sábado, 21 de fevereiro de 2015

O Sol nas noites e o luar nos dias

Porque hoje tive o privilégio de ouvir o poema e de o ver reinterpretado
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O sol nas noites e o luar nos dias

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.



Natália Correia

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Capitães da Areia - de Jorge Amado

Acabei de ler "Capitães da Areia" um livro que descreve um grupo de meninos de rua de Salvador, menores cuja vida desregrada e marginal é explicada, de uma forma geral, por tragédias familiares relacionadas à condição de miséria. O grupo de meninos que forma os Capitães esconde-se em um armazém abandonado numa das praias da capital baiana. 
Os personagens que compõem o núcleo central da narrativa apresentam algumas particularidades: João Grande possui uma força bruta, o professor é lembrado pelo talento artístico, Sem-Pernas pela amargura existencial, a opressão sertaneja é representada por Volta-Seca, a sexualidade precoce por Gato, o malandro é o Boa-Vida e a tendência à religiosidade manifesta-se em Pirulito. Todos são liderados por Pedro Bala, o protagonista do romance. 
Órfão desde muito cedo, Bala descobre o passado de seu pai, um líder operário assassinado durante uma greve.
A narrativa é estruturada em torno de uma sucessão de episódios vividos pelo bando de garotos, que vão desde ações criminosas, como roubos a residências, até a recuperação de uma imagem de candomblé apreendida pela polícia.
Muito do livro faz pensar em Peter Pan, personagem de J. M. Barrie. O armazém em Salvador é uma espécie de Terra do Nunca, onde só vivem meninos abandonados, e o líder é homônimo: Peter = Pedro. Pode-se propor ainda a semelhança com Robin Hood, que roubava dos ricos (as casas chiques de Salvador) para distribuir entre os pobres (os próprios membros do bando). A semelhança de nomes do melhor amigo do líder também pode ser relacionada, Little John, isto é, Pequeno João, na narrativa inglesa é um apelido irônico, já que se refere a alguém de estatura tão elevada quanto a de João Grande do romance de Jorge Amado.
Pedro Bala possui muito do herói romântico: valentia, coragem e capacidade de se sacrificar pelo grupo. Mas talvez fosse melhor vê-lo como mais um anti-herói , já que se dedica a crimes.
Porém, de mãos dadas com a ficção está a realidade baiana, evidenciada em traços como o preconceito das elites para com os meninos, as greves de trabalhadores, a ação repressora da força policial e, elemento bastante realçado na obra, o sincretismo religioso, que mistura referências católicas a ritos afro-brasileiros. O esforço de consciencialização do leitor é evidente na obra de Jorge Amado, sendo conduzido com a perícia de um grande contador de histórias, criador de narrativas envolventes.
Os adultos participam da narrativa, divididos em dois grupos bem distintos. De um lado, aqueles que rejeitam os meninos: as beatas, a polícia e todos aqueles ligados aos espaços repressivos do reformatório e do orfanato. De outro lado, os cúmplices, como o amigo capoeirista Querido-de-Deus, o padre João Pedro e Don’Aninha, mãe-de-santo.
A simpatia do narrador pelos Capitães da Areia é bastante evidente.
"Essa será sua vingança. Não deixará que o peguem, não tocarão a Mão no seu corpo. Sem-Pernas os odeia como odeia a todo mundo, porque nunca pôde ter um carinho. E no dia que o teve foi obrigado a o abandonar porque a vida já otinha marcado demais. Nunca tivera uma alegria de criança. Se fizera homem antes dos dez anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida de criança abandonada. [...]. Não o levarão".  Ele vê-os como vítimas de uma sociedade injusta, aproximando-os da condição de marginalizados, na qual se identificam com as classes trabalhadoras. O resultado dessa aproximação é sugerido pela trajetória do líder Pedro Bala: conforme cresce, toma consciência da realidade à sua volta, terminando por integrar-se à luta política. Menino órfão, Pedro encontra uma família na revolução socialista – ideal político do autor e explícito no livro.

Fonte:  http://educacao.globo.com/literatura/assunto/resumos-de-livros/capitaes-da-areia.html