segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

1826 (da condição humana) - Para haver Natal este Natal

Para haver Natal este Natal

Talvez seja preciso reaprendermos
Coisas tão simples!

Que as mãos preocupadas com embrulhos
Esquecem outros gestos de amor,
Que os votos rotineiros que trocamos
Calam conversas que nos fariam melhor,
Que os símbolos apenas se amontoam
E soltam uma música triste
Quando já não dizem aquela verdade profunda!

Para haver Natal este Natal
Talvez seja preciso recordar
Que as vidas começam e recomeçam
E tudo isso é nascimento (logo, Natal)
Que as esperanças ganham sentido
Quando se tornam caminhos e passos.
Que para lá das janelas cerradas
Há estrelas que luzem
E há a imensidão do Céu.
Talvez nos bastem coisas
Afinal tão simples:
(1) O alento dos reencontros autênticos;
(2) A oração como confiança soletrada;
(3) A certeza de que Jesus nasce em cada ano
Para que o nosso natal, alguma vez, esta vez, seja Natal!

                                                               Tolentino Mendonça

domingo, 11 de dezembro de 2016

1825 (do íntimo e pessoal) - Aqui sou (ao pé do mar)

Aqui sou (ao pé do mar)

Aqui regresso ciclicamente,
ao pé do mar.

Aqui sou.

Revisito o passado,
sou o presente,
antecipo o futuro.

Aqui sou.

Vejo,
revejo,
encontro,
reencontro,
parto,
e chego para partir de novo.

Estou aqui
ao pé do mar
estou de chegada?
estou de partida?  

Aqui sou.

João P.
Dez 16

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

1824 (do amor) - Em poucas palavras

Em poucas palavras
 
Murmuram os ventos
Nas folhas
Breves do meu diário
Vagueiam proscritos
Os mitos
Do imaginário
Segredam os dias
Das utopias
Sonhadas
Na noite em que foste
A minha namorada
E demos forma ao mundo
Na arte dos magos
Num toque de artistas
Já transformámos
A vida em ouro
Como alquimistas
Pelos sete mares enluarados
Rios e areais
Vou coroar-te no trono
Doido dos vendavais
Ao chegar de mansinho
Como um bandoleiro
Conquistar o teu corpo
Como um guerrilheiro
Apaixonadamente teu
Render-me enfim
Nos teus matagais
Amar-te toda
Como as pedras
E os animais
Mas depois do teu adeus
Do teu último beijo
Leva contigo a lembrança
A paixão, o desejo,
Ai de mim! o rancor
Que ainda guardo e não quero
Se um dia voltares
Francamente eu sei
Eu já não te espero
Será que ando forte
E que te esqueci?
Será que ando fraco
E que me perdi?
Mas em poucas palavras
Ficam belas e doces
Saudades de ti.
 
Fausto Bordalo Dias

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

1823 (Do íntimo e pessoal) - Portugal Sacro-profano Vila do Conde

Portugal Sacro-Profano Vila do Conde

O lugar onde o coração se esconde
é onde o vento norte corta luas brancas no azul do mar
e o poeta solitário escolhe igreja pra casar
O lugar onde o coração se esconde
é em dezembro o sol cortado pelo frio
e à noite as luzes a alinhar o rio
O lugar onde o coração se esconde
é onde contra a casa soa o sino
e dia a dia o homem soma o seu destino
O lugar onde o coração se esconde
é sobretudo agosto vento música raparigas em cabelo
feira das sextas-feiras gado pó e povo
é onde se consente que nasça de novo
àquele que foi jovem e foi belo
mas o tempo a pouco e pouco arrefeceu
O lugar onde o coração se esconde
é o novo passado a ida pra o liceu
Mas onde fica e como é que se chama
a terra do crepúsculo de algodão em rama
das muitas procissões dos contra-luz no bar
da surpresa violenta desse sempre renovado mar?
O lugar onde o coração se esconde
e a mulher eterna tem a luz na fronte
fica no norte e é Vila do Conde

Ruy Belo