quinta-feira, 26 de julho de 2012

1517 - nunca mais acabam as tarefas...

Mais um ano em que a transição entre o trabalho e o desligar o computador de vez não se está a fazer de forma fácil. De momento ainda tenho 3 tarefas por concluir... Relatórios para acabar...
Há então um, o relatório de auto-avaliação que só deverá ter três páginas que está a demorar tempos infinitos para acabar...

Nem as idas à natação, nem os gatitos que crescem a olhos vistos fazem com que a inspiração surja.

Para agravar a situação, tenho em frente a mim o mais novo que desarruma o quarto de modo a que este seja pintado a partir de amanhã. Já estou a imaginar as visitas a aparecerem!

Ah, férias, férias...


BREVE CANÇÃO DO VENTO OESTE

Ele há-de vir o vento oeste
ele há-de vir e há-de levar
as vãs palavras que escreveste.
Ele há-de vir com seu presságio
e os címbalos que já trazem o som do inverno
ele há-de vir o vento oeste e há-de apagar
o verão que parecia ser eterno.

Ele há-de vir com seu adágio
suas orquestras em convés que vão ao fundo
ele há-de vir e há-de apagar
a escrita a jura as ilusões do mundo.

Em cada verso há um naufrágio
não sei de poema que não seja mar

Foz do Arelho, 30-8-2003

Manuel Alegre


quarta-feira, 25 de julho de 2012

1516 - Início de férias

1- Por aqui, o início do tempo de férias é marcado, tal como na escola,com a "publicação" do trabalho de férias. É necessário pintar uma ou outra divisão, tratar disto e daquilo, reparar aqueloutro... DE tal modo que, em minutos de desespero chego a suspirar pelo ritmo organizado e previsível do trabalho...
As pinturas têm então uma rotina e peculiaridades próprias. É começar a por os protetores nas madeiras e começar a desarredar tudo e logo aparecem as visitas ou a necessidade de retirar isto ou aquilo, por exemplo  de um roupeiro. Conclusão: volta a ser necessário proteger tudo de novo. Depois, quando as pinturas vão a meio e estamos já todos pintalgados é sempre o comentário de que faz falta um pintor assim na casa da visita que entretanto apareceu! (é nessa altura que contamos até 10 para não largar tudo e ir dar uma volta até à praia!)
Seguem-se pequenas reparações algumas das quais não saem bem à primeira, etc, tratar do jardim que es´ta mesmo a precisar de um olhar, etc, etc...
Tudo isto faz já parte do ritual do início de férias e as idas para a cama ao fim do dia são "tiro e queda".

2 - Concomitantemente com o "trabalho de férias" são as arrumações no "meu" espaço de trabalho. Freud deve explicar isto muito bem logo nas primeiras linhas dos seus primeiros livros. A necessidade de arrumar as coisas muito bem e de deitar outras fora. Tenho, neste momento, o escritório num caos: os papéis da tese, planificações, livros por arrumar, milhares de outros papéis... uff! o que se produz num ano letivo e que é necessário arrumar ou deitar fora. Já vai na 3ª caixa de arrumação que compro.

3 - A Maria José teve ontem a ninhada: 4 lindos gatinhos(as?). É magnífico o instinto animal! pura e simplesmente magnífico. Ela sabia que os ia ter e recusou-se a ir à rua; ela escolheu o local onde os queria ter; ela com a língua executou na perfeição todo o trabalho de parto e cuida da sua limpeza e da deles. Passou todo o dia de ontem a amamentá-los e a tratá-los. Pelas 8 da noite, pela primeira vez foi comer e avaliou com o olhar, durante uns bons 10 minutos, o estado da ninhada. Ficam bem? estão bem? até chegou a ralhar com eles! Magnífico!

4 - Numa das noites desta semana, uma saída à noite para descontrair. Numa loja de música, escuto "isto". Que génio, que génio! é fechar os olhos e deixar os sentidos atuarem!
       

segunda-feira, 23 de julho de 2012

O Homem que plantava árvores



















Lê-se num ápice!  É um livro pequeno que conta a história de Elzéard Bouffier um ser humano com um enorme altruísmo...
Inspirado em acontecimentos verdadeiros, traduzido em diversas línguas e largamente difundido pelo mundo inteiro, O Homem Que Plantava Árvores é uma história inesquecível sobre o poder que o ser humano tem de influenciar o mundo à sua volta. Narra a vida de um homem e o seu esforço solitário, constante e paciente, para fazer do sítio onde vive um lugar especial. Com as suas próprias mãos e uma generosidade sem limites, desconsiderando o tamanho dos obstáculos, faz, do nada, surgir uma floresta inteira – com um ecossistema rico e sustentável. É um livro admirável que nos mostra como um homem humilde e insignificante aos olhos da sociedade, a viver longe do mundo e usando apenas os seus próprios meios, consegue reflorestar sozinho uma das regiões mais inóspitas e áridas de França

Sobretudo gostei do livro por contrariar aquela ideia de que "tu não podes mudar o mundo!". SE calhar não, mas daí a dizer que não se pode fazer nada para o mudar vai um passo muito grande!

A animação baseada no livro abaixo foi vencedora do OSCAR de filme curto de animação

domingo, 22 de julho de 2012

1515 - tempo de balanço II

1- Tal foi o envolvimento nos desafios deste ano que o jardim ficou um pouco descurado... Se bem que no inverno ainda houve tempo para tratar das árvores de fruto, aplicando a calda bordalesa e tratando as ramagens, a primavera veio, o verão também e já a cerejeira deu os frutos, o pessegueiro também (e foram muitos os pêssegos) e a macieira está carregada (melhor do que o ano passado) mas confesso que nem dei pelo tempo passar.
O pessegueiro está agora com moléstia, a relva está seca (e não há dinheiro para comprar semente atrás de semente...). Será agora com as férias que haverá tempo para  falar com as plantas? desligar?...

2- a gata está quase a ter a ninhada. Ela dooooorme, ela alimenta-se, não se dá por ela, tal a calmaria. A natureza é mesmo prodigiosa e quem quer aprender um pouco mais sobre a natureza (e os humanos) deve ter tempo para observar. é tudo tão simples e natural. os ritmos biológicos, as agitações, ... tudo tem um sentido intrínseco (não, não concordo com o Álvaro de Campos - o sentido último das coisas é não ter sentido nenhum... Não! o sentido das coisas é diferente do que os humanos lhe dão. Isso é verdade! mas há um sentido próprio no que à natureza  diz respeito)

3- O absurdo!
Uma destas noites cai na asneira de tomar sentido ao que dizia na televisão Pedro Ferraz da Costa! Fiquei abismado e profundamente chocado. A sua tese é que os portugueses deviam, pura e simplesmente, regredir. Voltar aos campos e à pobreza... Qual rendimento mínimo! é dar trabalho de sol a sol para esses bandidos que vivem à sombra do rendimento!
Assim, sem mais... E o que disse foi consciente mesmo! mudei de canal mas lembrei-me de uma música do Zé Mário: "canção dos despedidos"

Há quem viva bem do nosso mal-viver
Nós somos lixo
Somos só lixo
Já não há gente, há só lixo
Dispensável, descartável, reciclável
E agora parem um minuto p’ra pensar
Há que humanizar a humanidade, e não só

O mundo é de quem manda
E o resto é propaganda
Tudo é publicidade
Mas a liberdade
É escolher entre ser ou estar

Tens a boca cheia de palavras lindas
P’ra ti sou lixo
Somos só lixo
Nós não somos gente, somos lixo
Dispensável, descartável, reciclável
Mas vou parar mais um minuto p’ra pensar

Vamos a casa
Ao fim do dia
Só p’ra regenerar a mais-valia
Ganhar forças, fazer filhos
Cada um no seu caixote
E amanhã tomar o bote
Para o paraíso dos cadilhos
Quem é o lixo


Também a este nível está a decisão do governo em permitir a dedução fiscal de 250 Euros por família na apresentação, em sede de IRS, de faturas de restaurantes, reparações automóveis, cabeleireiros, hotéis...

Só é pena é que para se ter estes "benditos" 250 Euros se tenha de gastar cerca de 20.000 euros ao longo do ano nestes serviços...
Dá uma média de 1800 Euros por mês!
Que vergonha! quem é que a administração fiscal pensa que somos? uns tolos que nada percebem e que nos fazem passar por parvos? ou será isto uma fiscalidade para os ricos melhor viverem? cortam nas deduções na saúde, educação e oferecem-nos isto?

Haja decoro!!!

sábado, 21 de julho de 2012

1514 - tempo de balanço I

Este foi um ano fora do comum relativamente ao que se passou em anos recentes... Saliento os novos desafios que encontrei e que me desfocaram sobre o que não acontecia para o que acontece e está nas minhas mãos...

Muito me marcaram os gestos de carinho que amiúde fui recebendo:
deste e daquele
a propósito
disto ou daquilo,
de pequenas ou grandes vitórias,
de trabalhos em conjunto que fomos vencendo...
Foi bom, foi muito bom perceber que estávamos certos e que não perdemos o dom da simplicidade, da dádiva e da autenticidade.
Foram tão bons pequenos gestos:
a oferta de um doce,
de um queijo,
de um obrigado,
de um estou aqui!
confesso que souberam bem...

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Não posso deixar de referir o sucesso da tese! correu tudo muito bem e foi um momento muito forte neste ano. Não é que tenha dado muiiito trabalho! Deu algum, precisei de ritmo... mas aquela ideia de noitadas, fins de semana fechado em casa não correspondeu à realidade. O giro é que estava tão focado nela e na vontade de fazer um bom trabalho para marcar a minha posição que até me esqueci que "aquilo" tinha nota! Fiquei completamente desasado / confuso até quando o júri me mandou entrar de novo! Que bom! Que bom!
 
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Não posso deixar de achar graça ao facto de os meus filhos me conhecerem tão bem... Chegado hoje a casa com uma neura devida a atitudes que considero perfeitamente idiotas da parte de alguém, ponho os meus Doors em volume adequado (nem se podem ouvir os Doors sem assim ser não é?) e acabo uma das minhas últimas tarefas que me faltam para me sentir completamente em férias...
Comentário do meu rapaz para a mãe: "O que é que aconteceu hoje ao pai?" viu X?

O engraçado é que nunca partilhei com ninguém o significado que dou aos Doors, mas uso-os, de facto, em momentos em que quero fazer ruturas!  uns (e umas) cortam o cabelo ou vão às compras... Eu ouço-os em altos berros! Yeah!!!

(continua...)
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Sons Inaudíveis

Um rei mandou seu filho estudar no templo de um grande Mestre, com o objetivo de prepará-lo para ser uma grande pessoa. Quando o príncipe chegou ao templo, o Mestre o mandou sozinho para uma floresta. Ele deveria voltar um ano depois, com a tarefa de descrever todos os sons da floresta. Quando o príncipe retornou ao templo, após um ano, o Mestre lhe pediu para descrever todos os sons que conseguira ouvir. Então disse o príncipe:
- Mestre, pude ouvir o canto dos pássaros, o barulho das folhas, o alvoroço dos beija-flores, a brisa batendo na grama, o zumbido das abelhas, o barulho do vento cortando os céus...
E ao terminar o seu relato, o Mestre pediu que o príncipe retornasse à floresta, para ouvir tudo o mais que fosse possível. Apesar de intrigado, o príncipe obedeceu a ordem do Mestre, pensando:
- Não entendo, eu já distingui todos os sons da floresta...
Por dias e noites ficou sozinho ouvindo, ouvindo, ouvindo... mas não conseguiu distinguir nada de novo além daquilo que havia dito ao Mestre. Porém, certa manhã, começou a distinguir sons vagos, diferentes de tudo o que ouvira antes. E quanto mais prestava atenção, mais claros os sons se tornavam. Uma sensação de encantamento tomou conta do rapaz. Pensou:
- Esses devem ser os sons que o Mestre queria que eu ouvisse...
E sem pressa, ficou ali ouvindo e ouvindo, pacientemente. Queria Ter certeza de que estava no caminho certo. Quando retornou ao templo, o Mestre lhe perguntou o que mais conseguira ouvir.
Paciente e respeitosamente o príncipe disse:
- Mestre, quando prestei atenção pude ouvir o inaudível som das flores se abrindo, o som do sol nascendo e aquecendo a terra e da grama bebendo o orvalho da noite...
O Mestre sorrindo, acenou com a cabeça em sinal de aprovação, e disse:
- Ouvir o inaudível é ter a calma necessária para se tornar uma grande pessoa. Apenas quando se aprende a ouvir o coração das pessoas, seus sentimentos mudos, seus medos não confessados e suas queixas silenciosas, uma pessoa pode inspirar confiança ao seu redor; entender o que está errado e atender às reais necessidades de cada um."

domingo, 15 de julho de 2012

1512 - Esplendor de agosto

Cantador da noite

Esplendor de agosto

Aconteceu o pior: O esquecimento.
Esqueci tudo o que deve ser lembrado
e já não sei se és tu ou se te invento
e se o que resta é só o imaginado.

Esqueci  o nome o olhar esqueci o rosto
reclinado nas tardes de setembro.
E já não sei sequer quem foi deposto
e se lembro não sei se és tu que lembro.

Porque tudo esqueci e não esqueci
esplendor nos corpos no azul de agosto
e aquele não sei quê que havia em ti
e aquele ardor em mim de fogo posto.

Esqueço a lembrar e se te lembro esqueço
E já não sei se és margem ou ainda o centro
de tanto te inventar não te conheço
e quanto mais te esqueço mais te lembro.

Manuel Alegre

terça-feira, 10 de julho de 2012

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe


"Para entreter curiosidades, o velho Alfredo oferecia livros ao menino e convencia-o de que ler seria fundamental para a saúde. Ensinava-lhe que era uma pena a falta de leitura não se converter numa doença, algo como um mal que pusesse os preguiçosos a morrer. Imaginava que um não leitor ia ao médico e o médido o observava e dizia: você tem o colesterol a matá-lo, se continuar assim não se salva. E o médico perguntava: tem abusado dos fritos, dos ovos, você tem lido o suficiente. O paciente respondia: não, senhor doutor, há quase um ano que não leio um livro, não gosto muito e dá-me a preguiça. Então, o médido acrescentava: ah, fique pois sabendo que você ou lê urgentemente um bom romance, ou então vemo-nos no seu funeral dentro de poucas semanas. O caixão fechava-se como um livro. O Camilo ria-se. Perguntava o que era o colesterol, e o velho Alfredo dizia-lhe ser uma coisa de adultos que o esperaria se não lesse livros e ficasse burro. Por causa disso, quando lia, o pequeno Camilo sentia-se a tomar conta do corpo, como a limpar-se de coisas abstractas que o poderiam abater muito concretamente. Quando percebeu o jogo, o Camilo disse ao avô que havia de se notar na casa, a quem não lesse livros caía-lhe o tecto em cima de podre. O velho Alfredo riu-se muito e respondeu: um bom livro, tem de ser um bom livro. Um bom livro em favor de um corpo sem problemas de colesterol e de uma casa com o tecto seguro. Parecia uma ideia com muita justiça."

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe

domingo, 8 de julho de 2012

Encontro de escolas aler+



 Graças ao Dr. Carlos Fiolhais que, no passado dia 3 de julho, no encontro de escolas aler+ nos presenteou com uma brilhante reflexão sobre a importância do livro para a história da humanidade, tive a oportunidade de reler um capítulo de uma série que muito me marcou (ainda marca): O Cosmos. Eis como um cientista, Carl Sagan, nos falava de livros.  

"Um livro é feito de uma árvore. É um conjunto de partes lisas e flexíveis (que ainda se chamam folhas) impressas em caracteres de pigmentação escura. Dá-se uma vista de olhos e ouve-se a voz de outra pessoa - talvez alguém que já tenha morrido há milhares de anos. Através dos milênios, o autor está a falar, com clareza e em silêncio, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita foi talvez a maior das invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas distintas que nunca chegaram a conhecer. Os livros quebram as cadeias do tempo, provam que os seres humanos são capazes de exercer a magia. Alguns dos autores mais antigos escreveram sobre o barro. A escrita cuneiforme, o antecessor remoto do alfabeto ocidental, foi inventado no Próximo Oriente, há cerca de 5.000 anos; o objetivo era manter registros: a compra de cereais, a venda de terra, os triunfos do rei, os estatutos dos sacerdotes, as posições das estrelas, as orações aos deuses. Durante milhares de anos, a escrita foi cinzelada em barro e pedra, riscada sobre a cera, casca de árvore ou couro; pintada em bambu, papiro ou seda- mas sempre uma cópia de cada vez e, com excepção das inscrições nos monumentos, sempre para pequeno número de leitores. Foi então que, na China, entre o século II e o século VI, se inventaram a tinta e a impressão em blocos de madeira gravada, o que permitia fazerem-se e distribuirem-se muitas cópias do mesmo trabalho. A idéia demorou 1.000 anos a atingir a Europa remota e atrasada. Depois , de repente, os livros começaram a ser impressos por todo o mundo. Exatamente antes da invenção dos caracteres móveis, cerca de 1.450, não havia mais do que algumas dezenas de milhares de livros em toda a Europa, todos manuscritos: apenas quase tantos quantos havia na China em 100 ª. C e um décimo dos existentes na grande Biblioteca de Alexandria. Cinqüenta anos mais tarde, cerca de 1.500, havia 10 milhões de livros impressos. A cultura ficara ao dispôr de quem quer que soubesse ler. A magia estava por toda a parte."

Muito obrigado Carl Sagan