domingo, 18 de março de 2012

1477 - Manuel Alegre

Ontem foi mesmo um dia para "guardar na caixa das memórias".

O Manuel Alegre foi à Escola Secundária Emídio Navarro, em Almada, a convite do DN, devido ao facto de um grupo de alunos ter ganho um concurso promovido pelo jornal e que versava sobre fazer um editorial para esse mesmo jornal.

O tema escolhido pelos alunos foi a guerra na Síria... Daqui surgiu o contexto da visita do Manuel Alegre.

Confesso que adorei! e por vários motivos: um deles foi ouvir o pensamento de Manuel Alegre e o outro foi perceber que os miúdos até não eram tolos de todo e que foram capazes de colocar questões relevantes e organizar a sessão. Isto foi de tal ordem que o próprio Manuel Alegre, a páginas tantas, se entusiasmou.

A sessão começou com um enquadramento da obra do poeta e um dos miúdos disse:

Nambuangongo Meu Amor
 
Em Nambuangongo tu não viste nada
não viste nada nesse dia longo longo
a cabeça cortada
e a flor bombardeada
não tu não viste nada em Nambuangongo

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste
em cada homem um morto que não morre.
Sim nós sabemos Hiroxima é triste
mas ouve em Nambuangongo existe
em cada homem um rio que não corre.

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto
em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece
em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu
não sabes mas eu digo-te: dói muito.
Em Nambuangongo há gente que apodrece.

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta
cada carta é um adeus em cada carta se morre
cada carta é um silêncio e uma revolta.
Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.
E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

É justo que me fales de Hiroxima.
Porém tu nada sabes deste tempo longo longo
tempo exactamente em cima
do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima
com a palavra morte em Nambuangongo.


Não tenho vergonha em dizer que me emocionei e sei que o Manuel Alegre também... Daqui surgiu uma intervenção muito bonita sobre a história de vida do poeta. Vida de estudante, tropa, regresso a Portugal, exílio, ... confessou a dificuldade em falar da guerra e dos sonhos que ainda tem recorrentemente  (como muitos ex-militares têm) sobre certos episódios da guerra. Daqui surgiu o contexto que torna este poema com ainda mais sentido para mim

 Metralhadoras cantam

Acenderam-se as armas pela noite dentro.
Quem rebenta? Quem morre? Quem vive? Quem berra?
Há um vento de lamentos nos lamentos do vento...

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Cantam granadas a canção da morte.
E há uma rosa de sangue à flor da pele.
Morrer ou não morrer é uma questão de sorte!

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Cantam bazucas e morteiros e estilhaços...
Cantam esta canção do aço que não erra
no espaço do seu fogo.
O espaço entre dois braços.

Cantam metralhadoras a canção da guerra.
Há um tiro que parte, há um corpo que tomba.
Desta boca fechada há um morto que berra:
Quem estoira no meu peito? O coração? Uma bomba?

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Todo o tempo é uma batalha.
Ataque. Fuga. Fuga. Ataque.
Silêncio. Um silêncio que aterra.
Que marca o rosto com seu peso ruga a ruga.
Um silêncio que canta na canção da guerra.
Mina. Emboscada. Pó. Pólvora. Sangue. Fogo!
Acerta. Não acerta. Erra. Não erra.
Perdeu todo o sentido dizer se galope.

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Cada segundo pode ser o último segundo.
Como enterrar os mortos que a memória desenterra?
Há um poço tão fundo... tão fundo... tão fundo...

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Há um soldado que grita: “Eu não quero morrer!”
E o sangue corre gota a gota sobre a terra.
Vai morrer gritando: “Eu não quero morrer!”

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
Houve um que se deitou e disse: “Até amanhã!”
Mas amanhã é o dia em que se enterra
O soldado que disse: “Até amanhã!”

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
E um jipe corre pela noite dentro.
Avança. Não avança. Emperra. Não emperra.
Passam balas de chumbo nas balas do vento.

Metralhadoras cantam a canção da guerra.
E há duzentos quilómetros de morte
Em duzentos quilómetros de terra.
Neste caminho de Luanda para o norte
Metralhadoras cantam a canção da guerra.

   
Depois... apenas registei algumas frases soltas que disse aos miúdos:
"Nunca nada está adquirido. Lutemos pela liberdade" ; "aprendam a ser livres"; "Não tenho alma de lacaio" ; "se não lutarem para ser livres, vão ser lacaios"; "Se não lutam para ser cidadãos, vão ser súbditos" ; "têm que ganhar a guerra do primeiro emprego"

"A constituição consagra o direito à desobediência em certas circunstâncias"

"A palavra [do poeta] é uma arma"; "não há poeta português que se preze que não tenha passado pela cadeia""; "A poesia e´o dom da música que está dentro da palavra"; "eu acredito no efeito mágico da palavra". 

Comovi-me diversas vezes... histórias de Coimbra ... já é uma vida sempre acompanhado, nos bons e maus momentos, com a poesia de Manuel Alegre.

No fim pedi-lhe dois autógrafos... Um na "praça da canção", já velhinho mas que me tem acompanhado sempre, sempre... e outro  "no miúdo que pregava pregos..." com que me identifico por eu próprio, já muitas vezes, me perceber em fazer introspecção sobre episódios da minha infância, já a fazer um balanço de percas e ganhos...

Que momentos fantásticos!

Sem comentários:

Enviar um comentário