sexta-feira, 24 de junho de 2011

1369 -


















O amor é um pássaro rebelde
Que ninguém pode aprisionar;
É em vão que o chamamos
se lhe convém recusar!
De nada servem ameaças ou orações,
Um fala bem, o outro cala-se
E é o outro que prefiro,
Nada disse, mas agrada-me.

O amor é um pássaro rebelde
Que ninguém pode aprisionar;
É em vão que o chamamos
se lhe convém recusar!

O amor... O amor... O amor
O amor é filho da Boémia,
filho que nunca conheceu lei;
Se não me amas, amo-te eu,
Se eu te amo, tem cuidado!

Tem cuidado

Mas se eu te amo,
se eu te amo, tem cuidado!

Tem cuidado!

O pássaro que pensavas apanhar
Bateu a asa e voou;
O amor está longe, bem podes esperar por ele;
mas quando menos esperares, ele aí está!

Tudo à tua volta, depressa, depressa,
Ele vem, vai-se embora para depois voltar,
Quando pensas tê-lo agarrado, ele evita-te
Quando pensas tê-lo evitado, ele agarra-te!
O amor, o amor
Se não me amas, eu amo-te
se te amo, cuidado comigo

Tem cuidado

Georges Bizet

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O parente mais próximo





Inspirada pelos entusiasmos do meu amigo João, não resisto a partilhar o livro que me acompanha por estes dias. Uma narrativa bem escrita, prende-nos no meio de vários enredos. Uma fórmula que funciona e vicia...

Do mesmo autor já conhecíamos o comovente O rapaz do pijama às riscas e a responsabilidade de John Boyne era grande. Parece estar à altura, acho que o final não me vai desiludir.

Recomendo, nestes dias que se querem de muita leitura e sol!





Londres, 1936. A ascensão de Hitler assusta o velho Continente, mas é o caso amoroso do Rei Eduardo VIII que domina as conversas desde as tabernas aos círculos mais restritos da aristocracia. Enquanto o Rei pondera abdicar do trono por amor a uma mulher casada, Owen Montignac espera a herança do tio para pagar a sua enorme dívida de jogo. Quando o dinheiro é atribuído à sua prima Stella, Owen vê-se obrigado a construir um plano maquiavélico para conseguir o dinheiro, salvar a posição social e para se ver livre, de uma vez por todas, dos agiotas. No meio de uma crise política Owen mantém-se vivo através da perspicácia e da imaginação, mas é a disponibilidade para matar que vai ditar o seu futuro.

Fonte:
http://www.facebook.com/note.php?note_id=211677602185639&comments

segunda-feira, 20 de junho de 2011

1366- pensamentos ao correr da pena II














Do tempo que não rende...
Da música que ficou no ouvido...
De ter sido motorista do meu rapaz durante todos o fim de semana (daqui para ali e dali para aqui)
Do fantástico que é voltar a rever chapeús de sol à beira Tejo, na praia do Seixal, numa fantástica tarde de sol!
Da porcaria dos arranjos que são necessários fazer na casa mas que nunca saem bem à primeira (quando será meu Deus?)
Do rapaz que nos pregou um susto pois não levou o telemóvel e nunca mais chegava a casa
Dos projectos que se iam levar a cabo em 2 dias e dos quais nada resultou como o previsto e nunca mais aprendo!

Disto tudo se faz um fim de semana
De tudo isto se poderia escrever

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fome de Knut Hamsun

Mais outro livro que devorei em dois dias (e juro que ando cheio de trabalho)

O autor de "Fome" é Knut Hamson (1859-1953), escritor norueguês, prémio Nobel da Literatura de 1920.
Thomas Mann afirmou que “Hamsun é o maior escritor de sempre”. André Gide disse que ele “apenas é comparável a Dostoievski, mas talvez mais subtil”, segundo o The New Yorker, este primeiro romance de Hamson “é um romance intemporal que influenciou autores como Kafka e Henry Miller”.
Com efeito, “Fome” não parece um livro escrito no final do século XIX. O romance não tem história, não tem personagens, a não ser o narrador, praticamente não tem acção. É, de facto, um livro onde não se passa nada, e isso deve ter sido muito inovador, em 1890.
 ---
Fome é uma história sobre um jovem escritor sem tecto, incapaz de arranjar trabalho e morrendo de fome vageando pelas ruas da Christiania (actual Olso). Apesar de suas roupas estarem em farrapos e de sua aparência miserável, ele consegue manter uma certa dignidade e seu pedaço de lápis. O narrador vaga pelas ruas da cidade e eventualmente tem seus artigos publicados por jornais locais...

1365- pensamentos ao correr da pena
















1 - Da janela do comboio já não se vêem Jacarandás no Palácio das Necessidades. Foi uma explosão de cor que durou 2 ou 3 semanas. Agora voltou o verde mas as cores de Lisboa são agora o fogo do Verão que se aproxima (amarelos, vermelhos, dourados...)
Que pena não ter trazido a máquina. Era giro ir comparando as tonalidades...

2 - Um destes dias (acho que foi segunda) estava tão embrenhado na leitura que iá ficando fechado no metro. Não é que não ouvi: estação terminal. Pede-se aos Srs passageiros...?
Lá bati à porta e lá me a abriram.... quem me manda ler o Primo Levi...
3 - Ontem dei a última aula deste ano lectivo. Ficou um não sei quê... Os miúdos foram quase unânimes nos textos que fizeram que me acharam "fixe"... Eu é que os vejo partir com a noção do que poderia ter sido e de que não houve tempo para nada e tanto que tinha para conversar ainda com eles. Deitei a rede ao mar, semeei, Eles serão os novos pescadores e colherão os frutos. Que sejam felizes! bem o merecem tais as carências que alguns tinham... tudo servia para chamar a atenção, havia até um que parecia que tinha pregos nas cadeiras e estava sempre de pé. Precisava de ser "visto". Um afago e lá sossegava ele. Que vidas!
Muitos deles têm muitas potencialidades. A ver o que a vida faz deles e o que eles fazem da vida!
"havia de haver uma festa... o que eu espero da vida é viver"

4 - E sempre esta noção de insatisfação. Será a forma como eu vejo as coisas tão diferente da forma como eles a vêem ou me vêem?Serei louco? estarei louco? podem-me os sentidos trair tanto? será imaginação?
"Era uma vez um homem chamado Job, que vivia no país de Hus. Era um homem íntegro e recto, que temia a Deus e evitava o mal. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía também sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas mulas e grande número de empregados. Job era o mais rico dos homens do Oriente.
Os filhos de Job costumavam fazer banquetes, um dia na casa de cada um, e convidavam as três irmãs para comer e beber com eles. Quando terminavam esses dias de festa, Job mandava-os chamar, para os purificar. Ele madrugava e oferecia um holocausto por cada um deles, pensando: «Talvez os meus filhos tenham pecado, ofendendo a Deus no seu coração». E Job fazia assim todas as vezes.
Certo dia, os anjos apresentaram-se diante de Deus e, entre eles, foi também Satanás. Então Deus perguntou a Satanás: «De onde vens?» Satanás respondeu: «Fui dar uma volta pela Terra». Deus disse-lhe: «Reparaste no meu servo Job? Na Terra não existe nenhum outro como ele: é um homem íntegro e recto, que teme a Deus e evita o mal».Satanás respondeu a Deus: «E é a troco de nada que Job teme a Deus? Tu mesmo puseste um muro de protecção ao redor dele, da sua casa e de todos os seus bens. Abençoaste os seus trabalhos, e os seus rebanhos cobrem toda a região. Estende, porém, a mão e mexe no que ele possui. Garanto-Te que ele Te amaldiçoará na face!»
Então Deus disse a Satanás: «Pois bem! Faz o que quiseres ao que ele possui, mas não estendas a mão contra ele». E Satanás saiu da presença de Deus.
Certo dia, os filhos e filhas de Job comiam e bebiam na casa do irmão mais velho..."

(felizmente que a leitura que agora trago comigo apresenta um personagem que pensa da mesma forma...) 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Primo levi - O dever da memória

Mais outro livro que se lê num só fôlego tal a forma como nos embrenhamos nela (até ia ficando fechado no metro, na última estação, por não ter dado por ela por estar a ler).

Primo Levi é um dos meus autores de referência e é um sobrevivente de Auschwitz...

(Creio que já aqui falei dele)

O dever de memória é a transcrição de uma longa conversa entre Primo Levi e dois universitários italianos, Anna Bravo e Federico Cereja, que iniciaram em 1982 uma recolha de testemunhos de 220 sobreviventes dos campos de extermínio. Ao longo da discussão, com Primo Levi, surgem neste livro dois temas recorrentes: factos relacionados com o quotidiano no campo de extermínio e a transmissão da memória e o papel do testemunho.
 Confesso que me comovi com a descrição que Primo Levi faz das suas idas às escolas que se foram tornando cada vez mais penosas... A incompreensão e a incapacidade das novas gerações compreenderem surpreendem...
 
Vale a pena ler pelo "dever de memória"

terça-feira, 14 de junho de 2011

1364 - dia de aniversário - Fernando Pessoa


















Tenho tanto a aprender ainda com este aniversariante... Impressiona mesmo a actualidade e profundidade do seu pensamento!
Da minha parte, por estes dias, gostava de ter o seu optimismo quanto à estupidez humana ser assim tão necessária!

No Entardecer dos Dias de Verão No entardecer dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa...
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...
Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão ...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ...
 

Mas graças a Deus que há imperfeição no Mundo
Porque a imperfeição é uma cousa,
E haver gente que erra é original,
E haver gente doente torna o Mundo engraçado.
Se não houvesse imperfeição, havia uma cousa a menos,
E deve haver muita cousa
Para termos muito que ver e ouvir ...

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XLI"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Efeméride - Fernando Pessoa


















Ontem foi dia de aniversário do seu nascimento.

Da minha parte ele está vivo e bem vivo, pois gosto muito da ideia de que alguém só morre quando morrer a última pessoa que mantém a nossa memória viva.

Por mim, como faço minha muita da sua poesia, faço votos de uma longa vida ao "meu" Fernando Pessoa

Acho tão Natural que não se Pense Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer cousa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me cousas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .


Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas cousas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro, in "O Guardador de Rebanhos - Poema XXXIV"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 11 de junho de 2011

Encontro de Literatura Infantil e Juvenil_ Escritores e Ilustradores de mãos dadas


A editora Trampolim para além da edição de bons livros, irá organizar um Encontro de Literatura que dá pelo nome de Encontro de Literatura Infantil e Juvenil_ Escritores e Ilustradores de mãos dadas onde aborda temas importantíssimos como “A (des)motivação para ler. As dúvidas e as (in)certezas” ; “Escrever e ilustrar: o quê, para quem?” ; “Práticas exploratórias de um livro para crianças e jovens” ; “Projecto de leitura nas bibliotecas escolares – práticas”.
Este encontro será em Braga na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, nos dias 1 e 2 de Julho de 2011. 
A ficha de inscrição e mais informações podem ser consultados aqui
O custo da inscrição é de 10 Euros e esta terá que ser feita até dia 22 de Junho

sexta-feira, 10 de junho de 2011

A ofensa

Após uns meses passados a ler Teses nos transportes públicos :-(  de modo a aproveitar  o tempo, retomei esta semana a leitura de ficção.
O livro de vos falo, li-o hoje num só dia e confesso que a história me prendeu!
“A Ofensa”, do espanhol Ricardo Menéndez Salmón, foi prémio Nacional da Critica Espanhola em 2007.

Através de um escrita belíssima, Ricardo Menéndez Salmón conta-nos a história de Kurt Crüwell, um jovem alfaiate alemão, homem de poucas ambições para lá das comuns a qualquer habitante vulgar de um bairro de Bielefield. O seu azar foi ter vivido, no auge da sua juventude, na Alemanha nazi, e de a 1 de Setembro de 1939, dia do seu 24.º aniversário, Hitler ter invadido a Polónia. No dia seguinte, na primavera dos seus 24 anos, Kurt fica a saber que terá de se alistar no exército e deixar para trás o pai, alfaiate, a mão e a irmã. E a namorada...

Deixa para trás um mundo já construído, estável, onde tudo estava programado e encarrilado, e sem qualquer preparação mergulhou numa realidade completamente nova, a da guerra, com a agravante de ter de enfrentar situações até então para si inimagináveis. Neste livro, vemos a perspectiva do agressor, que, em simultâneo, é vítima, já que tem de enfrentar, enquanto espectador, atrocidades difíceis de engolir. Isso é precisamente o que acontece ao pacato alfaiate Kurt, quando, numa pequena localidade francesa, vê um dos seus superiores ordenar que grande parte da população (90 pessoas, incluindo muitas mulheres e crianças) fosse encarcerada na igreja local, à qual de seguida atearam fogo. A sua história de vida muda completamente...

Confesso que não gostei do final mas isso não será o mais importante na lógica de um livro de ficção que nos atira para a possibilidade das múltiplas leituras que o texto nos permitir (excepto as que a letra do texto não permitir)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

1362 - Este blogue fez 5 (longos) anos

Este blogue fez na passada semana 5 anos. Gostei de reler o primeiro post! Gostei muito

(Numa visão da história em que esta é não linear, gosto de pensar que ela funciona em espiral. Parece que estamos no mesmo ponto, se visto de cima, mas estamos muito mais sábios e seguros do caminho empreendido)

Que grande responsabilidade... o primeiro post e o primeiro poema...
Escolhi este, sem pensar muito.... E o engraçado é que nem é um poema, ou pelo menos não tem a métrica, nem a rima... Fica como homenagem.


Se não podes ser uma árvore sobre a colina,
que sejas um arbusto no vale.
Mas que sejas o melhor arbusto de todas as léguas ao seu redor.
Se não podes ser como uma estrada, sejas uma vereda.
Se não podes ser o sol, sejas uma estrela.
O valor não se mede pelas dimensões.
Sejas o que fores...
que o sejas profundamente...

(Martin Luther King)

1361 - Ter um manto da casta luz das crenças, para cobrir as trevas da miséria!



















TENTANDA VIA

I

Com que passo tremente se caminha
Em busca dos destinos encobertos!
Como se estão volvendo olhos incertos!
Como esta geração marcha sozinha!

Fechado, em volta, o céu! o mar, escuro!
A noite, longa! o dia, duvidoso!
Vai o giro dos céus, vem vagaroso...
Vem longe ainda a praia do futuro...

É a grande incerteza, que se estende
Sobre os destinos dum porvir, que é treva...
É o escuro terror de quem nos leva...
O futuro horrível que das almas pende!

A tristeza do tempo! o espectro mudo
Que pela mão conduz... não sei aonde!
– Quanto pode sorrir, tudo se esconde...
Quanto pode pungir, mostra-se tudo. -

Não c a grande luta, braço a braço,
No chão da Pátria, à clara luz da História...
Nem o gládio de César, nem a glória...
É um misto de pavor e de cansaço!

Não é a luta dos trezentos bravos,
Que o solo amado beijam quando caem...
Crentes que traz um Deus, e à guerra saem,
Por não dormir no leito dos escravos...

É a luta sem glória! é ser vencido
Por uma oculta, súbita fraqueza!
Um desalento, uma íntima tristeza
Que à morte leva... sem se ter vivido!

Não há aí pelejar... não há combate...
Nem há já glória no ficar prostrado –
São os tristes suspiros do Passado
Que se erguem desse chão, por toda a parte...

É a saudade, que nos rói e mina
E gasta, como à pedra a gota d'água...
Depois, a compaixão, a íntima mágoa
De olhar essa tristíssima ruína...

Tristíssimas ruínas! Entristece
E causa dó olhá-las – a vontade
Amolece nas águas da piedade,
E, em meio do lutar, treme e falece.

Cada pedra, que cai dos muros lassos
Do trémulo castelo do passado,
Deixa um peito partido, arruinado,
E um coração aberto em dois pedaços!

II

A estrada da vida anda alastrada
De folhas secas e mirradas flores...
Eu não vejo que os céus sejam maiores,
Mas a alma... essa é que eu vejo mais minguada!

Ah! via dolorosa é esta via!
Onde uma Lei terrível nos domina!
Onde é força marchar pela neblina...
Quem só tem olhos para a luz do dial

Irmãos! irmãos! amemo-nos! é a hora...
É de noite que os tristes se procuram,
E paz e união entre si juram...
Irmãos! irmãos! amemo-nos agora!

E vós, que andais a dores mais afeitos,
Que mais sabeis à Via do Calvário
Os desvios do giro solitário,
E tendes, de sofrer, largos os peitos;

Vós, que ledes na noite... vós, profetas...
Que sois os loucos... porque andais na frente...
Que sabeis o segredo da fremente
Palavra que dá fé – ó vós, poetas!

Estendei vossas almas, como mantos
Sobre a cabeça deles... e do peito
Fazei-lhes um degrau, onde com jeito
Possam subir a ver os astros santos...

Levai-os vós à pátria-misteriosa,
Os que perdidos vão com passo incerto!
Sede vós a coluna de deserto!
Mostrai-lhes vós a Via-dolorosa!

III

Sim! que é preciso caminhar avante!
Andar! passar por cima dos soluços!
Como quem numa mina vai de bruços
Olhar apenas uma luz distante!

É preciso passar sobre ruínas,
Como quem vai pisando um chão de flores!
Ouvir as maldições, ais e clamores,
Como quem ouve músicas divinas!

Beber, em taça túrbida, o veneno,
Sem contrair o lábio palpitante!
Atravessar os círculos do Dante,
E trazer desse inferno o olhar sereno!

Ter um manto da casta luz das crenças,
Para cobrir as trevas da miséria!
Ter a vara, o condão da fada aérea,
Que em ouro torne estas areias densas!

É, quando, tem temor e sem saudade,
Puderdes, dentre o pó dessa ruína,
Erguei o olhar à cúpula divina,
Heis-de então ver a nova-claridade!

Heis-de então ver, ao descerrar do escuro,
Bem como o cumprimento de um agouro,
Abrir-se, como grandes portas de ouro,
As imensas auroras do Futuro!
Das "Odes Modernas"

quarta-feira, 8 de junho de 2011

1360 - imagens















Na 5ª ao final da tarde andei por Sintra para que uns Holandeses a conhecessem.
Deu que pensar, pois perdi-me à entrada de Sintra visto que há já uma auto-estrada que desconhecia. Fiquei com a noção que há imenso tempo que lá não ia!
Que diabo! Só fechado em casa não dá

Após uma hora em Sintra (e cheguei lá pelas18h ao fim do dia de trabalho) parecia outro e pareceu que já era fim de semana.

Estas pequenas pausas são mesmos fundamentais!
Estas cores do fim da tarde são fabulosas

terça-feira, 7 de junho de 2011

1359 - Teria muito para escrever...

Confesso que teria muito para escrever sobre os acontecimentos de ontem. No entanto...

Foi tanto o que se passou
Foi tanto o que se sofreu
Foi tanta a desilusão

Que ainda não dá para fazer o balanço das perdas e ganhos

Um post ou poema revanchista não me apetece ainda
---
Há uns anos escrevia-se nas paredes: "Socialismo sim, Só ares não!" Pois

domingo, 5 de junho de 2011

1358 - com dedicatória a umas certas pessoas...

Com dedicatória a umas certas pessoas que eu  conheço e que sabem tudo e tudo sabem sobre tudo e sobre coisa nenhuma e parece que quando Deus distribuiu a ciência e sabedoria apanhou toda a população de férias e só sobraram eles...













"Ainda que eu fale as línguas dos homens
e dos anjos, se não tiver amor,
serei como o bronze que soa ou como
o címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o Dom de profetizar
e conheça todos os mistérios e toda a ciência,
ainda que eu tenha tamanha fé, a ponto
de transportar montanhas,
se não tiver amor, nada serei.

E ainda que eu distribua todos os
meus bens entre os pobres
e ainda que entregue o meu próprio
corpo para ser queimado,
se não tiver amor,
nada disso me aproveitará.

O amor é paciente, é benigno,
O amor não arde em ciúmes,
não se ufana, não se ensoberbece,
não se conduz inconvinientemente,
não procura os seus interesses,
não se exaspera,
não se ressente do mal;
não se alegra com a injustiça,
mas regozija-se com a verdade.
tudo sofre, tudo crê, tudo espera,
tudo suporta.

O amor jamais acaba.
Mas, havendo profecias, desaparecerão;
havendo línguas, cessarão;
havendo ciência, passará.
Porque em parte conhecemos,
e em parte profetizamos.
Quando, porém, vier o que é perfeito,
o que então é em parte será aniquilado.

Quando eu era menino, falava como um
menino, sentia como um menino.
Quando cheguei a ser homem,
desisti das coisas próprias de menino.
Porque agora vemos como em espelho,
obscuramente, e então veremos face a face;
agora conheço em parte e então,
conhecerei como sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a Fé,
a Esperança e o Amor.
Estes três.
Porém, o maior deles, é o Amor.”


(Paulo: 1ª Carta aos Coríntios, 13)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

1357 - Mulher da erva



Esta é uma das mais belas versões que jamais ouvi desta música do Zeca

Velha da terra morena
Pensa que e já lua cheia
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia

Saia rota
Subindo a estrada
Inda a noite
Rompendo vem
A mulher
Pega na braçada
De erva fresca
Supremo bem

Canta a rola
Numa ramada
Pela estrada
Vai a mulher
Meu senhor
Nesta caminhada
Nem m'alembra
Do amanhecer

Há quem viva
Sem dar por nada
Há quem morra
Sem tal saber
Velha ardida
Velha queimada
Vende a fruta
Se queres comer
A noitinha
A mulher alcança
Quem lhe compra
Do seu manjar
Para dar
À cabrinha mansa
Erva fresca
Da cor do mar

Na calçada
Uma mancha negra
Cobriu tudo
E ali ficou
Anda, velha
Da saia preta
Flor que ao vento
No chão tombou


No Inverno
Terás fartura
Da erva fora
Supremo bem
Canta rola
Tua amargura
Manhã moça
... nunca mais vem

quarta-feira, 1 de junho de 2011

1356 - Há quem viva sem dar por nada

"Há quem viva sem dar por nada
Há quem morra sem tal saber"


---

Muitas vezes me interroguei (interrogo) se fiz as opções profissionais certas e se todo o caminho que tenho seguido não foi um profundo disparate e um absoluto erro de casting...

Continuo a não ver claro

No entanto...

De uma coisa posso estar certo, a par de ter conhecido gente com a qual não faço nem nunca farei caminho, tive a felicidade de conhecer gente cinco estrelas, gente a quem posso considerar amigos e que estão/estarão indefectivelmente ao meu lado (e eu ao lado deles). Gente que ajuda e é por mim ajudada.

Só por isso terá valido a pena! Acrescentei gente muito boa aos meus percursos de vida. partilho os meus tesouros com que os quis receber...

Aqueles que, comigo, se tornaram caminhantes eu digo: "Obrigado por serem quem são"

"Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de Lavacolhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto."

1355 - Dia da criança








Quando me virem a montar blocos
A construir casas, prédios, cidades
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender sobre o equilíbrio e as formas
Um dia, posso vir a ser engenheiro ou arquitecto.

Quando me virem a fantasiar
A fazer comidinha, a cuidar das bonecas
Não pensem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a cuidar de mim e dos outros
Um dia, posso vir a ser mãe ou pai.

Quando me virem coberto de tinta
Ou a pintar, ou a esculpir e a moldar barro
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a expressar-me e a criar
Um dia, posso vir a ser artista ou inventor.

Quando me virem sentado
A ler para uma plateia imaginária
Não riam e achem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a comunicar e a interpretar
Um dia, posso vir a ser professor ou actor.

Quando me virem à procura de insectos no mato
Ou a encher os meus bolsos com bugigangas
Não achem que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a prestar atenção e a explorar
Um dia, posso vir a ser cientista.

Quando me virem mergulhado num puzzle
Ou nalgum jogo da escola
Não pensem que perco tempo a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a resolver problemas e a concentrar-me
Um dia posso vir a ser empresário.

Quando me virem a cozinhar e a provar comida
Não achem, porque estou a gostar, que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a seguir as instruções e a descobrir as diferenças
Um dia, posso vir a ser Chef.

Quando me virem a pular, a saltar a correr e a movimentar-me
Não digam que estou só a brincar
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender como funciona o meu corpo
Um dia posso vir a ser médico, enfermeiro ou atleta.

Quando me perguntarem o que fiz hoje na escola
E eu disser que brinquei
Não me entendam mal
Porque a brincar, estou a aprender
A aprender a trabalhar com prazer e eficiência
Estou a preparar-me para o futuro

Hoje, sou criança e o meu trabalho é brincar.


(Poema de origem desconhecida) retirado do Fórum @rca Comum.