A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
José Mário Branco
segunda-feira, 31 de agosto de 2015
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
15 - (da condição humana) - Que somos nós
QUE SOMOS NÓS
Que somos nós senão o que fazemos?
Que somos nós senão o breve traço
da vida que deixamos passo a passo
e é já sombra de sombra onde morremos?
Que somos nós se não permanecemos
no por nós transformado neste espaço?
Que serei eu senão só o que faço
e é tão pouco no tempo em que não temos
para viver senão o tempo de
transformar neste tempo e neste espaço
a vida em que não somos mais que
o sol do que fazemos. Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais.
Manuel Alegre
segunda-feira, 17 de agosto de 2015
14 - (de amor) - Ana II
Ana II (Homenagem a Jorge Sena)
O mar não é tão fundo que me tire a vida
Nem há tão larga rua que me leve a morte
Sabe-me a boca ao sal da despedida
Meu lenço de gaivota ao vento norte
Meus lábios de água, meu limão de amor
Meu corpo de pinhal à ventania
Meu cedro à lua, minha acácia em flor
Minha laranja a arder na noite fria
Vitorino
Nem há tão larga rua que me leve a morte
Sabe-me a boca ao sal da despedida
Meu lenço de gaivota ao vento norte
Meus lábios de água, meu limão de amor
Meu corpo de pinhal à ventania
Meu cedro à lua, minha acácia em flor
Minha laranja a arder na noite fria
Vitorino
domingo, 9 de agosto de 2015
13 - (Daqulo que fomos e somos) - Carregando o vento às costas
Carregando o vento às costas
Carregando ovento
às costas
abri portas
fechei portas
derrubei a urgência juvenil
sobre os destroços
de uma cidade cercada.
Atravessei com doçura
o ovo estilhaçado da infância.
Tacteei a frescura
dos cadernos novos.
Enjoei
o gasóleo no banco
de trás dos autocarros,
o gosto do cefé com leite
requentado,
os casacos grossos
nas manhãs de Inverno.
Fui crescendo
como cresce o mineral
bruto e duro
e distraído
no ventre sujo
de uma cidade adiada.
Percorri os corredores sombrios
dos cinemas de reprise
a cheirar a crinolina
Acordei 24 vezes por segundo
La Nobia
no palco
Gary Cooper
onde o Tsar Ivan
Humphrey Bogart
passeia Marylin
o cometa da loucura.
Fui um pouro triste arremetado
em busca de uma sombra
ou de um caminho.
Mordi o desespero.
Ardi espontânreamente
sem saber ainda
como é bela e transitória
a combustão.
E agora que cheguei
como costuma dizer-se
à idade madura
vejo como o mundo
se estreitou
e os caminhos se alargaram
com lágrimas de musgo
e de cristal.
Agora que cheguei
como costuma dizer-se
à idade madura
abro portas
fecho portas
carregsando sempre
o vento
às costas.
José Fanha
Carregando ovento
às costas
abri portas
fechei portas
derrubei a urgência juvenil
sobre os destroços
de uma cidade cercada.
Atravessei com doçura
o ovo estilhaçado da infância.
Tacteei a frescura
dos cadernos novos.
Enjoei
o gasóleo no banco
de trás dos autocarros,
o gosto do cefé com leite
requentado,
os casacos grossos
nas manhãs de Inverno.
Fui crescendo
como cresce o mineral
bruto e duro
e distraído
no ventre sujo
de uma cidade adiada.
Percorri os corredores sombrios
dos cinemas de reprise
a cheirar a crinolina
Acordei 24 vezes por segundo
La Nobia
no palco
Gary Cooper
onde o Tsar Ivan
Humphrey Bogart
passeia Marylin
o cometa da loucura.
Fui um pouro triste arremetado
em busca de uma sombra
ou de um caminho.
Mordi o desespero.
Ardi espontânreamente
sem saber ainda
como é bela e transitória
a combustão.
E agora que cheguei
como costuma dizer-se
à idade madura
vejo como o mundo
se estreitou
e os caminhos se alargaram
com lágrimas de musgo
e de cristal.
Agora que cheguei
como costuma dizer-se
à idade madura
abro portas
fecho portas
carregsando sempre
o vento
às costas.
José Fanha
terça-feira, 4 de agosto de 2015
12 - (Da memória) - Houve um tempo
HOUVE UM TEMPO
Houve uma vez
um momento
um dia em que fui feliz
e não estava lá.
Havia cores
borboletas
arco-íris.
Havia metáforas concretas
mãos despidas
de outra literatura que não fosse pão
cebola
sorriso de menino
ou barco a subir no ar.
Houve uma vez
um momento
um dia em que fui feliz
e não estava lá.
Caminhei exaustivamente
por dentro do coração.
Na margem que acolheu a minha idade em fogo
fui beber as doces águas
de todo o peregrino.
Mas nunca estive ali
no epicentro
da perfeita perfeição
de algumas flores.
Caminhei em busca
do misterioso sentido das noites de Natal
do cheiro a cera dos soalhos de infância
do amor tal qual se diz.
Quando lá cheguei
foi a outro lugar que cheguei.
Não sei se bom ou mau
mas outro.
Foi sempre a outro lugar que cheguei
de cada vez que fui feliz.
José Fanha, Tempo Azul
Houve uma vez
um momento
um dia em que fui feliz
e não estava lá.
Havia cores
borboletas
arco-íris.
Havia metáforas concretas
mãos despidas
de outra literatura que não fosse pão
cebola
sorriso de menino
ou barco a subir no ar.
Houve uma vez
um momento
um dia em que fui feliz
e não estava lá.
Caminhei exaustivamente
por dentro do coração.
Na margem que acolheu a minha idade em fogo
fui beber as doces águas
de todo o peregrino.
Mas nunca estive ali
no epicentro
da perfeita perfeição
de algumas flores.
Caminhei em busca
do misterioso sentido das noites de Natal
do cheiro a cera dos soalhos de infância
do amor tal qual se diz.
Quando lá cheguei
foi a outro lugar que cheguei.
Não sei se bom ou mau
mas outro.
Foi sempre a outro lugar que cheguei
de cada vez que fui feliz.
José Fanha, Tempo Azul
quinta-feira, 30 de julho de 2015
11 - (Da memória) - Os rios subterrâneos
OS RIOS SUBTERRÂNEOS
Havia uma cidade do outro lado da
memória.
E os rios que corriam.
Do outro
lado
das palavras. Havia
as tardes luminosas. Os pontos.
Os instantes por dentro dos sinais.
A árvore junto à casa. O quadro.
Os sacos de alfazema sobre a mesa.
A porta entreaberta. O sol e a sombra
na sala cheia de sua
plenitude. Havia
por detrás dos erres dobrados
o mistério dos rios
subterrâneos. Os rios que corriam
do outro lado
das imagens. Rios ocultos
rios do ser.
Rios.
Que nunca vão para outra página.
Rios das sílabas.
Do outro lado do
sentido.
Havia o acento circunflexo. E o til
que subtilmente caía
sobre o pão.
As uvas no lagar. Os pés pisando
ao ritmo das mãos
nos ombros e das sílabad
pingando
o mosto de Setembro. E a casa
no cimo do
crepúsculo. A casa do outro
lado
das tardes. A casa em estado puro
com o seu vinho correndo para dentro
dos almudes. Do outro lado
do erre
de Setembro.
E as cadeiras. As ausências sentadas
as mãos pousadas nos braços
das cedeiras. As costas recostadas
nas costas
das cadeiras. As ausências
carregadas
de presença.
E os sinais. Os pontos obscuros. O sol
e a sombra. A plenitude. Do
outro lado das imagens. Onde tocavam
sinos. Por dentro dos erres dobrados
e talvez por baixo dos rios subterrâneos
ocultos profundos rios
que nunca vão
nunca vão para nenhum mar.
Manuel Alegre
Havia uma cidade do outro lado da
memória.
E os rios que corriam.
Do outro
lado
das palavras. Havia
as tardes luminosas. Os pontos.
Os instantes por dentro dos sinais.
A árvore junto à casa. O quadro.
Os sacos de alfazema sobre a mesa.
A porta entreaberta. O sol e a sombra
na sala cheia de sua
plenitude. Havia
por detrás dos erres dobrados
o mistério dos rios
subterrâneos. Os rios que corriam
do outro lado
das imagens. Rios ocultos
rios do ser.
Rios.
Que nunca vão para outra página.
Rios das sílabas.
Do outro lado do
sentido.
Havia o acento circunflexo. E o til
que subtilmente caía
sobre o pão.
As uvas no lagar. Os pés pisando
ao ritmo das mãos
nos ombros e das sílabad
pingando
o mosto de Setembro. E a casa
no cimo do
crepúsculo. A casa do outro
lado
das tardes. A casa em estado puro
com o seu vinho correndo para dentro
dos almudes. Do outro lado
do erre
de Setembro.
E as cadeiras. As ausências sentadas
as mãos pousadas nos braços
das cedeiras. As costas recostadas
nas costas
das cadeiras. As ausências
carregadas
de presença.
E os sinais. Os pontos obscuros. O sol
e a sombra. A plenitude. Do
outro lado das imagens. Onde tocavam
sinos. Por dentro dos erres dobrados
e talvez por baixo dos rios subterrâneos
ocultos profundos rios
que nunca vão
nunca vão para nenhum mar.
Manuel Alegre
terça-feira, 28 de julho de 2015
10 - (De amor) - A noite passada
A noite passada
A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
Sérgio Godinho
1972
A noite passada acordei com o teu beijo
descias o Douro e eu fui esperar-te ao Tejo
vinhas numa barca que não vi passar
corri pela margem até à beira do mar
até que te vi num castelo de areia
cantavas "sou gaivota e fui sereia"
ri-me de ti "então porque não voas?"
e então tu olhaste
depois sorriste
abriste a janela e voaste
A noite passada fui passear no mar
a viola irmã cuidou de me arrastar
chegado ao mar alto abriu-se em dois o mundo
olhei para baixo dormias lá no fundo
faltou-me o pé senti que me afundava
por entre as algas teu cabelo boiava
a lua cheia escureceu nas águas
e então falámos
e então dissemos
aqui vivemos muitos anos
A noite passada um paredão ruiu
pela fresta aberta o meu peito fugiu
estavas do outro lado a tricotar janelas
vias-me em segredo ao debruçar-te nelas
cheguei-me a ti disse baixinho "olá",
toquei-te no ombro e a marca ficou lá
o sol inteiro caiu entre os montes
e então olhaste
depois sorriste
disseste "ainda bem que voltaste"
Sérgio Godinho
1972
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