quinta-feira, 30 de agosto de 2007

247 - Não cantes alegrias a fingir



















Não cantes alegrias a fingir
Se alguma dor existir
A roer dentro da toca
Deixa a tristeza sair
Pois só se aprende a sorrir
Com a verdade na boca


Quem canta uma alegria que não tem
Não conta nada a ninguém
Fala verdade a mentir
Cada alegria que inventas
Mata a verdade que tentas
Porque é tentar a fingir


Não cantes alegrias de encomenda
Que a vida não se remenda
Com morte que não morreu
Canta da cabeça aos pés
Canta com aquilo que és
Só podes dar o que é teu


José Mário Branco
Fado Tristeza

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

246 - este amor é de guerra



















As facas

Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca)
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas
e em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

245 - memórias de uma quente noite de verão















Cavaleiro Monge


Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por casas, por prados
Por quinta e por fonte
Caminhais aliados
.
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por penhascos pretos
Atrás e defronte
Caminhais secretos
.
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por plainos desertos
Sem ter horizontes
Caminhais libertos
.
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por ínvios caminhos
Por rios sem ponte
Caminhos sozinhos
.
Do vale à montanha
Da montanha ao monte
Cavalo de sombra
Cavaleiro monge
Por quanto é sem fim
Sem ninguém que o conte
Caminhais em mim.



Fernando Pessoa

segunda-feira, 30 de julho de 2007

244- a propósito de uma muito pedagógica visita ao Louvre














"Nós não somos do século de inventar as palavras. As palavras já foram inventadas.
Nós somos do século de inventar outra vez as palavras que já foram inventadas."

José de Almada Negreiros

quarta-feira, 25 de julho de 2007

243 - quase, quase em férias
















Ticking away the moments that make up a dull day.
You fritter and waste the hours in an offhand way.
Kicking around on a piece of ground in your home town,
Waiting for someone or something to show you the way.

Tired of lying in the sunshine staying home to watch the rain.
You are young and life is long and there is time to kill today.
And then one day you find ten years have got behind you.
No one told you when to run, you missed the starting gun.

So you run and you run to catch up with the sun but it's sinking.
Racing around to come up behind you again.
The sun is the same in a relative way but you're older,
Shorter of breath and one day closer to death.

Every year is getting shorter never seem to find the time.
Plans that either come to naught or half a page of scribbled lines.
Hanging on in quiet desperation is the English way.
The time is gone, the song is over,
Thought I'd something more to say.

Home, home again.
I like to be here when I can.
And when I come home cold and tired,
It's good to warm my bones beside the fire.

Far away across the field
The tolling of the iron bell
Calls the faithful to their knees
To hear the softly spoken magic spells.

terça-feira, 24 de julho de 2007

242 - ainda tem o seu perfume














Vambora

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Voce tem meia hora
P'ra mudar a minha vida
Vem vambora
Que o que voce demora
É o que o tempo leva

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem voce na sala
Porque meu coracao dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz

Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem voce na sala
Porque meu coracao dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas

domingo, 22 de julho de 2007

241 - questões do coração












CARDIOLOGIA

Talvez na sua vida o maior estímulo
fosse a curiosidade.
Era o motor de tudo: aproximava-se
de todas as mulheres que conhecia,
mas só lhe interessavam os seus corações.

Cultivava com método essa obsessão
e tal como as crianças costumam fazer
aos brinquedos preferidos,
também ele queria vê-los por dentro,
saber ao certo como funcionavam (…)

Após cada experiência, observava
aqueles corações já desmontados
e, por não conseguir juntar as peças,
guardava-as no peito.
Era um lugar seguro
e com tantos pedaços de outras vidas
na sua pulsação descompassada
podia enfim acreditar
que tinha também ele um coração.

( Fernando Pinto do Amaral )

1908 (da consciência da existir) - 25 anos de trabalho em bibliotecas

Faz hoje, dia 1 de setembro, 25 anos que comecei a trabalhar no mundo das bibliotecas escolares. Tudo começou a 1 de setembro de 2001, por a...