quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

161 - Existe uma saída - o fim da noite












A noite
(José Mário Branco)

Em tudo que Já fomos está o que seremos
No fundo desta noite locam-se os extremos
E se soubermos ver nos sonhos o processo
Os passos para trás não são um retrocesso

A noite é um sinal de tudo quanto fomos
Dos medos. Dos mistérios. Das fadas e dos gnomos
Da ignorância pura e da ciência irmã
Em que sendo passado já somos amanhã

A noite é o espaço vago, o tempo sem história
Em que as perguntas nascem dentro da memória
Em tudo que já fomos está o que seremos
Mas cabe perguntar: foi isto que quisemos?

Em tudo que já fomos está o que deixamos
No fundo das marés. Nos portos que tocamos
O rumo desvendado. O preço da bagagem
É tudo quanto resta para seguir viagem

A noite é parideira da contradição
Que existe em cada sim que nos parece não
Olhando para nós. Os grandes dissidentes
No meio da luta entre lemes e correntes

Será esta viagem feita pelo vento
Será feita por nós, amor e pensamento
O sonho é sempre sonho se nos enganamos
Mas cabe perguntar: como é que aqui chegamos?

Em tudo que já fomos estão os nossos mortos
E os vivos que ficaram entram nos seus corpos
Na noite do amor, na noite do sinal
Naufrágio de fantasmas na pia baptismal

A noite é o impreciso e escuro purgatório
Que alinha as nossas almas no seu dormitório
A culpa dos heróis é serem sempre poucos
Acaso somos mais, ou tão somente loucos

Temos que descasar a culpa e o prazer
No que fizemos ou deixamos de fazer
Para reconstruir os corações cativos
Mas cabe perguntar: acaso estamos vivos?

Em tudo que já fomos há um sonho antigo
Conversa universal de cada um consigo
São sombras e brinquedos, tudo misturado
E o vago sentimento de nascer culpado

Será um sonho absurdo este olhar p'ra dentro
E o nosso destino só servir de exemplo
Andamos a fugir à frente desta vida
Mas cabe perguntar: existe uma saída?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

160 - um cheirinho a primavera (ufff!)

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O que for, há-de ser (Ar)

Ai seja o que for
que o amor me traga,
sei que é Primavera neste Inverno;
Ver que o olhar
é de pequenas rugas e de flores,
tão terno...
Sonhar seu beijo na fronte,
a luz no horizonte,
como o primeiro raio de sol.
Sentir por dentro da calma
a paz e a alma dos que não estão sós.

Linda ciranda
ciranda linda,
gira que gira e torna a girar;
Quando eu morrer
oh ciranda linda,
deixa um luzeiro
para que o possa ver!

E sempre à volta a girar,
sempre em volta, no ar
de alma solta a te amar.
Para sempre girar,
sempre em volta no ar,
meu amor, meu amor,
o que for, há-de ser!

domingo, 25 de fevereiro de 2007

159 - Passando os olhos pela televisão





















Hoje, ao olhar para as últimas notícias sobre o estado da saúde em Portugal e ao trazer à memória o que foi esta semana, lembrei-me de uma velhinha canção do Sérgio Godinho, que continua extremamente actual.

Ouvi-a imensas vezes lá pelos anos de 74 e 75. Se na altura parecia muito ligada a uma facção agora, ganha uma frescura extraordinária. Apela ao básico e mostra que está tudo por fazer e que não dá para brincar com os direitos básicos das pessoas.

Chapeau, meu caro Sérgio.


Liberdade

Viemos com o peso do passado e da semente
Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente
Vivemos tantos anos a falar pela calada
Só se pode querer tudo quando não se teve nada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada
Só quer a vida cheia quem teve a vida parada

Só há liberdade a sério quando houver
A paz, o pão, habitação, saúde, educação
Só há liberdade a sério quando houver
Liberdade de mudar e decidir
quando pertencer ao povo
o que o povo produzir
quando pertencer ao povo
o que o povo produzir

sábado, 24 de fevereiro de 2007

158 - Hoje, estou numa de materialismo...

O LUAR ATRAVÉS DOS ALTOS RAMOS

O luar através dos altos ramos,
Dizem os poetas todos que ele é mais
Que o luar através dos altos ramos.


Mas para mim, que não sei o que penso,
O que o luar através dos altos ramos
É, além de ser
O luar através dos altos ramos,
É não ser mais
Que o luar através dos altos ramos.

(Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, 1911-12)























[GATO QUE BRINCAS NA RUA]

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

[1-1931]

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

157 - Conhece-te a ti mesmo















Livro de Horas

Aqui, diante de mim,
Eu, pecador, me confesso
De ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
Que vão em leme da nau
Nesta deriva em que vou.

Me confesso
Possesso
Das virtudes teologais,
Que são três,
E dos pecados mortais
Que são sete,
Quando a terra não repete
Que são mais.

Me confesso
O dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
E das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo
Andanças
Do mesmo todo.

Me confesso de ser charco
E luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
Que atira setas acima
E abaixo da minha altura.

Me confesso de ser tudo
Que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
Desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.

Me confesso de ser Homem.
De ser o anjo caído
Do tal céu que Deus governa;
De ser o monstro saído
Do buraco mais fundo da caverna.

Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
Para dizer que sou eu
Aqui, diante de mim!

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

155- Quando se junta vento e carnaval...















Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto
Ruy Belo

domingo, 18 de fevereiro de 2007

sábado, 17 de fevereiro de 2007

153 - Como tudo se mantém muito actual
















Alô, Alô, Marciano

Alô, Alô Marciano
Aqui quem fala é da Terra
Pra variar, estamos em guerra
Você não imagina a loucura
O ser humano está na maior fissura, porque...

Tá cada vez mais down no high society
Down, down, down no high society

Alô, Alô marciano
A crise esta virando zona
Cada um por si, todo o mundo na lona
E lá se foi a mordomia
Tem muito rei aí pedindo alforria, porque...

Tá cada vez mais down no high society
Down, down, down no high society

Alô, Alô marciano
A coisa está ficando ruça
Muita patrulha, muita bagunça
O muro começou a pixar
Tem sempre um aiatolá pra atolar Alá

Ta cada vez mais down no high society
Down, down, down no high society

Cantado por Elis Regina

152 - cansaço

















Tenho dó das estrelas

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas ,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir...

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão –
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

domingo, 11 de fevereiro de 2007

151 - Mar de lágrimas

Mar de lágrimas

(Luís Pastor)

Lágrimas de desamor
lágrimas de desconsuelo
lágrimas a ras del suelo
lágrimas de corazón
lágrimas de cocodrilo
lágrimas de la razón

Lágrimas de fuego
lágrimas de sangre
lágrimas de sueno
lágrimas de aire
lágrimas de odio
lágrimas de pena
lágrimas de muerte
lágrimas de arena

Lágrimas de rabia
lágrimas de alegría
lágrimas de cada día
lágrimas de a dos
lágrimas de impotencia
lágrimas de dolor
Lágrimas de duelo
lágrimas de niño
lágrimas de frío
lágrimas de cariño
lágrimas de exilio
lágrimas de hielo
lágrimas de olvido
lágrimas de miedo

Lágrimas de hambre
lágrimas de miseria
lágrimas de súplica
lágrimas de guerra
lágrimas de angustia
lágrimas de plañideras
lágrimas del sí y el no
lágrimas de la belleza

Puedes olvidar
con quien has reído
pero nunca olvidarás
con quien has llorado

sábado, 10 de fevereiro de 2007

150 - o que falta ainda fazer














GRITO


De ti que inventaste
a paz
a ternura
e a paixão
o beijo
o beijo fundo intenso e louco
e deixaste lá para trás
a côncava do medo
à hora entre cão e lobo
à hora entre lobo e cão.

De ti que em cada ano
cada dia cada mês
não paraste de acender
uma e outra vez
a flor eléctrica
do mais desvairado
coração.

De ti que fugiste à estepe
e obrigaste
à ordem dos caminhos
o pastor
a cabra e o boi
e do fundo do tempo
me chamaste teu irmão.

De ti que ergueste a casa
sobre estacas
e pariste
deuses e linguagens
guerras
e paisagens sem alento.

De ti que domaste
o cavalo e os neutrões
e conquistaste
o lírico tropel
das águas e do vento.

De ti que traçaste
a régua e esquadro
uma abóboda inquieta
semeada de nuvens e tritões
santidades e tormentos.

De ti que levaste
a volupta da ambição
a trepar erecta
contra as leis do firmamento.

De ti que deixaste um dia
que o teu corpo se cansassse
desta terra de amargura e alegria
e se espalhasse aos quatro cantos
diluido lentamente
no mais plácido
silente
e negro breu.

De ti
meu irmão
ainda ouço
o grito que deixaste
encerrado
em cada pétala do céu
cada pedra
cada flor.

O grito de revolta
que largaste à solta
e que ficou para sempre
em cada grão de areia
a ressoar
como um pálido rumor.

O grito que não cansa
de implorar
por amor
e mais amor
e mais amor.

José Fanha, in "Breve tratado das coisas da arte e do amor"

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

149 - porque

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Nunca choraremos bastante quando vemos
O gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
Que quem ousa lutar é destruído
Por troças por insídias por venenos
E por outras maneiras que sabemos
Tão sábias tão subtis e tão peritas
Que não podem sequer ser bem descritas "
Sophia de Mello Breyner , em Livro sexto

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

148 -dá-lhe gás




















Já não há pachorra para tanto sacrifício sem sentido! Quero mais!
Está tudo pronto? Dá-lhe gás!

Três, dois, um, vai arrancar.
uma espécie de hino em versão popular
sem coisas de mão no peito e ar pesado
2004 o campeonato vai mudar o nosso fado
do coitado, do conformado, do comido
Porque é que o país se queixa do que podia ter sido?
Mas nunca é. E a culpa nunca é nossa
é do árbitro, é do campo, é de quem nos deu uma coça.
Chega. Queremos mais, é um murro na mesa.
Um grito do Ipiranga em versão portuguesa.
Porque até hoje, quase marcámos, quase ganhámos, quase fizemos…Mas porquê quase? …Passemos à próxima fase.
Marca mais!
Corre mais!
Menos ais, menos ais, menos ais!

Quero muito mais!
O conceito é muito simples: não desistir.
Mas será que é chato aquilo que acabamos de pedir?
É chato agora, acreditem no que digo:
nós jogamos em casa e contamos com o Figo,
o Rui Costa, o Deco, o Simão e com o Pauleta.
Razões para querermos mais que um lugar que não comprometa.
Será demais pedir a taça?
Nada que um adepto com orgulho não faça.
Bonito, bonito, é dar o litro,
não por as culpas no gajo do apito.
Vá lá gritar, noventa minutos, cento e vinte, o que for
do princípio ao fim, por favor.
Vamos lá people, afinem-me essa voz
No fim, só ganha um… e temos que ser nós.

Marca mais!
Corre mais!
Menos ais, menos ais, menos ais!
Quero muito mais!

Joga mais!
Sua mais!
Menos ais, menos ais, menos ais!
Quero muito mais!

Nem custa tanto assim imaginar a vitória
no fundo, é só uma soma de momentos de glória.
Era bonito… Um abraço aqui, um abraço ali…
Abraço toda a gente, abraço quem nunca vi.
Vamos lá transformar isto numa grande festa
Sem pressão, Selecção, és a esperança que nos resta
Por isso, escuta: não te esqueças que a sorte protege os filhos da luta.
Não levem a mal a exigência
Mas para empates e derrotas já não há paciência.
Queremos mais, muito mais, menos ais
Scolari, já vimos aquilo que “ cê é capais”.
“Cê “ sabe que para ganhar é preciso ter fé.
E a bola no pé. Yo !!!…
querem mais?

Então “ baza” lá vamos lá outra vez
Quem não salta agora aqui não é português
Sempre com o desejo de cantar na final
“levantai hoje de novo o esplendor de Portugal”.
tudo a postos...
Vamos ter fé uma vez na vida
e acabar o europeu de cabeça e de taça erguida.
Se temos saudade, temos vontade, temos saúde, temos atitude
Se temos tudo, de que é que o português se queixa?…
Era esta a vossa deixa.
Marca mais!
Corre mais!
Menos ais, menos ais, menos ais!
Quero muito mais!
Joga mais!
Sua mais!
Menos ais, menos ais, menos ais!
Quero muito mais!

sábado, 3 de fevereiro de 2007

147 - Como tudo se mantém muito actual...




















Aos sócios da “Nova Arcádia”]

Vós, ó Franças, Semedos, Quintanilhas,
Macedos e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas;

Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insossas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De quem engenhais as vossas maravilhas,

Deixai Elmano, que inocente e honrado
Nunca de vós se lembra, meditando
Em coisas sérias, de mais alto estado;

E se quereis, os olhos alongando,
Ei-lo! Vede-o no Pindo recostado,
De perna erguida sobre vós mijando!



A Academia literária Nova Arcádia foi fundada no ano de 1790 e logo que a fama de improvisador de Bocage lhe chegou ao conhecimento, a Academia convidou-o para sócio. As sessões, presididas pelo padre mulato Domingos Caldas Barbosa (o "Lereno"), cantor de lânguidas modinhas brasileiras acompanhadas à guitarra ou à viola, muito em voga nos salões da época, realizavam-se em casa do Conde de Pombeiro (o "fofo conde", segundo a irónica expressão de Bocage) ou do Conde de Vimioso, outro aristocrático mecenas.
Eram essas as famosas "quartas feiras de Lereno", preenchidas com chá, torradas e bolinhos, canto, recitação e doses maciças de elogio mútuo, no meio de muita mesquinhez e artifício. Bocage, que adoptara o sobrenome poético de Elmano Sadino, retratou essas reuniões insípidas com a ironia e a graça de que tão bem conhecia o segredo e foi implacável nos seus ataques aos sócios da Arcádia.
Membro desta associação durante três anos, Elmano acabou por se saturar daquela atmosfera de mediocridade e devido às suas sátiras mordazes aos membros da Arcádia, acabou por dela ser expulso. A guerra verbal, de enorme violência, continuou impiedosa por algum tempo, para grande gáudio do público, ávido de sensacionalismo. Entretanto a Arcádia, coberta de ridículo e de sarcasmo acabou por sucumbir, enquanto por seu lado, Bocage publicava em 1791 o 1º volume das suas Rimas.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

146 - Razão e coração



















Teresinha


O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha
Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
E, assustada, eu disse não

O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida
Me encontrou tão desarmada
Que arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
E, assustada, eu disse não

O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração