sábado, 30 de dezembro de 2006

133- Propósitos de ano novo



















Parto


Viver não é um capital
que se possui,
é um nascimento
que levamos dentro.
É preciso dar à luz
a sua própria vida.
Viver,
é tomar a iniciativa,
servindo-se
dos seus próprios limites.
Assim, viver
é vindimar o
seu cacho
de oportunidades
na vinha da aventura.
O caminho transforma-se em casa
e o homem em nómada.
Não há remédio
para viver em nossa vez,
nem automóvel
que nos leve a viver.

Viver
é um caminho
que só se faz a pé...

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

132 - simplesmente belo




















You Needed Me

I cried a tear, you wiped it dry
I was confused, you cleared my mind
I sold my soul, you bought it back for me
And held me up and gave me dignity
Somehow you needed me

You gave me strength to stand alone again
To face the world out on my own again
You put me high upon a pedestal
So high that I could almost see eternity
You needed me, you needed me

And I can't believe it's you
I can't believe it's true
I needed you and you were there
And I'll never leave, why should I leave?
I'd be a fool 'cause I finally found someone who really cares

You held my hand when it was cold
When I was lost you took me home
You gave me hope when I was at the end
And turned my lies back into truth again
You even called me "friend"

You gave me strength to stand alone again
To face the world out on my own again
You put me high upon a pedestal
So high that I could almost see eternity
You needed me, you needed me

You needed me, you needed me

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

131 - músicas da minha vida II
















Eu Sei Que Vou Te Amar


Eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida, eu vou te amar
Em cada despedida, eu vou te amar
Desesperadamente
Eu sei que vou te amar
E cada verso meu será
Para te dizer que eu sei que vou te amar
Por toda a minha vida

Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer
A eterna desventura de viver
À espera de viver ao lado teu
Por toda a minha vida

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

130 - Emoções e poesia não é?




















“O Pássaro da Alma”



No fundo, bem lá no fundo do corpo, mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
Mas todos sabem que ela existe.
E não só sabem que existe,
Como também sabem o que tem lá dentro.
Dentro da alma,
Lá bem no centro,
Pousado numa pata
Está um pássaro.
E o nome do pássaro é pássaro da alma.
E ele sente tudo o que nós sentimos:
Quando alguém nos magoa, o pássaro da alma agita-se para lá e para cá
Em todos os sentidos dentro do nosso corpo, sofre muito.
Quando alguém nos ama,
O pássaro da alma dá pulinhos
De contente,
Para trás e para a frente,
Vai e vem.
Quando alguém nos chama,
O pássaro da alma põe-se logo à escuta da voz,
A fim de reconhecer que tipo de apelo é.
Quando alguém se zanga connosco,
O pássaro da alma recolhe-se dentro de si
Tristonho e silencioso.
E quando alguém nos abraça, o pássaro da alma
Que mora no fundo, bem lá no fundo do nosso corpo,
Começa a crescer, a crescer
Até encher quase todo o espaço dentro de nós,
Tão bom é para ele o abraço.
Dentro do corpo, no fundo, bem lá no fundo, mora a alma.
Ainda não houve quem a visse,
Mas todos sabem que ela existe.
E ainda nunca,
Nunca veio ao mundo alguém
Que não tivesse alma.
Porque a alma entra dentro de nós no momento em que nascemos
E não nos larga
- Nem uma só vez –
Até ao fim da nossa vida.
Como o ar que o homem respira
Desde a hora em que nasce
Até à hora em que morre.
Decerto querem também saber de que é feito o pássaro da alma.
Ah! Isso é mesmo muito fácil:
É feito de gavetas e mais gavetas.
Mas não podemos abrir as gavetas de qualquer maneira,
Pois cada uma delas tem uma chave para ela só!
E o pássaro da alma
É o único capaz de abrir as gavetas dele.
Como?
Pois isso também é muito simples:
Com a segunda pata.
O pássaro da alma está pousado numa pata,
E com a outra – que em descanso está dobrada sobre a barriga –
Roda a chave da gaveta que quer abrir,
Puxa pelo puxador, e tudo o que está dentro dela
Sai em liberdade para dentro do corpo.
E como tudo o que sentimos tem uma gaveta,
O pássaro da alma tem imensas gavetas.
A gaveta da alegria e a gaveta da tristeza.
A gaveta da inveja e a gaveta da esperança.
A gaveta da desilusão e a gaveta do desespero.
A gaveta da paciência e a gaveta do desassossego.
E mais a gaveta do ódio, a gaveta da cólera e a gaveta do mimo.
A gaveta da preguiça e a gaveta do vazio.
E a gaveta dos segredos mais escondidos,
Uma gaveta que quase nunca abrimos.
E há mais gavetas.
Vocês podem juntar todas as que quiserem.
Às vezes uma pessoa pode escolher e indicar ao pássaro
As chaves a rodar e as gavetas a abrir.
E outras vezes é o pássaro quem decide.
Por exemplo: a pessoa quer estar calada e diz ao pássaro para abrir
A gaveta do silêncio. Mas ele por auto-recriação,
Abre-lhe a gaveta da fala,
E ela desata a falar, a falar sem querer.
Outro exemplo: a pessoa quer escutar pacientemente
- E em vez disso ele abre-lhe a gaveta do desassossego
Que faz com que ela se enerve.
E acontece que a pessoa tenha ciúmes sem qualquer motivo.
E que estrague justamente quando mais quer ajudar.
Porque o pássaro da alma nem sempre é disciplinado
E às vezes dá-lhe trabalhos…
Agora já compreendemos que cada homem é diferente do seu semelhante
Por causa do pássaro da alma que tem dentro de si.
O pássaro que em certas manhãs abre a gaveta da alegria,
E a alegria jorra dela para dentro do corpo
E o dono dele fica feliz.
E quando o pássaro lhe abre
A gaveta da raiva,
A raiva escorre de dentro dela e
Domina-o totalmente.
E até que o pássaro
Volte a fechar a gaveta
Ele não pára de se zangar.
E quando o pássaro está de mau humor abre gavetas que dão mal-estar.
E quando o pássaro está de bom humor escolhe gavetas que fazem bem.
E o mais importante - é escutar logo o pássaro.
Pois acontece o pássaro da alma chamar por nós, e nós não o ouvirmos.
É pena. Ele quer falar-nos de nós próprios.
Quer falar-nos dos sentimentos que estão encerrados nas gavetas
Dentro de nós.
Há quem o ouça muitas vezes,
Há quem o ouça raras vezes,
E há quem o ouça
Uma única vez na vida.
Por isso vale a pena
Talvez tarde pela noite, quando o silêncio nos rodeia,
Escutar o pássaro da alma que mora dentro de nós,
No fundo, lá bem no fundo do corpo.


Michal Snunit
Naama Golomb (il.)
Edições Vega 2005

domingo, 24 de dezembro de 2006

129 - É Natal















Josefa de Óbidos, 1630 - 1684

Natividade
c. 1650-60, óleo sobre cobre
21 x 16 cm
Colecção particular
Porto, Portugal
http://www.uc.pt/artes/6spp/josefa_de_obidos.html

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

128 - músicas da minha vida I
















L'absence

C'est un volet qui bat
C'est une déchirure légère
Sur le drap où naguère
Tu as posé ton bras
Cependant qu'en bas
La rue parle toute seule
Quelqu'un vend des mandarines
Une dame bleu-marine
Promène sa filleule
L'absence, la voilà

L'absence

D'un enfant, d'un amour
L'absence est la même
Quand on a dit je t'aime
Un jour...
Le silence est le même

C'est une nuit qui tombe
C'est une poésie aussi
Où passaient les colombes
Un soir de jalousie
Un livre est ouvert
Tu as touché cette page
Tu avais fêlé ce verre
Au retour d'un grand voyage
Il reste les bagages
L'absence, la voilà

L'absence

D'un enfant, d'un amour
L'absence est la même
Quand on a dit je t'aime
Un jour...
Le silence est le même

C'est un volet qui bat
C'est sur un agenda, la croix
D'un ancien rendez-vous
Où l'on se disait vous
Les vases sont vides
Où l'on mettait les bouquets
Et le miroir prend des rides
Où le passé fait le guet
J'entends le bruit d'un pas
L'absence, la voilà

L'absence

D'un enfant, d'un amour
L'absence est la même
Quand on a dit je t'aime
Un jour...
Le silence est le même

Serge Reggiani

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

127 - Era tarde demais...




















Estrela da Tarde
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia

Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amorMinha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amorEu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram

Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

José Carlos Ary dos Santos

126 - Questões de perspectivas




















Onde você vê um obstáculo,
alguém vê o término da viagem
e o outro vê uma chance de crescer.

Onde você vê um motivo para se irritar,
Alguém vê a tragédia total
E o outro vê uma prova para a sua paciência.

Onde você vê a morte,
Alguém vê o fim
E o outro vê o começo de uma nova etapa...

Onde você vê a fortuna,
Alguém vê a riqueza material
E o outro pode encontrar por trás de tudo, a dor e a miséria total.

Onde você vê a teimosia,
Alguém vê a ignorância,
Um outro compreende as limitações do companheiro,
percebendo que cada qual caminha em seu próprio passo.

E que é inútil querer apressar o passo do outro, a não ser que ele deseje isso.
Cada qual vê o que quer, pode ou consegue enxergar.
"Porque eu sou do tamanho do que vejo.
E não do tamanho da minha altura."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

125 - Aos amigos




















Minha Árvore De Natal

Quisera, Senhor, neste NataL
armar uma árvore dentro de meu coração,
e nela pendurar em vez de presentes,
os nomes de todos meus amigos.

Os meus amigos de longe e de perto.
Os antigos e os mais recentes.
Os que vejo a cada dia e os que raramente vejo.
Os sempre lembrados e os às vezes esquecidos.
Aqueles a quem eu conheço profundamente,
e aqueles que não são muito conhecidos,
a não ser nas aparências.
Os constantes e os inconstantes.
Os das horas difíceis e os das horas alegres.
Os que sem querer magoei
e os que sem querer me magoaram.
Os que pouco me devem e aqueles a quem devo muito.
Meus amigos jovens e velhinhos,
não esquecendo
também das criancinhas,
ternas amiguinhas,
os nomes de todos que já passaram por minha vida.
Aqueles que eu conheço, sem me conhecerem,
aqueles que me conhecem, sem que eu os conheça,
que me admiram e estimam sem eu saber
e os que admiro e estimo sem lhes dar a entender.....
Uma árvore de raízes profundas
para que os seus nomes nunca sejam arrancados do meu coração,
seus ramos muito extensos,
para receberem outros ramos.
Sua sombra muito agradável para que nossa amizade
seja um momento de repouso
em nossas horas difíceis da vida!!!

Feliz Natal.


terça-feira, 12 de dezembro de 2006

124 - alguém me diga por favor
















Ao Crepúsculo - Onde é que está o meu Amor?


O tempo parou
E nada mudou
E a noite caiu
E a lua sorriu
E o fogo acendeu
E a porta bateu
E o tempo passou
E o amor não voltou

Onde é que está o meu amor
O meu amor onde é que foi
Alguém me diga por favor
Onde é que foi o meu amor
Amor, amor, amor, amor
Onde é que está o meu amor
O meu amor, o meu amor
O meu amor onde é que foi
E o amor não voltou

E o tempo passou
E a porta bateu
E o fogo acendeu
E a lua sorriu
E a noite caiu
E nada mudou
E o tempo parou

Autor: Pedro Ayres Magalhães

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

123 - Mas é que faz muito sentido














Estou além


Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P’ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão

Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só

Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só estou bem
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só estou bem
Aonde não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

sábado, 2 de dezembro de 2006

122- Por agora, sinto-me assim
















Começar de novo
(Ivan Lins e Victor Martins)

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Ter me rebelado, ter me debatido
Ter me machucado, ter sobrevivido
Ter virado a mesa, ter me conhecido
Ter virado o barco, ter me socorrido

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena ter amanhecido
Sem as suas garras sempre tão seguras
Sem o teu fantasma, sem tua moldura
Sem suas escoras, sem o teu domínio
Sem tuas esporas, sem o teu fascínio

Começar de novo e contar comigo
Vai valer a pena já ter te esquecido
Começar de novo

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

121 - Leituras de Outubro e Novembro



  • Os Intelectuais na Idade Média - Jacques Le Goff publicado por Ideias e formas

Leitura muito antiga, dos tempos da Universidade que nunca tinho sido acabada. Interessante, mas que exigia uma cultura geral que à altura não tinha... Impressionante ter sido recomendada como leitura a gente das ciências...



  • Mau tempo no Canal - Vitorino Nemésio da Bertrand

Outra leitura em atraso e que não tinha acabado há muitos anos atrás. História lindíssima e com belíssimos relatos que, felizmente, ficaram para a posteridade. Uma caça à baleia, um relato das festas do Santo Espírito, um cena na taberna e tantas outras sobre amores proibidos e/ou não realizados.



  • O Diário de Anne Frank - Versão definitiva editada pelos livros do Brasil

Após a visita ao anexo em Amesterdão era imprescindível a releitura. Sem palavras, que emoção, que grande emoção ter tido o privilégio de ter lá estado...



DOMINGO, 13 DE DEZEMBRO DE 1942

Querida Kitty,
Estou aqui sentada, muito confortável, no escritório da frente, a espreitar por uma fenda nas cortinas pesadas. Está a anoitecer, li mas há luz suficiente para escrever.
É realmente estranho observar as pessoas a passarem. Parecem estar todas com tanta pressa que quase tropeçam nos seus próprios pés. Os que vão de bicicleta passam tão depressa que nem consigo distinguir-lhes os rostos. As pessoas desta zona não são particularmente atraentes. As crianças, principalmente; são tão sujas que não lhes tocaria nem com um par de tenazes... Verdadeiros miúdos dos bairros de lata, todos ranhosos. Mal consigo perceber uma palavra daquilo que dizem.
Ontem à tarde, quando Margot e eu estávamos a tomar banho, eu disse:
- E se pegássemos numa cana de pesca e puxássemos cada um destes miúdos para dentro quando fossem a passar, os enfiássemos na banheira, lhes lavássemos e remendássemos as roupas, e depois...
- E depois amanhã estariam tão sujos e esfarrapados como antes - respondeu Margot.
- Mas estou a divagar. Há também outras coisas para onde olhar: carros, barcos e a chuva. Consigo ouvir o eléctrico e as crianças e entretenho-me.
Os nossos pensamentos estão sujeitos a tão poucas alterações como nós. São como um carrossel, girando entre os judeus e a comida, a comida e a política. Por falar em judeus, ontem vi dois, quando estava a espreitar pelas cortinas. Senti-me como se estivesse a olhar para uma das Sete Maravilhas do Mundo. Tive uma sensa­ção tão estranha, como se os tivesse denunciado às autoridades e estivesse agora a espiar o seu infortúnio.
Do outro lado da estrada há uma casa-barco. O capitão vive lá, com a mulher e os filhos. Tem um pequeno cão que se farta de ladrar. Conhecemos o cãozinho apenas pelo ladrar e pela cauda, que se consegue ver quando ele anda a correr no convés. Oh, que pena, começou a chover e a maior parte das pessoas está escondida debaixo dos chapéus-de-chuva. Só consigo ver gabardinas e, de vez em quando, a parte de trás de uma cabeça coberta. Na verdade, nem preciso de olhar muito. Já consigo reconhecer as mulheres apenas com um olhar: gordas por causa de comerem muitas batatas, vestidas com um casaco vermelho ou verde e calçando sapatos gastos, com um saco de compras pendurado no braço, e expressões que são severas ou bem-humoradas, dependendo do estado de espírito dos maridos.

Tua, Anne


quinta-feira, 30 de novembro de 2006

120 - Auto - retrato V


Pois... Será bom manter este optimismo e idealismo!
Voar, mesmo contra toda a lógica e, se não der, a culpa é da "kriptonite"
É esta lógica inocente contra toda a lógica que faz sentido
Up, Up and Away

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

119 - Suave Tristeza ou Tristeza Suave?




















Suave tristeza - Madredeus
Letra e música de Carlos Maria Trindade



Que suave é a tristeza
que sai desse teu olhar
desse rosto de Princesa
cansado de olhar o mar
Dão as ondas a certeza
de a maré nunca acabar
fica-te uma esperança acesa
a de ver o amor voltar
a de ver o amor voltar
Lá ao longe que beleza
põe-se o sol nasce o luar
mas nem por isso a Princesa
deixa de olhar o mar
Amanhece um céu turquesa
as estrelas vão descansar
só não repousa a Princesa
escrava deste seu amar
na esperança de o amor voltar
escrava deste seu amar
na esperança de o amor voltar


"Sweet Sadness" - Madredeus
Lyrics and music by Carlos Maria Trinidade


How soft is the sadness
coming from your regard
from that Princess’s face
tired of staring at the sea
Waves give a certainty
of a never ending tide
you keep a lightened hope
of seeing love return
of seeing love return
Far off yonder what beauty
makes the sun give birth to the moon
Still the Princess doesn’t stop
staring at the sea
Dawns a turquoise sky
the stars are going to rest
only the Princess doesn’t
slave to this loving of her’s
hoping that love returns
slave to this loving of her’s
hoping that love returns

terça-feira, 28 de novembro de 2006

118 -La chanson des vieux amants

























Bien sûr, nous eûmes des orages
Vingt ans d’amour, c’est l’amour fol
Mille fois tu pris ton bagage
Mille fois je pris mon envol
Et chaque meuble se souvient
Dans cette chambre sans berceau
Des éclats des vieilles tempêtes
Plus rien ne ressemblait à rien
Tu avais perdu le goût de l’eau
Et moi celui de la conquête

Mais mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l’aube claire jusqu’à la fin du jour
Je t’aime encore tu sais je t’aime

Moi, je sais tous tes sortilèges
Tu sais tous mes envoûtements
Tu m’as gardé de pièges en pièges
Je t’ai perdue de temps en temps
Bien sûr tu pris quelques amants
Il fallait bien passer le temps
Il faut bien que le corps exulte
Finalement finalement
Il nous fallut bien du talent
Pour être vieux sans être adultes

Oh, mon amour
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l’aube claire jusqu’à la fin du jour
Je t’aime encore, tu sais, je t’aime

Et plus le temps nous fait cortège
Et plus le temps nous fait tourment
Mais n’est-ce pas le pire piège
Que vivre en paix pour des amants
Bien sûr tu pleures un peu moins tôt
Je me déchire un peu plus tard
Nous protégeons moins nos mystères
On laisse moins faire le hasard
On se méfie du fil de l’eau
Mais c’est toujours la tendre guerre

Oh, mon amour…
Mon doux mon tendre mon merveilleux amour
De l’aube claire jusqu’à la fin du jour
Je t’aime encore tu sais je t’aime.

Brel

Imagem retirada daqui

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

117 - Viva o poeta

Algumas efemérides:

a 24 de Novembro, se fosse vivo, António Gedeão, teria feito 100 anos

a 26 de Novembro, morreu Mário Cesariny

Como disse alguém:

Morreu o corpo do poeta, fica a poesia e o poeta.

sábado, 18 de novembro de 2006

116 - Fado Português















O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão, meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

José Régio

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

115 - Quem te criou, sagrou-te Português



O Infante

Deus quer, o homem sonha, a obra nasce
Deus quis que a Terra fosse toda uma
Que o mar unisse, já não separasse
Sagrou-te e foste desvendando a espuma

E a orla branca foi
De ilha em continente
Clareou correndo até ao fim do mundo
E viu-se a terra inteira, de repente
Surgiu redonda do azul profundo

Quem te sagrou, criou-te português
Do mar e nós em ti nos deu sinal
Cumpriu-se o mar e o império se desfez
Senhor, falta cumprir-se Portugal

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

114 - Quando a realidade ultrapassa o imaginado

http://www.desaparecidos.org/arg/victimas/

Sólo le pido a dios
Que el dolor no me sea indiferente
Que la reseca muerte no me encuentre
Vacía y sola sin haber hecho lo suficiente

Sólo le pido a dios
Que lo injusto no me sea indiferente
Que no me abofeteen la otra mejilla
Después de que una garra me arañó la suerte

Sólo le pido a dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

Sólo le pido a dios
Que el engaño no me sea indiferente
Si un traidor puede más que unos cuantos
Esos cuantos no lo olviden fácilmente

Sólo le pido a dios
Que el futuro no me sea indiferente
Desahuciado esta el que tiene que marchar
A vivir una cultura diferente

Sólo le pido a dios
Que la guerra no me sea indiferente
Es un monstruo grande y pisa fuerte
Toda la pobre inocencia de la gente

(León Gieco)

domingo, 12 de novembro de 2006

113 - Como se chovesse em pleno Agosto


E o alegre se fez triste



Aquela clara madrugada que

Viu lágrimas correrem no teu rosto

E alegre se fez triste como se

chovesse de repente em pleno Agosto


Ela só viu meus dedos nos teus dedos

Meu nome no teu nome e demorados

Viu nossos olhos juntos nos segredos

Que em silêncio dissemos separados


A clara madrugada em que parti

Só ela viu teu rosto olhando a estrada

Por onde o automóvel se afastava


E viu que a pátria estava toda em ti

E ouviu dizer adeus essa palavra

Que fez tão triste a clara madrugada

Que fez tão triste a clara madrugada


sábado, 11 de novembro de 2006

112 - Qual o caminho que devo tomar?


O Gato apenas sorriu quando viu Alice. Ele parecia bem natural, ela pensou, e tinha garras muito longas e muitos dentes grandes, assim ela sentiu que deveria tratá-lo com respeito.
"Gatinho de Cheshire", começou, bem timidamente, pois não tinha certeza se ele gostaria de ser chamado assim: entretando ele apenas sorriu um pouco mais. "Acho que ele gostou", pensou Alice, e continuou.
"O senhor poderia me dizer, por favor, qual o caminho que devo tomar para sair daqui?"
"Isso depende muito de para onde você quer ir", respondeu o Gato.
"Não me importo muito para onde...", retrucou Alice.
"Então não importa o caminho que você escolha", disse o Gato.
"... contanto que dê em algum lugar", Alice completou.
"Oh, você pode ter certeza que vai chegar", disse o Gato, "se você caminhar bastante."

Lewis Carrol - Alice no pais das Maravilhas

111 - a propósito do sentido do que se diz

O Objecto

Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.
Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.

Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo foram janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.

E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.

E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão
Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.

Ary dos Santos

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

110 - A tentar arranjar motivação para o que tem que ser

Abaixo el-rei Sebastião




















É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.



Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.



Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.

Manuel Alegre

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

109 - Quando toda a utopia é possível















Poemarma

Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas.
Que seja um autocarro em forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
(que lindo!) no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sono estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas
E até se partir uma não faz mal:
antes de muletas que de asas eternas .

Que o poema fique. E que ficando se aplique
A não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
Voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.

Que o poema diga o que é preciso
que chegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

108 - El tiempo pasa













Años
Pablo Milanés




El tiempo pasa,
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo, como ayer.
En cada conversación,
cada beso, cada abrazo,
se impone siempre un pedazo de razón.


Pasan los años,
y cómo cambia lo que yo siento;
lo que ayer era amor
se va volviendo otro sentimiento.
Porque años atrás
tomar tu mano, robarte un beso,
sin forzar un momento
formaban parte de una verdad.


El tiempo pasa,
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo, como ayer.
En cada conversación,
cada beso, cada abrazo,
se impone siempre un pedazo de temor.


Vamos viviendo,
viendo las horas, que van muriendo,
las viejas discusiones se van perdiendo
entre las razones.
A todo dices que sí,
a nada digo que no,
para poder construir la tremenda armonía,
que pone viejos, los corazones.


El tiempo pasa,
nos vamos poniendo viejos
y el amor no lo reflejo, como ayer.
En cada conversación,
cada beso, cada abrazo,
se impone siempre un pedazo de razón.
(1975)

domingo, 5 de novembro de 2006

107 - Dia de anos










Dia de Anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na Quinta-Feira
Vinte e seis anos! Que tolo!
Ainda se os desfizesse...
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado...
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo? Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que em suma
Não fazer coisa nenhuma,
Também lhe não aconselho.

Mas anos, não caia nessa.
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua.
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!
João de Deus

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

106 - As horas



















UM TEMPO QUE PASSOU
Chico Buarque (Brazil) - 1983

Vou
Uma vez mais
Correr atrás
De todo o meu tempo perdido
Quem sabe, está guardado
Num relógio escondido por quem
Nem avalia o tempo que tem

Ou
Alguém o achou
Examinou
Julgou um tempo sem sentido
Quem sabe, foi usado
E está arrependido o ladrão
Que andou vivendo com o meu quinhão
Ou dorme num arquivo
Um pedaço de vida, vida
A vida que eu não gozei
Eu não respirei
Eu não existia
Mas eu estava vivo
Vivo, vivo
O tempo escorreu
O tempo era meu
E apenas queria
Haver de volta
Cada minuto que passou sem mim

Sim
Encontro enfim
Iguais a mim
Outras pessoas aturdidas
Descubro que são muitas
As horas dessas vidas que estão
Talvez postas em leilão

São
Mais de um milhão
Uma legião
Um carrilhão de horas vivas
Quem sabe, dobram juntas
As dores coletivas, quiçá
No canto mais pungente que há

Ou dançam numa torre
As nossas sobrevidas
Vidas, vidas
A se encantar
A se combinar
Em vidas futuras
E vão tomando porres
Porres, porres
Morrem de rir
Mas morrem de rir
Naquelas alturas
Pois sabem que não volta jamais
Um tempo que passou

105 - tudo passa! ficam as memórias das coisas boas

1Tudo tem a sua ocasião própria, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.
2Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou;
3tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar;
4tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar;
5tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de abster-se de abraçar;
6tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora;
7tempo de rasgar, e tempo de coser; tempo de estar calado, e tempo de falar;
8tempo de amar, e tempo de odiar; tempo de guerra, e tempo de paz.


Eclesiastes III

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

104 - 150 anos dos Caminhos de ferro em Portugal II
















No comboio descendente
Vinha tudo à gargalhada.
Uns por verem rir os outros
E outros sem ser por nada
No comboio descendente
De Queluz à Cruz Quebrada...

No comboio descendente
Vinham todos à janela
Uns calados para os outros
E outros a dar-lhes trela
No comboio descendente
De Cruz Quebrada a Palmela...

No comboio descendente
Mas que grande reinação!
Uns dormnindo, outros com sono,
E outros nem sim nem não
No comboio descendente
De Palmela a Portimão

domingo, 29 de outubro de 2006

103 - 150 anos dos Caminhos de ferro em Portugal
















Eu comemorei!


Trem de ferro
Manuel Bandeira


Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virgem Maria que foi isto maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão

Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô..
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pato
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficia
Ôo...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
Ôo...
Vou mimbora voou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Ôo...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

102 - O meu país

As Amoras


Eugénio de Andrade, poeta meu ("O Outro Nome da Terra")


















O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

101 - Dia Internacional das Bibliotecas Escolares

Pois é. Hoje comemora-se o Dia Internacional das Bibliotecas Escolares. Eis como eu vejo uma. Não é muito original eu sei, mas como diz a canção: "eu já tentei pintar o céu de azul, mas foi então que descobri que azul já ele era..."















Liberdade


Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

domingo, 22 de outubro de 2006

100 -Nuns dias do Outono de 2006 - II

...de um rio que tudo arrasta, se diz que é violento,

mas não se dizem violentas, as margens que o oprimem! (Bertold Brecht) ...


segunda-feira, 16 de outubro de 2006

98 - A propósito do concurso sobre o "melhor" português















Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mão sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.
Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.

Eu sou português aqui
Obras de José Fanha

Eu voto no povo anónimo que luta diáriamente pelo pão

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

97 - Uma tarde no "Anexo"






















"The Annex is an ideal place to hide in. It may be damp and lopsided, but there's probably not a more comfortable hiding place in all of Amsterdam. No, in all of Holland."
Anne Frank writing in her diary on July 11, 1942.






















Uma viagem virtual ao anexo em http://www.annefrank.org/splashpage.asp

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

96 - Leituras de Setembro

Aproveitando o tempo dos transportes, fiz as seguintes leituras em Setembro:

  • José Cardoso Pires - De profundis, Valsa Lenta. D.Quixote
Livro lido num só jorro, num só dia. Que descrição fabulosa do que é vivenciar um AVC. Impressionante mesmo. Certos estados de alma são parecidos mas, ...
  • Sándor Márai - As velas ardem até ao fim. D. Quixote

De um escritor Hungaro relata a história de uma amizade de criança e de um triângulo amoroso que esperou 41 anos para ter umfim... Vale pelas descrições e pela vivência interior de um homem destruído.

  • James Eduward Alexander - Um esboço de Portugal durante a guerra civil de 1834. Livros horizonte

Uma descrição, nem sempre imparcial, mas interessante e pitoresca de um Inglês que por aqui passou durante essa altura. As descrições de Lisboa são deveras elucidativas de uma época.

Não me interessaram o suficiente e não acabei:

  • Joanne Harris - Danças & Contradanças. Asa

Livro de Verão, com uma sequência de contos, "light", para descontrair e não ter muito que pensar...

  • Filomena Marona Beja - A Duração dos crepúsculos. Dom Quixote

Demasiado confuso, com muito rápida mudança de planos, tornando-se difícil entender a trama, quem narra e o local da acção (Açores, Paris, Lisboa...)

domingo, 8 de outubro de 2006

95 - Homenagem de um convertido




















A um génio
(que espero vir a conhecer cada vez melhor!)

Vincent

Starry
starry night
paint your palette blue and grey

look out on a summer's day
with eyes that know the
darkness in my soul.
Shadows on the hills
sketch the trees and the daffodils

catch the breeze and the winter chills

in colors on the snowy linen land.
And now I understand what you tried to say to me

how you suffered for your sanity
how you tried to set them free.
They would not listen
they did not know how

perhaps they'll listen now.

Starry
starry night
flaming flo'rs that brightly blaze

swirling clouds in violet haze reflect in
Vincent's eyes of China blue.
Colors changing hue
morning fields of amber grain

weathered faces lined in pain
are soothed beneath the artist's
loving hand.
And now I understand what you tried to say to me

how you suffered for your sanity
how you tried to set them free.
perhaps they'll listen now.

For they could not love you
but still your love was true

and when no hope was left in sight on that starry
starry night.
You took your life
as lovers often do;
But I could have told you
Vincent
this world was never
meant for one
as beautiful as you.

Starry
starry night
portraits hung in empty halls

frameless heads on nameless walls
with eyes
that watch the world and can't forget.
Like the stranger that you've met

the ragged men in ragged clothes

the silver thorn of bloddy rose
lie crushed and broken
on the virgin snow.
And now I think I know what you tried to say to me

how you suffered for your sanity

how you tried to set them free.

They would not listen
they're not
list'ning still
perhaps they never will.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

94 - 6 de Outubro- 6ª feira

Retrato de um dia na “estrada” – 6 de Outubro de 2006

“Não sei de imagem que o tempo não destrua
Não sei de ti se atravessas a rua
Vem ter comigo sempre que for preciso
Fala com a voz, fala com choro, fala com riso, diz o que é preciso
Viva quem vive com a cabeça aperrada
Dispara a bala contra o medo apontada
Viva quem luta com a cabeça ao contrário
P'ra ver também um pouco do lado do adversário, do lado contrário”

Pois é! Então não é que o comboio da manhã (Fertagus) estava meio cheio e até havia lugares sentados. Após anos e anos a ouvir dizer que os professores faltam muito e que é “um crime” fazer pontes e que são uma vergonha as faltas dos professores, chego à conclusão que metade do país hoje fez ponte e não caiu “O Carmo e a Trindade” Então os restantes trabalhadores não devem contribuir também para a produtividade e para os 4,3 %. A culpa da maldita crise é só dos professores? Que diabo, Estou perplexo!
E há ainda outra questão engraçada, se hoje não tiver havido uma montanha de faltas, por parte dos alunos, verificar-se-á que os papás mandaram os filhotes à escola e foram curtir a ponte. O que se diria se os professores tivessem feito a ponte! Estariam os desgraçados destes filhotes ao abandono na escola, enquanto os papás foram ao cinema e meteram um dia de férias! Que escândalo!

Pois é! Pois é! O que não vale uma campanha bem montada
É como diz a canção, “o rei vai nú” e não haverá por ai ninguém que o diga

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

93 - eu também não! (apesar de tudo)
















Non! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien
Ni le bien qu'on m'a fait
Ni le mal tout ça m'est bien égal !

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien...
C'est payé, balayé, oublié
Je me fous du passé!

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu
Mes chagrins, mes plaisirs
Je n'ai plus besoin d'eux !

Balayés les amours
Et tous leurs trémolos
Balayés pour toujours
Je repars à zéro ...

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien ...
Ni le bien, qu'on m'a fait
Ni le mal, tout ça m'est bien égal !

Non ! Rien de rien ...
Non ! Je ne regrette rien ...
Car ma vie, car mes joies
Aujourd'hui, ça commence avec toi !

Edith Piaf

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

92 - Só a bailarina é que não tem




















Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga,
tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem
um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente

Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem
um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem,
todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem
Procurando bem
Todo mundo tem...

domingo, 24 de setembro de 2006

91 - Sangue latino II
















Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além da
sífilis, é claro)*
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

* trecho original, vetado pela censura

Chico Buarque/Ruy Guerra 1972-73

90 - sangue latino





Imagem retirada daqui


Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados

Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo

E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos.

Sangue Latino
Ney Mato Grosso

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

89 - essas emoções















Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa, pássaro sem asa, rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia

Mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez

Pra ser teu talvez, pra ser teu talvez

Mas o viajante é talvez covarde
Ou talvez seja tarde pra gritar que arde no maior ardor
A paixão contida, retraída e nua
Correndo na sala ao te ver deitada

Ao te ver calada, ao te ver cansada, ao te ver no ar
Talvez esperando desse viajante
Algo que ele espera também receber
E quebrar as cercas que insistimos tanto em nos defender

Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa, pássaro sem asa, rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia

Mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez

Pra ser teu talvez, pra ser teu talvez

Viajante - Ney Matogrosso

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

sábado, 16 de setembro de 2006

87 - I did it my way -2

Pois é...
No post anterior não referi... e acaba por não fazer sentido.
Soube (recordei) agora que, a 16 de Outubro fará 20 anos que me iniciei nestas coisas do ensino.
Pois, foi por opção que não escrevi que "sou professor", porque sempre me considerei um aprendiz e, sempre achei, que estou a aprender a ser professor.


20 anos...


Muita coisa aconteceu, mas sobretudo, já que me refiro ao facto de querer aprender a ser professor, acho que o fui conseguindo e fui sendo capaz de abandonar o autoritarismo, fruto da minha insegurança, para um saber "levar" os meninos onde queria, fruto de uma descentração de mim próprio.
Acho que dei algumas aulas excelentes no meio de muitas centenas que poderia nem ter leccionado, mas sei-o agora, porque aprendi, que nem tudo o que se passou dentro daquelas quatro paredes era culpa minha e, sei agora que, muitas vezes, o que as crianças que tinha à minha frente queriam e precisavam era de alguém que os ouvisse e lhe desse atenção e não de um professor que lhes ensinasse as matérias. Também fui vítima de alguns que, chateados com a vida, se "vingavam" no adulto que tinham à sua frente e que, na altura era eu, como poderia ter sido outro qualquer.


Como diz a canção:


"andar, nesta estrada
por caminhos incertos
tão longe e tao perto
do que eu quero ser


cantar uma balada
de sonhos despertos
e bracos abertos
para te conhecer


estou a aprender a ser feliz
aquilo que eu vou ser ninguém me diz
a guitarra que só toca por amor
nao acalma o desejo nem a dor."

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

86 - I did it my way


And now, the end is near;
And so I face the final curtain.
My friend, I’ll say it clear,
I’ll state my case, of which I’m certain.

I’ve lived a life that’s full.
I’ve traveled each and ev’ry highway;
And more, much more than this,
I did it my way.

Regrets, I’ve had a few;
But then again, too few to mention.
I did what I had to do
And saw it through without exemption.

I planned each charted course;
Each careful step along the byway,
But more, much more than this,
I did it my way.

Yes, there were times, I’m sure you knew
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up and spit it out.
I faced it all and I stood tall;
And did it my way.

I’ve loved, I’ve laughed and cried.
I’ve had my fill; my share of losing.
And now, as tears subside,
I find it all so amusing.

To think I did all that;
And may I say - not in a shy way,
No, oh no not me,
I did it my way.

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things he truly feels;
And not the words of one who kneels.
The record shows I took the blows
And did it my way!

Frank Sinatra

sábado, 9 de setembro de 2006

85 - Vais fazer uma pintura

Jura que não vais ter uma aventura
Dessas que acontecem numa altura
E depois se desvanecem
Sem lembrança boa ou má
E por isso mesmo se esquecem

Jura que se tiveres uma aventura
Vais contar uma mentira
Com cuidado e com ternura
Vais fazer uma pintura
Com uma tinta qualquer
Que o ciúme é queimadura
Que faz o coração sofrer

Jura que não vais ter uma aventura
Porque eu hei-de estar sempre à altura
De saber
Que a solidão é dura
E o amor é uma fervura
Que a saudade não segura
E a razão não serena
Mas jura que se tiver de ser
Ao menos que valha a pena
Carlos Tê -Jura

terça-feira, 5 de setembro de 2006

84 - Quem sabe faz a hora!

Hoje só me apetece isto. Chega perfeitamente
E diz TUDO

Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

domingo, 3 de setembro de 2006

83 - o teu olhar

De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece, sabe o que?
Táubua de tiro ao álvaro, não tem mais onde furar

Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais
Que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver


Tiro ao Álvaro
(Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles)
Cantado por Elis Regina

sábado, 2 de setembro de 2006

82 - Porque sou o que chega e conta mentiras que te fazem feliz





















Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras

Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe

Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a América roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua

Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz

Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau

de Carlos Tê e Rui Veloso

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

81 - Ah, l'été...


















L'ÉTÉ INDIEN
Joe Dassin

Tu sais, je n'ai jamais été aussi heureux que ce matin-là
Nous marchions sur une plage un peu comme celle-ci
C'était l'automne, un automne où il faisait beau
Une saison qui n'existe que dans le nord de l'Amérique
Là-bas, on l'appelle l'été indien mais c'était tout simplement le nôtre
Avec ta robe longue tu ressemblais à une aquarelle de Marie Laurencin
Et je me souviens, je me souviens très bien de ce que je t'ai dit ce matin-là
Il y a un an, y a un siècle, y a une éternité

On ira où tu voudras, quand tu voudras
Et on s'aimera encore lorsque l'amour sera mort
Toute la vie sera pareille à ce matin
Aux couleurs de l'été indien

Aujourd'hui, je suis très loin de ce matin d'automne mais c'est comme si j'y étais
Je pense à toi - où es-tu, que fais-tu, est-ce que j'existe encore pour toi?
Je regarde cette vague qui n'atteindra jamais la dune
Tu vois, comme elle je reviens en arrière
Comme elle je me couche sur le sable et je me souviens
Je me souviens des marées hautes, du soleil et du bonheur qui passaient sur la mer
Il y a une éternité, un siècle, il y a un an

terça-feira, 29 de agosto de 2006

80 - Leituras de Verão

Como é habitual no Verão pude dedicar-me a pôr em ordem as minhas leituras. Aqui ficam elas:
  • Diogo Freitas do Amaral - D. Afonso Henriques, Biografia. Bertrand Editora

Foi um livro de fácil leitura pois está escrito de modo a que "leigos" o possam entender. Foi uma descoberta em relação ao Freitas do Amaral.

  • Rosa Montero - Historia del Rey Transparente. Alfaguara

Está escrito em Espanhol e dele não conheço tradução em Português. Livro lindíssimo que retrata a condição humana situando a narrativa em plena idade média. Foi uma aprendizagem de muitos factos da Idade média e o colocar-se na pele da personagem central da história vivendo os seus dramas interiores e a sua aprendizagem de vida.

  • Umberto Eco - A Ilha do dia antes. Difel

Não consegui acabar de ler apesar de ter um enredo original, apresentando um naufrago isolado num barco abandonado. As referências à história da Itália e França na Idade Média, tornaram a leitura apenas acessível a "experts".

  • Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada - História de Portugal. Caminho

Livros extraordinários que contam a história de portugal de uma maneira fácil e acessível, relatando os acontecimentos e adicionando-lhe dados pitorescos desconhecidos do grande público.

Ah! e ainda houve tempo para preparar a minha tese lendo

  • Judith Bell - Como realizar um projecto de investigação. Gradiva

e

  • Robert K. Yin - Estudo de caso Planejamento e Métodos. Bookman

E não deu para mais. Quando chegarão as próximas férias?

79 - Dans le port d'Amsterdan

















Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui chantent
Les rêves qui les hantent
Au large d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dorment
Comme des oriflammes
Le long des berges mornes
Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui meurent
Pleins de bière et de drames
Aux premières lueurs
Mais dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui naissent
Dans la chaleur épaisse
Des langueurs océanes

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui mangent
Sur des nappes trop blanches
Des poissons ruisselants
Ils vous montrent des dents
A croquer la fortune
A décroisser la lune
A bouffer des haubans
Et ça sent la morue
Jusque dans le cœur des frites
Que leurs grosses mains invitent
A revenir en plus
Puis se lèvent en riant
Dans un bruit de tempête
Referment leur braguette
Et sortent en rotant

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui dansent
En se frottant la panse
Sur la panse des femmes
Et ils tournent et ils dansent
Comme des soleils crachés
Dans le son déchiré
D'un accordéon rance
Ils se tordent le cou
Pour mieux s'entendre rire
Jusqu'à ce que tout à coup
L'accordéon expire
Alors le geste grave
Alors le regard fier
Ils ramènent leur batave
Jusqu'en pleine lumière

Dans le port d'Amsterdam
Y a des marins qui boivent
Et qui boivent et reboivent
Et qui reboivent encore
Ils boivent à la santé
Des putains d'Amsterdam
De Hambourg ou d'ailleurs
Enfin ils boivent aux dames
Qui leur donnent leur joli corps
Qui leur donnent leur vertu
Pour une pièce en or
Et quand ils ont bien bu
Se plantent le nez au ciel
Se mouchent dans les étoiles
Et ils pissent comme je pleure
Sur les femmes infidèles
Dans le port d'Amsterdam
Dans le port d'Amsterdam.

Jacques Brel

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

78 - O meu/teu lado lunar

Pois é... quem a ele tiver acesso é que nos conhece mesmo!














Não me mostres o teu lado feliz
A luz do teu rosto quando sorris
Faz-me crer que tudo em ti é risonho
Como se viesses do fundo de um sonho

Não me abras assim o teu mundo
O teu lado solar só dura um segundo
Não e por ele que te quero amar
Embora seja ele que me esteja a enganar

Toda a alma tem uma face negra
Nem eu nem tu fugimos à regra
Tiremos à expressão todo o dramatismo
Por ser para ti eu uso um eufemismo
Chamemos-lhe apenas o lado lunar
Mostra-me o teu lado lunar

Desvenda-me o teu lado malsão
O túnel secreto a loja de horrores
A arca escondida debaixo do chão
Com poeira de sonhos e runas de amores

Eu hei-de te amar por esse lado escuro
Com lados felizes eu já não me iludo
Se resistir à treva é um amor seguro
à prova de bala à prova de tudo

Mostra-me o avesso da tua alma
Conhecê-lo e tudo o que eu preciso
Para poder gostar mais dessa luz falsa
Que ilumina as arcadas do teu sorriso

Não é bem por ela que te quero amar
Embora seja ela que me vai enganar
Se mostrares agora o teu lado lunar
Mesmo às escuras eu não vou reclamar

Carlos Tê (o teu lado lunar)

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

77 - Problema de expressão 2

















A ilha

Carlos Tê

Fiz-me ao mar com lua cheia
a esse mar de ruas e cafés
com vagas de olhos a rolar
que nem me viam no convés
tão cegas no seu vogar
e assim fui na monção
perdido na imensidão
deparei com uma ilha
uma pequena maravilha
meia submersa
resistindo à toada
deu-me dois dedos de conversa
já cheia de andar calada

tinha um olhar acanhado
e uma blusa azul-grená
com o botão desapertado
e por dentro tão ousado
um peito sem soutien
ancoramos num rochedo
sacudimos o sal e o medo
falamos de musica e cinema
lia Fernando Pessoa
e às vezes também fazia um poema

e no cabelo vi-lhe conchas
e na boca uma pérola a brilhar
despiu o olhar de defesa
pôs-me o mapa sobre a mesa
deu-me conta dessas ilhas
arquipélagos ao luar
com os areais estendidos
contra a cegueira do mar
esperando veleiros perdidos