quinta-feira, 28 de setembro de 2006

92 - Só a bailarina é que não tem




















Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga,
tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem
um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente

Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem
um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem,
todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem
Procurando bem
Todo mundo tem...

domingo, 24 de setembro de 2006

91 - Sangue latino II
















Oh, musa do meu fado
Oh, minha mãe gentil
Te deixo consternado
No primeiro abril
Mas não sê tão ingrata
Não esquece quem te amou
E em tua densa mata
Se perdeu e se encontrou
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdamos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo...(além da
sífilis, é claro)*
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora..."

Com avencas na caatinga
Alecrins no canavial
Licores na moringa
Um vinho tropical
E a linda mulata
Com rendas do Alentejo
De quem numa bravata
Arrebato um beijo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

"Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intenção e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadora à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa..."

Guitarras e sanfonas
Jasmins, coqueiros, fontes
Sardinhas, mandioca
Num suave azulejo
E o rio Amazonas
Que corre Trás-os-Montes
E numa pororoca
Deságua no Tejo
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal
Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um império colonial

* trecho original, vetado pela censura

Chico Buarque/Ruy Guerra 1972-73

90 - sangue latino





Imagem retirada daqui


Jurei mentiras e sigo sozinho, assumo os pecados

Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos,
Meu sangue latino, minha alma cativa

Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo

E o que me importa é não estar vencido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos.

Sangue Latino
Ney Mato Grosso

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

89 - essas emoções















Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa, pássaro sem asa, rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia

Mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez

Pra ser teu talvez, pra ser teu talvez

Mas o viajante é talvez covarde
Ou talvez seja tarde pra gritar que arde no maior ardor
A paixão contida, retraída e nua
Correndo na sala ao te ver deitada

Ao te ver calada, ao te ver cansada, ao te ver no ar
Talvez esperando desse viajante
Algo que ele espera também receber
E quebrar as cercas que insistimos tanto em nos defender

Eu me sinto tolo como um viajante
Pela tua casa, pássaro sem asa, rei da covardia
E se guardo tanto essas emoções nessa caldeira fria
É que arde o medo onde o amor ardia

Mansidão no peito trazendo o respeito
Que eu queria tanto derrubar de vez

Pra ser teu talvez, pra ser teu talvez

Viajante - Ney Matogrosso

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

sábado, 16 de setembro de 2006

87 - I did it my way -2

Pois é...
No post anterior não referi... e acaba por não fazer sentido.
Soube (recordei) agora que, a 16 de Outubro fará 20 anos que me iniciei nestas coisas do ensino.
Pois, foi por opção que não escrevi que "sou professor", porque sempre me considerei um aprendiz e, sempre achei, que estou a aprender a ser professor.


20 anos...


Muita coisa aconteceu, mas sobretudo, já que me refiro ao facto de querer aprender a ser professor, acho que o fui conseguindo e fui sendo capaz de abandonar o autoritarismo, fruto da minha insegurança, para um saber "levar" os meninos onde queria, fruto de uma descentração de mim próprio.
Acho que dei algumas aulas excelentes no meio de muitas centenas que poderia nem ter leccionado, mas sei-o agora, porque aprendi, que nem tudo o que se passou dentro daquelas quatro paredes era culpa minha e, sei agora que, muitas vezes, o que as crianças que tinha à minha frente queriam e precisavam era de alguém que os ouvisse e lhe desse atenção e não de um professor que lhes ensinasse as matérias. Também fui vítima de alguns que, chateados com a vida, se "vingavam" no adulto que tinham à sua frente e que, na altura era eu, como poderia ter sido outro qualquer.


Como diz a canção:


"andar, nesta estrada
por caminhos incertos
tão longe e tao perto
do que eu quero ser


cantar uma balada
de sonhos despertos
e bracos abertos
para te conhecer


estou a aprender a ser feliz
aquilo que eu vou ser ninguém me diz
a guitarra que só toca por amor
nao acalma o desejo nem a dor."

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

86 - I did it my way


And now, the end is near;
And so I face the final curtain.
My friend, I’ll say it clear,
I’ll state my case, of which I’m certain.

I’ve lived a life that’s full.
I’ve traveled each and ev’ry highway;
And more, much more than this,
I did it my way.

Regrets, I’ve had a few;
But then again, too few to mention.
I did what I had to do
And saw it through without exemption.

I planned each charted course;
Each careful step along the byway,
But more, much more than this,
I did it my way.

Yes, there were times, I’m sure you knew
When I bit off more than I could chew.
But through it all, when there was doubt,
I ate it up and spit it out.
I faced it all and I stood tall;
And did it my way.

I’ve loved, I’ve laughed and cried.
I’ve had my fill; my share of losing.
And now, as tears subside,
I find it all so amusing.

To think I did all that;
And may I say - not in a shy way,
No, oh no not me,
I did it my way.

For what is a man, what has he got?
If not himself, then he has naught.
To say the things he truly feels;
And not the words of one who kneels.
The record shows I took the blows
And did it my way!

Frank Sinatra

sábado, 9 de setembro de 2006

85 - Vais fazer uma pintura

Jura que não vais ter uma aventura
Dessas que acontecem numa altura
E depois se desvanecem
Sem lembrança boa ou má
E por isso mesmo se esquecem

Jura que se tiveres uma aventura
Vais contar uma mentira
Com cuidado e com ternura
Vais fazer uma pintura
Com uma tinta qualquer
Que o ciúme é queimadura
Que faz o coração sofrer

Jura que não vais ter uma aventura
Porque eu hei-de estar sempre à altura
De saber
Que a solidão é dura
E o amor é uma fervura
Que a saudade não segura
E a razão não serena
Mas jura que se tiver de ser
Ao menos que valha a pena
Carlos Tê -Jura

terça-feira, 5 de setembro de 2006

84 - Quem sabe faz a hora!

Hoje só me apetece isto. Chega perfeitamente
E diz TUDO

Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer

domingo, 3 de setembro de 2006

83 - o teu olhar

De tanto levar frechada do teu olhar
Meu peito até parece, sabe o que?
Táubua de tiro ao álvaro, não tem mais onde furar

Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais
Que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver


Tiro ao Álvaro
(Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles)
Cantado por Elis Regina

sábado, 2 de setembro de 2006

82 - Porque sou o que chega e conta mentiras que te fazem feliz





















Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras

Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe

Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a América roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua

Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz

Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau

de Carlos Tê e Rui Veloso