segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

1291 - Tens o direito de olhar as estrelas













Alturas de Machu Picchu ( Poema XII )

Sobe a nascer comigo, irmão
E tua mão estende-me da funda
zona de tua dor disseminada.
Não voltarás do fundo dos rochedos.
Não voltarás do tempo subterrâneo.
Não voltará tua voz endurecida.
Não voltarão teus olhos perfurados.
Vem me fitar da profundez da terra,
lavrador, tecedor, pastor calado:
domador de guanacos tutelares:
pedreiro por andaimes desafiado:
aguadeiro de lágrimas andinas:
joalheiro dos dedos machucados:
agricultor tremendo na semente:
oleiro em tua argila derramado:
trazei ao cálix desta nova vida
as vossas velhas dores enterradas.
Mostrai-me vosso sangue e vosso corte,
dizei-me: aqui fui castigado,
porque a jóia não rebrilhou, ou a terra
não entregou a tempo a pedra ou o grão:
assinalai-me a terra em que caístes
e o madeiro em que vos crucificaram,
acendei-me as antigas pederneiras,
as velhas lâmpadas, os látegos gravados
por séculos e séculos nas chagas
e os machados de brilho ensangüentado.
Venho falar por vossa boca morta.
Na vastidão da terra juntai todos
os silenciosos lábios derramados
e do fundo falai-me toda esta longa noite
como se eu estivesse ancorado convosco,
contai-me tudo, cadeia a cadeia,
contai elo por elo, e passo a passo,
afiai os facões que conservastes,
ponde-os em meu peito e em minha mão,
como um rio de raios amarelos,
como um rio de tigres enterrados,
e deixai-me chorar, horas, dias, anos,
idades cegas, séc’los estelares.

Dai-me o silêncio, e a água, e a esperança. 
Dai-me o combate, dai-me o aço e os vulcões. 
Trazei a mim os corpos como ímãs. 
Acudi minha boca e minhas veias. 
Falai pelo meu verbo e por meu sangue.
 
Pablo Neruda

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

1290 - Dia(s) de sol II
































Cena 1 - Como em cerca de três semanas as cores da minha Lisboa mudaram tanto. Um dia concretizarei o sonho de ser pintor de palavras/momentos/cores. No fim de contas, escritor e pintor são duas formas de expressão similares. Cada um retrata o vivido da sua forma.

Cena 2 - (Ao acordar) - A laranjeira tem flores!!! finalmente!!! já tive quase para a arrancar pois, ao fim de três anos em que nada acontecia mantendo-se a árvore quase do mesmo tamanho minorca, já me estava a fartar...
Bendito borda d'agua que me mandou "botar" calda bordalesa para além do adubo que lhe fui dando ao longo de todo o ano passado a acrescer alguns tratamentos contra algumas pragas...

Cena 3 - À saída para o almoço deparei com alunos de uma escola, a desenhar fachadas à vista! só não os fotografei por vergonha! Cada um deles dava o seu melhor: Olhavam, interiorizavam, expressavam-se... a maior parte deles concentrados na tarefa.

Cena 4 - Passava na rádio e não pude deixar de cantarolar

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

1288 - Dia(s) de sol


O dia de hoje foi bem bonito e soalheiro

Acto 1 - A amendoeira gostou da mudança (para o lugar do damasqueiro que se partiu na invernia) e pela primeira vez (é o terceiro Inverno que passa) teve uma flor! vou ter UMA amêndoa! Boa!!!!

Acto 2 - Dia de sol quentinho! calor, conforto, bem estar! excelente! Adeus dias cinzentos e depressivos

Acto 3 - Na escola - Um rancho de pequenas quer entrar na sala de professores. Uma delas quer comprar bolachas na máquina da nossa sala. Proíbo-a! não que ache que esse é um lugar interdito ou que não fosse possível lá entrar para matar a fome. Foi a atitude em si... elas achavam tudo normal. Todo o espaço poderia ser delas. Não havia interditos!
Foi essa a minha intenção. Fazer-lhes perceber que não se tem todo o mundo ao alcance da mão e que tudo é possível e realizável. Cada um de nós tem de aprender os seus limites físicos e mentais sob pena de não conseguir gerir o seu espaço interior.
Apenas lhes disse que não. O acesso seria para quando crescessem e chegassem a professoras. Estudassem que alcançariam.
Gosto de perceber a escoa como lugar educativo. Há o lugar dos alunos e dos adultos. Cada um tem um papel a desempenhar. Eu posso ser muito próximo deles, mas não me posso esquecer que eu sou o educador e o adulto e logo eu que até passo as aulas a tocar-lhes e a ser afectuoso.
Há um espaço para o 1º ciclo que é deles. eles têm que perceber que crescem e poderão ter acesso ao lugar dos mais crescidos (2º e 3º Ciclo). Crescem e poderão ter acesso ao mundo dos professores

(pausa para me lembrar do espanto de uma miúda há muitos anos atrás, no início da minha carreira, em que ao ver e ouvir, numa visita de estudo, os professores a cantar e dançar, dizia que: Se não fossem tão crescidos parecia serem como nós!)

Ser educador é fazer-lhes perceber que têm que por limites à sua forma de estar. Não poder ter tudo aqui e agora, sob pena de serem uns eternos frustrados. (benditas as horas que passo a ler o João dos Santos)

Acto 4 - na escola e na sala de professores - A malta desabafa e descomprime. Fala-se de sol, de férias, do maldito Carnaval que nunca mais chega, planificam-se actividades para o dia de... descansa-se... E o sol que vem lá de fora tão quentinho... e eu reparo que há anos que partilho este espaço com muitos dos colegas e que estamos todos mais maduros e melhores como professores e pessoas! mais tolerantes, mais experientes, ... Ah sim, nos outros países já tinham havido dias de pausa para ganhar energias... pois... ainda falta uma semana e meia para o carnaval? eh...

Acto 5- Os miúdos estiverem bem e colaboraram. Que lindo foi ouvir a explicação que já não sei reproduzir, que uma das minhas alunas deu à frase: "quando um velho morre é uma biblioteca que arde"

Há dias de sol! (há horas de sorte!)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

1287- O milagre da existência


Ontem fui tio outra vez (tenho agora quatro sobrinhos). É uma ela, a L.
É quase tão bonita como o tio baboso.

Que bom! após ver desaparecer, nestes últimos tempos, três ou quatro pessoas que conhecia de há anos é bom juntar a família para ver esta preciosidade!
Já me tinha esquecido de como eram frágeis e pequeninos os recém-nascidos! pega-los ao colo é algo indizível!

Que tenhas uma vida longa e feliz minha pequena L.


"Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido."

Fernando Pessoa

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A viagem do elefante


Não sendo um dos livros de Saramago que mais gosto tive em ler pois "Levantado do Chão", ou o memorial" ou ainda "O Evangelho segundo Jesus Cristo" ou ainda "o ano da morte de Ricardo Reis" encheram-me as medidas, este livro lê-se com facilidade não sendo propriamente um romance... Pelos vistos, terá existido, no século XVI, um paquiderme indiano que caminhou de Lisboa a Viena, ao qual José Saramago chamou Salomão e cuja história conta no livro, "A Viagem do Elefante" e que acaba por constituir uma metáfora da vida humana.
"O livro narra uma viagem de um elefante que estava em Lisboa, e que tinha vindo da Índia, um elefante asiático que foi oferecido pelo nosso rei D. João III ao arquiduque da Áustria Maximiliano II (seu primo). Isto passa-se tudo no século XVI, em 1550, 1551, 1552. E, portanto, o elefante tem de fazer essa caminhada, desde Lisboa até Viena, e o que o livro conta é isso, é essa viagem",
Saramago começou a escrever o livro em Fevereiro de 2007, altura em que já estava bastante doente, com um problema respiratório, escreveu "umas 40 páginas" e parou, porque a doença se agravou, e acabou por ser hospitalizado durante três meses, tendo chegado a pensar que não terminaria o livro. Mas recuperou, regressou a casa em Fevereiro deste ano, embora "mal", pôs-se logo a escrever e acabou-o em Agosto, no dia 12.
Esta história é uma metáfora da vida humana: este elefante que tem de andar milhares de quilómetros para chegar de Lisboa a Viena, morreu um ano depois da chegada e, além de o terem esfolado, cortaram-lhe as patas dianteiras e com elas fizeram uns recipientes para pôr os guarda-chuvas, as bengalas, essas coisas.
Quando uma pessoa se põe a pensar no destino do elefante - que, depois de tudo aquilo, acaba de uma maneira quase humilhante, aquelas patas que o sustentaram durante milhares de quilómetros são transformadas em objectos, ainda por cima de mau gosto - no fundo, é a vida de todos nós. Nós acabamos, morremos, em circunstâncias que são diferentes umas das outras, mas no fundo tudo se resume a isso

1286 - Nem sei que nome dar a isto... II

Nem de propósito! Na "casa" da Maria vi e "roubei" um texto que fez todo o sentido para mim nesta fase do "campeonato"














CANTA


Atreve-te a julgar. Julga os outros julgando-te a ti mesmo.
A natureza das coisas é a tua natureza. Respira-te, despe-te,
faz amor com as tuas convicções, não te limites a sorrir
quando não sabes mais o que dizer. Os teus dentes
estão lavados, as tuas mãos são amáveis, mas falta-te
decisão nos passos e firmeza nos gestos.
Procura-te. Tenta encontrar-te antes que te agarre a
voracidade do tempo.
Faz as coisas com paixão. Uma paixão irrequieta,
que não te dê descanso
e te faça doer a respiração. Aspira o ar, bebe-o com força, é
teu, nem um cêntimo pagarás por ele.
Quanto deves é à vida, o que deves é a ti mesmo. Canta.
Canta a água e a montanha e o pescoço do rio,
e o beijo que deste e o beijo que darás, canta
o trabalho doce da abelha e a paciência com que crescem
as árvores,
canta cada momento que partilhas com amigos, e cada amigo
como um astro que desponta no firmamento breve do teu corpo.
E canta o amor. E canta tudo o que tiveres razão para cantar.
E o que não souberes e o que não entenderes, canta.
Não fujas da alegria. A própria dor ajuda-te a medir
a felicidade. Carrega nos teus ombros os séculos passados e
os séculos vindouros,
muito do pó que sacodes já foi vida,
talvez beleza, orgulho, pedaços de prazer.
A estrela que contemplas talvez já não exista, quem sabe,
o que te ajudou a ser vida de quantas vidas precisou. Canta!
Se sentires medo, canta. Mas se em ti não couber a alegria,
não pares de cantar.
Canta. Canta. Canta. Canta. Canta. Constrói o teu amor,
vive o teu amor,
ama o teu amor. De tudo o que as pessoas querem, o que
mais querem é o amor.
Sem ele, nada nunca foi igual, nada é igual, nada será igual
alguma vez.
Canta. Enquanto esperas, canta.
Canta quando não quiseres esperar.
Canta se não encontrares mais esperança. E canta quando a
esperança te encontrar.
Canta porque te apetece cantar e porque gostas de cantar e
porque sentes que é preciso cantar.
E canta quando já não for preciso. Canta porque és livre.
E canta se te falta a liberdade.

Joaquim Pessoa

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

1285 - Nem sei que nome dar a isto...



















Bom... narcisismo também não será...
Mas com eles duram não mais que três semanas e estão tão lindos aqui no jardim que resolvi fotografa-los para guardar o momento

Adiante...

1ª reflexão - Há uma coisa que considero inexplicável e até acho injusta. há pessoas que parece serem bafejadas pela sorte (ou será que a conquistam?) e há outras que parece que puxam o azar, havendo ainda outras que pura e simplesmente estão na hora errada no local errado.

Olhando para trás parece-me que me incluo nas do primeiro grupo... já vi muitas portas se fecharem atrás de mim e já passei por momentos em que não vislumbrava saída válida e tudo parecia sem saída... Depois dessas portas se fecharem, isso foi sempre ocasião de outras se abrirem parecendo-me a mim que a mudança até foi para melhor. Aqui parece que o ditado se deveria reescrever para: "não há mal que sempre dure e não se acabe". O que não nos mata, torna-nos mais fortes

2ª reflexão: Sempre procurei ser profissional e competente naquilo em que me meto. Por vezes acho até que esse é o mal (já sei, tenho a mania que sou bom... tenho que comprar uns óculos de diminuir o ego) e muitas vezes achei que fui posto fora exactamente por isso. Por poder fazer frente a interesses ou situações instituídas. É a vida como dizia o nosso ex 1º ministro

3ª reflexão: Este ano fui "promovido" a professor de base deixando de ser coordenador de departamento. Não me interessam agora os pormenores nem estava agarrado ao cargo...
Apenas se punha agora uma questão de consciência em relação à avaliação de desempenho

Sempre fui contra! avaliei colegas porque estes assim o pediram. Eram meus pares e desejaram-no. Quem era eu para lhes negar esse direito?

Agora colocava-se uma questão de coerência. Já tenho caminho de muitos anos feitos com os os meus pares. Avaliei-os e como me decidir agora? manter uma posição coerente e estar contra esta avaliação de desempenho ou manter uma posição de coerência e, pelos meus pares, sujeitar-me ao que eles se sujeitaram de modo a que estes percebessem que eu não tive só teorias baratas para eles e que estava no mesmo barco em perfeita solidariedade: PROFESSOR com muito gosto e orgulho? Que porra... fazemos caminho há tantos anos e qando chegava a minha vez não me atrevia a mostrar os meus pontos fracos parecendo ter medo de me expor perante eles?

Escolhi o mais difícil. Escolhi ter aulas observadas (não porque concorde mas por pura solidariedade pelos meus pares).
Tive a sorte de a minha avaliadora (que já foi minha avaliada - ridículo sistema este) ser mesmo uma pessoa honesta e profissional que tem procurado fazer caminho comigo e percebeu que já tenho 23 anos de carreira e que não estou em estágio e não sou miúdo...

Hoje entrou na minha sala com avaliadora e não como colega... confesso que me senti meio humilhado de início (coisa que ela e outros há dois anos terão sentido de mim- nada como passar por elas para se perceber como é a vida). No entanto tudo foi esquecido e o debate pós aula foi riquíssimo!

Riquíssimo mesmo. Falámos do orgulho em ser professor. Falámos que o avaliador não trabalha com o professor apenas na sala de aula. Ele tem que apreender o modo como o professor se envolve com os seus alunos numa situação de classe, mas também como este se implica junto da comunidade escolar e na sociedade que envolve a escola. Porque trabalha com ele como profissional, mas também enquanto pessoa.
Falámos que o avaliador tenta responder às seguintes questões: Onde ensina? O que é que ele ensina? Como é que ensina? O que aprendem os seus alunos? Como se auto avalia? Que capacidade tem para reformular a sua actuação? Com que profundidade domina as matérias que pretende ensinar? Falámos que, por outras palavras o avaliador avalia o professor em vertentes tão diferenciadas quanto o são o seu ser, o seu saber e o seu saber fazer. Logo, o avaliador tem que estar atento a um grande número de variáveis que intervêm na função docente: variáveis de produto, de processo, de presságio, de carácter pessoal e profissional...

Depois disse-me coisas que eu intuía mas nunca tinha consciencializado nem nunca ninguém me dita dito: Tu sorriste para os alunos a aula toda! isso é muito positivo! Tu fizeste-os pensar! Tu deixaste-os falar de si e com ordem...

E é verdade. Quase sempre sou de muito afecto (excepto naqueles dias negros em que o actor não consegue desligar do papel que representa fora da escola ou um dos miúdos descarrega com o primeiro adulto que lhe aparece em frente e a desconsideração não é para mim mas para o adulto que lhe apareceu à frente (embora isso só se perceba após a aula)
Sei bem que um professor tem que aprender o que ensina, o modo de ensinar e tudo (mesmo tudo) sobre os alunos que vão ser sujeitos à sua actividade profissional. Mas não se iludam: depois de tudo isso um professor nunca está formado. Tem que aprender sempre. Um professor carrega para toda a vida o fardo de ter que ser aluno de si próprio. De se cuidar, de estar sempre atento, ter os pés bem postos no presente e os olhos bem focados no futuro.
Por tudo isso o professor é obra permanentemente inacabada. É contentor onde cabe sempre mais alguma coisa. O professor é um intelectual, mas também é um artesão; é um teórico, mas que tem que viver na e com a prática; é um sábio, mas que tem de aprender todos os dias; é um cientista que tem que traduzir a sua experimentação para mil linguagens; é um aprendente que ensina; é um fazedor dos seres e do saberes; mas é também um homem, ou uma mulher, como todos nós, frágil, expectante e sujeito às mais vulgares vulnerabilidades.

Por tudo isto senti-me hoje um homem cheio de sorte. Tive à minha frente uma colega que soube desempenhar o seu papel com mestria e me soube potenciar como professor ao mostrar-me o que eu não vejo por estar do outro lado

A avaliação de desempenho poderia ser tão diferente se...
Quer isto dizer que concordo com este modelo de avaliação de desempenho? Não, não, nunca! Quer dizer que tenho muita sorte com os ambientes onde me movo e faço amizade com excelentes profissionais que sabem fazer ouro onde só existe mer...
Felizmente que apesar de todas as políticas de educação que considero erradas quem têm saído o meu departamento ainda é capaz de fazer um almoço do fim de ano num restaurante ao pé da praia e somos capazes de nos olhar todos "olhos nos olhos"

---

(sim... relendo tudo isto reconheço poder ser profundamente incoerente e estar a alinhar numa farsa sem sentido que só alimentará o ego de alguns decisores políticos. pode ser. Neste tribunal da minha consciência continuo a argumentar que quis por a mão na massa e passar pelo que os meus pares passaram, sobretudo porque fui eu que tive de assumir o papel de avaliador antes e terei sido tão bom que tiveram que me me apear não fosse... É que isto de pensar num meio em que muitos não pensam é perigoso... Ganhei com isto a minha face e a possibilidade de os olhar olhos nos olhos... Vejam não tive teorias baratas só para vocês e quando chegou a minha vez fugi... aqui estou eu, para isto e para o que vier a seguir

Irei para a rua seguramente um destes dias para exigir uma avaliação que nos faça crescer a todos como profissionais e não esta em que se procura através do preenchimento de papeis impedir a progressão

1284 - Fiel a si próprio contra todas as evidências

Ideia base do post retirada daqui

---

"Galileu, sendo imortal, faz hoje 447 anos, como bem nos lembra o AstroPT. Para além da revolução nos céus, deixa-nos uma das mais belas frases da Ciência: Eppur si muove! E, também, a famosa experiência da Torre de Pisa (uma das míticas histórias da Ciência pois, aparentemente, tal experiência nunca foi feita) em que, confrontando Aristóteles, Galileo afirma que, no vazio, não existe qualquer razão para que corpos diferentes tenham tempos de queda diferentes. Textualmente, Galileu:

O ridículo da opinião de Aristóteles é mais claro do que a luz. Quem vai acreditar, por exemplo, que se duas esferas de chumbo forem largadas da órbita da Lua, sendo uma cem vezes maior do que a outra, a maior chegue à Terra numa hora, enquanto a menor leva cem horas no seu movimento? Ou se duas pedras forem lançadas ao mesmo tempo de uma torre alta, tendo uma o dobro do tamanho da outra, quem vai acreditar que a mais pequena vá a meio do caminho quando a grande está a chegar ao chão?

O que Galileu não imaginava é que, vários séculos mais tarde, essa mesma experiência foi feita num outro corpo celeste e o seu nome invocado.
Eis o capitão David Scott, da missão Apollo 15, numa demonstração pedagógica, com um martelo e uma pena..."



---

Do que muito gosto na figura de Galileu é a lição que ele nos dá de alguma preserve rança, de ser fiel a um projecto, de ousar pensar por si contra as ideias feitas, o ousar partir para o desconhecido não evitando dissabores com o já feito e estabelecido...

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Minto até ao dizer que minto

Este lê-se muito rapidamente pois é pequeno. Trata-se de um conto inédito de José Luís Peixoto, lançado exclusivamente para a revista Visão.
Neste conto, José Luís Peixoto usa o  registo do humor e da ironia e, quanto a mim, saiu-se muito bem. A acção decorre em Lisboa, em cenários facilmente identificáveis para quem conhece a cidade sendo que a história ganha sobretudo pelos pormenores bizarros e divertidos que abundam na vida do personagem principal e do seu amigo Mefistófoles perdidos numa Lisboa deserta de lisboetas e repleta de turistas (a acção decorre em Agosto)
O livro lê-se quase sempre com um sorriso nos lábios e tem um fim inesperado e irónico. 

1283 - Precisa-se de gente com experiência

Anuncio de emprego: precisa-se de gente com experiência"


'Já fiz cócegas à minha irmã só para que deixasse de chorar, já me queimei a
brincar com uma vela, já fiz um balão com a pastilha que se me colou na cara
toda, já falei com o espelho, já fingi ser bruxo.

Já quis ser astronauta, violinista, mago, caçador e trapezista; já me
escondi atrás da cortina e deixei esquecidos os pés de fora.

Já roubei um beijo, confundi os sentimentos, tomei um caminho errado e ainda
sigo caminhando pelo desconhecido.

Já raspei o fundo da panela onde se cozinhou o creme, já me cortei ao
barbear-me muito apressado e chorei ao escutar determinada música no
autocarro.

Já tentei esquecer algumas pessoas e descobri que são as mais difíceis de
esquecer.

Já subi às escondidas até ao terraço para agarrar estrelas, já subi
a uma árvore para roubar fruta, já caí por uma escada.
Já fiz juramentos eternos, escrevi no muro da escola e chorei sozinho
na casa de banho por algo que me aconteceu; já fugi de minha casa
para sempre e voltei no instante seguinte.

Já corri para não deixar alguém a chorar, já fiquei só no meio de mil
pessoas, sentindo a falta de uma única.

Já vi o pôr-do-sol mudar do rosado ao alaranjado, já mergulhei na
piscina e não quis sair mais, já tomei whisky até sentir os lábios
dormentes, já olhei a cidade de cima e nem mesmo assim encontrei o
meu lugar.

Já senti medo da escuridão, já tremi de nervos, já quase morri de
amor e renasci novamente para ver o sorriso de alguém especial.

Já acordei no meio da noite e senti medo de me levantar.

Já apostei a correr descalço pela rua, gritei de felicidade, roubei
rosas num enorme jardim, já me apaixonei e pensei que era para
sempre, mas era um 'para sempre' pela metade.

Já me deitei na relva até de madrugada e vi o sol substituir a lua;
chorei por ver amigos partir e depois descobri que chegaram outros novos e
que a vida é um ir e vir permanente.

Foram tantas as coisas que fiz, tantos os momentos fotografados pela lente
da emoção e guardados nesse baú chamado coração...

Agora, um questionário pergunta-me, grita-me desde o papel:

- Qual é a sua experiência?

Essa pergunta fez eco no meu cérebro. Experiência....
Experiência... Será que cultivar sorrisos é experiência?

Agora... agradar-me-ia perguntar a quem redigiu o questionário:

- Experiência?! Quem a tem, se a cada momento tudo se renova ???'

sábado, 12 de fevereiro de 2011

1281 - Espiões



Bom... Este é uma dos livros que não nos conquista vendo a capa, antes pelo contrário, mas é um romance que se lê num só fôlego.
Sinceramente, gostei e aconselho

Eis a sinopse:
"A Segunda Guerra ainda não havia chegado a uma rua tranquila no subúrbio de Londres, até que dois meninos resolvem bancar agentes secretos. Certa manhã, Keith e Stephen abandonam a brincadeira de estrada de ferro na horta de pepinos, e começam a vigiar a sra. Hayward, mãe de Keith, certos de que ela seria uma espiã alemã. Aos poucos, descobrem que algo estranho acontece na rua: beijos proibidos, vizinhos com atitude suspeita, passagens secretas, tráfico de meias de lã.
Cinquenta anos depois, os acontecimentos daquele verão ainda atormentam Stephen. Ele retorna à rua de sua infância e tenta entender como uma brincadeira de meninos levou a uma tragédia de adultos, dando-lhe "uma intuição profunda da solenidade e tristeza das coisas".
Ganhador do prémio Whitbread 2002 de melhor romance, Espiões é a história de coisas que parecem simples, sobretudo aos olhos de uma criança, mas que se tornam cada vez mais complexas e dolorosas. É um relato sobre a gravidade da infância, o peso da inocência e a dificuldade de evocar o próprio passado."
A história começa assim: 


"1.

Ainda falta uma semana para o fim de Junho e o cheiro já chegou, familiar e invasor. É uma doçura que nos invade todos os anos, por esta época. Sinto-a no ar quente da tarde, enquanto caminho ao longo dos jardins bem tratados da minha rua tranquila, e por um instante viro criança outra vez e tudo ainda está por acontecer - toda promessa de vida, assustadora e meio incompreensível.

Deve vir de um dos jardins. De qual? Nunca consigo descobrir. E o que é? Não tem nada da fragrância terna e pungente dos limoeiros em flor que aperta o coração, cheiro bom pelo qual a cidade é conhecida, ou da serena felicidade de verão das madressilvas. É algo completamente rude e vulgar. Cheira mal. Possui uma espécie de urgência sexual. E me balança por dentro, como sempre. Eu sinto... o quê? Uma inquietude. Uma vontade de fugir para além das árvores no final da rua, cada vez para mais longe. E ao mesmo tempo tenho uma espécie de saudade do lugar onde estou. É possível? Sei que alguma coisa, em algum lugar, foi deixada irresolvida, que alguma coisa secreta no ar que me rodeia ainda está por ser descoberta.
Uma outra sugestão do perfume me alcança com a brisa leve do verão, e desconfio que o lugar para o qual gostaria de fugir é minha infância. Talvez a casa da qual sinta saudade ainda esteja lá, depois de tudo que aconteceu. No fim de Junho, quando o fedor adocicado aparece, é impossível deixar de notar que há vôos baratos para aquela terra tão longe e tão perto de mim. Duas vezes pego o telefone para reservar passagem; duas vezes o coloco de volta no gancho. Não se pode voltar, todo mundo sabe... Quer dizer que não vou voltar nunca mais? Fica decidido? Estou ficando velho. Quem sabe a minha última oportunidade seja este ano...
Mas o que é isto, esta presença terrivelmente perturbadora no ar do verão? Se pelo menos eu soubesse o nome dessa flor mágica, se ao menos pudesse vê-la, talvez conseguisse descobrir a fonte do seu poder. De repente eu o capto no ar enquanto acompanho minha filha e meus dois netos pequenos de volta ao carro ao fim da visita semanal. Ponho a mão no seu braço. Ela entende de plantas e jardinagem. "Você está sentindo? Agora... Que cheiro é esse?"
Ela respira fundo. "São os pinheiros", responde. Há pinheiros altos crescendo em todos os jardins arenosos, protegendo as casas modestas do sol do verão e tornando nosso ar o famoso ar fresco e revigorante. Mas não há nada de limpo, ou com fragrância de resina, neste fedor que posso detectar insinuando-se tão furtivamente. Minha filha torce o nariz. "Você não está falando deste cheiro... bem... deste cheiro vulgar?"
Dou risada. Ela está certa. É mesmo um perfume vulgar.
"Ligustro", ela diz.
Ligustro... fiquei na mesma. Já ouvi a palavra, com certeza, mas nenhuma imagem me vem à mente, nem qualquer justificativa para o poder que o cheiro tem sobre mim. "É um arbusto", explica minha filha. "Muito comum. Você já deve ter visto em parques. Bem sem graça. Sempre me faz lembrar de tardes deprimentes em domingos chuvosos." Ligustro... Não. E ainda assim, quando uma nova onda daquela intimação descarada nos atinge, tudo dentro de mim se revolve e rodopia.
Ligustro... Soa como um segredo, alguma coisa negra e perturbadora lá no fundo do meu pensamento, alguma coisa sobre a qual absolutamente não gosto de pensar... Acordo à noite com a palavra me incomodando. Ligustro...
Espera um pouco. Será que minha filha estava falando inglês comigo quando me deu a informação? Vou ao dicionário... Não, não estava. E assim que vejo qual é a palavra em inglês, só posso rir de novo. Claro, que coisa mais óbvia! Desta vez, rio com um pouco de vergonha, porque um tradutor profissional não deveria se deixar enganar por uma palavra tão simples - e também porque, agora que sei o que é, parece-me uma deixa por demais ridícula e fora de propósito para sentimentos tão poderosos.
Agora muitas coisas me voltam à mente. Riso, para começar. Em uma noite de verão há quase sessenta anos. Nunca pensei nisso antes, mas lá está ela de novo, a mãe de meu amigo Keith, à sombra do arbusto verde do verão há tanto tempo perdido, os olhos castanhos brilhando, rindo de alguma coisa que Keith escrevera. Entendo o porquê, claro, agora que sei o que inundava de perfume o ar à nossa volta.
Paro de rir. Ela está sentada na terra à minha frente, chorando, e não sei o que fazer ou dizer. Junto de nós outra vez, aquele fedor adocicado e sedutor vai penetrando sorrateiramente nos recessos mais fundos da minha memória, para ficar comigo pelo resto da vida.
A mãe de Keith. Deve estar lá pelos noventa, a essas alturas. Ou morta. Quantos dos outros ainda estarão vivos? Quantos deles ainda se lembram?
E Keith, o próprio Keith? Será que ainda pensa sobre as coisas que aconteceram naquele verão? Talvez tenha morrido também.
Talvez eu seja o único que ainda se lembra. Ou que se lembra um pouco, pelo menos. Vislumbres de coisas diferentes surgem na minha mente, sem qualquer ordem, e se vão. Uma chuva de centelhas... Um sentimento de vergonha... Alguém tossindo, tentando não ser escutado... Uma jarra coberta de renda com quatro contas azuis penduradas nas pontas...
E, claro - em primeiro lugar as palavras ditas pelo meu amigo Keith que deram início a tudo. Às vezes é difícil lembrar as palavras exatas que alguém falou há meio século, mas estas são fáceis, porque foram tão poucas. Seis, para ser preciso. Ditas, assim, casualmente, como um comentário passageiro, tão leves e sem substância quanto bolhas de sabão. E, apesar disso, mudaram tudo.
Como as palavras costumam fazer.
Agora que comecei a pensar no assunto, sinto que gostaria de ir mais fundo e dar alguma ordem a tudo, dar algum sentido aos acontecimentos. Havia coisas que ninguém jamais explicou. Coisas que nem mesmo foram ditas. Segredos. Gostaria de trazê-los à luz do dia, afinal. E mesmo agora que já localizei a fonte da minha inquietação, continuo a sentir a presença de algo por trás de tudo isso que ainda permanece sem solução.
Digo a meus filhos que irei a Londres por alguns dias.
"Tem o endereço de onde vai ficar?", pergunta minha nora, sempre tão organizada.
"Rua da Memória, talvez", sugere secamente meu filho. É evidente que estamos todos falando inglês. Ele percebe minha inquietação.
"Exactamente", respondo. "A última rua antes de perder o juízo e virar a esquina que dá na avenida Amnésia."
Não conto para eles que estou seguindo o rastro de um arbusto que floresce por algumas semanas no verão e que destrói a minha paz.
É claro que não lhes digo o nome do arbusto. Não o digo nem para mim mesmo. É ridículo demais."

As cruzadas vistas pelos Árabes

Esta foi a minha leitura destes dias. O livro não sendo fácil de ler por relatar 200 anos de guerras, monarcas, sultões, famílias, guerreiros e avanços e recuos contém, no entanto, uma mensagem muito clara.

Que barbaridades se fizeram (e se fazem) em nome de Deus ou Alá! Que barbaridades! Quantos e quantos interesses pessoais, ganâncias, ambições, ...

Uns não foram melhores que outros e todos mataram em nome de um Deus clemente e compassivo lento para a ira e rico de misericórdia.

Claro que é um anacronismo ler o mundo com os olhos do séc XXI mas não deixa de dar que pensar tudo isto, sobretudo porque já nos relatos da época se tinha consciência que tudo isto era insensato e ilógico!

Quando será que começamos a aprender com a história!