terça-feira, 13 de outubro de 2009

919 - Já estava com saudades



Sim, já estava com saudades de deixar o carro em casa e ir de transportes. Foi hoje.

(paradoxalmente sai-me mais caro! )

Saí cedinho e fui de transportes. Já há um mês que andava com um livro para trás e para a frente e nada... Hoje acabei-o.

Devia fazer isto mais vezes.

Deste modo, despachei para aí as últimas 70 folhas do livro "eu agora quero ir-me embora" que é a passagem a papel de um programa de rádio dos anos 80, da Comercial, no qual João dos Santos e João Sousa Monteiro convesavam sobre... A vida, acho eu...
Já o tinha lido há uns bons 15 anos atrás. Reli-o com gosto

Retive, como muito relevante e merecedora de uma maior reflexão, a passagem abaixo

(ah, e até deu para começar o Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago)

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"J.S.M. - E são justamente os sonhos, os sonhos acordados e os sonhos a dormir que é o que há de mais importante na vida interior de qualquer pessoa, é justamente isso que não tem o mínimo significado para a escola.
É pena que tudo quanto a professora desse menino encontrou para dizer acerca de ele andar sempre na lua foi que ele não tinha aproveitamento. Como se o aproveitamento pudesse interessar a alguém que está absorvido por coisas bem mais importantes, como era o caso desse menino. O único exame sério que esse menino tinha que fazer durante o seu ano escolar, durante o seu ano lectivo, era o tal sonho das «contas». E se a escola não serve para ajudar as crianças a passarem nesses «exames», que são os únicos exames importantes da vida, não serve para nada.
Esse menino passou nesse «exame», e pelos vistos bem, mas foi com a sua ajuda, não foi com a ajuda da escola. E felizmente que há uns meninos que conseguem, apesar de tudo, resistir às pressões da escola, e continuam a sonhar, continuam a procurar resolver os seus sonhos das «contas», mesmo que o aproveitamento seja uma miséria. Mas são poucos. A maioria, mais tarde ou mais cedo, acaba por ceder à febre do aproveitamento. E é por isso, entre outras razões, que há tantos doutores tão deprimidos. Passaram nos exames da escola, mas chumbaram nos «exames» da vida, o que é uma pena.
Lembro-me agora daquele físico... como é que ele se chama?... daquele físico que dirige um centro de investigação em Física das Partículas, associado àquele que é, creio eu, o maior acelerador de partículas do mundo... não me lembro... como é que ele se chama, um tipo com os cabelos todos brancos mas com uma cara engraçadíssima, de miúdo pequeno, um físico polaco, que dizia que as crianças é que põem as perguntas mais interessantes. É quando se pergunta: «Porque é que o ar é azul?», «como é que as aves voam?», «porque é que a lua não cai?»... «Mas os pais podem estar descansados», dizia ele, «porque logo que as crianças entram para a escola, ensinam-lhes a não fazerem perguntas, a deixarem-se disso, e quando elas aprendem a não perguntar, a sociedade faz delas bons polícias, bons advogados, bons comerciantes, bons cidadãos. Há no entanto alguns, poucos, muito poucos, que continuam a teimar em fazer perguntas.» «Esses, concluía o físico, são talvez os poetas.» E é verdade. É uma catástrofe, creio eu, que a escola seja quase sempre um enorme armazém de professores que há muito tempo deixaram de fazer perguntas. Ensinam os miúdos a dar respostas a perguntas que nunca fizeram, e essa é uma das melhores maneiras de fazer deles bons «polícias», em todo o sentido do termo, como dizia aquele físico. É pena, por exemplo, que essa professora nunca se tenha perguntado porque é que aquele miúdo andava sempre na lua. A escola não está lá para isso, já sei, mas é pena que não esteja."

Pag 129

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