quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

1245 - Balanço prospectivo do ano velho


Cada vez mais, acho menos graça a datas fixas pelo calendário. Gosto de algumas que fazem sentido ligadas à Natureza e às estações do ano, outras não fazem muito sentido. Acreditar que por se rasgar uma folha de calendário tudo mudará num toque de mágica já deixou de fazer sentido para mim...

No entanto... É sempre bom pensar no que ocorreu na espuma dos dias e neste vai e vem constante para recordar o bom e para evitar os erros cometidos. Isso sim, ajuda a melhorar o novo ano que agora entra

Da minha parte, gostei de ter recomeçado esta semana a andar de transportes públicos (acabou a lufa-lufa da formação, a gasolina está cada vez mais cara e gastando quase o mesmo tempo, ganho tempo para ler). Entre ontem e hoje devorei já um livro e tive a grata alegria de voltar a ver as cores de Lisboa ao por do sol. Que lindas são as cores de Lisboa e as suas colinas quando se lhe dá o poente. Que pena não ter a máquina ao pé de mim para registar o momento (fica na memória) Hoje que tinha a máquina já vim mais tarde e choviscava...

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Irei fazer meus dois textos que me podem ajudar a ter um ano extraordinário (apesar de tudo o que aí vem)

De Charlie Chaplin

Já perdoei erros quase imperdoáveis,

tentei substituir pessoas insubstituíveis
e esquecer pessoas inesquecíveis.

Já fiz coisas por impulso,
já me decepcionei com pessoas
quando nunca pensei me decepcionar,

mas também decepcionei alguém.

Já abracei pra proteger,
já dei risada quando não podia,
fiz amigos eternos,
amei e fui amado,
mas também já fui rejeitado,
fui amado e não amei.

Já gritei e pulei de tanta felicidade,
já vivi de amor e fiz juras eternas,
“quebrei a cara muitas vezes”!

Já chorei ouvindo música e vendo fotos,
já liguei só para escutar uma voz,
me apaixonei por um sorriso,
já pensei que fosse morrer de tanta saudade
e tive medo de perder alguém especial
(e acabei perdendo).


Mas vivi, e ainda vivo!
Não passo pela vida…
E você também não deveria passar!
Viva!
Bom mesmo é ir à luta com determinação,
abraçar a vida com paixão,
perder com classe
e vencer com ousadia,
porque o mundo pertence a quem se atreve
e a vida é “muito” pra ser insignificante.

Charles Chaplin
(16 de Abril de 1889 — 25 de Dezembro de 1977)


E, sobre a gestão do tempo (que é um defeito meu)

Há cada vez menos tempo para terminar todas as tarefas que temos diariamente. Tarefas profissionais e domésticas podem levar-nos à exaustão por incapacidade de fazer tudo aquilo que tínhamos planeado no início do dia. Para melhorar precisamos de dominar a técnica de Gestão do Tempo.

À primeira vista podemos pensar que a gestão do tempo é estarmos a perder ainda mais tempo precioso que podíamos usar para implementar mais rapidamente, mas os estudos existentes mostram que não é verdade.

O problema de gerir o tempo não é apenas o facto de termos muitas coisas para fazer durante o dia, é principalmente uma questão de não gerirmos o tempo a nosso favor para fazer o que tem de ser feito de importante na altura em que estamos mais produtivos. Muitas vezes estamos ocupados a fazer as coisas urgentes mesmo que não sejam as coisas mais importantes. Aliás podemos até estar a perder tempo com coisas insignificantes que prejudicarão em muito a nossa gestão do tempo mais tarde.

Após vários estudos na área da gestão de tempo, concluiu-se que os maiores gastadores de tempo são:

  • Interrupções mal geridas. Não podemos acabar com as interrupções, mas podemos aprender a geri-las eficientemente.
  • Atitude. Passar o dia sem qualquer objectivo real, deixando as horas passarem e adiando todas as tarefas até à última hora possível.
  • Não delegar correctamente. Não partilhar o trabalho com os outros e tentar fazer tudo sozinho, mesmo que saiba que não será possível.

Uma má gestão do tempo leva a que fiquemos irritados com os colegas, cansados física e psicologicamente, dificuldades de concentração, não dormir bem (que afecta toda a sua performance do dia) e em casos extremos, uma depressão.

Princípios de Gestão do Tempo

Aqui ficam algumas formas correctas de gestão do tempo:

Aprenda a reconhecer em si o problema da gestão do tempo e como se manifesta em si. Stress? Cansaço?

Não trabalhe mais horas só porque não consegue ter o trabalho pronto. Aprenda a gerir o tempo e a usar as horas que dispõe da forma mais produtiva possível, depois esqueça o trabalho e vá para casa.

Planeie o seu tempo antes de começar a trabalhar. Isto dar-lhe-á uma excelente sensação de estar com as coisas controladas.

Preocupe-se em mostrar resultados durante o tempo que passa na empresa e não em trabalhar mais horas do que os outros. O seu chefe vai reconhecê-lo como sendo uma pessoa que age rapidamente, não perde tempo com coisas insignificantes e entrega os resultados que a empresa necessita.

Técnicas de Gestão do Tempo

Se tem funções de gestão ou supervisão, verá que tem muitas coisas a correrem em simultâneo e a empresa deseja que entregue os resultados em todos os projectos paralelos, mesmo que você seja apenas um.

Por isso, o objectivo de gestão de tempo não deverá ser o de encontrar mais tempo nas horas do dia, mas sim usar o tempo que tem de forma eficiente. É preciso praticar para ir conhecendo o sistema que melhor funciona com o seu corpo. Por exemplo, pode ser uma pessoa madrugadora ou não e isso influenciará a forma como abordar os problemas do dia.

Uma forma de analisar a forma como gasta o seu tempo é fazendo um diário das tarefas e do tempo que gastou. Aponte tudo o que fez, tarefas importantes, tarefas insignificantes, pausas e deslocações. Faça isso durante uma semana e analise os resultados no final, para ver se gastou o tempo nos sítios em que devia ou não.

Faça uma lista de tarefas do dia, antes de começar a trabalhar. Idealmente essa lista deveria ser feita no final do dia anterior, com a indicação da importância. No dia seguinte, comece logo a trabalhar sem interrupções na tarefa mais importante e vá seguindo para as tarefas menos importantes. Se não conseguir fazer tudo durante o dia, pelo menos sabe que fez as tarefas mais importantes.

Aprenda também a deixar o seu local de trabalho organizado no final do dia. Não perde mais de cinco minutos e quando chegar no dia seguinte vai ter uma sensação muito agradável.

Aprenda a fazer a distinção entre as tarefas que pode delegar e as tarefas que tem mesmo de fazer. Escolha fazer aquelas que mais ninguém poderá fazer e que tenham a máxima importância na sua função para o bem da empresa onde trabalha.

Quando está a trabalhar nas tarefas importantes, faça tudo o que estiver ao seu alcance para não ser interrompido. Desligue o telefone, não veja o e-mail, coloque um sinal a dizer ‘ocupado’.

Não esteja constantemente a ver o seu e-mail. Desligue os alertas e leia os e-mails todos durante horas certas do dia. Por exemplo, duas vezes por dia, uma de manhã e outra de tarde.

Aprenda a organizar a sua informação para não perder tempo à procura, quando devia estar a trabalhar.

É muito importante deixar espaços vagos na agenda, para pequenos imprevistos e principalmente para poder parar frequentemente e analisar o que já fez, o que falta fazer e retomar o rumo certo para ter um dia produtivo.

Aprenda a gerir reuniões, porque são uma das principais formas de perder tempo das empresas.

A gestão de tempo é uma disciplina que requer algum planeamento e muita vontade de ser produtivo. Mas é também uma forma de fazer o seu trabalho motivado durante o tempo em que está na empresa e depois ir para sua casa e aproveitar o resto do tempo para si, para relaxar com a família e ganhar forças para o dia seguinte. Com uma correcta gestão do tempo irá viver mais saudavelmente.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

1244 - Jó, Romance de um Homem simples



Este foi mesmo o que se chama de amor à primeira vista. Li a crítica no "Expresso" de 18 de Dezembro, anotei na minha lista de compras, nas trocas de Natal fui a correr comprá-lo e li-o em dois dias...

A história é a conhecida da Bíblia...

"Numa cidadezinha russa do início do século XX vivia um judeu muito simples e religioso. Seu nome era Mendel Singer. Homem comum, modesto e temente a Deus, Mendel exercia o ofício de professor, transmitindo os ensinamentos da Bíblia às crianças. Com a mulher, Débora, teve três filhos: Jonas, Schemariah e Miriam. Mas o nascimento do quarto filho dá início a uma série de tormentos: Menuhim é uma criança doente, vitimada pela fraqueza, pela deformidade física e pela epilepsia.

A eclosão da guerra traz novos infortúnios à família Singer. Entre alistamento e deserção, os dois filhos saudáveis de Mendel e Débora tomarão decisões opostas: uma conduzirá aos campos de batalha; a outra, à emigração para a América. Auxiliado pelo filho no estrangeiro e atormentado pelos namoros constantes da filha com os cossacos, também Mendel tomará a decisão de partir. Ao fazê-lo, porém, terá de deixar para trás o filho doente.
"

Se o leitor já está à espera de uma romance sobre o sofrimento do justo, bem depressa se enamora do relato e se centra na questão central que está muito bem contada: "por que sofre o homem justo?"
É um tema clássico, Saramago também pega muito bem nele em alguns dos seus romances: O evangelho de Jesus Cristo, Caim, O memorial do convento...

Neste romance o drama vai crescendo e chega a ser empolgante a cena da luta entre o bom Mendel e Deus.

«Então diz-nos o que queres queimar!» «Quero queimar Deus.» Os quatro ouvintes soltaram um grito simultâneo. [...] E quando Mendel blasfemou contra Deus, sentiram-se como se ele tivesse arranhado com os dedos cortantes os seus corações despidos.
«Não blasfemes, Mendel», disse Skowronnek após um longo silêncio. «Sabes melhor do que eu, pois estudaste muito mais, que os golpes de Deus têm um sentido oculto. Nós não sabemos porque somos castigados.» «Mas eu sei, Skowronnek», respondeu Mendel. «Deus é cruel e quanto mais lhe obedecemos, mais severo é connosco.
É mais poderoso do que os poderosos, a quem pode aniquilar com a unha do seu dedo mindinho, mas não o faz. Os fracos é que ele gosta de destruir. A fraqueza de um homem desafia a sua força e a obediência desperta a sua ira. É um grande e cruel ispravnik. Se cumpres a lei, ele diz-te que só a cumpriste em proveito próprio. Se infringes um mandamento que seja, ele persegue-te com cem castigos. Se o queres corromper, põe-te um processo. E se te comportas honestamente com ele, ele fica a aguardar o suborno. Em toda a Rússia não existe pior ispravnik! »

É um grande romance sobre o mistério da vida e da morte

Jó - Romance de um homem simples

Este foi mesmo  o que se chama de amor à primeira vista. Li a crítica no "Expresso" de 18 de Dezembro, anotei na minha lista de compras, nas trocas de Natal fui a correr comprá-lo e li-o em dois dias...

A história é a conhecida da Bíblia... 

"Numa cidadezinha russa do início do século XX vivia um judeu muito simples e religioso. Seu nome era Mendel Singer. Homem comum, modesto e temente a Deus, Mendel exercia o ofício de professor, transmitindo os ensinamentos da Bíblia às crianças. Com a mulher, Débora, teve três filhos: Jonas, Schemariah e Miriam. Mas o nascimento do quarto filho dá início a uma série de tormentos: Menuhim é uma criança doente, vitimada pela fraqueza, pela deformidade física e pela epilepsia.

A eclosão da guerra traz novos infortúnios à família Singer. Entre alistamento e deserção, os dois filhos saudáveis de Mendel e Débora tomarão decisões opostas: uma conduzirá aos campos de batalha; a outra, à emigração para a América. Auxiliado pelo filho no estrangeiro e atormentado pelos namoros constantes da filha com os cossacos, também Mendel tomará a decisão de partir. Ao fazê-lo, porém, terá de deixar para trás o filho doente."

Se o leitor já está à espera de uma romance sobre o sofrimento do justo, bem depressa  se enamora do relato e se centra na questão central que está muito bem contada: "por que sofre o homem justo?"
É um tema clássico, Saramago também pega muito bem nele em alguns dos seus romances: O evangelho de Jesus Cristo, Caim, O memorial do convento...

Neste romance o drama vai crescendo e chega a ser empolgante a cena da luta entre o bom Mendel e Deus.

«Então diz-nos o que queres queimar!» «Quero queimar Deus.» Os quatro ouvintes soltaram um grito simultâneo. [...] E quando Mendel blasfemou contra Deus, sentiram-se como se ele tivesse arranhado com os dedos cortantes os seus corações despidos.
«Não blasfemes, Mendel», disse Skowronnek após um longo silêncio. «Sabes melhor do que eu, pois estudaste muito mais, que os golpes de Deus têm um sentido oculto. Nós não sabemos porque somos castigados.» «Mas eu sei, Skowronnek», respondeu Mendel. «Deus é cruel e quanto mais lhe obedecemos, mais severo é connosco.
É mais poderoso do que os poderosos, a quem pode aniquilar com a unha do seu dedo mindinho, mas não o faz. Os fracos é que ele gosta de destruir. A fraqueza de um homem desafia a sua força e a obediência desperta a sua ira. É um grande e cruel ispravnik. Se cumpres a lei, ele diz-te que só a cumpriste em proveito próprio. Se infringes um mandamento que seja, ele persegue-te com cem castigos. Se o queres corromper, põe-te um processo. E se te comportas honestamente com ele, ele fica a aguardar o suborno. Em toda a Rússia não existe pior ispravnik! »

É um grande romance sobre o mistério da vida e da morte

1243 - Leituras recentes


Recentemente acabei de ler estas dois livros de Helena Marques. Retratam um universo muito feminino. confesso que gostei mais de ler o Último Cais pela força das personagens femininas e por relatar a vida na madeira no séc XIX. O segundo (continuação do primeiro) é mais uma história de amor que imagino que seja mais ou menos comum na literatura destinada ao público feminino (preconceito meu, claro está). Como o romance se passa em Malta onde estive à pouco tempo, a leitura interessou-me de um modo particular...

Sinopses retiradas daqui

O ÚLTIMO CAIS






Em 1992, Helena Marques publica seu primeiro romance: O último cais. Ganha os prêmios: Prêmio Revista Ler/ Círculo dos Leitores; Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1992); Prêmio Máxima-Revelação, Prêmio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, e Prêmio Procópio de Literatura (1992)
Este romance relata a saga do família Vella ou Villa, em Funchal, no século XIX. Mostra o isolamento e confinamento dos habitantes de uma ilha. A notícia só chega com o próximo navio para aqueles que não podem deixar a ilha.
As mulheres são as personagens centrais. Raquel é a protagonista. É feliz no casamento e tem uma perspectiva positiva da vida. As outras mulheres são personagens que interagem com Raquel e sua família:Constança, a tia de Raquel, é infeliz e solitária;Catarina Isabel é a mulher profissional daquela época;Violante é a boa esposa, que perdeu o interesse pelo sexo ao não ter filhos;Benedita é a filha conservadora de Raquel; Charlotte é a estrangeira, que tenta convencer as mulheres a votar;
Clara é a outra filha de Raquel, cândida e harmoniosa.
Luciana é a mulher livre, que antecipa o século XX.
Cada mulher representa um tipo de mulher portuguesa daquela época.
O último cais começa com o diário de bordo, de 4 de setembro de 1879.

O romance termina em 1904.

A DEUSA SENTADA



Em 1994, Marques publica A deusa sentada. Esta obra é a continuação da anterior. Em O último cais, Raquel dá à luz Clara. Em A deusa sentada, Clara é a avó de Laura A autora continua o tema da busca da identidade da feminina e do retorno às raízes. Como é esta mulher do século XX?

As personagens principais são Laura e Matilde, duas mulheres independentes e profissionais. Laura e Matilde estão unidas por um profundo elo afetivo Ambas são mulheres maduras, que revêem a condição feminina na meia-idade. Pode-se amar ansiar pelo amor mesmo com mais idade.

Laura é casada com Lourenço, que não aparece na obra. Ela é dona de uma livraria. Matilde é descasada. Matilde fora casada com Artur, vítima da guerra e um desadaptado social É tradutora de livros e faz traduções simultâneas.

Trata-se de um romance “detetivesco”: achar o paradeiro de André Villa (ou Vella), em Malta. “Detetive de factos contemporâneos, investigador de papéis antigos, qual é a diferença? Apenas uma questão de presente e passado - ou não será?”

Por que Malta? “Porque Malta fôra terra de incessante migração, em que poderia servi-las?” Porque Malta tem a pequenez e a fragilidade aparente das mulheres. A capital de Malta, onde se desenrola o romance, é La Valletta, nome de um dos grão-mestres; capital com uma história antiga. De lá, muitos emigraram para o Funchal. Marques faz uma revisão histórica, sobretudo porque a de Malta costuma passar despercebida.

A História, ou melhor, o passado é fundamental para Laura: “Pessoalmente, tenho de confessar-me muito mais seduzida pelo passado, afinal é ele que me justifica, é nele que me reencontro e entendo, é apoiada nele que me projecto no futuro”. Na História estão as raízes.

Laura e Matilde encontram suas raízes nesta viagem a Malta, numa figura simbólica feminina:

no templo de Hagar Qim, [que] é a de uma mulher sentada, pés e mãos minúsculos, reduzidos a uma mera sugestão, toda a força emana dos poderosos troncos e coxas, os joelhos estão dobrados lateralmente e repousam no chão afastados um do outro, o pé esquerdo aflorando a perna direita, numa posição cheia de placidez a que só a linha dos ombros bem erguidos imprime altivez e dignidade.

“Malta é como a pequena Deusa Sentada, Malta é a própria Deusa Sentada”. A mulher portuguesa é esta deusa sentada, “ensinando o seu povo a resistir e a preservar os valores tradicionais e também lucidamente, a distinguir e a assimilar os valores que os outros iam deixando”.

Esta Deusa Sentada é a Mulher, mulher universal. É uma mulher-deusa: “ilha-mãe acolhedora, sedutora, misteriosa, terna e eterna.

Biografia

1935: A 17 de Maio nasce Helena Marques em Carcavelos, Portugal. Aos três meses é levada pelos pais para Funchal, onde cresce e completa seus estudos. - 1957: Ingressa no jornal Diário de Notícias em Funchal. - 1958: Casa-se com Rui Camacho. - 1971: Muda-se para Lisboa. - 1978: Começa a trabalhar no Diário de Notícias de Lisboa. - 1986: Recebe o prêmio de Jornalista do Ano. - 1992: Aposenta-se do Diário de Notícias. - 1992: Publica o romance O último cais. -1992: Ganha os seguintes prêmios: Prêmio Revista Ler/Círculo dos Leitores; Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; Prêmio Máxima-Revelação, Prêmio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, e Prêmio Procópio de Literatura. - 1994: Publica A deusa sentada. - 1998: Publica Terceiras pessoas. - 2002: Publica Os íbis vermelhos de Guiana.

Leituras recentes - De Helena Marques

Recentemente acabei de ler estas dois livros de Helena Marques. Retratam um universo muito feminino. confesso que gostei mais de ler o Último Cais pela força das personagens femininas e por relatar a vida na madeira no séc XIX. O segundo (continuação do primeiro) é mais uma história de amor que imagino que seja mais ou menos comum na literatura destinada ao público feminino (preconceito meu, claro está). Como o romance se passa em Malta onde estive à pouco tempo, a leitura interessou-me de um modo particular...

Sinopses retiradas daqui

O ÚLTIMO CAIS


Em 1992, Helena Marques publica seu primeiro romance: O último cais. Ganha os prêmios: Prêmio Revista Ler/ Círculo dos Leitores; Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (1992); Prêmio Máxima-Revelação, Prêmio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, e Prêmio Procópio de Literatura (1992).
Este romance relata a saga do família Vella ou Villa, em Funchal, no século XIX. Mostra o isolamento e confinamento dos habitantes de uma ilha. A notícia só chega com o próximo navio para aqueles que não podem deixar a ilha.
As mulheres são as personagens centrais. Raquel é a protagonista. É feliz no casamento e tem uma perspectiva positiva da vida. As outras mulheres são personagens que interagem com Raquel e sua família:
Constança, a tia de Raquel, é infeliz e solitária;
Catarina Isabel é a mulher profissional daquela época;
Violante é a boa esposa, que perdeu o interesse pelo sexo ao não ter filhos;
Benedita é a filha conservadora de Raquel;
Charlotte é a estrangeira, que tenta convencer as mulheres a votar;
Clara é a outra filha de Raquel, cândida e harmoniosa. 

Luciana é a mulher livre, que antecipa o século XX.
Cada mulher representa um tipo de mulher portuguesa daquela época.
O último cais começa com o diário de bordo, de 4 de setembro de 1879.
O romance termina em 1904.


A DEUSA SENTADA


Em 1994, Marques publica A deusa sentada. Esta obra é a continuação da anterior. Em O último cais, Raquel dá à luz Clara. Em A deusa sentada, Clara é a avó de Laura A autora continua o tema da busca da identidade da feminina e do retorno às raízes. Como é esta mulher do século XX?
As personagens principais são Laura e Matilde, duas mulheres independentes e profissionais. Laura e Matilde estão unidas por um profundo elo afetivo Ambas são mulheres maduras, que revêem a condição feminina na meia-idade. Pode-se amar ansiar pelo amor mesmo com mais idade.
Laura é casada com Lourenço, que não aparece na obra. Ela é dona de uma livraria. Matilde é descasada. Matilde fora casada com Artur, vítima da guerra e um desadaptado social É tradutora de livros e faz traduções simultâneas.
Trata-se de um romance “detetivesco”: achar o paradeiro de André Villa (ou Vella), em Malta. “Detetive de factos contemporâneos, investigador de papéis antigos, qual é a diferença? Apenas uma questão de presente e passado - ou não será?”
         Por que Malta? “Porque Malta fôra terra de incessante migração, em que poderia servi-las?” Porque Malta tem a pequenez e a fragilidade aparente das mulheres. A capital de Malta, onde se desenrola o romance, é La Valletta, nome de um dos grão-mestres; capital com uma história antiga. De lá, muitos emigraram para o Funchal. Marques faz uma revisão histórica, sobretudo porque a de Malta costuma passar despercebida.
A História, ou melhor, o passado é fundamental para Laura: “Pessoalmente, tenho de confessar-me muito mais seduzida pelo passado, afinal é ele que me justifica, é nele que me reencontro e entendo, é apoiada nele que me projecto no futuro”. Na História estão as raízes.
Laura e Matilde encontram suas raízes nesta viagem a Malta, numa figura simbólica feminina:
no templo de Hagar Qim, [que] é a de uma mulher sentada, pés e mãos minúsculos, reduzidos a uma mera sugestão, toda a força emana dos poderosos troncos e coxas, os joelhos estão dobrados lateralmente e repousam no chão afastados um do outro, o pé esquerdo aflorando a perna direita, numa posição cheia de placidez a que só a linha dos ombros bem erguidos imprime altivez e dignidade.
“Malta é como a pequena Deusa Sentada, Malta é a própria Deusa Sentada”. A mulher portuguesa é esta deusa sentada, “ensinando o seu povo a resistir e a preservar os valores tradicionais e também lucidamente, a distinguir e a assimilar os valores que os outros iam deixando”.
Esta Deusa Sentada é a Mulher, mulher universal. É uma mulher-deusa: “ilha-mãe acolhedora, sedutora, misteriosa, terna e eterna.



Biografia
1935: A 17 de Maio nasce Helena Marques em Carcavelos, Portugal. Aos três meses é levada pelos pais para Funchal, onde cresce e completa seus estudos. - 1957: Ingressa no jornal Diário de Notícias em Funchal. - 1958: Casa-se com Rui Camacho. - 1971: Muda-se para Lisboa. - 1978: Começa a trabalhar no Diário de Notícias de Lisboa. - 1986: Recebe o prêmio de Jornalista do Ano. - 1992: Aposenta-se do Diário de Notícias. - 1992: Publica o romance O último cais. -1992: Ganha os seguintes prêmios: Prêmio Revista Ler/Círculo dos Leitores; Grande Prêmio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores; Prêmio Máxima-Revelação, Prêmio Bordallo de Literatura da Casa da Imprensa, e Prêmio Procópio de Literatura. - 1994: Publica A deusa sentada. - 1998: Publica Terceiras pessoas. - 2002: Publica Os íbis vermelhos de Guiana.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Poema do menino Jesus

Palavras a acrescentar a palavras? não faz sentido! Não seria capaz de acrescentar mais. Deixo-vos uma leitura dita
Bom Natal

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

1241 - Ficam as boas recordações e também faz parte da playlist

Dedicado a ...



Canção da América

Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de sete chaves
Dentro do coração
Assim falava a canção que na América ouvi
Mas quem cantava chorou
Ao ver o seu amigo partir

Mas quem ficou, no pensamento voou
Com seu canto que o outro lembrou
E quem voou, no pensamento ficou
Com a lembrança que o outro cantou

Amigo é coisa para se guardar
No lado esquerdo do peito
Mesmo que o tempo e a distância digam "não"
Mesmo esquecendo a canção
O que importa é ouvir
A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier
Qualquer dia, amigo, eu volto
A te encontrar
Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

Milton Nascimento

Rap de Natal


Preparados? Vamos rappar em conjunto!
Desejo um Natal especial para a "equipa redactorial" deste blogue e todos os seus leitores.


O rap do Natal_2

1240 - Testemunhos de Natal



No último dia de aulas acompanhei uma turma numa festa de Natal organizada pela DT e conselho de Turma.

Cantaram, riram e também disseram, à maneira de um jogral, o poema abaixo. É mesmo um poema delicioso que foi escrito para ser dito e não apenas para ser lido.

Veja-se a fonética e a onomatopeia! Belo.

Quem o escreveu? Vinicius, pois claro


Testemunhos de Natal

De repente o sol raiou
E o galo cocoricou:

— Cristo nasceu!

O boi, no campo perdido
Soltou um longo mugido:

— Aonde? Aonde?

Com seu balido tremido
Ligeiro diz o cordeiro:

— Em Belém! Em Belém!

Eis senão quando, num zurro
Se ouve a risada do burro:

— Foi sim que eu estava lá!

E o papagaio que é gira
Pôs-se a falar: — É mentira!

Os bichos de pena, em bando
Reclamaram protestando.

O pombal todo arrulhava:
— Cruz credo! Cruz credo!

Brava
A arara a gritar começa:

— Mentira! Arara. Ora essa!

— Cristo nasceu! canta o galo.
— Aonde? pergunta o boi.
— Num estábulo! — o cavalo
Contente rincha onde foi.

Bale o cordeiro também:

— Em Belém! Mé! Em Belém!

E os bichos todos pegaram
O papagaio caturra
E de raiva lhe aplicaram
Uma grandíssima surra.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

1239 - A minha playlist



Esta também é uma das imprescindíveis na minha playlist. Conheço-a de há muitos anos e na minha juventude tinha-a como lema/ideal

Hoje em dia, já não estou certo de poder dizer o "tu não" que dizia com convicção há anos atrás...
Tive que aprender a ser "hábil" e a "calar-me", no entanto há outros "tu não" que me orgulho de poder continuar a afirmar.
Do que mais me orgulho é o de ainda falhar os cálculos e ir de mãos dadas com o perigo. Como dizia alguém esta semana, "quem nunca arriscou, nunca deu o beijo da sua vida". Felizmente que continuo vivo! Felizmente que não vou à sombra dos abrigos e procuro manter um rumo.
Voa alto... voltamos ao início do blogue!


Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

Sophia de Mello Breyner Andersen

domingo, 19 de dezembro de 2010

1238 - Lá vem ele com uma de ingenuidade e sentimentalismo

Não, não é o "para não dizer que não falei de flores", também não é a época natalícia, nem um elogio do pobrezinho coitadinho e de ser preciso fazer qualquer coisa... ("o sempre que o casaco do pobre se rompe" do Zé Mário Branco é suficiente para desfazer qualquer ingenuidade!)

O tom é mais profundo e prende-se com uma mundividência. Esta semana foi repleta de momentos intensos e de verdadeira comunhão e sentimento de fraternidade (compreendendo desde já que esta palavra está carregada de múltiplas leituras e que corro um risco ao usa-la) entre colegas de vários ambientes de trabalho onde me movo...
Na escola, após uma ausência de uns dias o acolhimento foi caloroso. Como estás? que fazes? contrastando com um ambiente de chumbo que se sente na sala de professores. Uma mãe conversa comigo e elogia o meu trabalho de uma forma que me deixou sem jeito (e logo eu que acho que só faço a minha obrigação) e que acredita que marcarei a filha para o futuro.
Nos outros trabalhos também um ambiente de profunda empatia: O final de uma formação intensa na qual se sentiu estabelecer uma relação pessoal, um almoço no dia seguinte em que me senti muito bem acolhido...
Mais adiante um almoço e um jantar profundamente calorosos com gente que quero muito e muito me ampara para o bem e para o mal

Que diabo! depois de experimentar o excelente não me contento com a mediocridade nas relações entre as pessoas. Esta coisa de estar sempre na defensiva... de sacanear,de passar por cima para...

É possível viver de outro modo!

Sim sou crente, mas não sou daqueles que vivem esta vida no sentido do coitadinho ou do batam-me ou de servir de capacho para depois ter uma recompensa lá num assento etéreo ou lá o que é!

Quero já o Céu ou o que quer que seja já aqui e agora. É possível! Basta querer

(bom já vi que devo ser pouco crente pois cada vez tenho menos paciência para perdoar a quem me sacaneia vezes sem fim)

(obrigado Maria pelo link)

Padre Pueblo PATXI ANDION

Padre Pueblo que estás en la Tierra,
elevados sean tus hombres.
Traigamos tu reino,
y se haga tu voluntad
así en la tierra como en la mar.

El pan de todos de cada día
ganémosle hoy,
y perdónanos el haber nacido.

No permitas que perdonemos nunca a nuestros deudores,
y haznos caer en la tentación de la libertad.
Y líbranos del mal de la soledad.
Amén.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Desencuentros

Desencuentros de Jimmy Liao é um dos  meus livros favoritos.... fica aqui a animação

1237 - A minha playlist

L'absence de Serge Reggiani

Ouvi-a pela primeira vez com os meus 12/13 anos na casa de uma amiga cuja mãe era viúva recente. Pelos vistos a mãe ouvia-a muito...

Foi a primeira vez que consciencializei que podia haver ausência de um amor... ausência

Confesso que não a entendi muito bem nessa altura, mas logo que pude comprei o disco

Marcou-me... Sempre fui muito ingénuo e um pouco despreocupado (se calhar ainda o sou). Por essa altura tive o meu primeiro choque epistemológico.

Tenho-a ouvido ao longo destes anos em fases de ausência e saudades do futuro, de um não sei quê, que surge não sei de onde...



L'absence

C'est un volet qui bat
C'est une déchirure légère
Sur le drap où naguère
Tu as posé ton bras
Cependant qu'en bas
La rue parle toute seule
Quelqu'un vend des mandarines
Une dame bleu-marine
Promène sa filleule
L'absence, la voilà

L'absence

D'un enfant, d'un amour
L'absence est la même
Quand on a dit je t'aime
Un jour...
Le silence est le même

C'est une nuit qui tombe
C'est une poésie aussi
Où passaient les colombes
Un soir de jalousie
Un livre est ouvert
Tu as touché cette page
Tu avais fêlé ce verre
Au retour d'un grand voyage
Il reste les bagages
L'absence, la voilà

L'absence

D'un enfant, d'un amour
L'absence est la même
Quand on a dit je t'aime
Un jour...
Le silence est le même

C'est un volet qui bat
C'est sur un agenda, la croix
D'un ancien rendez-vous
Où l'on se disait vous
Les vases sont vides
Où l'on mettait les bouquets
Et le miroir prend des rides
Où le passé fait le guet
J'entends le bruit d'un pas
L'absence, la voilà

L'absence

D'un enfant, d'un amour
L'absence est la même
Quand on a dit je t'aime
Un jour...
Le silence est le même.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

1236 - Outono, quase Inverno



Chuva

Ponto a ponto se transcrevem os dias.
Cansou-se o sal de ser demais pujante
e ei-lo que esmorece numa palidez de trégua. Fia
mais fino o vento. Gota a gota
a chuva toma o seu lugar que, por direito,
nas horas que decorrem lhe pertence.
é então que a água fértil nos inunda
e enquanto bebemos vinho novo
há um campo de amor que é possuído
no amor em que a água e terra se repartem.

e caem folhas acenando a despedida
de um tempo em que o tempo estava feito.
mas nada atinge o belo nesta vida
a não ser que a chuva regue um amor-perfeito

Nuno Gomes dos Santos

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

A trégua de Primo Levi

Apesar de andar numa fase de muito trabalho, comprei o livro na noite aderente Fnac e li-o quase de um só fôlego.

Trata-se de "a Trégua" de Primo Levi (Turim, 1919-87)

A trégua narra a longa e incrível viagem de volta para casa depois da libertação de Auschwitz e do fim da guerra (Ver mapa) . Numa Europa semi destruída, o autor e vários companheiros de estrada viajam sem destino pelo Leste até a URSS, premidos entre as ruínas da maior de todas as guerras e o absurdo da burocracia dos vencedores.

Afinal a libertação tão ansiada não conduziu ninguém logo de volta a casa

Deixo aqui um excerto do magnífico relato:

"A meio da manhã, a máquina rugiu, com um profunda e maravilhosa voz metálica, sacudiu-se toda, vomitou um fumo negro, os tirantes esticaram-se, e as rodas começaram a girar. Olhámos uns para os outros, quase desorientados. Tínhamos resistido, afinal de contas: tínhamos vencido. Após o ano de Lager, de sofrimento e de paciência; após a vaga de morte a seguir à Libertação; após o gelo e a fome e o desprezo e a arrogante companhia do grego; após as doenças e a miséria de Katowice; após as transferências insensatas, por que nos sentíamos condenados a errar eternamente através dos espaços russos, como inúteis astros apagados; após o ócio e a nostalgia acerba de Staryje Doroghi, estávamos de novo em subida, portanto, em viagem para cima, a caminho de casa. O tempo, ao cabo de dois anos de paralisia, readquirira vigor e valor, trabalhava novamente para nós, e isto punha fim ao torpor do longo estio, à ameaça do inverno próximo, e tornava-nos impacientes, ávidos de dias e de quilómetros.
Mas bem cedo, logo desde as primeiras horas de viagem, tivemos de perceber que a hora da impaciência não tinha ainda soado: aquele itinerário feliz perspectivava-se longo e laborioso e não isento de surpresas: uma pequena odisseia ferroviária dentro da nossa odisseia maior. Precisávamos ainda de muita paciência, em doses imprevisíveis: de outra paciência.

o nosso comboio tinha mais de meio quilómetro de comprimento; os vagões encontravam-se em mau estado, as linhas também, a velocidade era irrisória, não superior aos quarenta ou cinquenta quilómetros horários. A linha era de via única; eram poucas as estações que dispunham de uma derivação tão comprida que permitisse a paragem, muitas vezes o comboio tinha de ser separado em duas ou três partes, e empurrado para as linhas de estacionamento com manobras complicadas e lentíssimas, para permitir a passagem de outros comboios.
Não existiam autoridades a bordo, à excepção do maquinista e da escolta, constituída pelos sete soldados de dezoito anos que tinham vindo da Áustria para nos aprisionarem. Estes, embora armados até aos dentes, eram criaturas cândidas e bem-educadas, de espírito ingénuo e pacífico, vivos e despreocupados como colegiais em férias, e absolutamente privados de autoridade e de sentido prático. A cada paragem do comboio, víamo-los passear pela plataforma para cima e para baixo, com a parabellum a tiracolo e de ar feroz e oficioso. Davam-se ares de muita importância, como se escoltassem um transporte de perigosos bandidos, mas era tudo aparências: em breve nos apercebemos de que as suas inspecções se centravam cada vez mais nos dois vagões das famílias, a meio do comboio. Não eram atraídos pelas mulheres jovens, mas pela atmosfera vagamente doméstica que emanava daqueles aciganados lares ambulantes, e que talvez lhes recordasse a casa longínqua e a infância que praticamente só agora terminava"

1235 - A trégua de Primo Levi

Apesar de andar numa fase de muito trabalho, comprei o livro na noite aderente Fnac e li-o quase de um só fôlego.

Trata-se de "a Trégua" de Primo Levi (Turim, 1919-87)

A trégua narra a longa e incrível viagem de volta para casa depois da libertação de Auschwitz e do fim da guerra (Ver mapa) . Numa Europa semi destruída, o autor e vários companheiros de estrada viajam sem destino pelo Leste até a URSS, premidos entre as ruínas da maior de todas as guerras e o absurdo da burocracia dos vencedores.

Afinal a libertação tão ansiada não conduziu ninguém logo de volta a casa

Deixo aqui um excerto do magnífico relato:

"A meio da manhã, a máquina rugiu, com um profunda e maravilhosa voz metálica, sacudiu-se toda, vomitou um fumo negro, os tirantes esticaram-se, e as rodas começaram a girar. Olhámos uns para os outros, quase desorientados. Tínhamos resistido, afinal de contas: tínhamos vencido. Após o ano de Lager, de sofrimento e de paciência; após a vaga de morte a seguir à Libertação; após o gelo e a fome e o desprezo e a arrogante companhia do grego; após as doenças e a miséria de Katowice; após as transferências insensatas, por que nos sentíamos condenados a errar eternamente através dos espaços russos, como inúteis astros apagados; após o ócio e a nostalgia acerba de Staryje Doroghi, estávamos de novo em subida, portanto, em viagem para cima, a caminho de casa. O tempo, ao cabo de dois anos de paralisia, readquirira vigor e valor, trabalhava novamente para nós, e isto punha fim ao torpor do longo estio, à ameaça do inverno próximo, e tornava-nos impacientes, ávidos de dias e de quilómetros.
Mas bem cedo, logo desde as primeiras horas de viagem, tivemos de perceber que a hora da impaciência não tinha ainda soado: aquele itinerário feliz perspectivava-se longo e laborioso e não isento de surpresas: uma pequena odisseia ferroviária dentro da nossa odisseia maior. Precisávamos ainda de muita paciência, em doses imprevisíveis: de outra paciência.

o nosso comboio tinha mais de meio quilómetro de comprimento; os vagões encontravam-se em mau estado, as linhas também, a velocidade era irrisória, não superior aos quarenta ou cinquenta quilómetros horários. A linha era de via única; eram poucas as estações que dispunham de uma derivação tão comprida que permitisse a paragem, muitas vezes o comboio tinha de ser separado em duas ou três partes, e empurrado para as linhas de estacionamento com manobras complicadas e lentíssimas, para permitir a passagem de outros comboios.
Não existiam autoridades a bordo, à excepção do maquinista e da escolta, constituída pelos sete soldados de dezoito anos que tinham vindo da Áustria para nos aprisionarem. Estes, embora armados até aos dentes, eram criaturas cândidas e bem-educadas, de espírito ingénuo e pacífico, vivos e despreocupados como colegiais em férias, e absolutamente privados de autoridade e de sentido prático. A cada paragem do comboio, víamo-los passear pela plataforma para cima e para baixo, com a parabellum a tiracolo e de ar feroz e oficioso. Davam-se ares de muita importância, como se escoltassem um transporte de perigosos bandidos, mas era tudo aparências: em breve nos apercebemos de que as suas inspecções se centravam cada vez mais nos dois vagões das famílias, a meio do comboio. Não eram atraídos pelas mulheres jovens, mas pela atmosfera vagamente doméstica que emanava daqueles aciganados lares ambulantes, e que talvez lhes recordasse a casa longínqua e a infância que praticamente só agora terminava"

domingo, 12 de dezembro de 2010

1234 - A minha playlist





A razão desta escolha é tão óbvia que nem necessita descrição. Basta ler a letra e navegar no blogue...
Um auto-retrato de que gosto e me identifico desde que a ouvi a primeira vez, no tempo em que ainda via (já não tão assiduamente como antes)o festival da Canção.

Por esta altura o grupo de amigos e as opções de futuro marcavam muito(íssimo) os meus dias e noites!


Silêncio e tanta gente

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro o amor em teu olhar
É uma pedra
Ou um grito
Que nasce em qualquer lugar

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal aquilo que sou
Sou um grito
Ou sou uma pedra
De um lugar onde não estou

Às vezes sou também
O tempo que tarda em passar
E aquilo em que ninguém quer acreditar

Às vezes sou também
Um sim alegre
Ou um triste não
E troco a minha vida por um dia de ilusão
E troco a minha vida por um dia de ilusão

Às vezes é no meio do silêncio
Que descubro as palavras por dizer
É uma pedra
Ou um grito
De um amor por acontecer

Às vezes é no meio de tanta gente
Que descubro afinal p'ra onde vou
E esta pedra
E este grito
São a história d'aquilo que sou

sábado, 11 de dezembro de 2010

1233 - A minha playlist

Para esta não são necessárias muitas palavras. Acompanha(ou)-me há muitos anos. Passou já a fase do ritmo intenso e adoro esta versão mais calma, mas muito cúmplice, e ternurenta da Rita Lee e do Milton Nascimento

Encontro de corpos claro, mas encontro de pessoas e de afinidades/cumplicidades e esta versão é tão cúmplice!

Tentando imaginar loucuras
A gente faz amor por telepatia
No chão, no ar, na lua, na melodia
Mania de você
Imaginar
Na melodia
Nada melhor que não fazer nada


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

1232 - Como em frente a um espelho



Perante um espelho

Eis-me perante um espelho
Quem vejo?
O que vejo?
Como me vejo?

Que imagem fica gravada?
Tu quem vês?
O que vês?
Como vês?

Eis-me perante um espelho
Vejo?
Sou eu?
Revejo-me?

Um espelho vê?
Um espelho julga?
Uma espelho sabe o que vê?
Um espelho?

Quem perante um espelho
Se vê?
Se julga?
Se revê?

Imagens?
Miragens?
Instantes?
Juízos?

O que se vê diante de um espelho?

...
Um espelho tem o direito de fazer juízos?
Um espelho tem o direito de...
Um espelho...

Espelhos
Imagens
Miragens

Pois
É puro narcicismo
espelho espelho meu, existe alguém?...
É isso

João P.
Dez 10

---
(Felizmente que já vou compreendendo o que me põe fora de mim em certas alturas... identifico claramente, Agora só falta saber o como lidar...
Come chocolates pequena, come chocolates!)

Não, a música não é deprimente! é uma das músicas da minha infância que guardo muito cá dentro... Recorda-me bons momentos

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

1231 - Humores

Hoje foi um daqueles dias 4 estações

Pela manhã andei deprimidissimo às voltas com a minha auto-estima e com a imagem que os outros têm ou não de mim

Pela tarde não me saía da cabeça a construção do Chico Buarque

Pelas 9 da noite uma entrevista no jornal das 9 que não consegui continuar a ver a propósito de políticas educativas (como o magalhães, ou o inglês do 1º Ciclo ou os agrupamentos deste ano) a implicar o sucesso dos alunos do 9º ano nos teste do Pisa do ano passado!

Pela noite ofereci-me a mim próprio uma noite de cinema (com o DVD - Cabaret). Mas que filme fabuloso, actualismo. Belo

E a mensagem final então... Life is a Cabaret... Let's take profite of it!
Não me apetece ser como a Elsie da canção...



What good is sitting alone in your room?
Come hear the music play.
Life is a Cabaret, old chum,
Come to the Cabaret.

Put down the knitting,
The book and the broom.
Time for a holiday.
Life is Cabaret, old chum,
Come to the Cabaret.

Come taste the wine,
Come hear the band.
Come blow your horn,
Start celebrating;
Right this way,
Your table's waiting

No use permitting
soem prophet of doom
To wipe every smile away.
Come hear the music play.
Life is a Cabaret, old chum,
Come to the Cabaret!

I used to have a girlfriend
known as Elsie
With whom I shared
Four sordid rooms in Chelsea

She wasn't what you'd call
A blushing flower...
As a matter of fact
She rented by the hour.

The day she died the neighbors
came to snicker:
"Well, thats what comes
from to much pills and liquor."

But when I saw her laid out like a Queen
She was the happiest...corpse...
I'd ever seen.

I think of Elsie to this very day.
I'd remember how'd she turn to me and say:
"What good is sitting alone in your room?
Come hear the music play.
Life is a Cabaret, old chum,
Come to the Cabaret."

And as for me,
I made up my mind back in Chelsea,
When I go, I'm going like Elsie.

Start by admitting
From cradle to tomb
Isn't that long a stay.
Life is a Cabaret, old chum,
Only a Cabaret, old chum,
And I love a Cabaret!

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

1229 - Noite de temporal

















É Noite
É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão. Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?

Alberto Caeiro

domingo, 5 de dezembro de 2010

1228 - Afinal há excepções à austeridade II












Saber viver é vender a alma ao diabo

Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
((Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.
Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?..)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra
[morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
... sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do
[trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!

*

Saber viver é vender a alma ao diabo,
a um diabo humanal, sem qualquer transcendência,
a um diabo que não espreita a alma, mas o furo,
a um satanazim que se dá por contente
de te levar a ti, de escarnecer de mim...



Alexandre O´Neill
Poesias Completas
1951/1981