segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

1229 - Noite de temporal

















É Noite
É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão. Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro

2 comentários:

  1. Independentemente da luz se apagar ou não, eu gosto das noites de temporais...

    Um beijo, João.

    ResponderEliminar
  2. Maria:

    Eu também ou não tivesse nascido em Novembro. E se gosto das 1ª chuvas... Até abro a janela só para respirar

    beijo

    João

    ResponderEliminar