segunda-feira, 5 de abril de 2010

Os que sucumbem e os que se salvam



Li o livro em 3 ou 4 dias, mas teria sido capaz de o ter feito num só, havendo disponibilidade de tempo para tal.

É profundíssimo

Cito a sinopse:
"Quarenta anos depois do clássico Se Isto é Um Homem, Primo Levi, consciente de que o Holocausto corria o risco de, pouco a pouco, ser apagado da memória colectiva, voltou ao tema dos campos de concentração nazis com a apaixonada e apaixonante clareza de toda a sua obra.
O resultado, foi este livro de 1986 - um ano antes do seu suicídio - no qual procura respostas para perguntas que nunca deixaram de o obcecar até ao fim.
Quais são as estruturas hierárquicas de um sistema autoritário e quais as técnicas para aniquilar a personalidade de um indivíduo?
Que relações se criam entre opressores e oprimidos?
Quem são os seres que habitam a "zona cinzenta" da colaboração?
Como se constrói um monstro?
Era possível compreender de dentro a lógica da máquina do extermínio? Era possível revoltar-se?
Finalmente, como funciona a memória de uma experiência extrema?
Questões infelizmente, ainda hoje, bem actuais e a que Primo Levi responde com a sua lucidez extrema e no estilo seco e descarnado que lhe é tão próprio."


Quanto a mim penso que o livro acaba por ser uma justificação do próprio suicídio de Primo Levi. As questões que as pessoas que ele encontravam eram já tão ilógicas que ele as sentia cada vez mais como uma acusação: Porque não resististe? Porque não te revoltaste? Porque sobreviveste se outros morreram?

Consciente ou não sente-se acusado e a necessitar de se justificar!!!

O Capitulo V: Violência inútil é especialmente profundo e revelador da condição humana...

Também a "zona cinzenta" dá muito que pensar e desfaz o mito do opressor e das vítimas cada um do seu lado da barricada imaginando nós que os oprimidos colaboraram todos entre si...

Em Auschwitz, a «zona cinzenta» é aquela «onde o bem e o mal não estão nitidamente delimitados, onde as vítimas e os seus perseguidores se encontram por vezes do mesmo lado, o dos prisioneiros». Primo Levi pormenoriza: «O interior dos campos era um microcosmos intricado e estratificado; a ‘zona cinzenta’, a dos prisioneiros que, em qualquer medida, se calhar mesmo por bem, colaboraram com a autoridade, não era estreita, pelo contrário, constituía um fenómeno de importância fundamental para o historiador, o psicólogo e o sociólogo. Não há prisioneiro que não se lembre disso, e que não se lembre do seu espanto na altura: as primeiras ameaças, os primeiros insultos, as primeiras pancadas não provinham dos SS, mas sim de outros prisioneiros, de ‘colegas’ daquelas misteriosas personagens que no entanto vestiam a mesma túnica às riscas que eles, os recém-chegados, acabavam de envergar

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«Os que se salvaram do ‘Lager’ não foram os melhores, os predestinados ao bem, os portadores de uma mensagem: tudo o que vi e vivi demonstrava o exacto contrário. Sobrevieram de preferência os piores, os egoístas, os violentos, os insensíveis, os colaboradores da ‘zona cinzenta’, os bufos

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Que boa lição para a minha ingenuidade. Pensar que perante uma mesma dificuldade todos reagem da mesma forma e todos se preocupam em suavizar ou minimizar o sofrimento do outro...

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