A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.
Eugénio de Andrade
segunda-feira, 9 de outubro de 2017
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
1852 (Do que nos faz únicos) - Prefiro a rua do Ouro
Fui rejeitado a cotovelo pelos saldos
Vi um ourives preso ao alfinete da gravata
A caprichar em filigranas
Com uma pé-de-avestruz americana
O cheiro do café recém-moído transportou-me a outras plagas
Vi as sangrentas luvas pinares sobre as cabeças transeuntes
Ouvi dizer a um tipo que bela forma
E pensei que terás tu para lhe meter dentro?
Li num cabeçalho o passado tem os olhos do presente postos no futuro
Embarquei em sapatos enforquei-me em gravatas
Descompus Cesário Verde que atravessava a rua
sobraçando uma chave-inglesa o descuidado
Contei os buracos duma roda de gruyère na montra daquela charcutaria que tem uns rissóis sabes de camarão
Comprei um candeeiro diz que nórdico
a sua luz acompanha a mão de quem escreve e pára quando a mão para
Ouvi pedir compra-me o comboio eléctrico
E ouvi adiar se passares compro
Senti o cheiro das revistas recém-postas à venda
E pensei que bom estamos na Europa
Escorreguei os olhos pelas tabuletas dos advogados
Fisguei a abelha do trabalho que o Cesariny transformou em mosca
E também vi vou sempre ver o pelicano do frontão
Reflectido na montra faz um figuralhão
Subi ao de Santa Justa e para dominar os complexos
Deitei lá de cima um avião
Vi à noite os casais que vêm ver as montras
Gente que faz o quilo de nariz contra o vidro
Ouvi dizer a Banca é muitas vezes detestada porque pouca gente sabe o que é um Banco
Sigo as recomendações dos lojistas da artéria
Prefiro a Rua do Ouro
Alexandre O'Neill
quinta-feira, 27 de julho de 2017
1491 (Do belo) - Joana Francesa
Joana Francesa
Tu ris, tu mens trop Tu pleures, tu meurs trop Tu as le tropique Dans le sang et sur la peau Je me dit loucura e de torpor Já é madrugada D'accord d'accord d'accord d'accord Mata-me de rir Fala-me de amor Songes et mensonges Sei de longe e sei de cor Je me dit prazer e de pavor Já é madrugada D'accord d'accord d'accord d'accord Vem molhar meu colo Vou te consolar Vem, mulato mole Dançar dans mes bras Vem, moleque me dizer Onde é que está Ton soleil, ta braise Quem me enfeitiçou O mar, marée, bateau Tu as le parfum De la cachaça e de suor Je me dit preguiça e de calor Já é madrugada D'accord d'accord d'accord d'accord
Chico Buarque
Tu ris, tu mens trop Tu pleures, tu meurs trop Tu as le tropique Dans le sang et sur la peau Je me dit loucura e de torpor Já é madrugada D'accord d'accord d'accord d'accord Mata-me de rir Fala-me de amor Songes et mensonges Sei de longe e sei de cor Je me dit prazer e de pavor Já é madrugada D'accord d'accord d'accord d'accord Vem molhar meu colo Vou te consolar Vem, mulato mole Dançar dans mes bras Vem, moleque me dizer Onde é que está Ton soleil, ta braise Quem me enfeitiçou O mar, marée, bateau Tu as le parfum De la cachaça e de suor Je me dit preguiça e de calor Já é madrugada D'accord d'accord d'accord d'accord
Chico Buarque
segunda-feira, 3 de julho de 2017
1490 (do abjecto) - Tisanas
"Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come."
HATHERLY, Ana, 351 Tisanas. Lisboa: Quimera (1997)
quinta-feira, 29 de junho de 2017
1489 (do que somos feitos) Acontecer
Acontecer
Rasgo as ondas
risco o vento
trago um mar revolto
um rombo
no meu peito.
Raspo as asas no lençol de estrelas
de uma noite branca.
Sei que um dia destes
hei
de acontecer.
José Fanha
Rasgo as ondas
risco o vento
trago um mar revolto
um rombo
no meu peito.
Raspo as asas no lençol de estrelas
de uma noite branca.
Sei que um dia destes
hei
de acontecer.
José Fanha
terça-feira, 27 de junho de 2017
1488 (do amor) - Endechas a Barbara escrava
Endechas a Barbara escrava
A üa cativa com quem
andava d´amores na Índia chamada bárbora
Aquela
cativa,
que me
tem cativo,
porque nela vivo,
porque nela vivo,
já não
quer que viva.
Eu nunca vi rosa,
Eu nunca vi rosa,
que em suaves molhos,
que para meus olhos,
que para meus olhos,
fosse mais fermosa.
Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas,
me parecem belas,
como os meus amores.
Rosto singular,
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
pretos e cansados,
mas não de matar.
üa graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora,
para ser senhora,
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião,
perde opinião,
que os louros são belos.
Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura,
que a neve lhe jura,
que trocara a cor.
Leda mansidão,
Leda mansidão,
que o siso acompanha:
bem parece estranha,
bem parece estranha,
mas bárbara não.
Presença serena,
que a tormenta amansa:
nela enfim descansa,
nela enfim descansa,
toda a minha pena.
Esta é a cativa,
Esta é a cativa,
que me tem cativo,
e, pois nela vivo,
é
força que vivae, pois nela vivo,
Luís de Camões
segunda-feira, 12 de junho de 2017
1487 (da condição humana) - Travessia do Deserto
Travessia do deserto
Que viagem tão comprida!
Que deserto tão grande
Sem fronteira nem medida!
Águas do pensamento
Vinde regar o sustento
Da minha vida.
Este peso calado
Queima o sol por trás do monte
Queima o tempo parado
Queima o rio com a ponte.
Águas dos meus cansaços
Semeai os meus passos
Como uma fonte.
Ai que sede tão funda!
Ai que fome tão antiga!
Quantas noites se perdem
No amor de cada espiga!
Ventre calmo da terra
Leva-me na tua guerra
Se és minha amiga.
José Mário Branco
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