quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

O principezinho - livro carroussel




















Esta foi uma (das) oferta(s) de Natal que escolhi para mim mesmo. Trata-se de um livro que tens 6 cenas de "o principezinho" que são apresentadas como se fizessem parte de um teatro de sombras, pois pode-se pôr uma vela (ou uma luz) por dentro do livro. O efeito é magnífico e o efeito é bem mais explícito e feliz que a da foto... (há uns acetatos e uns relevos que dão a cada cena um aspecto magnífico)

(posts correlacionados - o principezinho a três dimensões e o principezinho em versão pop-up)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

O Meu Livro de Política



O Meu Livro de Política é um livro da autoria de Jorge Sampaio e é o primeiro título de uma nova colecção de livros publicada pela Texto Editores, cujo objectivo é esclarecer alguns conceitos que ajudarão os mais novos a compreender melhor a vida em sociedade, a despertar um público juvenil para os valores da cidadania.

Sentei-me no sofá e sem dar por isso li o livro de Jorge Sampaio, escrito num tom autobigráfico e tão esclarecedor, pois estamos perante um tema que nem sempre é fácil explicar aos mais jovens.

Jorge Sampaio, no papel de narrador, recua até 1948 para contar como ele próprio despertou para a política e as conversas que teve na altura com a avó e o pai. Ao longo da narrativa diferencia uma democracia de um regime autoritário,e ainda explica como está organizada a Constituição da República - o livro inclui um esquema da Constituição Portuguesa que Sampaio “passou” como trabalho de casa à sua filha Vera.
A não perder! e uma sugestão para as nossas Bibliotecas Escolares.

Quando os livros ganham vida

Apesar de estar em Inglês, penso que era impossível deixar de partilhar este maravilhoso filme que mostra como o vídeo e a animação podem ser excelentes aliados na animação da Leitura.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Selma

Graças à Júlia M. conheci a Selma, escrita em Espanhol, em Maio deste ano


Selma, de Jutta Bauer

Como seguía sin encontrar la respuesta a mi pregunta, me fui en busca del Gran Carnero... ¿Qué es la felicidad?

Para que lo entiendas, te contaré la historia de Selma...

Érase una vez una oveja...

... que todas las mañanas, al amanecer, comía un poco de hierba...

...luego, enseñaba a hablar a sus hijos hasta el mediodía...

... por las tardes, hacía un poco de gimnasia...

... después, volvía a comer hierba...

... al anochcer, charlaba un rato con la señora Buitráguez...

... y por las noches, se quedaba plácida y profundamente dormida.



Un día le preguntaron, qué haría si tuviera más tiempo. Ella contestó:

Al amanecer, comería un poco de hierba...
... hablaría con los niños, por ejemplo... ¡al mediodía!
Después haría un poco de gimnasia...
... comería...
... al anochecer, me gustaría charlar un rato con la señora Buitráguez,...
... y lo
más importante de todo: por las noches dormiría plácida y profundamente.

Y si le tocara la lotería?

Pues...
Al amanecer, comería mucha hierba...
preferiblemente, al amanecer...
... hablaría largo y tendido con los niños...
...después haría un poco de gimnasia...
... por la tarde, volveria a comer hierba...
... y al anochecer, me gustaría poder charlar con la señora Buitráguez.
Por la noches, muerta de cansancio, caeria en um sueno
muy, muy profundo...
y placido también, por supuesto!

Entretanto a Selma já existe em Português e a partir de hoje também pode ser lida e ouvida aqui:

http://static.publico.clix.pt/fotogalerias/letrapequena/selma.aspx

Fabuloso

domingo, 20 de dezembro de 2009

Ondjaki - Os da minha rua



Esta foi uma leitura minha deste verão. O livro é um conjunto de pequenas histórias que relatam a infância do autor numa rua de Luanda lá pelos idos anos 70/80 do século passado.
Ao longo destas histórias, vamos conhecendo personagens tipo que poderiam (foram decerto) ter sido também nossos companheiros de infância.

A beleza do livro está na simplicidade com que o autor nos conta as suas histórias e num retorno que cada um de nós pode fazer aos seus tempos de uma infância inocente e tempos de escola.

Subtilmente, o autor também nos relata a vida em Luando nessa altura, dando-nos a conhecer a sociedade, tudo aos olhos de uma criança (a presença dos soviéticos, as tradições, as famosas telenovelas brasileiras e a televisão, os hábitos e modo de vida de uma família de rendimento suficiente, etc.).

É um livro simples mas extraordinariamente belo.

---
Dedico a história abaixo (retirada do livro) ao meu avô João que, parecendo duro e tendo todo um passado de muito trabalho e sofrimento para ganhar a vida como operário, recebia do afecto, brincadeiras e inocência dos seus netos a energia e recompensa de tanto esforço feito ao longo de toda uma vida.

Lembro-me bem de como ele "amolecia" perto de nós...

O Kazukuta
Ondjaki


Nós estávamos sempre atentos à queda das nêsperas, das pitangas e das goiabas, e era mesmo por gritarmos ou por corrermos que o Kazukuta acordava assim no modo lento de vir nos espreitar, saía da casota dele a ver se alguma fruta ia sobrar para a fome dele.
Normalmente ele comia as nêsperas meio cansadas ou de pele já escura que ninguém apanhava. Mexia-se sempre devagarinho, e bocejava, e era capaz de ir procurar um bocadinho de sol pra lhe acudir as feridas, ou então mesmo buscar regresso na casota dele. Às vezes, mesmo no meio das brincadeiras, meio distraído, e antes de me gritarem com força para eu não estar assim tipo estátua, eu pensava que, se calhar, o Kazukuta naquele olhar dele de ramelas e moscas, às vezes, ele podia estar a pensar. Mesmo se a vida dele era só estar ali na casota meio triste, sair e entrar, tomar banho de mangueira com água fraca, apanhar nêsperas podres e voltar a entrar na casota dele, talvez ele estivesse a pensar nas tristezas da vida dele.
Acho que o Kazukuta era um cão triste porque é assim que me lembro dele. Nós mesmo não lhe ligávamos nenhuma. Ninguém brincava com ele, nem já os mais velhos lhe faziam só uma festinha de vez em quando. Mesmo nós só queríamos que ele saísse do caminho e não nos viesse lamber com a baba dele bem grossa de pingar devagarinho e as feridas quase a nunca sararem. Acho que o Kazukuta nunca apanhou nenhuma vacina, se calhar ele tinha alergia ou medo, não sei, devia perguntar no tio Joaquim. Também o Kazukuta não passeava na rua e cada vez andava só a dormir mais. Sim, o Kazukuta era um cão triste.
Um dia era de tarde, e vi o tio Joaquim dar banho ao Kazukuta. Um banho longo. Fiquei espantado: o tio Joaquim que ficava até tarde a ler na sala, o tio Joaquim que nos puxava as orelhas, o tio Joaquim silencioso, como é que ele podia ficar meia hora a dar banho ao Kazukuta?
Lembro o Kazukuta a adorar aquele banho, deve ser porque era um banho sincero, deve ser porque o tio punha devagarinho frases em kimbundu ao Kazukuta, e ele depois ia adormecer. Kazukuta..., lembro bem os teus olhos doces brilharem tipo um mar de sonho só porque o tio Joaquim - o tio Joaquim silencioso - veio te dar banho de mangueira e te falou palavras tranquilas num kimbundu assim com cheiros da infância dele.
E demorou.
Nós já estávamos quase a parar a nossa brincadeira. Porque afinal a água caía nos pêlos do Kazukuta, e os pêlos ficavam assim coladinhos ao corpo, e virados para baixo como se já fossem muito pesados, e a água foi, não tinha mais, e mesmo sem fechar a torneira o tio Joaquim, com a mangueira ainda a pingar as últimas gotas dela, e no regresso do Kazukuta à casota, depois daquele abano tipo chuvisco de nós rirmos, o Tio Joaquim deu a notícia que tinha demorado aquele tempo todo para dar:
- Meninos, a tia Maria morreu.
Até tive medo, não daquela notícia assim muito séria, mas do que alguém perguntou:
- Mas podemos continuar a brincar só mais um bocadinho?
O tio largou a mangueira, veio nos fazer festinhas.
- Sim, podem.
Parece mesmo vi um sorriso pequenino na boca dele. O tio Joaquim era muito calado e sorria devagarinho como se nunca soubesse nada das horas e das pressas dos outros adultos. Às vezes ele aparecia no quintal sem fazer ruído e espreitava a nossa brincadeira sem corrigir nada. Olhava de longe como se fosse uma criança quieta com inveja de vir brincar connosco também.
O tio Joaquim gostava muito de dar banho ao Kazukuta. Um dia kazukuta estava muito velho e morreu mesmo.

AN AWESOME BOOK


Para ler, basta clicar na imagem...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Espelho do MUndo - Uma nova história da arte























Acabei de receber ainda como prenda de um já longínquo aniversário esta maravilha...

Título: Espelho do mundo - Uma nova história da arte
Autor: Julian Bell
Editora: Orfeu Negro
Tradução: Luís Leitão e Cláudia Brito
Número de páginas: 496
Formato; 20 x 26,5 cm


"Espelho do Mundo é uma história da arte para os leitores do século XXI. Numa visão transversal, que interliga culturas e continentes, Julian Bell apresenta uma nova concepção da história da arte dirigida a um mundo globalizado, uma análise da diversidade das obras de arte e do modo como estas podem relacionar-se entre si ou mesmo enraizar-se umas nas outras e nos respectivos contextos sociais e políticos.

Ele próprio pintor, Julian Bell interpreta a arte do ponto de vista do criador, procurando estabelecer uma afinidade entre o espectador e o artista. O seu propósito é o de incentivar o espectador a, antes de mais, observar a obra de arte e, só depois, equacionar a sua essência e significado. Desafia-nos aqui a olhar a arte enquanto espelho da condição humana."

Só me apetece devorá-lo de um só folego. A pintura e a arte só me começaram a entusiasmar verdadeiramente há cinco anos atrás após a visita ao Museu Van Gogh em Amesterdão.
Desde aí tem sido uma aprendizagem fantástica e um procurar recuperar o tempo perdido.
Felizmente tenho encontrado bons apoios neste caminho...

Para concluir partilho um link de um blogue só sobre ilustração que me parece fantástico - O Silêncio dos livros


Um poema é uma pintura feita com palavras

João P.
Nov 09

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Marcadores de livros



Num blogue sobre prazeres da leitura, não podia faltar uma referência aos marcadores de livros, acessório tão essencial e tão motivadora para a leitura.

(Já tive um conjunto de marcadores que considerava únicos, significativos e com imenso valor afectivo - recordo sobretudo uns que comprei na sinagoga de Praga que eram feitos a partir de desenhos de crianças que passaram pelos campos de concentração. No entanto, o meu mais velho enamorou-se deles e agora tem uma colecção magnífica)

Deixo-vos um texto magnífico do José Fanha que descobri com a Jack


Jack, obrigado pela partilha


Aos meus amigos marcadores (texto de José Fanha)

"Ler inclui um vasto conjunto de práticas que variam de época para época, de local para local, de pessoa para pessoa.

Cada um lê de uma maneira própria...
No meio da sala, num cantinho escondido, numa mesa de café, no autocarro, na biblioteca, na cama.
Mas também...
Junto à lareira no Inverno, no meio da verdura inebriante de um jardim na Primavera, no fresco da brisa nocturna no Verão.
Ou ainda...
De pé, sentado, de pernas para o ar, deitado.
Porventura...
De dia, de tarde, de noite.
Por vezes...
A tomar chá ou café, a beber uma cerveja, a comer amendoins.
Eventualmente...
Vestido de fato e gravata, de fato de treino, de calções, de pijama.
Alguns...
Com um lápis roído na mão ou a torcer e retrocer uma ponta de cabelo.

Todos nós temos os nossos rituais de leitura e os nossos auxiliares. De entre os muitos auxiliares de leitura possíveis gosto de nomear o marcador.

Há quem o use apenas para cumprir uma função: marcar a página em que se parou a leitura sem ter que a dobrar ou danificar.

Mas o marcador trás consigo uma mensagem . É colorido ou sombrio. Reproduz uma obra de arte. Traz um desenho. Fala por vezes de outro livro.

O marcador é um amigo, uma espécie de mediador entre nós, o livro que lemos e o próprio acto de leitura. O marcador acaba por falar connosco acrescentando um "ruído" de fundo aquele maravilhoso acto de ler em solidão.

Adoro marcadores. São amigos que não dispenso neste vício bom que é ler. Como quem escolhe uma gravata que fique bem com uma determinada camisa, ou uma camisa que fique bem com um determinado fato, escolho cuidadosamente para cada livro que vou ler, o marcador que "lhe vai bem".

Tenho a certeza de que o mundo fica mais feliz quando procuramos equilíbrio entre as coisas. Por isso, a escolha de uma coisa tão simples como um marcador não pode ser um acto arbitrário mas uma atitude estética e ética como, no fundo, são todas as escolhas."

José Fanha

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

primeiras leituras

















Ainda na onda do post: Thiago de Mello lembrei-me de um outro texto de que ainda me lembro

A Idade dos Porquês

Professor, diz-me porquê?
Porque voa o papagaio que solto no ar
que vejo voar tão alto no vento
que o meu pensamento não pode alcançar?
Professor, diz-me porquê?
Porque roda o meu pião
ele não tem nenhuma roda
e roda, gira, rodopia, e cai morto no chão.
Tenho nove anos, professor
e há tanto mistério à minha volta
que eu queria desvendar…
porque é que o céu é azul?
Porque é que marulha o mar? Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber
e tu que não me queres responder!
Tu falas, falas, professor,
daquilo que te interessa
e que a mim não me interessa
tu obrigas-me a ouvir, quando eu quero falar
tu obrigas-me a dizer, quando eu quero escutar
se eu vou a descobrir, fazes-me decorar
é a luta, professor,
a luta, em vez do amor.
Eu sou uma criança
Tu és mais forte, mais alto, mais poderoso
E a minha lança quebra-se de encontro à tua muralha.
Mas enquanto a tua voz zangada ralha, tu sabes, professor,
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada e finjo,
finjo que não penso em nada
mas penso, penso em como era engraçada
aquela rã que de manhã ouvi coaxar
que graça tinha aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar
e quando tu depois vens definir
o que são conjunções e proposições
quando me fazes repetir que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas, tantas mais definições,
o meu coração, o meu coração,
que não sei como é feito, nem quero saber
cresce, cresce, dentro do peito,
a querer saltar cá para fora, professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias mais belos os dias.

Alice Gomes

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Memórias de um leitor... (Diário de Anne Frank)














































Desta vez, e na sequência do post Thiago de Mello, venho "falar" do Diário de Anne Frank.

Este livro foi-me apresentado por uma professora de Língua Portuguesa quando eu andava no que agora é o 5ºano de escolaridade.

pausa para referir que, infelizmente, não sou como alguns que guardam gratas memórias dos seus tempos de escola, que tiveram professores espectaculares e ainda hoje se lembram do seu nome.
Eu tive apenas 3 ou 4 professores no 2º 3º Ciclos e secundário que achei fora do usual...)

Esta professora acompanhou-me no 5º e 6º ano na transição do antes para depois do 25 de Abril (73/74 e 74/75)
Não me lembro do seu nome, nem me recordo de grande relação afectiva. No entanto vejo agora que gostava ela de ler e gostava de nos passar esse gosto. Penso que sou hoje leitor o devo a ela...

Ela leu-nos e fez-nos ler muitos livros: Em busca do pólo Sul - Com a história do Capitão Scott e do Norueguês Admusen , As aventuras de João Sem Medo de José Gomes Ferreira, ... , punha-nos a declamar poesia: com o País de Marinheiros de António Nobre também declamado pelo João Villaret (para tal levava um gira discos para a aula). Organizou uma biblioteca de Turma (lembro-me dos livros da Fruto Real: Tom Sawyer, Marco...) em que, no final, ganhei autografado por ela o livro "O sol e o menino dos pés frios" de Matilde Rosa Araújo...
Também nos quis fazer ler "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma" de Irene Lisboa, ...

E, claro, O Diário de Anne Frank

Durante varias aulas leu-nos excertos do diário que todos ouvíamos com imensa atenção.

"20 de Junho de 1942
Escrever um diário é uma experiência realmente estranha para alguém como eu. Não somente porque nunca escrevi nada antes, mas também porque acho que ninguém se interessará, nem mesmo eu, pelos pensamentos de uma garota de treze anos. Bom, não importa. Tenho vontade de escrever, e tenho uma necessidade ainda maior de tirar todo tipo de coisa do meu peito.

'O papel tem mais paciência que as pessoas'. Pensei nesse ditado num daqueles dias em que me sentia meio deprimida e estava em casa, sentada com o queixo apoiado nas mãos, chateada e inquieta, pensando se ficaria ou sairia. Finalmente fiquei onde estava matutando. É, o papel tem mais paciência, e como não estou planeando deixar que ninguém mais leia esse caderno de capa dura que geralmente chamamos de diário, a não ser que algum dia encontre um verdadeiro amigo, isso provavelmente não vai fazer a menor diferença."

Logo na altura este livro me marcou e, reflectindo agora, vejo que se tornou um dos livros da minha vida, pois ficou logo na minha memória. Comprei-o não muito tempo depois e foi lido durante a adolescência e na juventude (18/19/20 (?) anos). Descobri sempre novas leituras nessa mesma leitura. A última vez que o li foi após a visita à casa de Anne Frank, em Amesterdão, há três anos atrás (fotos de cima).

Devia ser obrigatório que os professores lessem para os seus alunos livros. Podiam ser de qualquer tipo desde que o fizessem com entusiasmo e amor e explicassem aos alunos os porquês: de gostar dele e de uma ou outra palavra difícil que mesmo em contexto não se consegue perceber o significado.

Ah, nunca mais me esqueci da lição e ganhei o hábito de ler para os meus alunos (apesar de não leccionar Língua Portuguesa).

"Quarta-feira, 15 de Março de 1944

Querida Kitty:
Todo o santo dia ouço : se acontecer isto ou aquilo teremos as maiores dificuldades... e se aquela rapariga ficar doente, já não temos mais ninguém no Mundo... e se...
Já sabes a lenga-lenga. Pelo menos já deves conhecer bastante esta gente do anexo para poderes adivinhar o que andam a dizer.
A causa desses "se, se..." é a seguinte: o sr. Kraler foi convocado para um "campo de trabalho", a Elli está terrivelmente constipada, a Miep ainda se não levantou
da gripe e o sr. Koophuis teve outra vez uma hemorragia e desmaiou! Um chorrilho de desgraças.
O pessoal do armazém tem feriado amanhã. Se a Elli tiver de ficar em casa, a porta ficará fechada e temos de fazer muito pouco ruído para que os vizinhos não desconfiem.
O Henk deve vir à uma hora para olhar pelos "abandonados" e para representar o papel de guarda de jardim zoológico. Hoje, à hora do almoço, contou-nos, pela primeira vez desde há bastante tempo, coisas do grande mundo lá de fora. Devias ter visto como o ouvimos todos com o máximo interesse. Há um quadro que se chama "Avozinha conta histórias". O nosso grupo deve ter tido o mesmo aspecto. Falou, falou, com muitos pormenores e pormenorinhos, e não se esqueceu de contar-nos coisas sobre comidas e do médico da Miep por quem perguntámos.
-Médico? Não me falem desse médico! Hoje de manhã telefonei-lhe, mas só consegui que um assistentezinho viesse ao telefone. Pedi-lhe uma receita contra a gripe. Disse-me
que, entre as oito e as nove, podia ir buscá-la. Quando se trata de uma gripe mais grave, suponho que o médico vem pessoalmente ao telefone para dizer:
"Mostre a língua...
diga aaahhh... sim, senhor, ouço bem, tem a garganta inflamada. Vou transmitir a receita à farmácia. Depois pode ir lá buscar o remédio. Bom dia!" Lindo serviço, não
há dúvida. Consultas exclusivamente pelo telefone!
Mas podemos acusar os médicos? Ao fim e ao cabo cada pessoa só tem duas mãos e, infelizmente, existem agora muitos doentes e muito poucos médicos. Mas não pudemos deixar de nos rir, quando o FIenk representou aquela conversa ao telefone. Imagino como é diferente, agora, a sala de espera de um médico. Decerto já não desprezam só os doentes da "caixa", como era costume. Agora devem desprezar-se as pessoas que não sofrem de nada a sério mas que gostam de se queixar. Provavelmente falam-lhes assim:
-Que é que queres? Vai para o fim da bicha, que temos agora de tratar primeiro os autênticos doentes.
Tua Anne"


---

Todos conhecem a historia profundamente dramática da jovem Anne Frank. Publicado pela primeira vez em 1947, pela iniciativa do seu pai, o Diário veio revelar ao mundo o fora, durante dois longos anos, o dia-a-dia de uma adolescente condenada a um voluntária auto-reclusão, para tentar escapar á sorte dos judeus que os alemães haviam começado a deportar para supostos "campos de trabalho".
Tentativa sem final feliz. Em Agosto de 1994, todos aqueles que estavam escondidos no pequeno anexo secreto onde a jovem habitava foram presos. Após uma breve passagem po Westerbork e Auschwitz, Anne Frank acaba então por ir parar a Bergen-Belsen, onde vem a morrer em Março de 1945, a escassos dois meses do final da guerra na Europa.

Pensamentos do homem moderno

Retirado daqui

(clique para aumentar)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

976 - Sonata de Outono




É verdade que as coisas ganham outro sentido quando são partilhadas.
É verdade que valorizo muito o olhos nos olhos e a partilha
É verdade que fiquei a conhecer um pouco melhor o Ary

Obrigado Ary, Obrigado Maria


SONATA DE OUTONO (escrito dois dias antes da sua morte)

Inverno não é 'inda mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Poeta distraído, cão sem dono
Até na própria cama em que me deito

Inverno não é 'inda mas Outono
Na sonata que bate no meu peito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Mesmo eu de mim próprio me abandono
Se o rigor que me devo não respeito
Acordar é a forma de ter sono
No presente e no pretérito imperfeito

Morro de pé
Mas morro devagar
A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

Não me deixo ficar
Não pode ser
Peço meças ao Sol, ao céu, ao mar
Pois viver é também acontecer

A vida é afinal o meu lugar
E só acaba quando eu quiser

José Carlos Ary Dos Santos

domingo, 6 de dezembro de 2009

Querem ver estrelas?


Descobri esta e estou fascinada! (Conheço outros textos do autor e recomendo.)

Uma pérola com potencial para convencer mesmo alguns adolescentes mais arredados da poesia...


Partilho.


P.S. Deixem brilhar as vossas estrelas!


Mizaar


Há dentro de ti uma estrela

Porque não a deixas brilhar?

Não receies cegar os outros

nem que estes te possam cegar


Há dentro de ti uma estrela

Mesmo que a luz seja fria

brilha tanto como as outras

e brilha de noite e de dia


Jorge Sousa Braga


975 - Funeral de Victor Jara (36 anos depois)



Declaração de intenções:
a) Não sou militante do PCP (nem de outro partido). No entanto, revejo-me com sendo de esquerda.
b) Estou cada vez mais farto de PS, PSD; PS, PSD, ... e das suas trafulhices
c) Não nego que nos anos 50, 60, 70 do século passado houve exageros dos dois lados do "muro"

Motivo do post:
Hoje, passados 36 anos de ter sido assassinado numa praça de touros chilena pelo exército de Pinochet, Vitor Jara teve direito ao seu funeral!

Como escreveu alguém do Chile:

"Yo creo que Victor debe estar mirando desde el cielo como la mayoria de Chile lo despide en un añorado y merecido funeral, como muchos copatriotas viajan desde pueblos y ciudades para darle su despedida, esto demustra que los chilenos no olvidamos nada y que queremos la verdad y la justicia y tambn seguimos luchando por una sociedad mas justa"

Descansa em paz amigo Victor Jara. A tua música e a tua luta foi e continua a ser inspiradora de um mundo mais justo e fraterno!
A prepotência de um exército não é mais forte que a força da razão de um povo

sábado, 5 de dezembro de 2009

974 - Três cantos



Saíu hoje o CD. Já o tenho!!!!

Foi uma coisa tão desejada e ficarei tão feliz quando ouvir o concerto de novo que decidi nem abrir o CD e embrulhá-lo para me oferecer (e me mimar) no Natal.

Vai me pôr Up, Up e ajudar a carregar baterias para o longo Inverno que ainda falta

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

"Apprendre... c'est quoi?" - retomo uma leitura de Verão



A tradução portuguesa deste livro de Daniel Pennac foi uma das leituras de Verão. Tive a sorte de, depois, me ter sido oferecido o original francês; e pude assim regressar ao sabor de uma língua muito amada.



Deixo-vos um excerto de um livro que qualquer educador gostará eventualmente de ler.



«Vas-y, toi qui sais tout sans avoir rien appris, le moyen d'enseigner sant être préparé à ça? Il y a une methóde?

-C'est pas ce qui manque, les méthodes, il n'y a même que ça, des méthodes, alors qu'au fond de vous vous savez très bien que la méthode ne suffit pas. Il lui manque quelque chose.

- Qu'est-ce qu'il lui manque?

- Je ne peus pas le dire.

- Pourquoi?

- C'est un gros mot.

- Pire qu' "empathie"?

- Sans comparaison. Un mot que tu ne peux absolument pas prononcer dans une école, um lycée, une fac, ou tout ce qu'il ressemble.

À savoir?

- Non, vraiment je peux pas...

- Allez, vas-y!

- Je ne peux pas, je te dis! Si tu sors ce mot en parlant d'instruction, tu te fais lyncher.

- ...

- ...

- ...

- L'amour.»



Nota: a tradução portuguesa recebeu o título de "Mágoas da Escola" e foi editada pela Porto Editora. Ver aqui.

972 - Arevalillo in Sinais TSF

Sinais - TSF

Esta manhã o Tiago Alves fez uns "sinais" fantásticos. O programa referia como uma aldeia envelhecida do interior de Espanha tinha encontrado uma forma de se valorizar e de valorizar os seus habitantes pondo-os a ensinar a quem queira as artes e ofícios tradicionais: Fazer o pão, ceifar, tecer, ...
Acho que tem sido um sucesso e os velhotes têm ganhado uma auto-estima fantástica. O Tiago Alves refere um blogue que tenho de conhecer.

Acho isto tudo fantástico por vir a valorizar gente com muitos anos de experiência e ainda muito para dar.

Nem de propósito vem o facto de na 4ª feira eu próprio ter convidado para uma reunião de departamento duas colegas que já se reformaram mas que têm todo um saber e experiência que é necessário passar às gerações mais novas. Falou-se de gestão de sala de aula

Que pena que tantos e tantos bons professores tenham sentido necessidade de sair do barco quando ainda tinham tanto para dar e partilhar! Nunca se suprirá esta perda que políticas erradas fizeram à escola

971 - Mulher sem razão

Nestes últimos dias "ando numa" de Adriana Calcanhoto.

Veja-se a força enorme desta canção. É impossível não andar a cantarolar Adriana...




Mulher Sem Razão
Adriana Calcanhotto
Composição: Bebel Gilberto / Cazuza / Dé Palmeira


Saia desta vida de migalhas
Desses homens que te tratam
Como um vento que passou

Caia na realidade, fada
Olha bem na minha cara
Me confessa que gostou
Do meu papo bom
Do meu jeito são
Do meu sarro, do meu som
Dos meus toques pra você mudar

Mulher sem razão
Ouve o teu homem
Ouve o teu coração
Ao cair da tarde
Ouve aquela canção
Que não toca no rádio

Pára de fingir que não repara
Nas verdades que eu te falo
Dê um pouco de atenção

Parta, pegue um avião, reparta
Sonhar só não dá em nada
É uma festa na prisão

Nosso tempo é bom
E nem vemos de montão
Deixa eu te levar então
Pra onde eu sei que a gente vai brilhar

Mulher sem razão
Ouve o teu homem
Ouve o teu coração
Batendo travado
Por ninguém e por nada
Na escuridão do quarto

Ouve o teu coração
Ao cair da tarde
Ouve aquela canção
Que não toca no rádio

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

RICHARD ZIMLER

A minha última leitura... Um tema sobre o qual leio frequentemente, talvez por me assustar a tamanha barbárie na História "recente" e acreditar que não o podemos deixar cair no esquecimento de gerações futuras...

Richard Zimler é um narrador brilhante, que gostei de ficar a conhecer melhor na entrevista na Revista Ler do mês passado.

A história é-nos narrada por um sobrevivente do gueto chamado Heniek Corben, a quem terá sido relatada pelo protagonista Erik Cohen, um médico psiquiatra. Centrando-se no mistério e investigações em torno de uma série de macabros assassinatos de crianças no gueto – mortes invariavelmente embebidas em contornos de puro horror, pois os corpos surgem sempre mutilados de um, ou parte, dos seus membros –, Os Anagramas de Varsóvia é um livro cujo enredo ficcional, à imagem de todos os que se escrevem sobre uma tal temática, se vê ultrapassado, digamos assim, pelo impacto maior que sempre colhe a rememoração da vergonha humana perpetrada pelo Terceiro Reich. Não que Zimler não condimente o lado de ficção com credibilidade suficiente, pelo contrário, revela-se soberbo na gestão do evoluir dos pormenores e na elaboração do puzzle em torno dos crimes, apenas e tão-só que aquilo que, no meu entender, mais se cola à memória e o que mais brutaliza as emoções do leitor, é o plasmar da ambiência vivida no gueto, é o trazer-nos para dentro de uma atmosfera de perfídia e asfixia a que os judeus foram votados. Creio, de resto, ter sido esse um dos objectivos de Zimler. Outro, provavelmente, aquele de, e por oposição, revelar a faceta de resistência, de luta, de querer, de capacidade de sobrevivência que assiste ao Ser Humano.

Erik Cohen, a brilhante personagem criada pelo escritor, assume esse cariz heróico, de resistente, vestindo, por conseguinte, a pele da esperança; mesmo se diante das mais adversas circunstâncias, mesmo se aviltando pelo seu semelhante, mesmo se confrontado com o Homem esquecido de si mesmo, o Homem travestido a monstro, a máquina de morte, a servo da Besta. E contudo, contudo esta personagem apresenta-se a início do livro como «morta», um «homem morto». Explicação: mesmo tratando-se de um sobrevivente, qualquer um que tenha resistido aos campos da morte nazis de alguma forma morreu. Realista, brutal, cruel, doloroso, Os Anagramas de Varsóvia é um livro impiedoso, por vezes a espaços se confundindo com a malvadez que vai rememorando e esquartejando, de resto à imagem de Erik, que amiúde se revela cruel para com aqueles com quem partilha o ar que respira e a desafortunada desdita. No caso se Erik, como no de Zimler, nas suas opções, trata-se apenas de uma forma de luta – como que um «junta-te ao Mal para o entenderes e depois o denunciares»; dito de outra forma, o Mal tem que ser lembrado com todas as suas vísceras para que não seja esquecido, para que não sejam esquecidos aqueles que o sofreram na pele. O que não é de somenos importância numa época de memórias facilmente solúveis e branqueamentos históricos. (Pedro Teixeira Neves)

970 - pensamento do dia III
























"Algumas pessoas pensam que o sentido da vida é procurarmos realizar o nosso sonho, por mais louco que ele seja.
Outras acham que osentido da vida é sabermos aceitar a realidade como ela é, vivermos bem cada dia"

Oscar Brenifier

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

969 - Já há dois dias que não me sai da cabeça

Já há dois dias que não me sai da cabeça esta música da Adriana Calcanhoto. Esta é a música que aqui passa esta noite...

(pois, já há tantos anos que ouço isto e nunca tinha associado o nome Esquadros com enquadrado... Esquadria, alinhado, certinho... pois é!)



Esquadros
Adriana Calcanhotto


Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção
No que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Ai, Eu quero chegar antes
Prá sinalizar
O estar de cada coisa
Filtrar seus graus...

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Nos meninos que têm fome...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm
Para quê?
As crianças correm
Para onde?
Transito entre dois lados
De um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado...

Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Thiago de Mello

Num blogue sobre leitura e prazeres da leitura, lembrei-me de escrever sobre recordações das minhas primeiras leituras. Este texto de Thiago de Mello foi um dos poucos que me ficaram na memória da minha primária (hoje 1º Ciclo). Não que fosse lido na Escola mas porque se via afixado ou exposto nas livrarias/papelarias e muitos outros locais (ainda antes do 25 de Abril).
Ele foi assim das primeiras coisas que me chamaram verdadeiramente a atenção e que li verdadeiramente (sendo que, por ler, entendo aqui o acto de ler e interiorizar).
Lembro-me também que, na altura, achava o texto um pouco "maricas", talvez coisa de mulheres, mas o facto é que ficou gravado na memória. (Ah também havia uns cartazes com textos de Matilde Rosa Araújo (a idade dos porquês e outros...)

E eis que concluo que se pode ler de muitas maneiras e não apenas pelo dito "livro clássico/obras de referência da literatura)e que se pode chegar a leitor de muitas e variadas formas.




















Os Estatutos do Homem
Ato Institucional Permanente)
A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begónia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

968 - Por estes dias, por aqui, nem a terça é...

967 - Pontos de vista



Desde el punto de vista del sur, el verano del norte es invierno.
Desde el punto de vista de una lombriz, un plato de espaguetis es una orgía.
Donde los hindúes ven una vaca sagrada, otros ven una gran hamburguesa.
Desde el punto de vista de Hipocrates, Galeno, Maimonides y Paracelso,
existía una enfermedad llamada indigestión, pero no existía una enfermedad llamada hambre.
Desde el punto de vista de sus vecinos del pueblo de Cardona, el Toto Zaugg, que andaba con la misma ropa en verano y en invierno, era un hombre admirable:
-El Toto nunca tiene frío -decían.
El no decía nada. Frío tenia, pero no tenia abrigo.
Desde el punto de vista del búho, del murciélago, del bohemio y del ladrón, el crepúsculo es la hora del desayuno.
La lluvia es una maldición para el turista y una buena noticia para el campesino.
Desde el punto de vista del nativo, el pintoresco es el turista.
Desde el punto de vista de los indios de las islas del mar Caribe, Cristóbal Colon, con su sombrero de plumas y su capa de terciopelo rojo, era un papagayo de dimensiones jamás vistas.
Desde el punto de vista del oriente del mundo, el día del occidente es noche.
En la India, quienes llevan luto visten de blanco.
En la Europa antigua, el negro, color de la tierra fecunda, era el color de la vida, y el blanco, color de los huesos, era el color de la muerte.

Según los viejos sabios de la región colombiana del Choco, Adán y Eva eran negros y negros eran sus hijos Cain y Abel. Cuando Cain mato a su hermano de un garrotazo, tronaron las iras de Dios. Ante las furias del señor, el asesino palideció de culpa y miedo, y tanto palideció que blanco quedo hasta el fin de sus días. Los blancos somos, todos, hijos de Cain.

Si Eva hubiera escrito el Génesis, ?como seria la primera noche de amor del genero humano? Eva hubiera empezado por aclarar que ella no nació de ninguna costilla, ni conoció a ninguna serpiente, ni ofreció manzanas a nadie, y que Dios nunca le dijo que parirás con dolor y tu marido te dominara. Que todas esas son puras mentiras que Adán contó a la prensa.

Si las Santas Apostolas hubieran escrito los Evangelios, ¿como seria la primera noche de la era cristiana?

San José, contarían las Apostalas, estaba de mal humor. El era el único que tenia cara larga en aquel pesebre donde el niño Jesús, recién nacido, resplandecía en su cuna de paja. Todos sonreían: la Virgen María, los angelitos, los pastores, las ovejas, el buey, el asno, los magos venidos del Oriente y la estrella que los había conducido hasta Belén de Judea.

Todos sonreían, menos uno. San José, sombrío, murmuro:

-Yo quería una nena.

En la selva, ¿llaman ley de la ciudad a la costumbre de devorar al mas débil?

Desde el punto de vista de un pueblo enfermo, ¿que significa la moneda sana?

La venta de armas es una buena noticia para la economía, pero no es tan buena para sus difuntos.

Desde el punto de vista del presidente Fujimori, esta muy bien asaltar al Poder Legislativo y al Poder Judicial, delitos que fueron premiados con su reelección, pero esta muy mal asaltar una embajada, delito que fue castigado con una aplaudida carnicería.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Pontos de vista - Eduardo Galeano



Desde el punto de vista del sur, el verano del norte es invierno.
Desde el punto de vista de una lombriz, un plato de espaguetis es una orgía.
Donde los hindúes ven una vaca sagrada, otros ven una gran hamburguesa.
Desde el punto de vista de Hipocrates, Galeno, Maimonides y Paracelso,
existía una enfermedad llamada indigestión, pero no existía una enfermedad llamada hambre.
Desde el punto de vista de sus vecinos del pueblo de Cardona, el Toto Zaugg, que andaba con la misma ropa en verano y en invierno, era un hombre admirable:
-El Toto nunca tiene frío -decían.
El no decía nada. Frío tenia, pero no tenia abrigo.
Desde el punto de vista del búho, del murciélago, del bohemio y del ladrón, el crepúsculo es la hora del desayuno.
La lluvia es una maldición para el turista y una buena noticia para el campesino.
Desde el punto de vista del nativo, el pintoresco es el turista.
Desde el punto de vista de los indios de las islas del mar Caribe, Cristóbal Colon, con su sombrero de plumas y su capa de terciopelo rojo, era un papagayo de dimensiones jamás vistas.
Desde el punto de vista del oriente del mundo, el día del occidente es noche.
En la India, quienes llevan luto visten de blanco.
En la Europa antigua, el negro, color de la tierra fecunda, era el color de la vida, y el blanco, color de los huesos, era el color de la muerte.

Según los viejos sabios de la región colombiana del Choco, Adán y Eva eran negros y negros eran sus hijos Cain y Abel. Cuando Cain mato a su hermano de un garrotazo, tronaron las iras de Dios. Ante las furias del señor, el asesino palideció de culpa y miedo, y tanto palideció que blanco quedo hasta el fin de sus días. Los blancos somos, todos, hijos de Cain.

Si Eva hubiera escrito el Génesis, ?como seria la primera noche de amor del genero humano? Eva hubiera empezado por aclarar que ella no nació de ninguna costilla, ni conoció a ninguna serpiente, ni ofreció manzanas a nadie, y que Dios nunca le dijo que parirás con dolor y tu marido te dominara. Que todas esas son puras mentiras que Adán contó a la prensa.

Si las Santas Apostolas hubieran escrito los Evangelios, ¿como seria la primera noche de la era cristiana?

San José, contarían las Apostalas, estaba de mal humor. El era el único que tenia cara larga en aquel pesebre donde el niño Jesús, recién nacido, resplandecía en su cuna de paja. Todos sonreían: la Virgen María, los angelitos, los pastores, las ovejas, el buey, el asno, los magos venidos del Oriente y la estrella que los había conducido hasta Belén de Judea.

Todos sonreían, menos uno. San José, sombrío, murmuro:

-Yo quería una nena.

En la selva, ¿llaman ley de la ciudad a la costumbre de devorar al mas débil?

Desde el punto de vista de un pueblo enfermo, ¿que significa la moneda sana?

La venta de armas es una buena noticia para la economía, pero no es tan buena para sus difuntos.

Desde el punto de vista del presidente Fujimori, esta muy bien asaltar al Poder Legislativo y al Poder Judicial, delitos que fueron premiados con su reelección, pero esta muy mal asaltar una embajada, delito que fue castigado con una aplaudida carnicería.

domingo, 29 de novembro de 2009

965 - Onde se fala de um fim de semana que o foi verdadeiramente



Deve ser do buraco do Ozono e das alterações climáticas...
Já há muitos anos que, em tempo de aulas, não tinha dois fins de semana consequtivos sem tarefas a cumprir. Quero isto dizer que tenho tido,excepcionalmente, a possibilidade de gozar o fim de semana como a maoiria das pessoas o têm! para usufruir e descansar (na medida do possível, pois há sempre tarefas domésticas a desempenhar)

O meu começou na 6ª à tarde com um passeio pela baixa que se vai tornando rotineiro. Voltei para o pé do meu amigo Fernando e comecei a ler "o Processo" de Franz Kafka. Tem-me prendido a atenção desde a primeira página parecendo-me, infelizmente, (até agora) um argumento muito plausível.

Mais tarde foi tempo de ir até à escola receber uma formação sobre quadros interactivos!

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O sábado e domingo passaram-se a saborear a casa e a tratar de pequenitas coisas: jardim, arrumos, limpesas...
Apesar de todo o esforço feito na conquista da jovem da fotografia esta mantém-se fiel ao ditado: "Os cães têm donos, os gatos escolhem quem os sirva..."
Enquando desbastava as roseiras ela esteve sempre de olho em mim (qual vizinha bisbolheteira que recolhe informações para depois as contar).
Agora deixar-se tocar é que não... acede a passar todo o dia por aqui, a dar as suas voltas mas mantendo a distância que considera de segurança. Nem oquentinho da casa a demove (e logo agora que as noites estão frias e a lareira aberta pela primeira vez no sábado é uma tentação)

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Merece registo a visita do meu sobrinho no sábado. O rapaz deliciou-se com os novos livros do tio (e este ficou maravilhado com os olhos brilhantes do sobrinho ao saborear as histórias, as ilustrações, ... dos livros). Valeu a pena a compra! (os livros infantis estão muito melhores mesmo! Tornam tão simples a abordagem dos temas copmuns e incomuns da vida)

refiro-me a:
1 - "Onda" é apenas ilustrado. A Autora é Suzy Lee e narra esta ou outras histórias

Um dia cheio de sol
Uma menina curiosa
Uma onda brincalhona

(por acaso, quando o desfolhei, ouvi outra história e no sábado ainda outra diferente. Porque será?)

















2 - O principezinho em versão Pop-Up (que até levou os adultos a esquecerem o futebol durante 5 minutos...)

A promoção da leitura na Nova Zelândia

Neste aspecto, não sou miserabilista e até acho que muito já fez o P.N.L. em apenbas três anos de existência num país em que o analfabetismo ainda existe(!)

Este é um dos vídeos institucionais produzidos pela Nova Zelândia a propósito da promoção da leitura.

964 - Pensamento do dia III
























Um poema é uma pintura feita com palavras

João P.
Nov 09

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

962 - Pensamento do dia II



























"Fazer de cada página um barquinho de papel e deixá-la navegar na esperança de que outra mão o receba"

António Lobo Antunes

963 - Vemos, ouvimos e lemos... (não podemos ignorar)



Já me tinha referido a este assunto, faz agora um ano nos post 604 e 605.
Infelizmente pouca coisa mudou (se mudou alguma coisa) e o assunto continua muitíssimo actual.

O Público de dia 24 volta ao tema devido aos últimos acontecimentos e ao aumento das vítimas.

Desde Janeiro a violência de ex-companheiros, maridos ou namorados já matou mais de duas dezenas de mulheres

E vejam-se os nomes, idades e causas! impressionante tudo isto...

Maria Graça Fonseca, 82 anos
Na Quinta da Atalaia, Covilhã, um homem de 77 anos matou a sua companheira à facada.

Conceição Cardoso, 47 anos
Baleada mortalmente pelo marido em Alvélos, Barcelos, no seguimento de discussões de ordem profissional.

Tânia Moreira, 30 anos
Morta a tiro pelo companheiro, um guarda prisional, de 44 anos, com a sua arma de serviço, em São Julião do Total, Loures. Foi também vítima o ex-marido da mulher baleada. Tudo terá acontecido quando o homicida chegou a casa e viu a companheira com o ex-marido.

Maria Manuela Reis Antunes Margarido, 49 anos
Esfaqueada até à morte pelo ex-marido, de 53 anos, dentro do seu carro, quando se preparava para ir trabalhar. O crime teve lugar em Casais de Arega, Figueiró dos Vinhos.

Sandra Neves, 36 anos
Esfaqueada mortalmente em Pouco do Mouro, Setúbal, pelo companheiro de 43 anos. Ciúmes doentios poderão ter estado na origem do crime.

Sara Tavares, 26 anos
Morta em Portimão pelo marido, de 24 anos, com uma faca. O crime terá sido provocado por um desentendimento entre marido e mulher, quando esta não quis ir passar o dia a casa da sogra.

Laura Jorge Andrade, 42 anos
Morta a tiro pelo marido em Frazão, Paços de Ferreira. Desavenças conjugais que já vinham a agravar-se devem ter estado na origem do crime.

Marília Madeira, 36 anos
Baleada mortalmente pelo companheiro de 36 anos em A do Neves, Almodôvar. Uma espingarda terá sido a arma usada neste crime de natureza passional.

Deolinda Rodrigues, 36 anos
Morta com uma caçadeira de canos serrados pelo companheiro de 47 anos em Silves, Faro. Estavam separados há duas semanas.

Vítima desconhecida, 41 anos
Uma mulher de 41 anos foi mortalmente estrangulada em Raposeira, Chaves, pelo marido, de origem senegalesa. Por detrás deste crime terão estado razões passionais.

Maria Alice S., 61 anos
Vivia em Moitelas, Sobral de Monte Agraço e foi vítima de um tiro de caçadeira disparado pelo marido de 63 anos que se enforcou após o crime.

Cláudia Barreira, 37 anos
Tinha-se separado há cinco meses quando foi alvo de três tiros disparados pelo marido. O crime ocorreu em Vila Pouca de Aguiar.

Liliana, 36 anos
Não conseguiu evitar que o seu ex-companheiro a encontrasse e a assassinasse na casa dos pais, em Donelo, Sabrosa. A vítima foi morta a tiro e deixou órfãs quatro crianças.

Otília Farinha, 45 anos
Já tinha apresentado várias queixas contra o marido, quando o mesmo a assassinou com uma arma de fogo e se suicidou. O processo de divórcio terá estado na origem deste crime em Arco da Calheta, na ilha da Madeira.

Sandra Pereira, 23 anos
Foi assassinada no posto de trabalho com um machado pelo ex-companheiro, de 26 anos, em Chão Duro, na Moita. O que terá causado o crime foi a discordância pela custódia dos filhos.

Vítima desconhecida, 21 anos
Morreu ao ser atingida por vários golpes com uma arma branca, pelo namorado de 22 anos, na ilha de São Miguel, nos Açores.

Vítima desconhecida, 21 anos
Jovem foi degolada pelo ex-namorado em Ponta Delgada. O assassino "ajudou a procurar a vítima" após efectuar o crime.

Linda Cossa, 37 anos
Já tinha apresentado várias queixas contra o seu ex-companheiro, mas não foram suficientes para evitar que o homem, de 50 anos, a assassinasse com um machado na Rua da Cidade de Almada, no Seixal.

Helena Preto, 42 anos
Vivia em Lardosa, no concelho de Castelo Branco, quando o marido, guarda nacional republicano, a assassinou com uma pistola e suicidou-se.

Sandra Ruela, 39 anos
Foi morta com um tiro na cabeça pelo companheiro, de 42 anos, agente da PSP. A relação conflituosa entre o casal era conhecida dos vizinhos, em Belas, Sintra.

Margarida Sá Marques, 36 anos
Esfaqueada pelo companheiro de 50 anos. A esquadra de Mirandela conhecia os relatos de violência doméstica entre o casal.

Sandra Pontes, 23 anos
Violada e esfaqueada até à morte juntamente com a amiga Marinela Virgínio, em Rio de Mouro, Sintra. O autor do crime foi o ex-companheiro de Sandra Pontes.

Carla Martins, 28 anos
Assassinada à facada pelo ex-namorado, em Juncal do Campo, no concelho de Castelo Branco. O ex-namorado já a tinha ameaçado e agredido.

Joana Fulgêncio, 20 anos
Encontrada morta no carro do namorado de 22 anos, com um saco de plástico na cabeça. O rapaz terá simulado um sequestro para encobrir o assassinato.

Maria Duarte, 36 anos
Abatida a tiro ontem pelo ex-companheiro, em Santarém.

Pensamento do dia



























"Fazer de cada página um barquinho de papel e deixá-la navegar na esperança de que outra mão o receba"

António Lobo Antunes

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Onda

Ainda estou nas nuvens...

Pela minha escola decorre uma feira do livro. Fui lá espreitar e dei de caras com ele (e com alguns outros que me fizeram gastar mais do que esperava. Que posso eu fazer?, a Margarida meteu-me o bichinho...)

O livro em causa chama-se "Onda" e é apenas ilustrado. A Autora é Suzy Lee e narra esta ou outras histórias

Um dia cheio de sol
Uma menina curiosa
Uma onda brincalhona

(por acaso, quando o desfolhei, ouvi outra história. Porque será?)