quarta-feira, 1 de junho de 2011

1356 - Há quem viva sem dar por nada

"Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber"


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Muitas vezes me interroguei (interrogo) se fiz as opções profissionais certas e se todo o caminho que tenho seguido não foi um profundo disparate e um absoluto erro de casting...

Continuo a não ver claro

No entanto...

De uma coisa posso estar certo, a par de ter conhecido gente com a qual não faço nem nunca farei caminho, tive a felicidade de conhecer gente cinco estrelas, gente a quem posso considerar amigos e que estão/estarão indefectivelmente ao meu lado (e eu ao lado deles). Gente que ajuda e é por mim ajudada.

Só por isso terá valido a pena! Acrescentei gente muito boa aos meus percursos de vida. partilho os meus tesouros com que os quis receber...

Aqueles que, comigo, se tornaram caminhantes eu digo: "Obrigado por serem quem são"

"Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto."

2 comentários:

  1. Regressada, gostei tanto de ler este texto do Zé Mário Branco...
    Obrigada, João.

    Beijo.

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  2. Maria:

    E ao responder-te gostei, mais uma vez, de o reler.

    Um dia atingirei(mos) o Nirvana!

    Beijo

    João

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