sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Espiões de Michael Frayn

Bom... Este é uma dos livros que não nos conquista vendo a capa, antes pelo contrário, mas é um romance que se lê num só fôlego.
Sinceramente, gostei e aconselho

Eis a sinopse:
"A Segunda Guerra ainda não havia chegado a uma rua tranquila no subúrbio de Londres, até que dois meninos resolvem bancar agentes secretos. Certa manhã, Keith e Stephen abandonam a brincadeira de estrada de ferro na horta de pepinos, e começam a vigiar a sra. Hayward, mãe de Keith, certos de que ela seria uma espiã alemã. Aos poucos, descobrem que algo estranho acontece na rua: beijos proibidos, vizinhos com atitude suspeita, passagens secretas, tráfico de meias de lã.
Cinquenta anos depois, os acontecimentos daquele verão ainda atormentam Stephen. Ele retorna à rua de sua infância e tenta entender como uma brincadeira de meninos levou a uma tragédia de adultos, dando-lhe "uma intuição profunda da solenidade e tristeza das coisas".
Ganhador do prêmio Whitbread 2002 de melhor romance, Espiões é a história de coisas que parecem simples, sobretudo aos olhos de uma criança, mas que se tornam cada vez mais complexas e dolorosas. É um relato sobre a gravidade da infância, o peso da inocência e a dificuldade de evocar o próprio passado."
A história começa assim: 

"1.

Ainda falta uma semana para o fim de junho e o cheiro já chegou, familiar e invasor. É uma doçura que nos invade todos os anos, por esta época. Sinto-a no ar quente da tarde, enquanto caminho ao longo dos jardins bem tratados da minha rua tranqüila, e por um instante viro criança outra vez e tudo ainda está por acontecer - toda promessa de vida, assustadora e meio incompreensível.

Deve vir de um dos jardins. De qual? Nunca consigo descobrir. E o que é? Não tem nada da fragrância terna e pungente dos limoeiros em flor que aperta o coração, cheiro bom pelo qual a cidade é conhecida, ou da serena felicidade de verão das madressilvas. É algo completamente rude e vulgar. Cheira mal. Possui uma espécie de urgência sexual. E me balança por dentro, como sempre. Eu sinto... o quê? Uma inquietude. Uma vontade de fugir para além das árvores no final da rua, cada vez para mais longe. E ao mesmo tempo tenho uma espécie de saudade do lugar onde estou. É possível? Sei que alguma coisa, em algum lugar, foi deixada irresolvida, que alguma coisa secreta no ar que me rodeia ainda está por ser descoberta.
Uma outra sugestão do perfume me alcança com a brisa leve do verão, e desconfio que o lugar para o qual gostaria de fugir é minha infância. Talvez a casa da qual sinta saudade ainda esteja lá, depois de tudo que aconteceu. No fim de junho, quando o fedor adocicado aparece, é impossível deixar de notar que há vôos baratos para aquela terra tão longe e tão perto de mim. Duas vezes pego o telefone para reservar passagem; duas vezes o coloco de volta no gancho. Não se pode voltar, todo mundo sabe... Quer dizer que não vou voltar nunca mais? Fica decidido? Estou ficando velho. Quem sabe a minha última oportunidade seja este ano...
Mas o que é isto, esta presença terrivelmente perturbadora no ar do verão? Se pelo menos eu soubesse o nome dessa flor mágica, se ao menos pudesse vê-la, talvez conseguisse descobrir a fonte do seu poder. De repente eu o capto no ar enquanto acompanho minha filha e meus dois netos pequenos de volta ao carro ao fim da visita semanal. Ponho a mão no seu braço. Ela entende de plantas e jardinagem. "Você está sentindo? Agora... Que cheiro é esse?"
Ela respira fundo. "São os pinheiros", responde. Há pinheiros altos crescendo em todos os jardins arenosos, protegendo as casas modestas do sol do verão e tornando nosso ar o famoso ar fresco e revigorante. Mas não há nada de limpo, ou com fragrância de resina, neste fedor que posso detectar insinuando-se tão furtivamente. Minha filha torce o nariz. "Você não está falando deste cheiro... bem... deste cheiro vulgar?"
Dou risada. Ela está certa. É mesmo um perfume vulgar.
"Ligustro", ela diz.
Ligustro... fiquei na mesma. Já ouvi a palavra, com certeza, mas nenhuma imagem me vem à mente, nem qualquer justificativa para o poder que o cheiro tem sobre mim. "É um arbusto", explica minha filha. "Muito comum. Você já deve ter visto em parques. Bem sem graça. Sempre me faz lembrar de tardes deprimentes em domingos chuvosos." Ligustro... Não. E ainda assim, quando uma nova onda daquela intimação descarada nos atinge, tudo dentro de mim se revolve e rodopia.
Ligustro... Soa como um segredo, alguma coisa negra e perturbadora lá no fundo do meu pensamento, alguma coisa sobre a qual absolutamente não gosto de pensar... Acordo à noite com a palavra me incomodando. Ligustro...
Espera um pouco. Será que minha filha estava falando inglês comigo quando me deu a informação? Vou ao dicionário... Não, não estava. E assim que vejo qual é a palavra em inglês, só posso rir de novo. Claro, que coisa mais óbvia! Desta vez, rio com um pouco de vergonha, porque um tradutor profissional não deveria se deixar enganar por uma palavra tão simples - e também porque, agora que sei o que é, parece-me uma deixa por demais ridícula e fora de propósito para sentimentos tão poderosos.
Agora muitas coisas me voltam à mente. Riso, para começar. Em uma noite de verão há quase sessenta anos. Nunca pensei nisso antes, mas lá está ela de novo, a mãe de meu amigo Keith, à sombra do arbusto verde do verão há tanto tempo perdido, os olhos castanhos brilhando, rindo de alguma coisa que Keith escrevera. Entendo o porquê, claro, agora que sei o que inundava de perfume o ar à nossa volta.
Paro de rir. Ela está sentada na terra à minha frente, chorando, e não sei o que fazer ou dizer. Junto de nós outra vez, aquele fedor adocicado e sedutor vai penetrando sorrateiramente nos recessos mais fundos da minha memória, para ficar comigo pelo resto da vida.
A mãe de Keith. Deve estar lá pelos noventa, a essas alturas. Ou morta. Quantos dos outros ainda estarão vivos? Quantos deles ainda se lembram?
E Keith, o próprio Keith? Será que ainda pensa sobre as coisas que aconteceram naquele verão? Talvez tenha morrido também.
Talvez eu seja o único que ainda se lembra. Ou que se lembra um pouco, pelo menos. Vislumbres de coisas diferentes surgem na minha mente, sem qualquer ordem, e se vão. Uma chuva de centelhas... Um sentimento de vergonha... Alguém tossindo, tentando não ser escutado... Uma jarra coberta de renda com quatro contas azuis penduradas nas pontas...
E, claro - em primeiro lugar as palavras ditas pelo meu amigo Keith que deram início a tudo. Às vezes é difícil lembrar as palavras exatas que alguém falou há meio século, mas estas são fáceis, porque foram tão poucas. Seis, para ser preciso. Ditas, assim, casualmente, como um comentário passageiro, tão leves e sem substância quanto bolhas de sabão. E, apesar disso, mudaram tudo.
Como as palavras costumam fazer.
Agora que comecei a pensar no assunto, sinto que gostaria de ir mais fundo e dar alguma ordem a tudo, dar algum sentido aos acontecimentos. Havia coisas que ninguém jamais explicou. Coisas que nem mesmo foram ditas. Segredos. Gostaria de trazê-los à luz do dia, afinal. E mesmo agora que já localizei a fonte da minha inquietação, continuo a sentir a presença de algo por trás de tudo isso que ainda permanece sem solução.
Digo a meus filhos que irei a Londres por alguns dias.
"Tem o endereço de onde vai ficar?", pergunta minha nora, sempre tão organizada.
"Rua da Memória, talvez", sugere secamente meu filho. É evidente que estamos todos falando inglês. Ele percebe minha inquietação.
"Exatamente", respondo. "A última rua antes de perder o juízo e virar a esquina que dá na avenida Amnésia."
Não conto para eles que estou seguindo o rastro de um arbusto que floresce por algumas semanas no verão e que destrói a minha paz.
É claro que não lhes digo o nome do arbusto. Não o digo nem para mim mesmo. É ridículo demais."

Sem comentários:

Enviar um comentário