segunda-feira, 21 de março de 2016

52 (Da poesia) - Eu nesse tempo

Eu nesse tempo

Eu nesse tempo voava
tanto quanto me permito recordar.

Colecionava bonecos
e cromos para colar
e mimos
e voava no espaço da sala
evitando sair pela janela.

O mundo era enorme
terrível
e eu voava.

Ainda hoje por vezes
a horas mortas
abraço o ar
e dou comigo a voar
afastado dos caminhos
para que não digam  que as asas
são apenas ornamento
do ofício de poeta.

José Fanha  2002

domingo, 6 de março de 2016

51 - (Da condição humana) - O paraíso

O Paraíso
Madredeus


Subi a escada de papelão
Imaginada
Invocação
Não leva a nada
Não leva não
É só uma escada de papelão

Há outra entrada no Paraíso
Mais apertada
Mais sim senhor
Foi inventada
Por um anão
E está guardada
Por um dragão

Eu só conheço
Esse caminho
Do Paraíso

terça-feira, 1 de março de 2016

50 - (Da cidadania) Madrugada

Madrugada

Dos que morreram sem saber porquê
Dos que teimaram em silêncio e frio
Da força nascida no medo
E a raiva à solta manhã cedo
Fazem-se as margens do meu rio.

Das cicatrizes do meu chão antigo
E da memória do meu sangue em fogo
Da escuridão a abrir em cor
Do braço dado e a arma flor
Fazem-se as margens do meu povo

Canta-se a gente que a si mesma se descobre
E acorda vozes arraiais
Canta-se a terra que a si mesma se devolve
Que o canto assim nunca é demais

Em cada veia o sangue espera a vez
Em cada fala se persegue o dia
E assim se aprendem as marés
Assim se cresce e ganha pé
Rompe a canção que não havia

Acordem luzes nos umbrais que a tarde cega
Acordem vozes e arraiais
Cantem despertos na manhã que a noite entrega
Que o canto assim nunca é demais

Cantem marés por essas praias de sargaços
Acordem vozes, arraiais
Corram descalços rente ao cais, abram abraços
Que o canto assim nunca é demais
O canto assim nunca é demais

Duarte Mendes