sábado, 16 de julho de 2016

1328 (Do indizível) - Revelações e regressos

7
O Deus de que vos falo
Não é um Deus de afagos.
É mudo. Está só. E sabe
Da grandeza do homem
(Da vileza também)
E no tempo contempla
O ser que assim se fez.

É difícil ser Deus
As coisas O comovem.
Mas não da comoção
Que vos é familiar:
Essa que vos inunda os olhos
Quando o canto da infância
Se refaz.

A comoção divina
Não tem nome.
O nascimento, a morte
O martírio do herói
Vossas crianças claras
Sob a laje,
Vossas mães
No vazio das horas.

E podereis amá-lo
Se eu vos disser serena
Sem cuidados,
Que a comoção divina
Contemplando se faz?

Hilda Hilst

[Exercícios para uma trajetória poética do ser (1963-1966)]
[in Poesia: 1959-1979/ Hilda hilst. - São Paulo: Quíron; (Brasília): INL, 1980.]

1327 (Do Abjeto) - Enquanto

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser
verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

António Gedeão

domingo, 10 de julho de 2016

1326 (Da condição humana) - A Humanidade

A HUMANIDADE
Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

[...]
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa do regresso

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)

1325 (Do espanto de viver) - Pensamento do dia

"Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos..."


José Régio

quinta-feira, 7 de julho de 2016

1324 - (Do espanto de viver) - Lisboa

Lisboa

Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes…»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-me os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus
e degraus até ao rio.

Eu sei. E tu, sabias?
© EUGéNIO DE ANDRADE
Coração do Dia, 1958

domingo, 3 de julho de 2016

1323 - (do belo) As fontes

As Fontes

"Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes.
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser."

Sophia de Mello Breyner Andresen 

segunda-feira, 27 de junho de 2016

1322 (Leituras) - Amantes



Há dias de sorte! Em Pombal, a propósito do encontro de Literatura Infanto Juvenil,deparo-me, numa feira do livro, com uma preciosidade para a alma! refiro-me aos "Amantes" escrito e ilustrado por Ana Juan.
Trata-se de um livro de contos todos relacionados com a temática do amor. É simplesmente belo e extraordináriamente ilustrado!
(Obrigado pela dica Margarida C.) Não sairá da minha prateleira dos livros mágicos e belos.

El Amor Lejano

Yo no tengo más palabras,
solo lágrimas,
Y quiro que guardes
solo mi sonrisa
no mi llanto.
Pero no puedo separarme de ti...
... sin um beso.
Aunque sé que volverás.
tu ausencia
me duele ya.  

 

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...