sexta-feira, 14 de novembro de 2014

381 - chove


BALADA DE FEVEREIRO
Chove nas ruas como nas veias
cida
de cheia de mágoas
e não há barcos ideias
que nos levem por sobre as águas
que tu vento despenteias.
só a chuva nos vidros
e es
te viver para dentro
há só
minutos perdidos
e as caravelas do pensamento
naufragadas nos senti
dos.
Palavras tristes de Fevereiro
se vos ves
tis de melancolia
se vos rodeiam de nevoeiro
como fa
lar da alegria?
Dai
-me um verso marinheiro.
Minha cidade embuçada
na capa do nevoeiro
minha cidade encarcerada
nas grades de Fevereiro
.
Dai-me um verso madrugada
palavras
tristes de Fevereiro.
Minha cidade calafetada
qua
ndo à porta bate o vento
há só poetas ca
ntando
este viver para dentro
e as caravelas do pensamento
naufragad
as (até quando?)
perd
idas no nevoeiro. 

Manuel Alegre

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

380 - Qual a cor da liberdade?



QUEM A TEM...
Não hei-de morrer sem saber
Qual a cor da liberdade.
Eu não posso senão ser
desta terra em que nasci.
Embora ao mundo pertença
e sempre a verdade vença,
qual será ser livre aqui,
não hei-de morrer sem saber.

Trocaram tudo em maldade,
é quase um crime viver.
Mas embora escondam tudoe me queiram cego e mudo
não hei-de morrer sem saber
qual a cor da liberdade.
(Jorge de Sena, Poesia II)

sábado, 8 de novembro de 2014

379 - E também uma cor e uma linha...

 










Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve, um vento súbito e claro
nos cabelos, algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta nos lábios e nos dedos,
descendo degraus e degraus
e degraus até ao rio.


( in "Coração do Dia", Eugénio de Andrade, 1958 )

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

378 - Porque hoje é dia de lembrar Sophia (e mesmo que não fosse)














Sea

I
Of all the corners of the world
I love with a stronger and deeper love
That beach enraptured and bare
Where I become one with the sea, the wind and the moon.

II
I smell the land the trees and the wind
That the Spring fills with perfume
But in them I only want and only look
For the wild exhalation of the waves
Rising to the stars as a pure cry.


Mar

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

Poesia I

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

377 - A minha pátria



















"A language is the place from where you see the World in which the limits of our thinking and feeling are mapped From my language I see the Sea. From my language its murmuring is heard, as from others is heard the language of the forest or the silence of desert The voice of the Sea has been that of our restlessness." (Virgílio Ferreira, 1916-1996)


"Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação." (Virgílio Ferreira, 1916-1996)