terça-feira, 31 de maio de 2016

61 (da nossa identidade) Mar Absoluto

MAR ABSOLUTO

Em português o vento vem do mar
vem a doce vogal e o silvo agreste
o ritmo e o tom da escrita e do falar
e o poema onde bate o vento oeste.

Auroras e crepúsculos e a linha
onde a curva da terra se pressente
e certas tarde mágicas na minha
língua virada a sul e a ocidente.

Mar invisível sobre o mar visível
mar que me bate em todos os meus músculos
e às vezes traz às praias do dizível
a música e a melancolia dos crepúsculos.

Mar que brame na tristeza
fica por dentro a flor da espuma
e a vela branca a envolver a mesa
onde um poeta escreve entre uma ode e a bruma.

Azul e branco de Melville. Deus e o Diabo.
Em cada página a baleia. A festa e o luto.
E depois do canal outro canal. Dobrar o cabo
ao sol do mar absoluto.

Venha até mim o mar venha até mim
o mar que foi e o que há-de ser e é pai e mãe
venha até mim o mar princípio e fim
o mar que mesmo aqui é mais além.

E de repente tudo fica incerto
tocaram à campainha e a letra está tremida
agora a página é um areal deserto
e vem do mar uma canção perdida.

É então que o mar bate mais forte: o mar de dentro
sobre o plexo solar a onda treme
navegador da alma eu estou no centro
de um navio fantasma sem ninguém ao leme

E agora mais atento uns versos adiante
eu vejo as doze naus de Ulisses ou talvez
a vida toda nesse breve instante
em que disseste mar pela primeira vez.

Doze proas pintadas de vermelho
no meio das negras naus do Almirante
Aquiles sentado as mãos sobre o joelho
não tardará não tardará que se levante.

Não me venham dizer que o mar não dá sinal
no mar já navegado há um mar que ninguém leu
mesmo que a página seja um areal
onde um rei está caído. Ou um país. Ou talvez eu.

Um peso em mim: a História foi demais.
País do mar. Agora outrora.
E todos os navios a sair do cais
para outro espaço outro crepúsculo outra aurora.

Por isso diz-se mar e é um destino.
Ou memória que dói. O Mundo. Este que sou.
O marinheiro volta a ser menino
mas o que ele buscava naufragou

Ainda que haja mar e sete mares
e um outro azul no espaço onde disponho
o mapa de outro longe e outros lugares
e o poema de outro sul e de outro sonho

E eis que de súbito há uma nau capitana
pela página dentro. E sou Bartolomeu
sou a índia perdida e a saga lusitana.
Um barco na memória. Esse barco sou eu.

Sou aquele que partiu e o que não foi.
Sou o que lembra e o que se esquece. Um rastro
no caminho. Um rastro. E mar que dói.
Sou o último gajeiro no topo do mastro.

Sou o que busca a palavra onde se esconde
uma pergunta sem resposta. Sou esse navegar.
Sou o que procura mesmo se ninguém responde
e sou o que pergunta pelo mar.

Lisboa, 1 a 4 de Setembro de 2002

Manuel Alegre 

segunda-feira, 30 de maio de 2016

60 (de amor) I don't know how to love him

I don't know how to love him

I don't know how to love him.
What to do, how to move him.
I've been changed, yes really changed.
In these past few days, when I've seen myself,
I seem like someone else.
I don't know how to take this.
I don't see why he moves me.
He's a man. He's just a man.
And I've had so many men before,
In very many ways,
He's just one more.
Should I bring him down?
Should I scream and shout?
Should I speak of love,
Let my feelings out?
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Don't you think it's rather funny,
I should be in this position.
I'm the one who's always been
So calm, so cool, no lover's fool,
Running every show.
He scares me so.
I never thought I'd come to this.
What's it all about?
Yet, if he said he loved me,
I'd be lost. I'd be frightened.
I couldn't cope, just couldn't cope.
I'd turn my head. I'd back away.
I wouldn't want to know.
He scares me so.
I want him so.
I love him so.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

59 (do amor) -April Come She Will

"April Come She Will"


April come she will
When streams are ripe and swelled with rain;
May, she will stay,
Resting in my arms again.

June, she'll change her tune,
In restless walks she'll prowl the night;
July, she will fly
And give no warning to her flight.

August, die she must,
The autumn winds blow chilly and cold;
September I'll remember
A love once new has now grown old. 
 
Paul Simon

58 (do desencontro) - Pensamento

O teu mundo está tão longe do meu
E o que digo está tão longe,
Como o mar está do céu.

terça-feira, 24 de maio de 2016

57 - (Daquilo que fomos e somos) Houve um tempo

Houve um tempo

Houve um tempo em que cri
Houve um tempo em que cri profundamente.

Houve um tempo em que fui
Houve um tempo em que fui eu mesmo.

Houve um tempo em que vivi
Houve um tempo em que vivi como se não houvesse amanhã.

Houve um tempo em que acreditei
Houve um tempo em que acreditei no meu semelhante.

Houve um tempo em que os animais falavam
e eu cri, fui, vivi e acreditei.

Houve um tempo .

João P. 2016

segunda-feira, 23 de maio de 2016

56 (do amor) Cavaleiro andante

Cavaleiro Andante

Porque sou o cavaleiro andante
Que mora no teu livro de aventuras
Podes vir chorar no meu peito
As mágoas e as desventuras

Sempre que o vento te ralhe
E a chuva de maio te molhe
Sempre que o teu barco encalhe
E a vida passe e não te olhe

Porque sou o cavaleiro andante
Que o teu velho medo inventou
Podes vir chorar no meu peito
Pois sabes sempre onde estou

Sempre que a rádio diga
Que a américa roubou a lua
Ou que um louco te persiga
E te chame nomes na rua

Porque sou o que chega e conta
Mentiras que te fazem feliz
E tu vibras com histórias
De viagens que eu nunca fiz

Podes vir chorar no meu peito
Longe de tudo o que é mau
Que eu vou estar sempre ao teu lado
No meu cavalo de pau

Carlos Tê