esperança de que o melhor da vida ainda estará para vir!

Sem pecado e sem inocência? nem pensar!
De uma história sem enredo não quero fazer parte! 


quarta-feira, 11 de abril de 2012

1486 - A pôr a escrita em dia

Quase não tenho tido tempo para nada... O Curso na Irlanda, a família que pediu uma pausa de trabalho e ocupações na Páscoa, o trabalho que se amontoou...

A crise que aperta o cerco mais e mais... onde iremos parar? onde nos querem meter? a sensação de que o pior ainda não chegou pois querem que sejamos nós a pagar os desvarios...

Lembrei-me que ainda não tinha passado a escrito a bela música que o Francisco Naia nos cantou durante uma inauguração de uma Biblioteca. Sim, os soldadinhos foram meninos e foram à escola!

"Eles", têm que ter memória...

(e eu que guardei uma memória tão bonita daquele 1º dia de primavera)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

1378 - Margem de certa maneira



















Dentro da margem de dentro
Na raís e no lamento
Guarda-vento e ribanceira
Margem de certa maneira
De fazer uma viagem
De ultrapassar a barreira
Fazer do vento poeira
Da ribanceira barragem

Fora da margem de dentro
Entre o caule e o rebento
Há sempre um pequeno espaço
Entre movimento e passo
Entre passo e movimento
A corda que faz o laço
A força que faz o braço
Acordar o pensamento
(...)

domingo, 10 de julho de 2011

1376 - Não somos lixo



Cortam-me o salário
Cortam-me a carreira
Cortam-me o subsidio na Natal
Aumentam-me os impostos
Aumentam-me a saúde
Aumentam-me os preços dos bens de consumo

Somos lixo?
(Se calhar somos por nos mantermos quietos)
---

Canção dos despedidos

Somos explorados no trabalho, e não só
Também somos o lixo
Lixo na tê-vê, quem lá está e quem vê
Lixo no jornal, voz do seu capital
Estamos entregues aos bichos
E o lixo produz mais lixo
E o tempo a passar
E eu a cantar
Eu também faço parte do lixo

Há quem viva bem do nosso mal-viver
Nós somos lixo
Somos só lixo
Já não há gente, há só lixo
Dispensável, descartável, reciclável
E agora parem um minuto p'ra pensar

Há que humanizar a humanidade, e não só
Há que varrer o lixo
O do Capital, que é o lixo global
O lixo do Estado, que é o seu braço armado
O mundo é de quem manda
E o resto é propaganda

Tudo é publicidade
Mas a liberdade
É escolher entre ser ou estar

Tens a boca cheia de palavras lindas
P'ra ti sou lixo
Somos só lixo
Nós não somos gente, somos lixo
Dispensável, descartável, reciclável
Mas vou parar mais um minuto p'ra pensar

Vamos a casa
Ao fim do dia
Só p'ra regenerar a mais-valia
Ganhar forças, fazer filhos
Cada um no seu caixote
E amanhã tomar o bote
Para o paraíso dos cadilhos

Quem é o lixo
Eles são o lixo do corpo e da alma
Como é que se pode ter calma
P'ra varrer este monturo
Dos escombros do futuro

quarta-feira, 1 de junho de 2011

1356 - Há quem viva sem dar por nada

"Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber"


---

Muitas vezes me interroguei (interrogo) se fiz as opções profissionais certas e se todo o caminho que tenho seguido não foi um profundo disparate e um absoluto erro de casting...

Continuo a não ver claro

No entanto...

De uma coisa posso estar certo, a par de ter conhecido gente com a qual não faço nem nunca farei caminho, tive a felicidade de conhecer gente cinco estrelas, gente a quem posso considerar amigos e que estão/estarão indefectivelmente ao meu lado (e eu ao lado deles). Gente que ajuda e é por mim ajudada.

Só por isso terá valido a pena! Acrescentei gente muito boa aos meus percursos de vida. partilho os meus tesouros com que os quis receber...

Aqueles que, comigo, se tornaram caminhantes eu digo: "Obrigado por serem quem são"

"Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

1198 - E no fazendo acontecendo, deixar ir o coração



Emigrantes de 4ª Dimensão

Dá-me uma ajuda, ó médico das almas
Para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizer

Encostado à árvore do tempo
Folhas vivas, folhas mortas, estações
Nada disto faz sentido
E o sentido do sentido não paga as refeições

Este torpor só tem uma solução
Sejamos deuses, é meter as mãos à obra
E no fazendo acontecendo
Deixar ir o coração
Que é o que nos sobra

Ao fazer-se o mundo nasce de si próprio
Ser avô é uma alegria atravessada
Dá para rir e p’ra chorar
Não temos nada com isso
E nada não é nada

Disseste um dia que tudo vale a pena
Tornar as almas mais pequenas é que não
Vamos sobre as duas patas
Juntar as partes da antena
Espalhadas pelo chão

Fecha a porta que vem frio lá de fora
Diz o coxo ao despernado, e eu aqui
Fui à procura de mim
Encontrei-me mesmo agora
E ainda não fugi

O tempo corre por entre pívias e manhas
E tudo fica cada vez mais como está
Mas ao correr desta pena
Não fico à espera que venhas
Eu já sou o que virá

José Mário Branco

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

1183 - sei lá


Hoje não me apetece!

não dá!

---

"A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Vão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho?"

Hoje até estou convencido disto

sábado, 5 de dezembro de 2009

974 - Três cantos



Saíu hoje o CD. Já o tenho!!!!

Foi uma coisa tão desejada e ficarei tão feliz quando ouvir o concerto de novo que decidi nem abrir o CD e embrulhá-lo para me oferecer (e me mimar) no Natal.

Vai me pôr Up, Up e ajudar a carregar baterias para o longo Inverno que ainda falta

sábado, 24 de outubro de 2009

929 - que caminho tão longo (três cantos)







Estive lá! Porra, estive lá!

Claro que adorei

Claro que foram 2 horas intenssíssimas que me fizeram pensar que o tempo passa e já percorremos um caminho muito longo

Cada canção tem já uma história tão longa e tão cheia de recordações



Claro que me emocionei e até me vieram lágrimas ao olhos pois cada uma destas canções também já é minha e conta um bocado da minha história pessoal de tanto terem sido ouvidas

Claro que me soube a pouco, me soube a tanto



Gostei sobremaneira de ter ouvido no final os da minha casa dizerem que a "inquitação" era a minha canção. Ainda argumentei que o "só estou bem onde eu não estou" também dava só para não me dar por vencido mas, afinal, a minha gente já me conhece bem...



Foi lindo...

Foi inesquecível



Contai cim isto de mim para isto e para o resto...

A cantiga é, de facto, uma arma contra alguns charlatões, casimiros, xerifes que pensam que é tudo deles, e outros que tais e, sobretudo, contra a nossa acomodação.












Travessia do Deserto



Que caminho tão longo!

Que viagem tão comprida!

Que deserto tão grande grande

Sem fronteira nem medida!



Águas do pensamento

Vinde regar o sustento

Da minha vida



Este peso calado

Queima o sol por trás do monte

Queima o tempo parado

Queima o rio com a ponte



Águas dos meus cansaços

Semeai os meus passos

Como uma fonte



Ai que sede tão funda!

Ai que fome tão antiga!

Quantas noites se perdem

No amor de cada espiga!



Ventre calmo da terra

Leva-me na tua guerra

Se és minha amiga



José Mário Branco

domingo, 2 de agosto de 2009

875 - Emigrante de mim



(Obs: Adaptação muito pessoal do texto de José Mário Branco - Emigrantes de quarta dimensão - truncado. Música de fundo também de José Mário Branco)


Emigrantes de quarta dimensão

Dá-me uma ajuda, ó médico das almas
para escolher em que combate combater
Quem condeno eu à vida
Quem condeno eu à morte
Que me podes tu dizer

Encostado à árvore do tempo
Folhas mortas, folhas vivas, estações
Nada disto faz sentido
E o sentido do sentido
Não paga as refeições

Este torpor só tem uma solução
Sejamos deuses, é meter as mãos à obra
E no fazendo acontecendo
Deixar ir o coração
Que é o que nos sobra

[...]

Fecha a porta que vem frio lá de fora
Diz o coxo aos despernado, e eu aqui
Fui à procura de mim
Encontrei-me mesmo agora
E ainda não fugi

O tempo corre por entre pívias e manhas
E tudo fica cada vez mais como está
Mas ao correr desta pena
Não fico à espera que venhas
Eu já sou o que virá

José Mário Branco

domingo, 14 de junho de 2009

837 - Faz as contas ao suor
























Sim, eu sei... Já publiquei isto antes. Mas, quem disse que a vida era sempre original e que não há nada de novo debaixo do céu?



As canseiras desta vida - José Mário Branco



Letra e música: José Mário Branco
Victor Almeida
(baseado em "A mãe" de Bertold Brecht)
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As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contar
a contar
os tostões da minha féria
e a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia 30
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
-o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão pró ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
-qual será a solução?

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

247 - Não cantes alegrias a fingir



















Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca


Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Porque é tentar a fingir


Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu


José Mário Branco
Fado Tristeza

quinta-feira, 28 de junho de 2007

226 - já foi há 25 anos?

Pois. 25 anos é muito tempo! Aqui vai uma sentida homenagem a um texto que continua actual. Aqui publico um excerto de FMI de José Mário Branco




















"Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?

sábado, 16 de junho de 2007

219 -que caminho tão longo...















Travessia do Deserto

Que caminho tão longo!
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande grande
Sem fronteira nem medida!

Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida

Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte

Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte

Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!

Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga

José Mário Branco

terça-feira, 1 de maio de 2007

193 - o primeiro 1º de Maio

Já lá vai muito tempo mas vivi-o. Foi um dia soberbo. Toda a gente na rua. Toda a gente feliz. toda a gente era gentil. Toda a gente conduzia civilizadamente e com civismo. Toda a gente partilhava. Que festa. Que urgência. Que pressão se soltou de todos nós. Que efusão de cor e cravos vermelhos nas mãos de todos...

















Hoje andei com esta canção todo o dia no ouvido... Eu vim de longe

Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar

E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não hesitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão

sexta-feira, 9 de março de 2007

164 - Dia da mulher 9 de Março!



















(Pintura: as 3 idades da mulher)
Gustav Klimt, 1905

As canseiras desta vida
tanta mãe envelhecida
a escovar
a escovar
a jaqueta carcomida
fica um farrapo a brilhar

Cozinheira que se esmera
faz a sopa de miséria
a contara contar
os tostões da minha féria
e a panela a protestar

Dás as voltas ao suor
fim do mês é dia 30
e a sexta é depois da quinta
sempre de mal a pior

E cada um se lamenta
que isto assim não pode ser
que esta vida não se aguenta
-o que é que se há-de fazer?

Corta a carne, corta o peixe
não há pão que o preço deixe
a poupar
a poupar
a notinha que se queixa
tão difícil de ganhar

Anda a mãe do passarinho
a acartar o pão pró ninho
a cansar
a cansar
com a lama do caminho
só se sabe lamentar

É mentira, é verdade
vai o tempo, vem a idade
a esticar
a esticar
a ilusão de liberdade
pra morrer sem acordar

É na morte ou é na vida
que está a chave escondida
do portão
do portão
deste beco sem saída
-qual será a solução?

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...