terça-feira, 29 de junho de 2010

1139 - O caçador


















O caçador

Agora sei que sou um caçador. Nada mais
que um caçador.
cacei de salto e de batida e de largada
sobretudo de espera. Palavras
imagens
rimas
combinações de sons e de sinais.
Tentei muitas vezes acertar no alvo
alguns amores saíram largos
outros perto demais
armadilha fatal
caçador caçado.
A história passou baixo e aos ziguezagues
Entre sombras e arbustos à beira de água
a história como a galinhola.
Ouvi o grito da narceja ao, levantar
mas era o bater da ilusão lírica
era o tempo a fugir
ou talvez Deus o sentido sem sentido.

Agora sei que não fiz senão caçar
o poema o sopro os anjos que passavam
a peça solitária
os olhos da corça à noite
as aves dos milagres os teus braços
eternidade de passagem lebre corredora.

Agora sei que sou um caçador
e que por mais que acerte haverá sempre
um tiro um pouco lento
ou demasiado à frente
uma perdiz que escapa mesmo ferida
uma perdiz ao vento
uma perdiz. Ou talvez o tempo. Ou talvez a vida.


Manuel Alegre

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