quinta-feira, 19 de julho de 2018

1876 (do prazer de viver) - É de manhã

É de Manhã
Caetano Veloso



É de manhã
É de madrugada
É de manhã
Não sei mais de nada
É de manhã
Vou ver meu amor

É de manhã
Vou ver minha amada
É de manhã
Flor da madrugada
É de manhã
Vou ver minha flor

Vou pela estrada
E cada estrela
É uma flor
Mas a flor amada
É mais que a madrugada
E foi por ela
Que o galo cocorocô
Que o galo cocorocõ

quarta-feira, 18 de julho de 2018

1875 (da condição humana) - Arte poética

« A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.

A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã. »


in Mário Dionísio, Poesia Completa
colação PLURAL, Imprensa Nacional-Casa da Moeda 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

1874 (da condição humana) - Cais

Para quem quer se soltar
Invento o cais
Invento mais que a solidão me dá
Invento lua nova a clarear
Invento o amor
E sei a dor de me lançar
Eu queria ser feliz
Invento o mar
Invento em mim o sonhador
Para quem quer me seguir
Eu quero mais
Tenho o caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir
Invento o cais
E sei a vez de me lançar
Compositores: Milton Nascimento / Ronaldo Bastos

terça-feira, 24 de abril de 2018

1871 (da indignação) - A sala de espetáculos


A sala de espectáculos não fica em nossa casa

CRÓNICA 1 de Abril de 2018, por 

Quando os vejo entrar na sala com baldes de duas toneladas de pipocas, lembro-me sempre dos pais de Chihiro que comem, comem, comem até se transformarem em porcos gigantes


Desde que as pipocas entraram nas salas de cinema que evitamos essas mesmas salas, mas nem sempre é fácil fazê-lo. Nem todas as salas sem pipocas são confortáveis ou passam os filmes que queremos ver e, lá vamos nós, ao cinema das pipocas.


Quando os vejo entrar na sala com baldes de duas toneladas de pipocas, numa mão, e dez litros de refrigerante, na outra, lembro-me sempre dos pais de Chihiro quando se sentam ao balcão do restaurante e comem, comem, comem até se transformarem em porcos gigantes. Confesso que desejo que o mesmo aconteça a todos os que, no momento de maior suspense do filme, escarafuncham o fundo do balde à procura das últimas pipocas e as enfiam todas na boca, mastigando-as furiosamente. Imagino os créditos a passar, as luzes a acenderem-se suavemente e ver a sala cheia de suínos, confusos, sem saberem onde estão, à procura da pocilga.
As pipocas já fazem parte do espectáculo, mas há outras tendências que me espantam, por exemplo, comentar o filme alto, informando todo o auditório do que se passará a seguir, trautear a música ao mesmo tempo que passa no ecrã, rir desbragadamente com comentários despropositados à mistura. Não, não fui ver um filme para adolescentes com adolescentes. No final, quando as luzes se acendem procuro a personagem que partilhava as suas palavras e emoções com todos nós, era um professor do secundário da escola ali no bairro, identifiquei. A indisciplina na sala de aula fá-lo comportar-se como os garotos, conjecturo.
Comentários durante um concerto de Bach também me espantam, sobretudo durante os solos, quando o sofrimento está no auge. “Cristo está a morrer e vocês a pôr a conversa em dia, o que se passa convosco?”, apetece-me gritar enquanto me imagino a virar-me para trás para repreender os dois amigos que não se coíbem de dar puns, sim, puns, cujo cheiro chega aos lugares da frente.
“Estamos na Gulbenkian!”, continuaria a gritar, virando-me agora para a senhora ao meu lado, com a sua mala e sapatos de alta-costura e que, quando se aborrece com a Paixão segundo S. Mateus liga o telemóvel e lê. “Pode baixar a intensidade da luz”, ouço-me a murmurar, num momento em que o coro canta mais alto, como se o comportamento fosse perfeitamente normal numa sala de concertos, como se não me estivesse realmente a incomodar, tal como me incomoda a menina que tosse ininterruptamente e a mãe considera que não tem de sair da sala porque a filha está, de certeza, a fazer de propósito. E todos nós, incluindo a orquestra e o coro, têm de levar com a lição que a mãe entende ser aquela a melhor altura para dar.

A senhora do telemóvel fecha-o, começa a agitar-se na cadeira, também está incomodada. Do outro lado do corredor ouvem-se suspiros – não é pelo Senhor que ouve insultos dos que não acreditam que é Filho de Deus, mas por toda aquela situação. Baixo-me e tento abrir a mala sem fazer barulho para procurar uma caneta e, na parte detrás do aviso que o maestro adoeceu e foi substituído, escrever: “Não é melhor sair?” Mas, entretanto, a mãe agarra na miúda de seis ou sete anos, que assim que atravessa a porta, miraculosamente, deixa de tossir. Para trás ficaram os dois irmãos mais velhos que dormem o sono dos justos enquanto Pedro nega Jesus três vezes. “Bem cara fica a sesta”, um adulto e três crianças perfazem 75 euros. “Isto não é o Quebra-Nozes, é Bach e o Senhor morre pelos nossos pecados... em alemão! A esta hora os meninos já deviam estar de dentes lavados e prontos para ir para a cama”, imagino-me a dizer, num tom catequético àquela mãe.
A democracia chegou e bem, com ela a escolarização e o acesso à cultura, melhor ainda, mas a educação não sei bem onde ficou porque, agora que escrevo, lembro-me que a última vez que fui ao Teatro D. Maria II também havia ecrãs de telemóveis a brilhar no escuro e um dos aparelhos chegou a tocar, era o da mãe de umas actrizes que estava em palco. Sei-o porque a senhora o disse várias vezes, orgulhosa, antes de entrar e ocupar o lugar central da primeira fila da sala Estúdio.
Vamos ao cinema, ao teatro, à ópera e é como se não tivéssemos saído da sala de nossa casa, só falta pôr as pantufas e vestir o robe porque a comida e a bebida, os comentários, o telefone, a tosse e até o alívio dos intestinos já lá estão, lá, onde não deviam ter entrado.

segunda-feira, 26 de março de 2018

1870 (do amor) . Intercidades

INTERCIDADES
 
galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor
 
preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre os carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos
 
preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as 
pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro
 
preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos
 
meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre as velas acesas
 
barcos.

Margarida Vale de Gato, in Mulher ao Mar, ed. Mariposa Azual