sexta-feira, 29 de julho de 2011

1385 - Mudança de rumo II

Bem sei, a vida é assim... Um começo e um fim... Ciclos... coisas que começam e acabam. É inevitável. Como tenho publicado na faixa lateral do blogue: "todas as coisas têm o seu tempo e a sua oportunidade"...

Tenho vivido a minha visa profissional por ciclos de mais ou menos 5 / 6 anos. Comecei pela direcção da escola, depois a 2ª licenciatura, depois o currículo, depois as TIC e bibliotecas, os projectos europeus, as bibliotecas...
 
Ciclos... tenho procurado dar sempre o meu melhor e custam-me os fins não queridos / não desejados. O ano passado terminou um que ainda estou para saber  o motivo que não seja algo espúrio... Este ano é o fim de outro.

Tudo bem, pode haver razões que sejam mais fortes e que não sejam só as razões pessoais (embora também as hajam). Custa. Ponto final.

Vamos aprendendo não sei o quê, mas há que tocar o barco para a frente. Iniciativa não me falta e há situações bem piores na vida sendo que vivemos uma época nada fácil!

Vamos ver  o que a vida nos reserva e que novo ciclo se abrirá e se fechará. Espero que desta vez, seja eu a fechá-lo!
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(Parágrafo acrescentado uma hora mais tarde
E entretanto, o dia de hoje, primeiro de férias foi passado na minha obsessão compulsiva das arrumações... Talvez que, com tudo arrumadinho num cantinho, a dor também fique arrumada. Idas ao sótão, pó e mais pó, pingo no nariz, papéis e mais papéis, descobrir alguns papéis dos quais já não nos lembrávamos mas que têm histórias, algumas ingenuidades, ...
Ficou já tudo em ordem para Setembro e o escritório com outro ar)
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Entretanto, nesta coisa dos balanços de perdas e ganhos, há uma coisa que é uma inegável verdade: conhecemos gente muito boa (e outra que nem gostaríamos sequer de ter conhecido). Desta gente, fica a amizade para a vida. Não esqueço os bons gestos que recebo e guardo-os no coração. Espero ter a oportunidade de retribuir esses gestos um destes dias. É para isso que servem os amigos, não é?

Dedico a música que se segue à Júlia, Margarida, Natália, Ana, Jacky e de outra forma a Maria e a Maria P. que conheci neste ciclo e que são 110% e tiveram sempre a capacidade de me surpreender e estarem sempre perto no momento certo, com aquela palavra certa!

(Não, não é o primeiro dia do Sérgio! estou farto de recomeços e de primeiros dias, pelo menos por agora! também cansa andar a largar tudo)

And I never thought I'd feel this way
And as far as I'm concerned
I'm glad I got the chance to say
That I do believe I love you

And if I should ever go away
Well, then close your eyes and try to feel
The way we do today
And then if you can remember

Keep smilin', keep shinin'
Knowin' you can always count on me, for sure
That's what friends are for
For good times and bad times
I'll be on your side forever more
That's what friends are for

Well, you came and opened me
And now there's so much more I see
And so by the way I thank you

Whoa, and then for the times when we're apart
Well, then close your eyes and know
These words are comin' from my heart
And then if you can remember, oh

Keep smiling, keep shining
Knowing you can always count on me, for sure
That's what friends are for
In good times, in bad times
I'll be on your side forever more
Oh, that's what friends are for

Whoa... oh... oh... keep smilin', keep shinin'
Knowin' you can always count on me, for sure
That's what friends are for
For good times and bad times
I'll be on your side forever more
That's what friends are for

Keep smilin', keep shinin'
Knowin' you can always count on me, oh, for sure
'Cause I tell you that's what friends are for
For good times and for bad times
I'll be on your side forever more
That's what friends are for (That's what friends are for)

On me, for sure
That's what friends are for
Keep smilin', keep shinin'

quarta-feira, 27 de julho de 2011

1384 - Ouça um bom conselho...

1 Depois disso, o Senhor designou outros setenta e dois, e os enviou dois a dois à sua frente a toda cidade aonde ele próprio devia ir.
2 E dizia-lhes: “A colheita é grande, mas os operários são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie operários para sua colheita.
3 Ide! Eis que vos envio como cordeiros entre lobos.
4 Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias, e a ninguém saudeis pelo caminho.
5 Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘Paz a esta casa!’
6 E se lá houver um filho da paz, a vossa paz repousará sobre ele; senão, voltará a vós.
7 Permanecei nessa casa, comei e bebei do que tiverem, pois o operário é digno do seu salário. Não passeis de casa em casa.
8 Em qualquer cidade em que entrardes e fordes recebidos, comei o que vos servirem;
9 curais os enfermos que nela houver e dizei ao povo: ‘O Reino de Deus está próximo de vós.’
10 Mas em qualquer cidade em que entrardes e não fordes recebidos, saí para as praças e dizei:
11 ‘Até a poeira da vossa cidade que se colou aos nossos pés, nós a sacudimos para deixá-la para vós. Sabei no entanto que o Reino de Deus está próximo.’
12 Digo-vos que, naquele Dia, haverá menos rigor para Sodoma do que para aquela cidade.[...]”
Lucas 10

terça-feira, 26 de julho de 2011

1383 - Recomeça















Para ler devagarinho, mesmo muito devagar e saborear, palavra a palavra, de modo a que, chegado ao fim, se recomece...
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Recomeça....
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças..

Miguel Torga - Recomeçar

1382 - hum... (olha as janelas da Maria P.)

Janelas, respirar, ar, luz, vida, reflexo de vida, cor, natureza, paz, simplicidade


A Herança de Eszter

Confesso que gostei mais do primeiro livro de Sándor Márai, "As velas ardem até ao fim"  pois o tipo de enredo é aqui novamente repetido, sendo que este gira à volta da ideia de que:   

"O destino é inevitável."

Este é mais um romance que trata disso mesmo: da inevitabilidade do destino no que à protagonista diz respeito e, nisso o autor, é sublime ao contar-nos a sua história.
Eszter contempla, imersa na sua própria saudade, como se desmorona tudo aquilo que o tempo demorou a criar. O passado é o núcleo em torno do qual a história se desenvolve, numa espécie de duelo sentimental, em forma de monólogo.
Eszter vive num refúgio idêntico a um castelo de cartas, que começa a ruir com a visita do seu antigo amor - Lajos...
A história ensina-nos, então, o quão frágil é a ideia de criar o nosso próprio microcosmos e de viver afastados;  pois, como qualquer microcosmos, quando uma força maior chega, é destruído...

 

segunda-feira, 25 de julho de 2011

1381 - Mudança de rumo!



















Pois! Já suspeitava que tal viesse a acontecer e a meio da semana tive a confirmação. Fim de um ciclo de já alguns anos!

Chateado?

Bom, hoje só me apetecem estas palavras: (inventarei novos caminhos)

Obrigado, 
pelo sol e pelo vento
pelo azul do firmamento
e pela estrela que há em mim.

Obrigado,
pelo tempo que passou, 
pelos passos pelos voos
e pela estrela que há em mim.

Obrigado,
por esse brilho no olhar
por essa chama que me queima
e pela estrela que há em mim.

Obrigado,
pela estrada percorrida
por esse dom por essa vida
e pela estrela que há em mim.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

1380 - A vida é o que a gente faz dela















Conheço barcos que ficam no porto
Com medo de que as correntes os arrastem violentamente.
Conheço barcos que enferrujam no porto
Para não arriscarem nunca uma vela ao largo. 

Conheço barcos que se esquecem de zarpar.
Têm medo do mar por estarem a envelhecer,
E as vagas nunca os separaram
A sua viagem terminou antes de começar. 

Conheço barcos tão amarrados
Que desaprenderam de se olhar.
Conheço barcos que ficam a marulhar
Para estarem realmente seguros de jamais se deixar. 

Conheço barcos que vão, aos pares,
Afrontar o temporal quando o furacão está sobre eles.
Conheço barcos que se arranham um pouco
Nas rotas oceânicas aonde os levam os seus manejos. 

Conheço barcos que regressam ao porto,
Todos amassados, mas mais dignos e mais fortes.
Conheço barcos estranhamente iguais
Quando partilharam anos e anos de sol. 

Conheço barcos que transbordam de amor
Quando navegaram até ao seu último dia,
Sem nunca recolher suas asas de gigantes
Porque têm o coração à medida do oceano. 

Autor desconhecido

Listagem de livros do P.N.L. para 2010/2011

Notícia do Jornal Público de 14 de Julho:

"O Plano Nacional de Leitura (PNL) divulga esta semana a nova lista de livros recomendados para os professores para o ano lectivo 2011/2012, disse hoje à Lusa fonte do projecto.
São sugeridos livros para todos os anos e níveis escolares, desde os seis meses até aos 16 anos São sugeridos livros para todos os anos e níveis escolares, desde os seis meses até aos 16 anos (Daniel Rocha)

No total são mais de 2.000 títulos para crianças e adolescentes, mas também para os adultos que frequentam os centros Novas Oportunidades, referiu Conceição Barros, do PNL.


Anualmente, o PNL propõe centenas de livros técnicos, informativos, de ficção, poesia, álbuns ilustrados, romances, clássicos da literatura portuguesa e estrangeira, que servem de orientação para os professores ao longo de um ano lectivo.

São sugeridos livros para todos os anos e níveis escolares, desde os seis meses até aos 16 anos.

“Foram incluídas obras de autores portugueses e estrangeiros para os diferentes anos de escolaridade e que correspondem a diferentes graus de dificuldade, para que os educadores e os professores possam escolher os livros mais adequados aos alunos das turmas que leccionam”, lê-se na nota introdutória às listas deste ano.

Entre os livros recomendados para ler em voz alta aos mais pequenos constam títulos de David McKee, Leo Lionni, Eric Carle, Lucy Cousins, Jutta Bauer, Quentin Blake, quase todos autores premiados.

A eles juntam-se os portugueses Alice Vieira, José Jorge Letria, Isabel Minhós Martins, António Torrado, António Mota, Manuela Bacelar, Luísa Ducla Soares."

Ler mais aqui
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Link para o texto explicativo do Plano Nacional de Leitura

1378 - Margem de certa maneira



















Dentro da margem de dentro
Na raís e no lamento
Guarda-vento e ribanceira
Margem de certa maneira
De fazer uma viagem
De ultrapassar a barreira
Fazer do vento poeira
Da ribanceira barragem

Fora da margem de dentro
Entre o caule e o rebento
Há sempre um pequeno espaço
Entre movimento e passo
Entre passo e movimento
A corda que faz o laço
A força que faz o braço
Acordar o pensamento
(...)

Diário secreto do Pequeno Polegar

"Chamo-me Pequeno Polegar. Gosto de escrever e desenhar sobre as coisas que me acontecem. Esta é a minha história. Nunca a esquecerão." A história do Pequeno Polegar magnificamente revisitada sob a forma de um diário secreto.

Mais uma obra-prima magnificamente ilustrada por Rébecca Dautremer, que tal como outras obras parece dedicada ao público infantil mas que eu acho que encanta sobretudo os graúdos... A mim maravilha-me!

terça-feira, 12 de julho de 2011

1377 - Outra Vez



Outra Vez

Roberto Carlos

Composição: Isolda

Você foi...
O maior dos meus casos
De todos os abraços
O que eu nunca esqueci
Você foi...
Dos amores que eu tive
O mais complicado
E o mais simples pra mim
Você foi...
O maior dos meus erros
A mais estranha história
Que alguém já escreveu
E é por essas e outras
Que a minha saudade
Faz lembrar
De tudo outra vez.
Você foi...
A mentira sincera
Brincadeira mais séria
Que me aconteceu
Você foi...
O caso mais antigo
E o amor mais amigo
Que me apareceu
Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez...
Me esqueci!
De tentar te esquecer
Resolvi!
Te querer, por querer
Decidi te lembrar
Quantas vezes
Eu tenha vontade
Sem nada perder...
Ah!
Você foi!
Toda a felicidade
Você foi a maldade
Que só me fez bem
Você foi!
O melhor dos meus planos
E o maior dos enganos
Que eu pude fazer...
Das lembranças
Que eu trago na vida
Você é a saudade
Que eu gosto de ter
Só assim!
Sinto você bem perto de mim
Outra vez....

domingo, 10 de julho de 2011

A oeste nada de novo

Este ainda não (re)li mas foi acabadinho de comprar. Já há muito tempo que estava na minha lista de compras mas estava esgotado. Felizmente que acabou de ser reeditado e  voltou agora às bancas. 
Já tenho leitura prioritária para a semana

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Im Westen nichts Neues("All Quiet on the Western Front" ou
A Oeste Nada de Novo, em Portugal) é um romance do escritor alemão Erich Maria Remarque (1898-1970), um veterano da primeira guerra mundial, cuja temática são os horrores daquela guerra e também a profunda indiferença da vida civil alemã sentida por muitos homens que retornavam das frentes de batalha.

O livro foi primeiro publicado na Alemanha em janeiro de 1929 e vendeu um milhão de cópias em menos de um ano na Alemanha, e mais outro milhão no exterior.

Em 1930 o livro, adaptado para o cinema, transformou-se no filme vencedor do Oscar daquele ano, com o título em inglês, All Quiet on the Western Front, dirigido por Lewis Milestone. Mais recentemente houve outra versão deste filme em 1979.

A prosa narra as experiências de Paul Bäumer: um soldado que se alistou nas Forças Armadas germânicas pouco depois do início da Primeira Guerra Mundial. Ele chegou à frente de combate do oeste com os seus amigos (Tjaden, Müller, entre outras personagens) e conheceu Stanislaus Katczinsky, conhecido por Kat. Este tornou-se desde logo mentor de Paul e deu-lhe os ensinamentos sobre o quotidiano da guerra. Paul e Kat rapidamente se tornaram quase irmãos.

Paul e os camaradas tinham que resistir a bombardeamentos constantes. Passados uns tempos, ele concluiu que a guerra não tinha lógica nenhuma. Todos os seus amigos diziam que estavam a lutar por algumas pessoas que nunca conheceram e que provavelmente nunca conheceriam: ministros, generais e classes altas, e esses eram os únicos que ganhavam alguma coisa com a guerra, não eles.

A obra foca-se em histórias de bravura, tal como muitas outras, mas esta dá uma visão mais realista das dificuldades que os soldados viviam. A monotonia, o fogo de artilharia constante, a ânsia de encontrar comida e a linha ténue existente entre a vida e a morte são aspectos descritos em detalhe.

Quanto ao resto, só (re)lendo

1376 - Não somos lixo



Cortam-me o salário
Cortam-me a carreira
Cortam-me o subsidio na Natal
Aumentam-me os impostos
Aumentam-me a saúde
Aumentam-me os preços dos bens de consumo

Somos lixo?
(Se calhar somos por nos mantermos quietos)
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Canção dos despedidos

Somos explorados no trabalho, e não só
Também somos o lixo
Lixo na tê-vê, quem lá está e quem vê
Lixo no jornal, voz do seu capital
Estamos entregues aos bichos
E o lixo produz mais lixo
E o tempo a passar
E eu a cantar
Eu também faço parte do lixo

Há quem viva bem do nosso mal-viver
Nós somos lixo
Somos só lixo
Já não há gente, há só lixo
Dispensável, descartável, reciclável
E agora parem um minuto p'ra pensar

Há que humanizar a humanidade, e não só
Há que varrer o lixo
O do Capital, que é o lixo global
O lixo do Estado, que é o seu braço armado
O mundo é de quem manda
E o resto é propaganda

Tudo é publicidade
Mas a liberdade
É escolher entre ser ou estar

Tens a boca cheia de palavras lindas
P'ra ti sou lixo
Somos só lixo
Nós não somos gente, somos lixo
Dispensável, descartável, reciclável
Mas vou parar mais um minuto p'ra pensar

Vamos a casa
Ao fim do dia
Só p'ra regenerar a mais-valia
Ganhar forças, fazer filhos
Cada um no seu caixote
E amanhã tomar o bote
Para o paraíso dos cadilhos

Quem é o lixo
Eles são o lixo do corpo e da alma
Como é que se pode ter calma
P'ra varrer este monturo
Dos escombros do futuro

quinta-feira, 7 de julho de 2011

1375 - Cantad alto, oireis que oyen otros oidos



Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
Qué miran los poetas andaluces de ahora?
Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre
pero, dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran
pero, dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten
pero, dónde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos
Miran, y cuando miran parece que están solos
Sienten, y cuando sienten parece que están solos
Qué cantan los poetas, poetas andaluces de ahora?
Qué miran los poetas, poetas andaluces de ahora?
Qué sienten los poetas, poetas andaluces de ahora?

Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran , parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos

Y cuando cantan, parece que están solos
Y cuando miran , parece que están solos
Y cuando sienten, parece que están solos
Pero, dónde los hombres?

Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
Que en los campos y mares andaluces no hay nadie?

No habrá ya quien responda a la voz del poeta,
Quien mire al corazón sin muro del poeta?
Tantas cosas han muerto, que no hay más que el poeta

Cantad alto, oireis que oyen otros oidos
Mirad alto, vereis que miran otros ojos
Latid alto, sabreis que palpita otra sangre

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo encerrado
Su canto asciende a más profundo, cuando abierto en el aire
ya es de todos los hombres

Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres
Y ya tu canto es de todos los hombres (bis)


Autor: Rafael Alberti

O caçador de tesouros

O Caçador de Tesouros de J.M.G Le Clezio. 

Prémio Nobel de Literatura 2008

Edição da Assírio & Alvim, traduzido por Ernesto Sampaio

 

Eis a minha última leitura!  

Eis uma narrativa, que nos prende desde o primeiro parágrafo:

1892
"Sempre me lembro de ter ouvido o mar. De mistura com o vento nas folhas das palmeiras bravas, um vento que nunca deixa de soprar, mesmo quando nos afastamos da costa e avançamos canaviais adentro: é o ruído de fundo que acompanhou a minha infância. Ouço-o agora, no mais íntimo de mim, e levo-o comigo para onde quer que vá. O marulho lento, incansável, das ondas que se quebram ao longe na barra de coral e depois vêm morrer na areia do Rio Negro. Não passa um dia sem que vá ao mar, nem uma noite sem acordar com as costas alagadas em suor, soerguido na minha cama de campanha, afastando o mosquiteiro e procurando avaliar a altura da maré, inquieto, tomado dum desejo que não compreendo.
Na escuridão, penso no mar como se fosse uma pessoa humana, com todos os sentidos despertos para melhor o ouvir chegar, para melhor o receber. As vagas gigantescas cavalgam os recifes, vêm desabar na laguna e o estouro faz vibrar a terra e o ar como um caldeirão. Ouço-o, o mar mexe-se, respira. [...]
O mar está dentro da minha cabeça, e é ao fechar os olhos que melhor o vejo e ouço, que consigo distinguir cada ribombo das vagas separadas pelos recifes e logo de novo unidas para virem quebrar-se na costa. [...]
Nada existe mais, nada a não ser o que sinto, o que vejo, o céu tão azul, o estrondo do mar a lutar com os recifes e a água fria que me escorre na pele. [...]
Abro os olhos e vejo o mar. Não o mar cor de esmeralda que via outrora nas lagunas, nem a água escura diante do estuário do Tamarindo. É o mar como ainda não tinha visto, livre, selvagem, dum azul inebriante, o mar que levanta o casco do navio, lentamente, vaga após vaga, ente sulcos de espuma percorridos por centelhas. [...]
Agora sei onde estou. Encontrei o lugar que procurava. Após estes meses de vagabundagem, sinto uma nova paz e um novo ardor."

Fica-se preso, como numa teia, à procura do tesouro, que se vai descobrindo página a página, em cada descrição ou episódio da narrativa. 
Le Clezio escreve, sempre com o mar em fundo, omnipresente, como um personagem secundário que afinal é principal. O mar que sai de dentro do narrador (estamos avisados desde o primeiro parágrafo, de resto), porque se percebe o grau de intimidade deste com a água salgada. 
 
O Caçador de Tesouros, peregrino incansável do mundo, dá-nos uma fatia da sua vida, faz-nos ver com os seus olhos tudo aquilo que vê: a “árvore do bem e do mal”, os montes, as pedras, os campos, enfim, toda uma paisagem que se estende perante os seus olhos, e também perante os nossos. Como elemento central de adoração e culto está o mar: o seu irresistível chamamento, a vida que encerra em si, a rebeldia que nos fascina e amedronta. 
O Caçador de Tesouros viaja e relembra o mar, do qual não pode estar longe, pois ele é parte indissociável da sua vida. Não se trata apenas de um passeio à beira-mar, na praia, no molhe batido pela vaga de Inverno, de dizer que se gosta do mar mesmo quando efectivamente se gosta; nada disso, aqui trata-se de água salgada misturada com sangue, a correr nas veias, linhas, parágrafos. E então tudo muda de figura, muda obviamente de figura. É um livro do mar. O mar preparou-nos este segredo, este tesouro. É disso que se trata!

quarta-feira, 6 de julho de 2011

1374 - Pensamento positivo

Creio que já publiquei "isto" aqui. Não interessa! Hoje, dei de novo de caras com o vídeo e, novamente, me deliciei a vê-lo.

Claro que há muitos conselhos óbvios!
Claro que não há receitas 100% eficazes

Mas,
O vídeo faz sentido, ajuda a auto-estima e fez-me ver que até já faço muitas das propostas. Afinal estou vivo e recomendo-me!

terça-feira, 5 de julho de 2011

1373 - LET IT ROLL BABY


The Doors - Roadhouse Blues por vmedina27
Ah keep your eyes on the road,
Your hands upon the wheel.
Keep your eyes on the road
Your hands upon the wheel.
Yeah, were going to the roadhouse,
Gonna have a real good-time.

Yeah, the back of the roadhouse,
Theyve got some bungalows.
Yeah, the back of the roadhouse,
Theyve got some bungalows.

They dance for the people
Who like to go down slow.

Let it roll, baby, roll.
Let it roll, baby, roll.
Let it roll, baby, roll.
Let it roll, all night long.

Do it, robby, do it!

You gotta roll, roll, roll,
You gotta thrill my soul, alright.
Roll, roll, roll, roll-a
Thrill my soul.

Ashen-lady.
Ashen-lady.
Give up your vows.
Give up your vows.
Save our city.
Save our city.
Ah, right now.

Well, I woke up this morning
And I got myself a beer.
Well, I woke up this morning
And I got myself a beer.

The futures uncertain
And the end is always near.

Let it roll, baby, roll.
Let it roll, baby, roll.
Let it roll, baby, roll.
Let it roll, all night long.

domingo, 3 de julho de 2011

Oração do livro

A Natália chamou a atenção para a beleza do texto que o JMA publicou no Terrear.

Fui ler e não resisti e publico aqui o texto do Terrear.
Obrigado aos dois por me darem a possibilidade de ler pérolas com esta.

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Dá-nos, Senhor, o nosso livro de cada dia, temos sede de justiça: é o nosso vinho; morremos de fome de amor: é o nosso pão.
Dá-nos lábios puros para o ler, mãos limpas para o tocar, pureza para o merecer. Foi feito também para que os homens maus o leiam, porque ele é água límpida na qual se purificam as almas sujas, bálsamo fino para todas as dores.
Dá-nos o livro que todos possam ler, que seja para todos como o sol e todos o compreendam como a água. Que nos alumie neste comprido caminho que se chama vida: queremos luz; que nos levante desta terra em que nos arrastamos: queremos asas.
Queremo-lo suave de coração, cheio de cantos como uma árvore, e que repouse nos nossos joelhos como uma criança. Não importa que seja humilde, desde que se ofereça às nossas mãos como um fruto: ou que seja de aparência débil, desde que encha um ninho.
Construir-lhe-emos uma casa, para que nela habite com decência; defendê-lo-emos das mãos pérfidas que o espiam, para que sirva a todos; levantá-lo-emos do chão quando cair, para que outros o não ultrajem; vesti-lo-emos, se estiver nu, com a seda da nossa devoção contida. Nele vivem almas que tiveram a mesma dor do nosso pranto, sofreram na carne viva outras ideias, desesperaram-se por outros sonhos; mas ele não permanecerá quieto na sua casa, pois foi feito com a inquietação, com a dor e o amor de cada dia, e por isso, quando a noite for mais escura e o caminho mais pavoroso de perigos, aparecerá para oferecer pão e vinho aos que têm sede de justiça, fome de amor.
Os meninos ricos lê-lo-ão e os pobres amá-lo-ão, porque os homens fizeram-no para todos os homens. Irá, de mão em mão, como a boa semente de campo em campo, e será suave como o ninho; delicioso, inteiro, como o fruto.
Quando todos o tiverem lido, apagar-se-á a horrível chama da guerra, o rico não explorará o pobre, e haverá riso e boas acções no mundo, cantigas no trabalho, e os homens de boa vontade não mais se odiarão. Não haverá crianças descalças, crianças que levantarão as mãos não para pedir mas para dar. Todos acreditarão num mesmo Deus; nem a arte, nem a ciência, nem a religião serão privilégio de alguns, e a vida terá então o seu mais alto sentido.
Dá-nos, Senhor, o livro precedido de chamas como o profeta que baixou dos céus. Ele não é o barco de guerra que traz gente armada; este barco traz livros para as crianças ou para os sábios e para os que têm fome de conhecimento, sede de misericórdia.
Dá-nos, senhor, o livro do Norte e do Sul, o que está escrito com espírito, o que conhece a amargura mais íntima do coração. Os homens bons – que são mais do que os homens maus – saem a recebê-lo de braços abertos. Dá-nos, senhor, o livro antena, aquele em que repercute o grito dos outros homens, o que traz paisagens longínquas. E deixa, Senhor, que ele nos alumie neste comprido caminho da vida e nos seja límpido como a torrente, generoso como o fruto, suave como o ninho; e só nos caia das mãos quando a morte chegar.

Rafael Heliodoro Valle, in GAMA, Sebastião da, Diário, Lisboa, Presença, 2011, pp. 343 e 344
. Esta nova edição, organizada por João Reis Ribeiro, traz, pela primeira vez, em anexo, vários textos referidos por Sebastião da Gama no Diário. Este texto vem no original castelhano. Tradução de A. V-B.



(Com o agradecimento ao AVB)

1372 - Final de ano

Sempre que acabo as aulas e chego a Julho (embora ainda me faltem uns dias cheios de trabalho antes de entrar de férias), dá-me uma vontade irreprimível de arrumar e por em ordem o que foi ficando desarrumado ao longo do ano.

Ainda não cheguei aos meus papéis, até porque ainda preciso deles, para realizar as tarefas em curso, mas hoje foi dia da garagem que já não era arrumada há muito tempo.
Enchi um contentor da rua com lixo. É impressionante o conjunto de coisas que guardamos só porque se coloca a ideia que podem vir a fazer falta. Qual o quê? passam-se meses e anos e nunca se voltou a usar e fica só a ocupar espaço: sapatos, tapetes do carro, eu sei lá que mais.

Fiquei todo partido mas a garagem ficou arrumadinha. Será a forma de exorcizar as nossas  dores e males? (arrumar/arquivar; deitar fora)

sexta-feira, 1 de julho de 2011

1371 - Circunstância



















Circunstância

Muitas vezes procuro a circunstância
mas ao certo não sei o que ela seja
de que país é que forma tem que cheiro
ou se não é senão conjugação
de factores objectivos e subjectivos
filha do acaso irmã do vento ou simplesmente
uma figura de retórica. Ou talvez fado
jogo
tudo ou nada
não mais do que circunstância
azar ou sorte
uma espécie de noiva ou de destino
com que pode haver encontro ou desencontro
ou talvez só
um olhar de fugida
um vulto na distância
uma paixão perdida ou a palavra
que não pode ser dita. E é circunstância

Manuel Alegre