domingo, 18 de junho de 2006

Auto-retrato 1

O Quereres
Caetano Veloso

Onde queres revólver, sou coqueiro / E onde queres dinheiro, sou paixão
Onde queres descanso, sou desejo / E onde sou só desejo, queres não
E onde não queres nada, nada falta / E onde voas bem alto, eu sou o chão
E onde pisas o chão, minha alma salta / E ganha liberdade na amplidão
Onde queres família, sou maluco / E onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon, sou Pernambuco / E onde queres eunuco, garanhão
Onde queres o sim e o não, talvez / E onde vês eu, não vislumbro razão
Onde queres o lobo, eu sou o irmão / E onde queres cowboy, eu sou chinês

Ah! Bruta flor do querer / Ah! Bruta flor, bruta flor...

Onde queres o ato, eu sou espírito / E onde queres ternura, eu sou tesão
Onde queres o livre, decassílabo / E onde buscas o anjo, sou mulher
Onde queres prazer, sou o que dói / Onde queres tortura, mansidão
Onde queres um lar, revolução / E onde queres bandido, sou herói
Eu queria querer-te e amar o amor / Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação / Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés / E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou / Não te quero e não queres como és

Ah! Bruta flor do querer / Ah! Bruta flor, bruta flor...

Onde queres comício, flipper-vídeo / E onde queres romance, rock'n'roll
Onde queres a lua, eu sou o sol / E onde queres a pura natura, o inseticídio
Onde queres mistério, eu sou a luz / E onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro / E onde queres coqueiro, eu sou obus
O quereres e o estares sempre a fim / Do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal / Bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal / E eu querendo querer-te sem ter fim
E, querendo-te, aprender o total / Do querer que há e do que não há em mim



(imagem retirada daqui)

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